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sábado, 22 de junho de 2013

"V de Vingança" ou "C de Chapolim"?

Dedicado aos amigos Roger Marques e Tiago Ribeiro


As apropriações culturais mais interessantes são quase sempre fruto de manobras criativas e imprevisíveis. É o caso do percurso trilhado pela obra V de Vingança ("V for Vendetta", no original).

A máscara de Guy Fawkes (rebelde inglês do século XVII) durante séculos foi objeto de execração em comemorações anuais na Inglaterra, ao estilo da nossa "malhação do Judas". No início dos anos 80, o quadrinista britânico Alan Moore se apropriou da imagem para a impactante caracterização do personagem V, numa obra que criticava o contexto das reformas neoliberais empreendidas na "Era Thatcher". Cerca de três décadas depois, a máscara de V/Guy Fawkes foi tomada como símbolo de manifestações populares contra o mesmo sistema neoliberal, em sua fase mais avançada, em que os sinais de deterioração sociais decorrentes se tornam nítidos ao redor do mundo. Até onde sei, essa apropriação da imagem começou em Nova York, com o movimento de ocupação em Wall Street. Depois de tímidas aparições em solo brasileiro, chega com toda força a nossas ruas.

Com certeza, Alan Moore deve estar muito satisfeito com essa trajetória. Ouso dizer que Guy Fawkes também, com a eclosão de seu legado simbólico, após tantos séculos.

No entanto, vale observar que muitas pessoas estão usando a imagem de modo um tanto vazio. Provavelmente não leram a história em quadrinhos e talvez nem tenham assistido o filme. Usam a máscara de V, mas articulam discursos totalmente incongruentes com as críticas elaboradas pela obra de Moore. Muitos talvez nem saibam de onde o símbolo saiu. Por outro lado, há aqueles que talvez até tenham lido - usam fantasias completíssimas inclusive - mas apenas balbuciam palavras de ordem banais e propostas superficiais.

Enfim, o que temos visto por aí combina muito pouco com V, personagem coerente, analista preciso da realidade, dono de um discurso orgânico e planejador astuto e sagaz. Enfim, nada a ver com muitos setores que têm frequentado as ruas brasileiras, defendendo plataformas ocas, repetindo bordões e entoando cantorias de significado duvidoso.

Enfim, estão mais perto do desorientado Chapolim Colorado que do metódico V.

Como sabem quase todos que cresceram no Brasil nos anos 80 e 90, o nosso querido herói latino nem sempre age de modo muito consistente. De fato, mete os pés pelas mãos, "esclarecendo" em seguida que seus movimentos são friamente calculados...

Pior ainda, apesar de seus nobres sentimentos, o ingênuo Chapolim é facilmente ludibriado. Pior ainda, o Polegar Vermelho adere a qualquer causa sem pedir maiores esclarecimentos. Em diversos episódios o vemos ajudando cientistas malucos a realizar experimentos inescrupulosos, bandidos a saquear casas, espiões a roubar documentos, e por aí vai... Muita gente tem andado por nossas ruas levantando bandeiras que não sabem exatamente de onde saíram nem aonde querem ir. De fato, não conto com a astúcia dessas pessoas.

Enfim, fica o recado: "Chapolins" de todo o Brasil, fiquem atentos e usem melhor suas anteninhas de vinil para detectar a presença do inimigo - e não colabore com ele!

4 comentários:

Anônimo disse...

Esse é o sentimento que me toma de "será que eles sabem do que estão falando?". É doce a imagem de que o Gigante acordou. É um sonho antigo meu. Mas... está tão vazio...
Como sou apenas mais uma na multidão sem muitos recursos (leituras)para argumentar fico me perguntando: Como dizer a essas "crianças" que é preciso se manifestar sim, ir para as ruas com certeza, mas você sabe quem tá te chamando? Quem criou a Pec que vc tá questionado?
Não se trata de discordar ou concordar com o movimento, é saber sobre o que está questionando.
Adorei o texto.

Luiz Fabiano de Freitas Tavares disse...

Exatamente, minha cara "Anônima". O que questiono aqui é a solidez das motivações que estão levando o povo às ruas. Mesmo assim, acho que isso pode ser apenas o começo de algo muito positivo dependerá do modo como todos nós saibamos conduzir e enriquecer esse debate.

Tatiana Lima disse...

Adorei o texto! Compartilhamos das mesmas ideias. Acho que foi a "anônima" aí que me indicou. Vamos esperar para ver onde vai dar e qual o próximo passo que as pessoas conscientes deste movimento darão.
Parabéns pelo texto!

Rogério Marques disse...

Primeiramente gostaria de agradecer ao nobre colega pela dedicatória no texto. E "segundamente" rs parabenizar pela astúcia na analogia do Chapolim com certa parcela dos manifestantes brasileiros.

Sem dúvida Alan Moore deve estar meio orgulhoso de sua criação/apropriação ter entrado para a História como símbolo da luta contra a corrupção e tirania.

Digo "meio orgulhoso" pois não se pode negar que a popularização planetária do V se deu graças à ótima versão cinematográfica dirigida por por James McTeigue e produzido(a) pelos irmãos Wachowski.
É notória a aversão de Moore por qualquer tipo de adaptação de suas obras por outras mídias.

Eu particularmente fico feliz de constatar o peso e relevância cultural que ambas as obras adquiriram. Principalmente em se tratando do teor político fortíssimo apresentado.

De qualquer maneira, pela primeira vez em muito tempo eu me sinto otimista em relação à possíveis e relevantes transformações sociais. Esse primeiro momento deve ser encarado como demonstração de força, mesmo com a suposta desorganização dos movimentos. Acho natural ter se dado dessa maneira.

De agora em diante temos que continuar com a vigilância, aumentar nossa participação política e ajudar na conscientização de Chapolins e também dos Chaves que estiverem por aí.