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quarta-feira, 30 de junho de 2021

Todos os extremistas se parecem, especialmente quando muito se odeiam. Quanto maior o ódio mútuo, maior a semelhança, mais irrelevantes as diferenças. Por mais distintos que sejam seus fins, os extremistas se igualam pelos seus meios. A truculência importa mais que suas vãs justificativas.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Depuis six mille ans la guerre

Poema de Victor Hugo

Depuis six mille ans la guerre
Plait aux peuples querelleurs,
Et Dieu perd son temps à faire
Les étoiles et les fleurs.

Les conseils du ciel immense,
Du lys pur, du nid doré,
N'ôtent aucune démence
Du coeur de l'homme effaré.

Les carnages, les victoires,
Voilà notre grand amour ;
Et les multitudes noires
Ont pour grelot le tambour.

La gloire, sous ses chimères
Et sous ses chars triomphants,
Met toutes les pauvres mères
Et tous les petits enfants.

Notre bonheur est farouche ;
C'est de dire : Allons ! mourons !
Et c'est d'avoir à la bouche
La salive des clairons.

L'acier luit, les bivouacs fument ;
Pâles, nous nous déchaînons ;
Les sombres âmes s'allument
Aux lumières des canons.

Et cela pour des altesses
Qui, vous à peine enterrés,
Se feront des politesses
Pendant que vous pourrirez,

Et que, dans le champ funeste,
Les chacals et les oiseaux,
Hideux, iront voir s'il reste
De la chair après vos os !

Aucun peuple ne tolère
Qu'un autre vive à côté ;
Et l'on souffle la colère
Dans notre imbécillité.

C'est un Russe ! Egorge, assomme.
Un Croate ! Feu roulant.
C'est juste. Pourquoi cet homme
Avait-il un habit blanc ?

Celui-ci, je le supprime
Et m'en vais, le coeur serein,
Puisqu'il a commis le crime
De naître à droite du Rhin.

Rosbach ! Waterloo ! Vengeance !
L'homme, ivre d'un affreux bruit,
N'a plus d'autre intelligence
Que le massacre et la nuit.

On pourrait boire aux fontaines,
Prier dans l'ombre à genoux,
Aimer, songer sous les chênes ;
Tuer son frère est plus doux.

On se hache, on se harponne,
On court par monts et par vaux ;
L'épouvante se cramponne
Du poing aux crins des chevaux.

Et l'aube est là sur la plaine !
Oh ! j'admire, en vérité,
Qu'on puisse avoir de la haine
Quand l'alouette a chanté.


quarta-feira, 16 de junho de 2021

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Ontologia do contracheque

O contracheque é o indiscutível e inabalável fundamento da realidade. É a "ontologia" última.

Não consigo imaginar que a humanidade tenha existido antes do contracheque. Nem o universo. No princípio, havia o contracheque - ele pagou Deus e viu que era bom.

A única coisa que diferencia os vivos dos mortos é que os vivos possuem seus nomes em contracheques.

Eis porque o Comunismo ameaça o próprio tecido da realidade. Numa sociedade sem classes e sem contracheques o universo inteiro entraria em colapso.

Toda a realidade é mero reflexo dos contracheques. A iluminação consiste em fazer coincidir nossa existência mundana com nossa essência transcendente no continuum dos contracheques. Platão, Plotino e Berkeley chegaram perto dessa divina contemplação.

Quando você olha para o contracheque, o contracheque olha de volta para você.

A plenitude anímica é conquistada quando o bruto e o líquido se tornam rigorosamente idênticos, mas isso não se dá em nosso plano existencial.



quarta-feira, 26 de maio de 2021

Sobre arte, erudição e a suposta "singularidade" brasileira

Nós, brasileiros, temos certa mania de nos acharmos muito singulares em nossa diversidade cultural e em nossa "musicalidade", porém não devemos subestimar a diversidade alheia.

O minúsculo Japão é um país com uma diversidade cultural, linguística e musical notável, que nós temos dificuldades em distinguir. O mesmo pode ser dito da China, cuja diversidade étnica é absurda. E creio que, de longe, a Índia vence o "campeonato" da diversidade.

Quanto ao Brasil, acho que nós brasileiros é que precisamos abrandar nosso complexo de "singularidade"; achamos que somos "únicos" em tudo, de bom ou de ruim. O discurso do "só no Brasil" é uma armadilha. Mesmo na América Latina mesmo temos exemplos fantásticos de experiências de "mestiçagem cultural", com trajetórias peculiares, diferentes da brasileira, como é o caso do México. Historicamente, a "mestiçagem cultural" segue muitos caminhos diferentes - o caminho brasileiro é apenas um entre tantos.

Outro cuidado que a gente necessário se refere ao uso do Estado Nacional como marco de identidade e diversidade cultural. A cultura do Rio Grande do Sul tem profunda afinidade com o Uruguai e a Argentina - a própria figura do "gaucho" argentino como símbolo da mais autêntica "argentinidade" aponta para essas ambiguidades. Ao mesmo tempo, existem etnias muito peculiares espalhadas entre diversos países diferentes, onde são minoritárias. Há pouco tempo entrei em contato com os tatar, uma etnia muito curiosa - com uma musicalidade muito peculiar, inclusive - que vive espalhada entre diversos países da Ásia Central e da Europa Oriental

Outra questão problemática é confundir música popular, no sentido "folclórico" da coisa com música "pro povão" produzida pelo mercado fonográfico. Música "do povo" e música "pro povo", respectivamente, por assim dizer.

Não é incomum tomar muita coisa ultraprocessada pelo mercado fonográfico, com muito dinheiro envolvido, como se fosse cultura popular "autêntica". E a intelectualidade brasileira, por sua vez, também adora conceder suas bênçãos político-culturais a esses fenômenos - aquela deslumbrada "carimbada acadêmica" que, no fundo, nem conta pra grande coisa. Boto "autêntico" entre aspas porque a própria noção de autenticidade já é, em si, muitíssimo problemática.

Sou suspeito para fazer qualquer comentário, visto que minha predileção caminha sempre em direção ao erudito. Por sinal, não acho que se produza arte relevante sem um alto grau de erudição específica na área em questão. Erudição informal e caótica, como deve sempre ser a verdadeira erudição.

Por exemplo, um sambista genial vai ser sempre um erudito do samba, alguém que cultivou contato com o que se produziu de melhor no samba ao longo do tempo, que conhece bem as grandes referências na área - as grandes composições, os grandes compositores, os melhores intérpretes. Não é o sujeito que meramente pega um cavaquinho e frequenta meia dúzia de rodas de samba.

O mesmo vale para o escritor, o quadrinista, o escultor, o cordelista, o pintor, o grafiteiro, o dramaturgo, o cineasta, o humorista, o game designer... É preciso um vasto contato com um repertório amplo e variado para realizar as incontroláveis e imprevisíveis conexões, fusões e fissões necessárias para produzir arte realmente interessante.

E, é claro, nem toda ostra produz pérolas, assim como nem toda mina produz diamantes. Figuras como um Pixinguinha, um Villa-Lobos, um Paul MacCarthney, um Michael Jackson, um Shakespeare, um Cervantes, um Victor Hugo, um Luís Gonzaga, um George Lucas, um Osamu Tezuka, um Hergé, um Claude Débussy, um Richard Wagner, um Mozart, um Carl Barks, um Shigeru Miyamoto ou um Hayao Myiazaki são preciosidades. Brotam e florescem poucos a cada geração.



quarta-feira, 19 de maio de 2021

 Nem utopia, nem distopia. Vivemos uma autêntica burrotopia idiocrática.

Do direito à estultice

Em uma sociedade democrática todo mundo tem o direito constitucionalmente garantido de ser um estulto - até porque, como dizia o sapientíssimo Calvin, a ignorância é gratuita e não exige esforços.

Infelizmente, não dá para "desestultizar" ninguém à força, a não ser que tenhamos a disposição de fundar um Estado desestultizador totalitário. O que, de qualquer forma, não daria certo, pois Estados totalitários costumam ser grandes produtores de estultos - e não o contrário.

A grande lição das recentes eleições no Brasil, nos EUA e alhures talvez seja exatamente que confrontar a estultice de modo agressivo talvez contribua - e muito - para botar os estultos no poder.

E, obviamente, dá pra ser estulto de muitas maneiras. Todo mundo é o estulto de alguém. Provavelmente eu mesmo estou sendo um estulto ao redigir essas linhas. Talvez, como seres humanos, estejamos fadados à estultice.



quarta-feira, 12 de maio de 2021

quarta-feira, 5 de maio de 2021

A "Ordem" brasileira - Paternalismo, autoritarismo e messianismo político

Texto originalmente rascunhado em janeiro de 2019

"Ordem e Progresso" - diz nossa bandeira. 

Ordem e desordem são categorias muito presentes no imaginário brasileiro, embora pouco se reflita sobre seus respectivos significados. A "ordem" de uns pode ser a "desordem" de outros. Sob esse aspecto, um de nossos maiores problemas é que a categoria "ordem" costuma ser sempre apresentada sob conotações positivas ou negativas, raramente sendo pensada de forma neutra. "Ordem" tanto pode nos trazer segurança coletiva quanto privação de liberdade individual. Por outro lado, o que desejamos, muitas vezes, é apenas aparência de ordem, para que melhor possamos nos deleitar na desordem. 

Para nossa reflexão, convém definir "ordem" como mero conjunto de relações entre as partes de um sistema complexo e compósito. Nesse sentido, de variados conjuntos de relações podem emergir variados gêneros de "ordens", onde suas respectivas partes gozem de maior ou menor grau de autonomia. 

Nesse sentido, há tanta ordem na parada militar quanto no desfile de escola de samba, ambos aparentados esteticamente à procissão religiosa e ao cortejo nobiliárquico - ocasiões em que coletividades se dão a ver pelo ordenado desfile de seus componentes, alas atrás de alas, segundo prioridades, precedentes ou hierarquias. Todo desfile, por mais sério que pareça, comporta muitas dimensões figurativas ou alegóricas. O desfile em via pública não apenas manifesta visualmente a existência da coletividade, mas expressa os valores e anseios que deseja exibir e dos quais, via de regra, se orgulha. O tanque pode ser tão alegórico quanto o carro da escola de samba.

"Procissão do Fogaréu", tradicional em Goiás.

Autonomia não é sinônimo de desordem. Um sistema ordenado com muitas partes autônomas e cooperativas pode funcionar até melhor que um sistema rigidamente hierarquizado. Por sinal, hierarquias demasiadamente rígidas podem conduzir à desordem a médio ou longo prazo, mesmo que pareçam eficientes para finalidades imediatas.

Sub-ordinação é apenas um tipo de co-ordenação, e nem sempre é o mais adequado. O excesso de sub-ordinação fragiliza um sistema, formando gargalos e pontos de tensão cuja ruptura pode comprometer severamente a integridade do sistema - como diz um antigo provérbio com muitas versões, "por falta de um prego, perdeu-se a ferradura; por falta da ferradura, perdeu-se o cavalo; por falta do cavalo, perdeu-se o cavaleiro; por falta do cavaleiro, perdeu-se a batalha; por perder a batalha, perdeu-se o reino inteiro".

Uma corrente é uma estrutura extremamente sub-ordinada e, como diz a sabedoria popular, é tão forte quanto seu elo mais fraco - e quanto mais longa a corrente, maior o número de elos potencialmente fracos, candidatos à ruptura. Uma malha bem co-ordenada, todavia, pode resistir bravamente à ruptura de vários de seus elos, redistribuindo as tensões sem comprometer a própria malha; os elos que circundam o elo rompido tendem a se adaptar de modo autônomo e interdependente, emulando a própria forma do elo perdido. Co-ordenação e fractalidade se combinam de modo mutuamente reflexivo em semelhante dinâmica: o conjunto se rearticula de modo a preservar a função da parte perdida.


Um exemplo interessante desse dinamismo seria talvez a fascinante arquitetura de Gaudí com seu uso de arcos catenários. Não à toa, talvez, o genial catalão projetava suas obras de ponta-cabeça, de modo que cume e base se confundem em suas funções. Tal modelo redistribui as tensões de modo extraordinariamente harmonioso, tanto para cima quanto para baixo.

Maquete "de ponta-cabeça" original de Gaudí, preservada em La Pedrera


Refletida em um espelho, a  maquete revela a forma do edifício "de cabeça para cima"

Numa estrutura bem co-ordenada, a autonomia se torna uma virtude capaz de garantir a ordem mesmo em situações de grande tensão; por outro lado, uma estrutura demasiadamente sub-ordinada acumula tensões de tal maneira que a autonomia pode se tornar um defeito, exigindo estrita conformidade das partes para evitar a tão temida "desordem" - o mínimo desvio dos padrões pode comprometer todo o sistema.

Não é à toa que sociedades muito hierarquizadas tendem a ser autoritárias, baseadas em rígida disciplina, muitas vezes mantida à custa da brutalidade contra suas partes mais autônomas. Em casos semelhantes a autonomia, não raro, é equiparada a grave vício moral. Sinais de autonomia pessoal são vistos com desconfiança e desencorajados de modo suave ou violento conforme sua gravidade percebida - gravidade essa que pode ser muito mais simbólica que efetiva, aferida mais por sua visibilidade que por sua real capacidade de afetar a coletividade; para uma rígida hierarquia, o menor gesto de autonomia pode parecer um ato de traição.

Não raramente, no entanto, a punição rigorosa e sistemática de determinados traços autônomos pode lhes conferir visibilidade ainda maior: espalha o fogo, em vez de apagá-lo; transforma a quarentena em vetor de contágio. Dependendo do caso, tal difusão pode trabalhar em favor dos disciplinadores, contanto que a subversão mantenha sua forma, mas se esvazie de seu conteúdo. O mártir transformado em santo pode mesmo se tornar um alicerce da hierarquia.

Não à toa os cristãos martirizados pelo Império ROMANO seriam igualmente cultuados pela Igreja Católica, Apostólica e... ROMANA - igreja mais imperial que apostólica, talvez: travestido como apóstolo, o imperador se converte em papa, a cúria romana reencarna a corte imperial. Nesse sentido, é curioso, mas não exatamente surpreendente que alguns dos maiores santos e místicos católicos tenham sido eventualmente vistos por seus contemporâneos com desconfiança, como São Francisco de Assis, ou mesmo frequentado os cárceres inquisitoriais, como São João da Cruz. Como já sinalizava Bergson, as relações entre religião dinâmica e estática são muitas vezes paradoxais.

Provavelmente não é à toa que as mesmas religiões (tanto transcendentes quanto seculares) que mutilam os corpos de seus hereges também cultuam os corpos mutilados de seus próprios mártires. Por sinal, como bem demonstram os conflitos entre católicos e protestantes na Idade Moderna, a diferença entre "herege" e "mártir" sempre depende de pontos de vista: o herege de uns é mártir para outros, e vice-versa. Joana d'Arc, convém lembrar, foi canonizada como santa pela mesmíssima Igreja que outrora a condenara como herege à fogueira - resta saber se é rigorosa e exatamente a mesma igreja que condena e canoniza: provavelmente não, a seguir a máxima de Heráclito, de que um homem não mergulha duas vezes no mesmo rio.

As igrejas, como todas as coletividades e rios, fluem no tempo: todo rio e toda coletividade modificam o próprio leito onde fluem, pela natureza mesmo do fluir, pelo atrito entre a dinâmica água e o estático solo - para retomar as categorias bergsonianas. Com o inexorável escoar dos dias, anos e séculos, toda coletividade em fluxo tende a erodir seus próprios dogmas ao longo do tempo. As coletividades mudam, inclusive com a fútil intenção de continuar as mesmas; e muitas vezes, nesse processo, acidental ou providencialmente, podem mudar para melhor. As coletividades, ao converter seus mártires em santos, se deixam imperceptivelmente subverter por eles: é um processo de mão dupla, incontornavelmente dialético.

A razão hierárquica apresenta grave tendência a perverter a ordem em seus esforços para evitar a desordem: autoritárias autoridades se persuadem, de boa ou má fé, que seus interesses são exatamente equivalentes aos da coletividade. A pretexto de encarnarem a voz da coletividade, da divindade ou da coletividade divinizada, fazem com que ela se cale.

A autoridade autoritária, em seu ilusório esforço por personificar a coletividade se degenera em grosseiro e grotesco personalismo. Iludidas ovelhas seguem seu pastor até o matadouro; não percebem que o pastor é apenas mais uma ovelha, com coração de lobo: "um rei é como um tubarão que anda sobre a terra", diz o provérbio havaiano.

Toda hierarquia, por melhores que sejam suas intenções ou pretextos, é potencialmente predatória; hipertrofiada e descontrolada, devora a carne ou a alma de seus próprios membros, inclusive daqueles em posição de autoridade: como bem dizia o abolicionista Joaquim Nabuco, o homem na condição de senhor ou escravo nunca é livre. De fato, tanto o senhor quanto o escravo estão presos na própria hierarquia que gera as respectivas posições de senhorio e escravidão, hierarquia essa que os ultrapassa e priva de sua autonomia. Não há casa-grande sem senzala, e vice-versa.

Não espanta, assim, que o espectro da escravidão ainda assombre a servil alma senhorial do povo brasileiro, tão dado a tendências autoritárias e paternalistas. Nada disso é acidental, dada nossa formação cultural, onde as figuras do pai e do senhor sempre se confundiram ou tentaram, com maior ou menor sucesso, se confundir, como mostra eloquente trecho do padre Antonil, redigido no século XVIII:

Os escravos são as mãos e os pés do senhor do engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente. E do modo com que se há com eles, depende tê-los bons ou maus para o serviço. [...] O que pertence ao sustento, vestido e moderação do trabalho, claro está, que se lhes não deve negar, porque a quem o serve deve o senhor, de justiça, dar suficiente alimento, mezinhas na doença e modo com que decentemente se cubra e vista [...] e deve também moderar o serviço de sorte que não seja superior às forças dos que trabalham, se quer que possam aturar. [...] Costumam alguns senhores dar aos escravos um dia em cada semana, para plantarem para si, mandando algumas vezes com eles o feitor, para que não se descuidem; e isto serve para que não padeçam fome nem cerquem cada dia a casa de seu senhor, pedindo-lhe a ração de farinha. Porém, não lhes dar farinha, nem dia para a plantarem, e querer que sirvam de sol a sol no partido, de dia e de noite com pouco descanso no engenho, como se admitirá no tribunal de deus sem castigos? Se negar a esmola a quem com grave necessidade a pede é negá-la a Cristo Senhor nosso, como Ele o diz no Evangelho, que será negar o sustento e o vestido ao seu escravo? [...] O certo é que, se o senhor se houver com os escravos como pai, dando-lhes o necessário para o sustento e vestido, e algum descanso no trabalho, se poderá também depois haver como senhor, e não estranharão, sendo convencidos das culpas que cometeram, de receberem com misericórdia o justo e merecido castigo. (André João Antonil, padre italiano, Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas).

Agora, como outrora, os populismos brasileiros confundem fartamente paternidade com senhorio, servidão com filiação. Enredada no imaginário do pai-senhor, a cultura política brasileira é uma máquina configurada para converter indignação em bonapartismo em suas complementares engrenagens de paternalismo e autoritarismo. O brasileiro, de "esquerda" ou "direita" busca perpetuamente em seu governante um pai-senhor, em Lula, Bolsonaro ou no próximo que vier.

Mas o pai-senhor também precisa ser Messias, por força de nossa formação lusitana, católica e irremediavelmente sebastianista. A pátria brasileira precisa de salvação, como a alma católica - e não há salvação sem eleição, como tanto enfatizam os protestantismos. Assim, a cada quatro anos, a não-tão-laica liturgia política brasileira precisa passar por um processo de eleição-salvação - ou salvacionismo eleitoral, conforme se prefira. Ao grado das circuntâncias escolhe-se o próximo salvador da pátria - depois de Lula, a bola da vez, muito significativamente, é Jair MESSIAS (!) Bolsonaro.

No entanto, não há Messias sem crucificação. Como o povo de Jerusalém entre o Domingo de Ramos e a Sexta-Feira da Paixão, o povo brasileiro sacrifica periodicamente seus salvadores-eleitos. Todo novo D. Pedro vai de seu glorioso 7 de setembro à sua melancólica noite das garrafadas. O suicídio de Vargas, a renúncia de Quadros, o impeachment de Collor e aquele de Dilma, a prisão de Lula, se sucedem como rimas finalizando estrofes de um longo e enfadonho poema escatológico, anunciando o D. Sebastião que virá na estrofe seguinte, em eterno retorno.

O discurso eucarístico de Lula na missa (!) celebrada em São Bernardo do Campo antes de se entregar à Polícia Federal não poderia ser mais sugestivo. Uma verdadeira autobiografia messiânica em versos barrocos, desde a encarnação humilde, passando pelos milagres presidenciais, a traição da classe-média brasileira, o martírio judicial, a paixão-apoteose encenada no próprio palanque e a promessa de ressurreição político-pneumática no corpo eucarístico-patriótico brasileiro: “Eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia misturada com as ideias de vocês. Minhas ideias já estão no ar e ninguém poderá encerrar. Agora vocês são milhões de Lulas”.

Bolsonaro e seus seguidores, por outro lado, em muitas conjunturas críticas, têm se valido do imaginário do martírio e da efusão de sangue, evocando o atentado sofrido pelo atual presidente durante a campanha eleitoral. A imagem-meme da camisa ensanguentada se tornou como uma verdadeira relíquia para a idolotria bolsonarista.


Nada ou muito pouco de nossa vida política parece se passar fora desse imaginário político-familiar-colonial-religioso do pai-senhor-messias. Apesar do vocabulário, das instituições e das ideologias modernas, há um verdadeiro leitmotiv emotivo pré-moderno, pré-republicano e pré-democrático que insiste e persiste através de nossas correntes ideológico-partidárias de "esquerda" ou de "direita". Os credos mudam, mas a liturgia se perpetua.

Nossos dois fenômenos político-messiânicos mais recentes, Lula e Bolsonaro, flertam com a teologia em sentido literal, um com a Teologia da Libertação e o outro com a Teologia da Prosperidade, ambas com viés político-econômico de "esquerda" ou de "direita", mas, ainda assim, teologias cristãs, apontando ambas para o mesmo referencial salvífico-messiânico. Ambas também com forte teor vetero-testamentário, centradas respectivamente no imaginário do Êxodo e da Aliança.

No limite, esse imaginário do pai-senhor-messias se projeta completa ou parcialmente em muitos momentos e figuras de nossa história republicana e pré-republicana, como a "redentora" Princesa Isabel, o "profeta" Antonio Conselheiro, o Vargas "Pai dos Pobres", a "redentora" revolução (sic) de 1964, na figura cripto-mariana da "Dilmãe" ou no recente slogan presidencial "Deus acima de tudo, Brasil acima de todos".

No Brasil, o Estado lusitano precede a sociedade colonial, e esse Estado também era Igreja - romana, imperial, colonial, inquisitorial, cruzada. O observador desavisado pode confundir o povo brasileiro com a brava gente lusitana às margens de Alcácer-Quibir, combatendo o infiel, pela Fé e pelo Império, à espera do Fim dos Tempos, anunciado por Bandarras de todo credo político, à esquerda ou à direita.

Zweig não estava errado ao dizer que o Brasil é o país do futuro, mas se equivocava talvez em relação a nosso regime de temporalidade. O futuro só é plausível onde existem passado e presente - alguma consciência histórica, enfim.

Não é o caso do Brasil, país onde candidatos presidenciais, a cerca de meio século um do outro, mordendo-se mutuamente as caudas, prometem saltos milagrosos de "50 anos em 5" ou restaurar o país como era "50 anos atrás" - nosso futuro é aquele do horizonte escatológico, que é também restauração do Éden nos jardins murados da Jerusalém celeste, Genesis e Apocalipse de mãos dadas, fechados sobre si mesmos, entre a eterna "Visão do Paraíso" e as tormentas do "Inferno Atlântico".

Nosso barroco teatro político é uma longa procissão - e, como se sabe, numa procissão há pouco espaço para autonomia, basta seguir o andor...



quarta-feira, 28 de abril de 2021

Do monopólio da sensatez

 Se você acredita que apenas pessoas que pensam exatamente da mesma maneira que você são sensatas, provavelmente você é um insensato, com os olhos vendados por suas ilusões. Nenhum de nós é absolutamente sensato, embora haja pessoas de considerável sensatez e outras de rematada tolice. O mais importante é aprender a reconhecer, antes de tudo, a insensatez que habita em nós - tarefa muito mais difícil e desconfortável que se imagina. A constante autocrítica é o único caminho para amenizar a incontornável insensatez que há em cada um de nós.




quarta-feira, 21 de abril de 2021

Da coerência sem coesão

Cada vez mais percebo que muitos de meus alunos do Ensino Médio demonstram imensa dificuldade com coesão textual. 

Percebe-se que há uma tentativa de argumentar com alguma coerência, mas as frases e os parágrafos não se conectam de modo orgânico. O leitor precisa, muito laboriosamente, reunir os cacos para entender onde o redator quer chegar. 

Venho pontuando isso para meus estudantes, e ressaltando a necessidade de que eles cultivem o hábito de ler livros inteiros, textos longos. A exposição excessiva à linguagem fragmentária das redes sociais, especialmente Twitter e WhatsApp e à comunicação pelos memes acabam condicionando a capacidade deles de ler, escrever e, consequentemente, pensar. Até os filmes agora têm uma edição cada vez mais frenética, é cada vez mais raro deparar com um plano mais longo, que permita algum repouso visual e uma contemplação mais plácida das imagens. 

Vejo esse processo com grande preocupação, e me parece cada vez mais como algo irreversível. 

Talvez nossa última esperança esteja nos videogames que, paradoxalmente, trabalham com cortes muito menos abruptos, dão uma certa permanência e continuidade ao processo de interação. Há jogos que são, praticamente do início ao fim, planos-sequência. 

Tempos loucos...

Avançando da esquerda para a direita, e terminando sempre com uma bandeira por ponto final, cada fase de Super Mario Bros. é praticamente uma frase e o jogo, uma experiência de leitura...


segunda-feira, 19 de abril de 2021

Comemorando - Uma década de Oficina de Clio

No último dia 24 de março este humilde blog completou dez anos de existência, com mais de mil posts sobre os assuntos mais variados, direta ou indiretamente ligados à História como disciplina acadêmica e, mais ainda, como vivência da humanidade no tempo (o que talvez soe antiquado para alguns).

Ao longo de toda essa década estive sempre para escrever um post que esclarecesse o título do próprio blog, mas por diversas razões (entre as quais, preguiça e esquecimento), acabei nunca o fazendo. Parece ser este o momento oportuno.

Desde o momento em que tive a ideia de criar este blog, sabia que queria ter Clio no título, em - um tanto óbvia - homenagem à musa que cultuo desde a infância e a cuja vocação atendia  aos 13 anos de idade, mantendo-me fiel e constante até hoje (um pouco como Obélix, que caiu no caldeirão do druida quando pequeno, embora eu siga tomando generosas conchas de poção mágica sempre posso).

Em 2011, quando criei o blog, meu principal objetivo era o de escrever sobre temas históricos que escapassem à temática de meu doutorado, assim como de dialogar com um público mais amplo que o dos pares acadêmicos.

Me encontrava então dividido entre três opções de título, "Laboratório de Clio", "Templo de Clio" e "Oficina de Clio". A escolha se deu por eliminação. "Laboratório" me soava acadêmico demais, e era justamente como forma de escapar das restrições acadêmicas que criava o blog. "Templo" parecia algo demasiado pomposo e hierático. "Oficina", por outro lado, era exatamente o que eu pretendia deste espaço de reflexão: experimentação, improviso, bricolagem, informalidade, alguma irreverência, uma "marcheterie mal disjointe", na feliz expressão de Montaigne.

Desde então é isto que tenho feito nesta humilde Oficina: juntar, aqui e ali, impressões, ecos e reflexos, remotos ou próximos, do mundo em que habito e partilhá-los com quem por eles se interessar. Pouco a pouco, constituo aqui um repositório, confuso e incerto, do que vi, li e vivi.

Cabe ainda agradecer a todos os amigos que, tant bien que mal, acompanham este blog e, mais ainda, àqueles que em um ou outro momento cederam textos de sua lavra para publicação aqui.

A bem dizer, quando iniciei esta empreitada, não imaginei que completaria um ano sequer, mas aqui estamos, "sem querer, querendo", uma década depois - que venha a próxima!



quarta-feira, 14 de abril de 2021

Dos tipos de ignorância

Quero crer que existem dois tipos de ignorância: passiva e ativa.

Ignorância passiva é aquela de quem simplesmente não teve oportunidades de aprender, por tais ou quais desventuras da vida.

A ignorância ativa, por outro lado, se dá quando a vida oferece oportunidades de aprendizagem, amadurecimento, crescimento, desenvolvimento, mas essas mesmas oportunidades são desperdiçadas por aquele que as recebe.

O ignorante passivo ignora simplesmente porque lhe faltaram oportunidades; o ignorante ativo ignora porque assim o desejou.

Ignorância passiva é acidente; ignorância ativa é projeto de vida.