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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Limites e diferenciações do humano

Interessante trecho do já clássico Pureza e perigo, de Mary Douglas:

Radin interpreta o mito Trickster dos índios Winnebagos em linhas que servem para iluminar este ponto [a autoconsciência e a procura consciente da objetividade]. Aqui está um paralelo primitivo ao tema de Teilhard de Chardin de que o movimento de evolução tem sido em torno de uma crescente complexidade e autoconhecimento.

Estes índios viviam em condições técnicas, econômicas e políticas as mais simples e não-diferenciadas. Seu mito contém suas profundas reflexões sobre toda a questão da diferenciação. O Trickster começa como um ser amorfo e sem autoconsciêntica. Com o desenvolvimento da história, ele descobre, gradualmente, suas próprias partes anatômicas; oscila entre feminino e masculino, mas termina por fixar seu papel sexual masculino; e, finalmente, aprende a avaliar seu ambiente pelo que este é. Radin diz em seu prefácio:

Ele não deseja nada conscientemente. A todo momento é obrigado a se comportar da maneira como se comporta, devido a impulsos dos quais não tem controle... está à mercê de suas paixões e apetites... não possui nenhuma forma definida e bem fixada... acima de tudo, um ser incoado de proporções indeterminadas, uma figura prenunciando a forma de homem. Nesta versão, ele possui intestinos enrolados em volta de seu corpo e um pênis igualmente comprido enrolado em seu corpo, com seu escroto na ponta.

Dois exemplos de suas estranhas aventuras ilustrarão esse tema. Trickster mata um búfalo e está abatendo-o com uma faca na mão direita:

No meio de todas estas operações, seu braço esquerdo agarrou repentinamente o búfalo. "Dê-me isto de volta, é meu! Pare ou usarei minha faca em você!" Assim falou o braço direito. "Cortarei você em pedaços, isto é o que farei com você", continuou o braço direito. Nisso o braço esquerdo desprendeu sua presa. Mas pouco após o braço esquerdo agarrou novamente a presa do braço direito... e isto repetiu-se muitas vezes. Desta maneira, Trickster fez seus dois braços lutarem. Esta luta transformou-se logo numa luta feia e o braço esquerdo ficou muito machucado...

Em outra história, Trickster trata seu próprio ânus como se pudesse agir como um agente e aliado independente. Ele tinha matado alguns patos e antes de ir se deitar manda seu ânus vigiar a carne. Enquanto está dormindo, algumas raposas se acercam:

Quando elas chegaram perto, para surpresa delas, foi expelido um gás de algum lugar. "Pum", ouviu-se. "Cuidado! Ele deve estar acordado", e elas fugiram. Depois de algum tempo uma delas disse: "Bem, acho que agora ele está dormindo. Aquilo era um blefe. Ele está sempre usando alguns truques". Então, elas se aproximaram novamente do fogo. O gás foi expelido de novo e elas novamente fugiram. Isto aconteceu três vezes... Então o barulho de gás expelido foi mais alto, ainda mais alto. "Pum! Pum! Pum!" Porém, elas não foram embora. Pelo contrário, começaram a comer as partes assadas do pato...

Quanto Trickster acordou e viu que o pato não estava lá:

..."Oh! Você também, objeto desprezível, isto é coisa que se faça? Não lhe disse para que vigiasse o fogo? Você se lembrará disto! Como punição pelo seu descuido, queimarei sua boca e você não a usará a mais!" Então pegou um pedaço de madeira em chamas e queimou a boca de seu ânus... e gritou de dor pois estava castigando a si próprio.

Trickster começa isolado, amoral, inconsciente, desajeitado, ineficaz, como um animal bufão. Vários episódios podam e colocam corretamente seus órgãos corporais, e, assim, ele termina se parecendo com um homem. Ao mesmo tempo, ele começa a ter um conjunto mais coerente de relações sociais e a aprender duras lições sobre seu ambiente físico. Num importante episódio, ele confunde uma árvore com um homem e responde-lhe como faria a uma pessoa, até que, finalmente, descobre que ela é uma coisa meramente inanimada. Assim, aprende, gradualmente, as funções e limites do seu ser.

Considero esse mito como uma bela afirmação poética do processo que leva desde os primeiros estágios da cultura à civilização contemporânea, diferenciados em várias maneiras. O primeiro tipo de cultura não é pré-lógico, como Lévy-Bruhl, infortunadamente, intitulou-o, mas pré-copernicano. Seu mundo gira ao redor do observador que está tentando interpretar suas experiências. Gradualmente, ele se separa de seu ambiente e percebe suas limitações e poderes reais. Este mundo pré-copernicano é, acima de tudo, pessoal. Trickster conversa com as criaturas, coisas e partes de coisas, sem discriminação, como se fossem seres animados, inteligentes. Este universo pessoal é o tipo de universo que Lévy-Bruhl descreve. É também a cultura primitiva de Tylor e a cultura animista de Marett e o pensamento mítico de Cassirer.

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