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quarta-feira, 20 de abril de 2022

Hipocrisia, retórica e princípios

"Thomas Jefferson was a hypocrite when he penned ‘all men are created equal.’ Jefferson’s slave-owning doesn’t discredit the principles he articulated. Rather, the principles give us language with which to criticize Jefferson".

Jeet Heer - Crítico literário

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Tolstói - Religião, ciência e as imposturas do poder

 Passagens de Carta a um hindu, de Leon Tolstói (grifos meus)


Antigamente, o principal  método de justificar o uso da violência e assim infringir a lei do amor era reivindicar um direito divino para os governantes: czares, sultões, rajás, xás e outros chefes de Estado. Porém, quanto mais a humanidade vivia, mais fraca se tornava a crença nesse direito peculiar dado ao governante por Deus. Ela murchou da mesma maneira e quase simultaneamente no mundo cristão e no brâmane, assim como nas esferas budista e confucionista. Nos últimos tempos, ela desapareceu de tal forma que não prevalece mais contra a compreensão razoável do homem e o verdadeiro sentimento religioso. As pessoas viam cada vez mais claramente, e agora a maioria vê de maneira nítida, a falta de sentido e a imoralidade de subordinar os outros às suas vontades, quando são obrigados a fazer o que é contrário não apenas aos seus interesses, mas também ao seu senso moral. E assim, alguém poderia supor que, tendo perdido a confiança em qualquer autoridade religiosa para uma crença na divindade de potentados de vários tipos, as pessoas tentariam se libertar da sujeição a ele. Os governantes, que eram considerados seres sobrenaturais, se beneficiaram por sujeitar os indivíduos, mas infelizmente não foram os únicos beneficiários. Como resultado da crença e durante o governo desses seres pseudodivinos, grupos cada vez maiores de pessoas se uniram e se estabeleceram ao redor deles, que sob a aparência de governo tiraram vantagem do povo. Quando o velho engodo de uma autoridade sobrenatural e designada por Deus diminuiu, a única preocupação desses homens passou a ser inventar uma nova enganação que tornasse possível manter o povo em servidão a um número limitado de governantes, como fez a antecessora.

[...]

Agora, novas justificativas surgiram no lugar das antiquadas, obsoletas e religiosas. Elas são tão inadequadas quanto as antigas, mas, como são novas, a maioria dos homens não consegue reconhecer sua futilidade imediatamente. Além disso, aqueles que desfrutam do poder propagam esses novos sofismas e os apoiam com tanta habilidade que eles parecem irrefutáveis, até mesmo para muitos que sofrem com a opressão que essas teorias procuram explicar. Essas novas justificativas são chamadas de "científicas", mas pelo termo "científico" entende-se exatamente o que antes era conhecido como "religioso", era considerado inquestionável simplesmente porque era chamado assim, agora tudo que é denominado "científico" é acatado de maneira inconstestável. A justificativa religiosa obsoleta da violência consistiu no reconhecimento da personalidade sobrenatural do governante ordenado por Deus ("não há poder senão o de Deus"). Isso foi substituído pela justificativa "científica".


Em primeiro lugar, a "ciência" apresenta a afirmação de que, como a coerção do homem pelo homem tem existido em todas as épocas, é uma consequência de que ela deva continuar a existir. Essa afirmação de que as pessoas devem continuar a viver como nas eras passadas, e não como sua razão e consciência indicam, é o que a "ciência" chama de "lei histórica".


A segunda justificativa "científica" está na afirmação de que, como há uma luta de constante pela existência entre plantas e animais selvagens que sempre resulta na sobrevivência do mais apto, uma disputa semelhante deve ser realizada entre os seres humanos. Isso apesar do fato de que os humanos são dotados de inteligência e amor, capacidades que faltam em criaturas inferiores, sujeitas à luta pela existência e sobrevivência das mais qualificadas.


A terceira, mais importante e, infelizmente, a mais difundida justificativa é apenas uma pequena alteração da desculpa religiosa milenar: na vida pública, a supressão de alguns para a proteção da maioria não pode ser evitada. Isso torna inevitável a coerção, por mais desejável que seja apenas a confiança no amor nas relações humanas. A única diferença nessa justificação pela pseudociência consiste no fato de que ela agora dá uma resposta distinta daquela dada pela religião ao porquê de algumas pessoas não terem o direito de decidir contra quem a violência pode e deve ser usada. A religião declarou que o direito de decidir era válido porque as pessoas detentoras do poder divino o pronunciavam. A "ciência" afirma que essas decisões representam a vontade do povo, que, sob uma forma constitucional de governo, deve encontrar expressão em todas as decisões e ações daqueles que estão no comando no momento.


Tais são as justificativas científicas do princípio da coerção. Elas não são apenas fracas, mas absolutamente inválidas, e ainda assim são tão necessárias para aqueles que ocupam posições privilegiadas que acreditam nelas tão cegamente como antes acreditavam na Imaculada Concepção, e as propagam com a mesma confiança. E a infeliz maioria dos homens está tão deslumbrada com a pompa com a qual essas "verdades científicas" são apresentadas que, sob essa nova influência, aceita essas idiotices científicas como verdade sagrada, assim como anteriormente aceitava as justificativas pseudorreligiosas. E essa infeliz maioria continua a se submeter aos atuais detentores do poder, que são tão crueis, mas agora mais numerosos do que antes.


Deckard e Batty - para os poderosos, caçando ou caçados, somos todos "replicantes"; toda desobediência precisa ser punida.


quarta-feira, 6 de abril de 2022

Montruosidades Messiânicas

 "Eu vi seu carisma.

Ele o perdeu.

Esfacelou-se diante de todos.

Esse é o problema em criar monstros.

O controle é difícil.

O importante é as pessoas nunca sentirem medo ou fraqueza em você.

Isso é um erro fatal.

Se fraquejar, elas se voltam contra você.

Monstros exigem que seus messias sejam fortes.

Eles detestam ser enganados".

Jim Starlin (em Batman - O Messias - no original, The Cult)


Diácono Blackfire, o "messias", incitando seus seguidores à violência.


quarta-feira, 30 de março de 2022

Risco, investimento, patrimônio e empreendedorismo - Breve reflexão sobre um dogma liberal

 "O pequeno número de gigantes e o poder de que eles dispõem levaram à reconsideração de uma teoria econômica baseada no número infinito de unidades em competição, uma teoria da 'firma' que, nos seus piores momentos, não vê diferença entre a General Motors e a sorveteria da esquina".

Alec Nove


"Digamos: Bill Gates, um grande industrial, o proprietário de um hotel médio, o dono de um bazar modesto ou da pequena cervejaria com três empregados e em que o patrão também trabalha, o barbeiro com uma só cadeira e o vendedor de paçoca na porta da PUC".

Ruy Fausto


Um dos dogmas defendidos pelo Liberalismo Econômico ortodoxo é de que a assimetria de recompensa entre patrões e empregados na geração de valor se justifica devido ao patrão correr risco ao fazer o investimento, devendo portanto receber uma compensação proporcional ao risco incorrido. Até certo ponto, como dizia o pensador socialista Jean Jaurès, isso é verdadeiro e justo, mas a partir de certo limite esse argumento se torna falacioso. Em sua perspectiva não-marxista, escrevia Jaurès em 1891:


As sociedades mais iníquas guardam alguns elementos de justiça misturados à mais completa iniquidade; eles lhe servem de pretexto, de salvaguarda e de garantia; e aí está precisamente a dificuldade do problema social. Demarcar o justo do injusto, marcar o ponto onde a legitimidade da poupança se converte em capitalismo abusivo, eis a tarefa não bárbara e grosseira, mas delicada e sutil do socialismo, e esta obra reclama toda a precisão da ciência, como ela reclama toda energia da consciência.

Nesse sentido, é importante distinguir entre os diferentes graus de risco que os investimentos envolvem, devido à heterogeneidade entre os investidores. Como bem lembram as citações de Nove e Fausto aqui usadas como epígrafe, há grande diferença entre uma multinacional e um negócio de bairro, entre um bilionário e o vendedor ambulante. Todos eles podem ser - e costumam ser - classificados sob a categoria genérica do "empreendedor", o que beira a desonestidade intelectual.

A relação entre risco e investimento não é algo genérico e homogêneo; ela comporta infinitas gradações, a depender tanto do investimento quanto do investidor. Quanto maior o patrimônio de um empreendedor, menores tendem a ser os riscos, financeiros ou pessoais, que ele corre - pouco importando aqui se esse patrimônio seja herdado ou adquirido. Para um vendedor ambulante ou um comerciante de bairro, um investimento relativamente pequeno pode representar um risco imenso, inclusive para sua subsistência, enquanto um investimento de milhões pode representar um risco pequeno, quase desprezível, para um bilionário ou uma multinacional.

Para o pequeno empreendedor, um investimento modesto que redunde em prejuízo pode ter consequências dramáticas a longo prazo, das quais talvez nunca se recupere; para o grande empreendedor, um prejuízo milionário pode, muitas vezes, ser apenas um aborrecimento sem grandes consequências, a depender do volume de seu patrimônio investido. É absurdamente falacioso calcular esses riscos em termos de simples equivalência; ainda mais falacioso, quando não perverso, partir dessa falsa equivalência para justificar uma eventual assimetria de recompensas. Mesmo entre empresas do mesmo porte pode haver grande diferença na relação risco-investimento - uma grande empresa de tecnologia geralmente corre mais riscos que uma grande empresa voltada ao comércio varejista, por exemplo (e muitas vezes são os empreendimentos de menor risco que pagam os piores salários a seus empregados - por exemplo, um profissional de TI tende a ganhar um salário consideravelmente maior que um caixa de supermercado).

Uma grande empresa ou um bilionário só correm risco realmente grave em seus empreendimentos quando adotam posturas temerárias - como políticas de expansão mal calculadas, muitas vezes escoradas em elevados índices de endividamento (frequentemente orientadas por métodos econômicos "científicos", como a famigerada "moderna teoria do portfólio"). Não à toa, um dos principais métodos para avaliar a solidez de uma empresa é comparar o montante total de suas dívidas com o valor de seu patrimônio bruto.

Em tempos recentes, a noção de empreendedorismo vem ganhando um destaque considerável, quase vendida como uma panaceia capaz de sanar graves problemas econômicos, inclusive o desemprego. O empreendedorismo, em si, não tem nada de errado ou condenável; no entanto, é perverso desconsiderar a imensa desigualdade entre diversos tipos de empreendedores. Para alguém com um patrimônio considerável, empreender envolve um grau de risco modesto, com margens de retorno robustas; para alguém com um patrimônio pequeno (ou sem patrimônio algum), o risco tende a ser muito maior, e as margens de retorno muito pequenas. O potencial de crescimento de ambos também é muito diferente a curto, médio ou longo prazo.

Imaginemos alguns casos. Uma grande empresa do setor varejista, com centenas de lojas, emprega algo como 0,5% de seu patrimônio para abrir uma nova filial em uma localidade. Caso essa filial não prospere e se mostre deficitária, a empresa teve uma perda ínfima, que não fará grande diferença para seus sócios e respectivas famílias. Por outro lado, caso a filial se mostre lucrativa e estável, poderá render à empresa um retorno considerável ao longo de anos, cujo valor acumulado contribuirá para a abertura de novas lojas e para a expansão da rede varejista. No entanto, a rede em questão paga salários pífios para seus empregados super-explorados e estafados, enquanto cada sócio da empresa obtém uma renda mensal milhares de vezes superior ao salário de seus empregados. Quanto mais se expande a empresa, maior o lucro auferido por seus sócios ao longo dos anos, mas isso não redunda em melhora salarial para seus trabalhadores - ou "colaboradores", conforme eufemismo em voga. Segundo o dogma de que a distribuição dos lucros deve corresponder ao risco incorrido pelo negócio, esta situação seria perfeitamente aceitável, embora nos soe falaciosa e desperte alguma inquietação moral.

Ainda outro exemplo: uma grande empresa de tecnologia resolve desenvolver um novo produto. Para tanto, durante dois anos, ela faz um considerável investimento em pesquisa, pagamento de profissionais de alto nível, desenvolvimento de protótipos e, finalmente, produção do novo aparelho em escala industrial. Digamos que, para isso, a empresa tenha feito um investimento correspondente a 1% de seu patrimônio (uma quantia multimilionária). Caso o novo produto encontre boa demanda, a empresa pode obter lucros imensos (ao menos até que a concorrência desenvolva e lance produtos similares), compensando sobejamente o valor  investido. Caso o novo produto não alcance o sucesso esperado, a empresa terá um prejuízo considerável, em valores absolutos, mas nada suficiente para comprometer irremediavelmente a solidez da empresa. O risco é comparativamente maior ao do caso anterior, já que o desenvolvimento e lançamento de um novo produto é sempre uma incógnita, ao passo que a abertura de uma loja não requer grande dose de pesquisa ou inovação. Por outro lado, o potencial de retorno do novo produto, caso bem sucedido, é muito superior ao da abertura de uma nova filial por uma rede varejista. Aqui temos o caso que se encontra mais próximo do dogma liberal que postula a relação entre risco e recompensa. Ainda assim, os profissionais envolvidos no projeto, embora muito melhor remunerados que os empregados da rede de lojas, recebem um retorno muito díspar daquele alcançado pela empresa, apesar de sua participação crucial ao êxito do projeto.

Prosseguindo, imaginemos o dono de uma pequena padaria com cinco trabalhadores. Ele próprio trabalha diariamente no negócio e obtém uma renda pessoal pouco superior ao salário pago aos empregados, algo como uma renda mensal equivalente ao salário de quatro empregados. Sua margem de lucro é muito menor que a das empresas citadas anteriormente e, da mesma forma, seu potencial de investimento permanece pequeno. Suponhamos que esse empresário resolva transformar parte da padaria em lanchonete - o que envolveria elevados gastos com a reforma do espaço físico e a aquisição de mobiliário e equipamento, além da contratação de mais mão-de-obra. O patrimônio líquido do empresário não é suficiente para bancar essa renovação, e ele contrai um empréstimo junto a um banco, fazendo uma dívida equivalente a 35% de seu patrimônio bruto, parcelada em 48 vezes. Caso a reforma do negócio se mostre lucrativa, ele precisa ainda saudar sua dívida com o banco, em quatro anos, para finalmente poder ter uma efetiva ampliação de seu patrimônio líquido; agora, no entanto, ele tem oito empregados e precisa de um lucro mensal muito maior para honrar sua folha de pagamento. Ao fim e ao cabo, passada meia década, ele consegue obter uma renda mensal equivalente ao salário de 7 empregados. Teve alguma melhora em seu padrão de vida, mas permanece muito aquém do padrão de vida dos sócios das grandes empresas dos exemplos anteriores. Por outro lado, se a renovação do negócio se mostrar deficitária ele ainda precisa honrar seu empréstimo junto ao banco, o que redunda em uma redução de sua rende mensal para algo equivalente a dois salários; precisa demitir os três empregados adicionais e acaba vendendo a casa onde mora, para viver em um apartamento menor, de modo a manter o negócio funcionando. Não vai à falência, mas sua recuperação financeira leva quase uma década. Para esse pequeno empreendedor, o investimento traz risco elevadíssimo, com um potencial de retorno bastante moderado - simplesmente pelas limitações de seu patrimônio. A diferença de padrão de vida entre ele e seus empregados é considerável, mas não absurdamente grande - e deve-se levar em conta que ele mesmo trabalha no negócio, não vive simplesmente de rendas. Além disso, com lucro ou prejuízo, o maior beneficiário de seus investimentos tende a ser banco, não o empreendedor, nem seus empregados.

Por último, pensemos em um vendedor ambulante. Seu investimento consiste sobretudo em comprar algumas caixas de doces por atacado, a um valor relativamente baixo. Caso os produtos encalhem, em valores absolutos, ele tem um prejuízo muito menor que os mencionados nos casos anteriores. No entanto, cada jornada de trabalho mal-sucedida significa elevadíssimo risco à subsistência de sua família - aqui, o risco pessoal é infinitamente superior ao risco financeiro. Por outro lado, é um negócio com baixíssimo potencial de expansão - há uma quantidade limitada de doces que ele pode carregar diariamente, ainda que ele poupe algum dinheiro para investir. Na melhor das hipóteses, ele pode juntar dinheiro suficiente para conseguir montar uma barraquinha, ampliando seus lucros. Ainda assim, esse empreendedor vive diante de grandes incertezas, em boa medida garantindo a cada dia a refeição do dia seguinte. Embora possível, é muito improvável que ele algum dia tenha condições de abrir uma padaria. Também aqui temos uma situação de alto risco, com baixo potencial de retorno.

Comparando esses exemplos, não é difícil perceber que o fator preponderante na relação entre investimento e risco é o patrimônio do investidor. Quanto maior o patrimônio, menores os riscos envolvidos e maior o potencial de retorno - o que redunda em aumento do patrimônio, com subsequentes investimentos, levando a um ciclo de crescimento potencialmente ilimitado. As grandes empresas possuem um potencial de lucro que opera em progressão geométrica, ao passo que os pequenos empreendedores precisam se resignar a ver seus lucros crescendo em progressão aritmética, sempre correndo elevados riscos financeiros e pessoais.

Neste caso, como em outros tantos, os dogmas do Liberalismo Econômico "de cartilha", tendem a ignorar o efeito de assimetrias iniciais sobre resultados individuais. No entanto, a questão do patrimônio evoca outro problema ainda mais sério para as premissas liberais. A dogmática liberal preza antes de tudo o valor do indivíduo e de seus méritos, mesmo em situações em que tais méritos sejam dúbios ou questionáveis. No entanto, a acumulação de patrimônio não é apenas um problema de ordem individual, mas em muitos casos, é uma questão intergeneracional e familiar. O patrimônio que um indivíduo é capaz de acumular e investir em vida costuma ser bastante limitado, mas pode crescer significativamente de uma geração a outra.

Esse crescimento intergeneracional pode ser bastante sutil. Um homem adquire uma casa própria; deixando de pagar aluguel, ele pode ajudar seus filhos de diversas financeiras, proporcionando-lhes oportunidades que ele mesmo não teve. A cada geração da família, o potencial de expansão cresce um pouco mais, gradativamente deixando a esfera da progressão aritmética para a progressão geométrica. Nem sempre funciona, como demonstram inúmeros exemplos de herdeiros de grandes fortunas cuja prodigalidade põe a perder o patrimônio herdado; ainda assim é raro que, nesses casos, um herdeiro caia de uma condição de grande riqueza para a miséria. Na maioria das vezes, abandonando aneis e preservando dedos, estes conseguem permanecer ao menos na classe média alta. Em todo caso, aquilo que herdamos de nossos familiares geralmente amplia nosso leque de oportunidades, ainda que nem todos saibam aproveitar essas oportunidades da mesma maneira - como demonstram os casos de irmãos que, ainda que partindo das mesmas condições, obtém resultados diferentes. Em última análise, dinâmicas individuais e coletivas de acumulação estão em jogo, o que sempre deixa as coisas em uma zona cinzenta, tornando difícil e complexo "demarcar o justo do injusto, marcar o ponto onde a legitimidade da poupança se converte em capitalismo abusivo", como propunha Jaurès.

Essa breve reflexão não visa encontrar respostas definitivas - é apenas uma provocação tanto em relação à ortodoxia Liberal quanto à dogmática marxista, ambas propensas a generalizações que dificilmente dão conta da complexidade do que é possível observar empiricamente. O cultivo de uma sociedade mais justa e próspera para todos não é questão fácil, impondo muitos desafios, tanto do ponto de vista analítico e descritivo quanto do ponto de vista prescritivo. O que parece certo, no entanto, é que tais problemas dificilmente se resolverão a partir de dogmatismos econômicos, políticos e sociais fechados em si mesmos, inflexíveis em suas certezas e impermeáveis ao diálogo.



Calvin vendendo limonada - Um clássico do empreendedorismo juvenil...


quarta-feira, 23 de março de 2022

Esperança como opção

Apesar de tudo, sigo sendo um pessimista esperançoso - pessimista por necessidade, esperançoso por escolha própria. E, no fim das contas, tudo que importa são as escolhas...

quarta-feira, 16 de março de 2022

Entre ratos e leões

O ser humano é escravo de seus hábitos, caprichos, rotinas e rituais, mesmo quando se tornam inadequados e até perniciosos nas circunstâncias vividas. Pior ainda, é capaz de racionalizar das formas mais estapafúrdias suas condutas mais temerárias. Basta uma pequena ilusão de segurança para que nos exponhamos a riscos incalculáveis, em busca de benefícios irrisórios. Em sua autoilusão, o ser humano é capaz de se jogar na goela de um leão para fugir de um rato.

quarta-feira, 9 de março de 2022

O pecado de pensar

 "Com a justiça dos anjos e dos santos, nós excomungamos, excluímos, maldizemos e anatematizamos Baruch de Espinosa. [...] Que ele seja maldito de dia e maldito de noite. Que ele seja maldito no sono e maldito na vigília. Que ele seja maldito fora e maldito por dentro. Que o Senhor não perdoe. Que a cólera e a fúria do Senhor caiam de agora em diante sobre este homem e derramem sobre ele todas as maldições escritas no livro da Lei. Que o Senhor destrua seu nome sob o sol".


Trecho do ato solene de banimento por heresia do filósofo Baruch Spinoza, pelos anciãos da sinagoga de Amsterdã em 27 de julhos de 1656 (citado por Frédéric Lenoir em Sobre a felicidade - Uma viagem filosófica).




domingo, 27 de fevereiro de 2022

"There is no propaganda as potent or powerful as war propaganda. It seems that one must have lived through it at least once, as an engaged adult, to understand how it functions, how it manipulates and distorts, and how one can resist being consumed by it".

Glenn Greenwald

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

 Não há tragédia maior que a conquista de sucesso individual através de fracasso coletivo.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

O valor da cautela

Corrigir erros é muito mais difícil que evitar erros. O valor da cautela é, literalmente, inestimável, pois riscos subestimados costumam resultar em prejuízos exponencialmente multiplicados. Diante de grandes incertezas, como ensina a sabedoria taoísta, é melhor "agir pela não interferência".

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Jerusalém Libertada

 Hoje tive um sonho.


Sonhei contigo, Jerusalém, "três vezes santa": santa para judeus, santa para cristãos, santa para muçulmanos. Santa para todos os povos de Abraão.

Jerusalém sofredora, Jerusalém atormentada. Três vezes santa, três vezes desejada, muitas e muitas vezes disputada!

Jerusalém, Jerusalém, quanto sangue já correu, corre e ainda correrá por ti! Quantas lágrimas vertidas, quanto ranger de dentes, quanto bater de espadas!

Até quando, Jerusalém, os povos de Abraão lutarão por ti? Até quando, três vezes santa Jerusalém, serás pedra de tropeço para aqueles que dizem te amar?

Embriagados pelo vinho da ira, sorvido em poluídos cálices, teus pretendentes te cortejam violentamente, tomando por amor aquilo que não passa de vulgar paixão. Te idolatram, pensando te adorar. Pois, infelizmente, Jerusalém, te tornaste ídolo no coração daqueles que julgam te amar - e é como idólatras sanguinários que te disputam.

Antes de Abraão e seus herdeiros eras Salém, reino do misterioso Melquisedec. Generoso, hospitaleiro Melquisedec, que acolheu Abraão fatigado dos combates.

Abraão foi teu hóspede, jamais teu dono, Jeru-Salém, cidade, antes de tudo, hospitaleira. Acolheste em teu seio a Arca daquela Aliança que diz: "Não matarás".

Quão iludidos estão aqueles que se entrematam em teu nome! Aqueles que deveriam te santificar, te profanam, derramando sangue sobre o solo de Melquisedec.

Onde estás, onde estás, Jerusalém? Estás nos céus ou estás na terra? Em todo lugar ou lugar nenhum? Estás, antes de tudo, nos corações de todos aqueles que amam?

Que podes significar, Jerusalém, de mais nobre, digno e elevado, senão o Amor?

Todos aqueles que amam, hospitaleira Jerusalém, acolhem a ti, no fundo de seus corações e almas. Te acolhem e te possuem, em Espírito e Verdade! Pois és mais que pedra, és um sonho, um ideal, tantas vezes destruído, pisoteado, aviltado. Em Espírito e Verdade te encontras em toda parte, como disse o galileu à samaritana.

Aprisionada choras, Jerusalém, mas venho oferecer-te consolo.

Sonhei contigo, Jerusalém, como sonham os profetas, os visionários e os poetas. Sonhei como sonham os esperançosos, aqueles que teimam em sonhar!

Em meu sonho, Jerusalém, todos aqueles que se matam por ti depuseram as armas. Os povos de Abraão finalmente se entendiam como irmãos, após séculos de encarniçado ódio. Ismael e Isaac se estreitavam em infinito abraço; Caim, Abel e Set partilhavam o banquete da paz. Moisés, Jesus e Maomé sorriam.

E depondo suas armas, te libertavam do cruel jugo em que tanto sofres. Amando uns aos outros, te libertavam. Renunciando a toda paixão possessiva, se encontravam juntos sob a reluzente tenda de Melquisedec.

Mais uma vez eras Salém, a simples, humilde e hospitaleira Salém. Rejuvenescida, revigorada, renovada, resplandecias para todos os povos da Terra, como sonhava Salomão. Todos aqueles que amam se encontravam em ti, em Espírito e Verdade.

Salém, três vezes santa, muitas vezes santa, acolhias crentes e descrentes. Tua luminosa tenda era um santuário de paz, um sagrado recinto onde ninguém ousaria derramar o sangue do irmão.

Mais uma vez governada pelo sábio, misterioso Melquisedec, acolhias todos aqueles fatigados das guerras, dos prantos e do ranger de dentes.

Sob o cetro de Melquisedec, a amorosa e zelosa hospitalidade se tornava tua primeira e única lei. Eras verdadeira e plenamente a Terra Prometida, onde não mais se ouviam os ecos das espadas, lanças, flechas ou canhões. Soava apenas um silencioso cântico de paz, murmurado em cada coração.

Sonho acordado, bem sei, Jerusalém. Mas o sonho é irmão da esperança, e a esperança é mãe de milagres.

Segundo a segundo, minuto a minuto, dia a dia, se aproxima o dia de tua libertação, Jerusalém...

Inspirado pela Águia de Patmos e por Victor Hugo; dedicado a Priscila, minha Sara

Encontro de Melquisedec e Abraão; pintura atribuída a Peter Paul Rubens (séc. XVII)


terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

2023 - Que esperar do Brasil após as eleições?

As eleições de 2022 se aproximam e não me sinto nada esperançoso em relação às candidaturas presidenciais e suas perspectivas para o futuro. 


A grande prioridade para mim, assim como para boa parte do eleitorado, é afastar Bolsonaro do poder, após quatro nefastos anos de mandato. Uma pauta negativa, portanto, em nada propositiva. No entanto, uma vez derrotado Bolsonaro, que será do Brasil? 


Ao que tudo indica, o segundo turno em 2022 será uma disputa entre Lula e Bolsonaro. A reeleição de Bolsonaro seria uma tragédia na qual não desejo sequer pensar. Mas que esperar de uma eventual vitória de Lula?


Antes de qualquer coisa, um mandato tumultuado, marcado por fortíssima polarização política, consideravelmente agravada. O antipetismo radical  enquanto força social e política não deve ser subestimado. Caso eleito, Lula governará sob fogo cerrado desde o primeiro dia de mandato, enfrentando uma oposição feroz e virulenta, tanto por boa parcela da população quanto por parte significativa do Legislativo federal - mesmo derrotado Bolsonaro, certamente muitos de seus acólitos serão eleitos ou reeleitos (inclusive nas assembleias legislativas estaduais). Mesmo como minoria parlamentar, tais deputados e senadores serão parte do jogo político. Até aqui poucos analistas me parecem interessados na questão, o que é sintomático da estreiteza de vistas com que costumamos pensar nossa política, costumeiramente relegando o Legislativo a segundo plano. 


Em todo caso, Lula não terá a mesma margem de manobra para viabilizar seu governo que em mandatos anteriores. O grande problema disso é que, salvo engano, Lula ficará mais que nunca refém do "centrão" (como aliás, já sinaliza sua reaproximação ao gelatinoso MDB, incluindo figuras como Helder Barbalho). A reedição dos velhos "pactos de governabilidade" que marcaram a Era PT-PMDB é, por si só, uma perspectiva sombria. Convém lembrar que a longo prazo o desfecho de tais pactos foi o colapso do mandato Dilma-2, os retrocessos da Era Temer e, em última instância, a eleição de Bolsonaro, fortemente impulsionada pelo antipetismo.


Sabemos que a História nunca se repete, mas muitas vezes rima. A atual conjuntura me parece demasiado parecida com aquela do retorno de Vargas ao poder e seu subsequente suicídio, acossado pelo lacerdismo - que possui muitos traços em comum com o antipetismo. Não creio que Lula venha a se matar, mas aposto, com pouco medo de errar, que não fechará mandato. Lula terá a perspectiva de impeachment como espada de Dâmocles sobre a cabeça a cada dia de mandato - principalmente caso se confirme a chapa "Lulalckmin" (parece que a lição não foi aprendida com Temer). Caso consiga completar quatro anos de mandato, é imperioso ter em mente que entre 2022 e 2026 é mais que provável que se dê um agravamento da sanha antipetista e não é impossível a emergência de alguma figura semelhante ou pior que Bolsonaro para concorrer à presidência da República.


Substituir Bolsonaro por Lula é uma aposta de alto risco, cujos escolhos e perigos não devem ser subestimados. Tanto a conjuntura nacional quanto a internacional hoje são radicalmente diferentes daquelas que Lula encontrou em 2003. No plano doméstico, temos um elevadíssimo grau de polarização política, inflação aguda, extrema desvalorização da moeda nacional, elevado índice de desemprego e uma população depauperada, entre outros problemas. No plano internacional temos extrema volatilidade econômica, baixa demanda por commodities e uma situação diplomática delicada, marcada por elevada tensão entre potências como Estados Unidos, Rússia, União Europeia e China - sem mencionar as incontornáveis sequelas da pandemia. Acreditar que Lula reeleito terá um mandato tranquilo é ingênuo, para dizer o mínimo. 


Que fique bem claro que eu votaria em Lula sem hesitar, em um segundo turno contra Bolsonaro. Lula tem inúmeros defeitos, mas Bolsonaro é uma notória ameaça à democracia, à ordem constitucional e às instituições republicanas. No entanto, nesse caso, votarei sem ilusões, consciente de que o mandato vindouro será mais que turbulento, com a possibilidade de agravar problemas e elevar os riscos para os ciclos eleitorais de 2024 e 2026. Me inquieta ver que boa parte do eleitorado, da mídia e dos analistas não tem se mostrado suficientemente consciente desses problemas, reduzindo o processo eleitoral a uma briga entre Bolsonaro e Lula - fruto de uma visão demasiado condicionada ao curto prazo e ao calendário eleitoral. Para bem e para mal, os verdadeiros desafios para o Brasil nos aguardam em 2023.


Há alternativa à dicotomia Lula x Bolsonaro?


A meu ver, sim. Não sou entusiasta de Ciro Gomes e tenho sérias críticas a ele e à atual configuração do PDT. Ainda assim, tendo a crer que é o candidato com o projeto mais coerente e abrangente para o Brasil a longo prazo - ainda que me desagrade em pontos específicos. Mas a política é a arte do possível, não do ideal. Tendo a crer que Ciro, com suas virtudes e defeitos, teria condições de amenizar ao menos parte dos problemas sociais e econômicos que assolam o Brasil, bem como de mitigar a polarização política que nos trouxe até esse contexto sombrio. Ainda aí, no entanto, alento poucas esperanças. Ao que tudo indica, Ciro não terá condições de avançar para o segundo turno.


Pensando no tenso processo eleitoral que se aproxima e nos quatro turbulentos anos que provavelmente o seguirão, venho tentando cultivar uma atitude estoica, tomando para mim as palavras de Gandhi: "Bem-aventurados os que nada esperam"...




quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

O preço da paz

Violência gera violência. E toda violência tem um preço. O valor da paz, por outro lado, é incalculável. Nenhum preço é alto demais para se conquistar a paz.