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domingo, 23 de junho de 2013

A composição dos manifestos - uma perspectiva em microescala

Quantidade não é qualidade.

Tenho visto muitas pessoas perdendo tempo em debates esteréis sobre QUANTAS pessoas havia nas ruas do Rio na última semana. Honestamente, considero uma discussão perfeitamente irrelevante para nossas necessidades atuais. Basta dizer que havia MUITÍSSIMAS pessoas, em quantidade significativa e incontornável. A cifra exata, para mais ou para menos, além de impossível de definir precisamente, não nos esclarecerá de modo considerável.

Pelo contrário, creio que seja urgente uma reflexão mais atenta a respeito das forças sociais componentes dessas manifestações, de modo a compreender (um pouco) melhor a resultante que temos visto nas ruas e nas diferentes mídias, incluindo obviamente a Internet e as redes sociais.

Obviamente é impossível definir as motivações de cada um dos milhares que têm participado dessa movimentação. No entanto, devemos refletir sobre a pluralidade que marca essa participação política. Pluralidade muito bem vinda, por sinal. Que fique bem claro, não lamento a falta de clareza atual. No entanto, me parece que sua permanência indefinida levará a um esvaziamento dessas manifestações.

Também deixo claro que não desejo que os participantes se unam em um único discurso e sob uma única bandeira. Antes de tudo, porque seria impossível - sejamos realistas. Em seguida, porque acho muito mais rico politicamente que haja pluralidade e diversidade. Me desagradaria profundamente que surgisse daí alguma ideologia monopolizante, à direita ou à esquerda. Além do mais, qualquer discurso capaz de unificar e agradar a TODOS seria necessariamente um discurso superficial e empobrecido. É importante que em lugar de um movimento único tenhamos muitos movimentos paralelos atuando de modo simultâneo e convergente. Aceitar a diversidade de posturas e opiniões, sem desqualificar ou desmerecer posicionamentos conscientes de qualquer natureza é uma mostra de maturidade democrática. Acho que podemos chegar lá.

Também não quero desvalorizar nossos "Chapolins ideológicos" da hora presente. Acho excelente que pessoas anteriormente despolitizadas se interessem pela vida política de nosso país. Elas não devem ser rechaçadas como um incômodo. Devemos sim dialogar com elas, de modo a promover a educação política de nossa nação. No entanto, evitemos posturas arrogantes. Há pessoas despolitizadas e mal informadas que ainda assim têm pontos de vista muito interessantes e ricos. Devemos ouvi-las e ajudá-las a transformar essas contribuições em algo mais consistente.

Dito isso, vamos à nossa análise da composição dos manifestos. As observações que seguem derivam do que tenho visto e ouvido de pessoas próximas, com que tenho contato diretamente, seja pessoalmente ou por meios eletrônicos. É o espaço amostral de que disponho para análise. Por isso mesmo, trata-se de uma "perspectiva em microescala".

Procurarei aqui identificar não tanto grupos ou categorias de pessoas, classificando-as de modo rígido. Na verdade, quero principalmente identificar um repertório de atitudes. Por sinal, dificilmente alguém enquadrar-se-á numa atitude única, mas em várias. Trata-se de categorias complementares, e não excludentes.

E lá vai nosso repertório:

Os Politizados Partidários - são aqueles que já algum tempo participam de modo ativo da vida política do país, mostrando-se comprometidos com as plataformas políticas de algum partido específico, seja de esquerda ou de direita (sim, porque ser politizado não é sinônimo de ser de esquerda).

Os Politizados Apartidários ou Suprapartidários - são as pessoas que têm o hábito cotidiano de pensar e debater sobre política e possuem posturas conscientes e bem embasadas sobre a vida política do país, sem cultivar vínculos com nenhum partido específico. (OBS: me situaria nessa categoria).

Os Antipartidários - são contrários à própria existência de partidos políticos, de modo um tanto vago. Me parece um fermento político pernicioso, cego à necessidade de pluralidade ideológica.

Os Insatisfeitos - pessoas pouco politizadas e muito irritadas com a situação do país. Querem demonstrar sua insatisfação, mas não apresentam bandeiras muito concretas, e sim um sentimento de descontentamento difuso.

Os Raivosos - mais que insatisfeitos, têm raiva, um ódio visceral aos políticos, à situação do país, etc. Articulam um discurso vingativo e revanchista. Querem ver políticos presos, destituídos, punidos das mais variadas formas. Querem ver o circo pegar fogo.

Os Empolgados - pessoas que nunca ligaram muito para política, céticas em relação a alternativas, mas que agora estão entusiasmadas pela possibilidade de encontrar novas possibilidades e meios de atuação coletiva. É um grupo muito positivo, que pode enriquecer muito a qualidade do movimento.

Os Deslumbrados - têm um olhar um tanto narcisista sobre o movimento, encantados com a quantidade de pessoas, com o povo nas ruas, etc e sentem um orgulho indisfarçável por participar. Apreendem o conjunto da situação sob um viés predominantemente estético: tudo é tão lindo!

Os Festivos - participam como se fosse uma farra, como se estivessem num estádio ou num bloco de carnaval. Vão mais pelo modismo, pela azaração e para postar fotos... O clima desses participantes é um tanto ao estilo "Rock In Rio - Eu vou!"

Os Violentos ideológicos - praticam atos de vandalismo e de depredação por orientação ideológica, baseados em discursos consistentes de revolta armada, revolução pela força, etc. Quem fez graduação em História ou áreas afins conhece o tipo.

Os Violentos indignados - pessoas que adotam atitudes agressivas como forma de explosão raivosa contra o sistema, agindo de modo quase catártico.

Os Criminosos oportunistas - gente que está se aproveitando da situação para saquear lojas ou destruir símbolos de status dos quais se vêm excluídos. Sua atuação tem estreita relação com as pulsões consumistas cotidianamente cultivadas por nossa sociedade.

Um comentário:

Rogério Marques disse...

Dessa turba os mais prejudiciais são os antipartidários, os criminosos oportunistas e os violentos ideológicos.

Os risíveis encontram-se no grupo dos deslumbrados. Esses são dignos de pena em qualquer situação, país ou classe social), como também nos festivos (que pode até ser considerado o estágio pré-deslumbre).

Interessante pensar que atos de violência e destruição podem vir a ser cometidos por todos os grupos aí listados. Tudo depende do contexto e do desenrolar da situação.

A exceção fica por conta mesmo é dos deslumbrados e dos festivos que não querem sair com cara feia e cabelo despenteado na foto.