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quarta-feira, 13 de julho de 2022

Quinta da Boa Vista - Le 13 juillet 2022

No Rio, não há Bastilha a derrubar, nem Tulherias a incendiar; tudo despenca e queima sem necessidade de jacobinos nem communards.

A antiga morada imperial jaz engaiolada; Dom Pedro II espia nossos tristes tempos por cima da cerca. Afiadas concertinas lembram a selvageria da megalópole. Dom João VI temeria as hordas cariocas mais que as hostes napoleônicas?





Em uma escada menos frequentada, moscas assediam a putrefata carcaça de um gato. Balões de hélio flutuam emaranhados entre galhos.






Camadas de tempo se acumulam. Um motor a diesel ronca sobre o gramado imperial. Raízes centenárias se derramam pelos muros do antigo jardim onde passeava a Princesa Isabel. Um velho poste de madeira, desprovido de cabos, permanece altivo, testemunha de progressos obsoletos. Uma velha planta parasita viceja sobre um tronco ainda mais antigo. O oco de uma árvore venerável se vê usado como lixeira. Um bucólico nicho arquitetado para a realeza se transforma em santuário e altar para alguma entidade trazida de além-mar, contrabandeada de plagas africanas no ventre sórdido dos navios negreiros.








Os seres humanos se apequenam e amesquinham em meio à paisagem. Gloriosas palmeiras se elevam aos céus, lembrando a efemeridade de nossas vidas e obras. Tudo se transforma, para além de nossos planos e intenções. Sinuosos caminhos imitam o tortuoso fluir da vida. Outro felino, vivo, caminha preguiçosamente sobre a grama, indiferente às inquietações do bicho-homem.




















sábado, 9 de julho de 2022

Hibernação - Comunicado aos leitores

Comunico à meia dúzia de diletos leitores que este blog entrará em período de hibernação. Embora tenha mais de 150 posts em rascunho, nos próximos meses pretendo me dedicar a outras atividades e projetos (incluindo um blog irmão, sobre História do Brasil, dedicado ao público francófono). Deste modo, as postagens semanais regulares permanecerão suspensas até segunda ordem. Agradeço aos poucos e caríssimos leitores pela compreensão! À bientôt!




quarta-feira, 6 de julho de 2022

Erros interessantes

Pessoas inteligentes cometem erros interessantes. Alguma criatividade, coragem e grandeza de alma são necessários para cometer erros novos, que não sejam rotineiros e triviais como a maioria daqueles que cometemos, mais por acomodação e covardia, que por qualquer outra razão. Há algo de mesquinho nesse apego aos erros com que já nos acostumamos e nos sentimos confortáveis - tão confortáveis a ponto de tomarmos tais erros por acertos ou mesmo como parte da ordem natural das coisas.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Há que se emprestar um significado às coisas, ainda que elas sejam terríveis e seus sentidos permaneçam incontornavelmente duvidosos.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Boas maneiras

Há que se discernir as intenções nobres ocultas sob gestos grosseiros, assim como é necessário perceber a malícia mascarada sob maneiras polidas. Há gente de rústica amabilidade, e há gente de venenosa elegância. Nos primeiros casos, falta educação; nos segundos, falta coração. Não é difícil perceber qual carência é mais grave ou qual é mais fácil remediar - o nobre plebeu vale mais que o vil aristocrata. É com pesar que admito quantas vezes já me perdi e confundi entre uns e outros.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Dor e sensibilidade

O verdadeiro problema da teodiceia não é explicar a existência do mal no mundo (o que seria literalmente maniqueísta), mas explicar a existência da dor. Ora, um mundo sem dor seria igualmente um mundo insensível, um sombrio universo de almas anestesiadas. Somente aqueles que sofrem existem plenamente.



quarta-feira, 8 de junho de 2022

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Nosso tempo

Apesar de tudo, talvez até contra tudo, precisamos abraçar, com todas nossas forças, nosso próprio tempo, com suas grandezas e misérias, lágrimas e gozos, pela simples razão de que, gostando ou não, ele é nosso e nós somos dele. É o único tempo que temos, sem qualquer outro. 

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Brasil - A pústula e os esparadrapos

Poética constatação do historiador Ivan Silva


Caiu por terra nosso verniz de democracia e civilidade. Bolsonaro é o olho da pustula social brasileira que explodiu, apesar de encoberta sob os esparadrapos mal cheirosos de nossa trajetória histórica de desmandos e desigualdades.

Coragem e prudência caminham juntas. Coragem sem prudência é mera temeridade; prudência sem coragem é reles covardia. Uma não existe sem a outra, são faces de uma única medalha. Mais que complementares, são coexistentes.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

quarta-feira, 11 de maio de 2022

As maiores belezas permanecem persistentemente ocultas aos sentidos. Há na vida um certo mistério que melhor se percebe nos momentos e circunstâncias mais inesperados. A beleza mais profunda costuma se manifestar em gestos banais e triviais que nos tocam de maneiras que mal conseguimos descrever.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Armadilhas da interpretação

Comentário adaptado de uma discussão com amigos acerca de um texto atribuído a Richard Wagner por um antigo periódico brasileiro

Sobre o (suposto) pensamento de Wagner, convém cautela com os anacronismos e juízos de valor na análise das fontes. Antes de tudo, me chama atenção o fato de que o texto em questão é sobre a música, não sobre a mulher. Acho complicado pensar essa passagem desconsiderando o contexto mais amplo da "mística" wagneriana - tema controverso entre os próprios especialistas na obra wagneriana, segundo suas respectivas vertentes. 

A produção operística de Wagner é uma das mais complicadas, em termos de interpretação, tendo em vista a variedade de camadas de significados e simbolismos que o compositor atribuiu a suas obras ao longo da carreira, bem como o emaranhado constituído por suas concepções quase religiosas em torno da Arte, como bem explora o historiador Karl Schorske em magnífico ensaio onde coteja as respectivas trajetórias do compositor alemão e do artista visual William Morris.

Às vezes nos concentramos em frases e trechos mais escandalosos e perdemos de vista o resto - e isso me parece arriscado em termos de hermenêutica. No caso em apreço ainda entrariam em questão a seleção operada pelo periódico brasileiro, e as especificidades da tradução. Enfim, ranzinzices metodológicas - todavia, sempre necessárias
Convém ainda considerar a questão da recepção - como uma leitora brasileira de 1907 interpretaria o texto?


sábado, 30 de abril de 2022

Made in Brazil

Até os preconceitos costumam ser importados no Brasil. Imitação é a grande especialidade nacional - e quanto mais barata, melhor. 

quarta-feira, 27 de abril de 2022