"O preço da liberdade é a eterna vigilância".
O preço da vigilância é a crítica permanente.
O preço da crítica é a perpétua autocrítica.
O preço da autocrítica é a profunda humildade.
Não há verdadeira Liberdade sem verdadeira Humildade.
quarta-feira, 22 de julho de 2020
quarta-feira, 15 de julho de 2020
Boas apostas
Da perspectiva eleitoral, política é como cassino. Cada eleitor aposta suas fichas e depois vê o resultado da roleta. O mais importante é deixar os evidentemente piores de lado - mas o povo brasileiro tem muito talento para fazer exatamente o contrário disso.
domingo, 12 de julho de 2020
O desabrochar do Cravo
A muito custo, um frágil Cravo germinou e brotou.
Era um verão abrasador, que crestava suas tenras folhas. Apenas o orvalho noturno abrandava as agruras desse bravo cravinho.
O clima se fazia inclemente. Ao impiedoso verão sucedeu um outono terrível, que anunciava um inverno monstruoso.
Sacudido por violentas tempestades, cresceu o Cravo, robustecido pelas intempéries.
Veio o inverno, longo, rigoroso e brutal, com violentas geadas que ameaçavam todas as flores do prado. Muitas sucumbiram.
Quase milagrosamente, em meio ao frio opressor, o Cravo pôs um botão.
Veio a primavera. Tímida, débil, frágil como uma orquídea.
Ainda atormentado pelas lembranças invernais, o botão do Cravo teimava em se manter fechado. Sobrevivera a tantas durezas, por que se expor agora?
Em meio à primavera, nuvens trovejantes cobriram o céu.
Foi então, corajosamente, que o Cravo desabrochou.
Abriu suas pétalas em espetáculo ao mundo e gritou: "NÃO"!
E o prado inteiro ouviu. NÃO.
As nuvens se envergonharam e os trovões se calaram.
E o grito do Cravo deu esperança a muitas outras flores.
sexta-feira, 10 de julho de 2020
quarta-feira, 8 de julho de 2020
Refugo
terça-feira, 7 de julho de 2020
Bolsonaro, Barbárie e o Pacto Civilizatório
Há quase 11 anos postei neste blog um texto lamentando as comemorações pela morte de Bin Laden nas ruas dos Estados Unidos. Comemorar a morte de um bárbaro é um gesto que nos aproxima do próprio bárbaro.
Da mesma forma, mais recentemente, refleti sobre meus próprios sentimentos de regozijo, igualmente lamentáveis, quando recebi a notícia da prisão de Sérgio Cabral.
A língua alemã, em sua riqueza, possui um termo específico para esse tipo de sentimento demasiadamente humano: Schadenfreud - a alegria pela desgraça alheia.
O respeito à doença, ao sofrimento, ao infortúnio e ao luto daqueles que abominamos e nos causam repugnância é um dos limites mais importantes entre a civilização e a barbárie.
O Sr. Jair Messias Bolsonaro, infelizmente, não é uma pessoa conhecida por respeitar esses limites. Sabemos bem disso, como atestam inúmeros episódios.
Bolsonaro manifestava publicamente seu desejo de que um câncer ou um infarte tirassem a vida da então presidente Dilma Roussef, paciente oncológica convalescente. Comemorou a morte de Fidel Castro.
Mais recentemente, já na função de Presidente da República, fez comentários escarninhos sobre os brasileiros falecidos na atual pandemia, especialmente o grotesco "E daí?"
Jair Messias Bolsonaro, infelizmente, é um ser humano que não respeita, nunca respeitou, os limites do pacto civilizatório. Nem mesmo a experiência da fatídica facada o fez repensar tais posturas.
Agora circulam notícias de que o Presidente Bolsonaro está sob suspeita de ter contraído COVID-19.
Tomemos o cuidado de não nos rebaixarmos, sequer jocosamente, à barbárie de Bolsonaro.
Não devemos desejar "Força, COVID" ou nos regozijarmos com a possibilidade da morte do presidente. Tais atitudes nos rebaixam ao mesmo nível de barbárie que tanto reprovamos nele.
Barbárie alimenta barbárie. Em nome da preservação do sempre frágil pacto civilizatório, precisamos nos colocar acima do "olho por olho, dente por dente".
Diante da barbárie, nos cabe cultivar a altivez ética de lutar contra as próprias pulsões bárbaras, vingativas e rancorosas que existem dentro de cada um de nós.
A alegria diante da desgraça alheia é um impulso muito humano, quase instintivo, que habita em nós. Não é vergonha sentir isso e seria hipocrisia negar que tais sentimentos estão em nós.
No entanto, como humanos, somos seres dotados da capacidade de escolher. Podemos escolher cultivar ou não tais sentimentos. Tal semente existe em nossos corações, mas devemos, em sã consciência, irrigá-la? Desejamos transformar nossas consciências em plantações de amargo ódio? Que colheita podemos esperar de semelhante cultivo?
De minha parte, sinto, como tantos, a inclinação de me regozijar com a enfermidade do presidente, desejar-lhe a morte e fazer piada com o tema.
Mas evitarei isso. Como ser humano, faço a escolha consciente de não me entregar a essas inclinações ou cultivar tais atitudes. Como recitava Mandela, "sou capitão de minha alma".
E como capitão de minha alma, escolho não sucumbir à lamentável barbárie que consome a alma do Capitão Bolsonaro.
Em nome de meus familiares e amigos que sofrem e sofreram as consequências dessa pandemia, só posso manifestar minha esperança - provavelmente inútil - de que sofrendo a enfermidade na própria carne, Bolsonaro reveja suas atitudes e, como ser humano que também é, possa fazer escolhas e tomar atitudes melhores no futuro.
Da mesma forma, mais recentemente, refleti sobre meus próprios sentimentos de regozijo, igualmente lamentáveis, quando recebi a notícia da prisão de Sérgio Cabral.
A língua alemã, em sua riqueza, possui um termo específico para esse tipo de sentimento demasiadamente humano: Schadenfreud - a alegria pela desgraça alheia.
O respeito à doença, ao sofrimento, ao infortúnio e ao luto daqueles que abominamos e nos causam repugnância é um dos limites mais importantes entre a civilização e a barbárie.
O Sr. Jair Messias Bolsonaro, infelizmente, não é uma pessoa conhecida por respeitar esses limites. Sabemos bem disso, como atestam inúmeros episódios.
Bolsonaro manifestava publicamente seu desejo de que um câncer ou um infarte tirassem a vida da então presidente Dilma Roussef, paciente oncológica convalescente. Comemorou a morte de Fidel Castro.
Mais recentemente, já na função de Presidente da República, fez comentários escarninhos sobre os brasileiros falecidos na atual pandemia, especialmente o grotesco "E daí?"
Jair Messias Bolsonaro, infelizmente, é um ser humano que não respeita, nunca respeitou, os limites do pacto civilizatório. Nem mesmo a experiência da fatídica facada o fez repensar tais posturas.
Agora circulam notícias de que o Presidente Bolsonaro está sob suspeita de ter contraído COVID-19.
Tomemos o cuidado de não nos rebaixarmos, sequer jocosamente, à barbárie de Bolsonaro.
Não devemos desejar "Força, COVID" ou nos regozijarmos com a possibilidade da morte do presidente. Tais atitudes nos rebaixam ao mesmo nível de barbárie que tanto reprovamos nele.
Barbárie alimenta barbárie. Em nome da preservação do sempre frágil pacto civilizatório, precisamos nos colocar acima do "olho por olho, dente por dente".
Diante da barbárie, nos cabe cultivar a altivez ética de lutar contra as próprias pulsões bárbaras, vingativas e rancorosas que existem dentro de cada um de nós.
A alegria diante da desgraça alheia é um impulso muito humano, quase instintivo, que habita em nós. Não é vergonha sentir isso e seria hipocrisia negar que tais sentimentos estão em nós.
No entanto, como humanos, somos seres dotados da capacidade de escolher. Podemos escolher cultivar ou não tais sentimentos. Tal semente existe em nossos corações, mas devemos, em sã consciência, irrigá-la? Desejamos transformar nossas consciências em plantações de amargo ódio? Que colheita podemos esperar de semelhante cultivo?
De minha parte, sinto, como tantos, a inclinação de me regozijar com a enfermidade do presidente, desejar-lhe a morte e fazer piada com o tema.
Mas evitarei isso. Como ser humano, faço a escolha consciente de não me entregar a essas inclinações ou cultivar tais atitudes. Como recitava Mandela, "sou capitão de minha alma".
E como capitão de minha alma, escolho não sucumbir à lamentável barbárie que consome a alma do Capitão Bolsonaro.
Em nome de meus familiares e amigos que sofrem e sofreram as consequências dessa pandemia, só posso manifestar minha esperança - provavelmente inútil - de que sofrendo a enfermidade na própria carne, Bolsonaro reveja suas atitudes e, como ser humano que também é, possa fazer escolhas e tomar atitudes melhores no futuro.
segunda-feira, 6 de julho de 2020
domingo, 5 de julho de 2020
As voltas que o mundo dá (2009-2020)
Matéria da revista Época em 2009.
E pensar que naquele tempo eu também acreditava nisso.
Ce siècle avait neuf ans. J'étais jeune et naïf, hélas!
Só se desiludem aqueles que se iludiram. É da natureza das miragens desaparecer quando avançamos em sua direção.
"Deixo um Brasil mais preparado"...! Capcioso adjetivo - "preparado" para quê? A colheita diz muito sobre a semeadura.
Basta vento para desmanchar castelos de areia.
2030? Nem quero imaginar.
quarta-feira, 1 de julho de 2020
Da Ação Excelente
Se os resultados finais de nossa ação ficam próximos da intenção original, significa que agimos com excelência; inversamente, podemos medir o grau de inépcia do agir pela distância entre a intenção motivadora e o resultado obtido. A ação excelente alcança os fins apropriados através dos meios adequados. Para tanto, o agente deve, antes mesmo de definir seus fins, avaliar os recursos disponíveis e as condições conhecidas, assim como sopesar os riscos e precaver-se contra os imprevistos. "O ótimo é inimigo do bom": intenções sóbrias favorecem resultados excelentes; intenções delirantes conduzem a resultados decepcionantes. A simplicidade é a melhor amiga da excelência.
Twilight Omen
In the swollen swamps,
Twilight whispers omens
Restless sleepers
Hear gloomy chants
One Voice must sing,
Two Princes may fall;
Will the King hold his throne?
The blade of Fate is sharp
The folk on the marshes
Breath poisoned air;
Some choke, some die
Too many people cry
In the mourning castle,
The court laughs no more
The throne crumbles,
The crown is heavy
Even heroes avoid
Haunted roads and paths
Starving ghosts roam,
By hatred blind
The King is deaf,
The King is drunk,
The King is mad,
The King is mute
The castle is full of songs,
But the singers weep
Any joy is madness,
Only madness brings joy
The Jester is hanged,
Barons hold their daggers,
Pale Dukes silently wait
Each man feels like a maiden
Shields are dusty
Swords are blunt
Spears are rusty
Wardrums are quiet
The seeds were rotten,
Harvest is bitter
The fields are barren,
The mills stand still
Crows wait on the trees
Wide eyed owls watch
Hungry vultures laugh
Sharp is the blade of Fate
Twilight whispers omens
Restless sleepers
Hear gloomy chants
One Voice must sing,
Two Princes may fall;
Will the King hold his throne?
The blade of Fate is sharp
The folk on the marshes
Breath poisoned air;
Some choke, some die
Too many people cry
In the mourning castle,
The court laughs no more
The throne crumbles,
The crown is heavy
Even heroes avoid
Haunted roads and paths
Starving ghosts roam,
By hatred blind
The King is deaf,
The King is drunk,
The King is mad,
The King is mute
The castle is full of songs,
But the singers weep
Any joy is madness,
Only madness brings joy
The Jester is hanged,
Barons hold their daggers,
Pale Dukes silently wait
Each man feels like a maiden
Shields are dusty
Swords are blunt
Spears are rusty
Wardrums are quiet
The seeds were rotten,
Harvest is bitter
The fields are barren,
The mills stand still
Crows wait on the trees
Wide eyed owls watch
Hungry vultures laugh
Sharp is the blade of Fate
terça-feira, 30 de junho de 2020
segunda-feira, 29 de junho de 2020
Chaves, Café e Erotismo
No próprio seriado há um episódio em que o Professor entra na casa de Dona Florinda e logo manda Quico desligar a TV e ir brincar na vila. O garoto protesta, mas a mãe diz que ela e Girafales precisavam "descansar"...
Eu era adulto quando li "O diário do Chaves" e confesso que fiquei um tanto... abalado. Especialmente porque a obra é do próprio Bolaños, então parece que a coisa sempre foi proposital, mais que uma insinuação tardia. Talvez uma piada para os adultos, inclusive porque no México não era um programa propriamente infantil; era transmitido pela Televisa para uma audiência ampla, nas noites de sábado.
Eu era adulto quando li "O diário do Chaves" e confesso que fiquei um tanto... abalado. Especialmente porque a obra é do próprio Bolaños, então parece que a coisa sempre foi proposital, mais que uma insinuação tardia. Talvez uma piada para os adultos, inclusive porque no México não era um programa propriamente infantil; era transmitido pela Televisa para uma audiência ampla, nas noites de sábado.
Chaves e Chapolim foram televisionados como programas "infantis" no Brasil, por opção do SBT. No entanto, inúmeros episódios possuem insinuações de caráter sexual, geralmente sutis. Há discretas referências a pornografia (as tais revistas do Seu Madruga), homossexualidade (especialmente no episódio em que vários personagens suspeitam de envolvimento homoerotico entre Seu Madruga e Prof. Girafales) e até a sadomasoquismo (o beliscão acidental de Prof. Girafales na "Bruxa do 71").
Minha geração era criança e cresceu vendo tudo com o mesmo olhar inocente. Mas imaginar que enquanto as coisas se passavam no pátio da vila havia gente (figurativamente) "haciendo amor" nos bastidores... Perturbador.
Minha geração era criança e cresceu vendo tudo com o mesmo olhar inocente. Mas imaginar que enquanto as coisas se passavam no pátio da vila havia gente (figurativamente) "haciendo amor" nos bastidores... Perturbador.
Nos choca perceber tardiamente que a relação entre Girafales e Florinda fosse além dos platônicos buquês de flores e xícaras de café...
Assuntos relacionados:
América Latina,
Arte,
Chaves e Chapolim,
Comunicação,
Cotidiano,
Humor,
Imagens,
Imaginação,
Indústria Cultural,
Sexualidade
quinta-feira, 25 de junho de 2020
O fluir e refluir do tempo
"This past [...] stretching all the way back to its origin, instead of pulling us back, pushes us forward, meaning that, contrary to what might be expected, it is the future that propels us back into the past."
Hannah Arendt
quarta-feira, 24 de junho de 2020
Getúlio Vargas e o Brasil na II Guerra Mundial
Extratos do livro Uma História do Brasil, de Thomas Skidmore
Em torno de 1934, o tipo de confronto geopolítico europeu já estava se tornando claro. A Alemanha nazista tinha seus olhos não apenas em seus vizinhos europeus, mas também sobre a crescente influência no Hemisfério Ocidental. Ela identificava o Brasil como um importante parceiro comercial e começava a exercer influência sobre essa relação bilateral, por meio de um mecanismo que consistia numa moeda alemã especial usada para pagar pelas exportações brasileiras, que podia ser resgatada apenas pela compra de exportações alemãs, criando uma forma de comércio amarrado. [...] Entretanto, os alemães estavam interessados em mais do que comércio. Eles também queriam atrair o Brasil para a sua esfera político-militar, e cultivavam sistematicamente a amizade com oficiais do Exército brasileiro, conhecidos como admiradores da destreza militar alemã, bem como ofereciam ao Brasil armas e treinamento técnico. Do mesmo modo que no período pré-Primeira Guerra Mundial, o governo dos EUA preocupava-se com essa estratégia alemã, tendo o Departamento de Estado denunciado a política comercial alemã como discriminatória. Os militares americanos tentaram agir contra as ofertas alemãs de armas e treinamento, mas fracassaram neste esforço. Getúlio havia tentado obter equipamento militar americano antes, mas o Congresso dos EUA, um corpo bastante isolacionista durante a década de 1930, proibira a venda de armas no exterior pelos Estados Unidos.
[...]
A opinião pública brasileira era o alvo em uma batalha sobre que lado apoiar na guerra que se aproximava na Europa. O sentimento da elite favorecia fortemente os Aliados por razões culturais, e, até sua supressão em 1935, os comunistas também haviam sido eficazes em promover opiniões antinazistas. Mas alguns brasileiros, como em 1914, eram favoráveis à Alemanha, não obstante os laços culturais históricos.
Getúlio mostrava-se inclinado a procurar os Estados Unidos para laços militares, tentando, como já citamos, comprar armas deles antes de se voltar para a Alemanha. Em 1937 ele também oferecera ao presidente Roosevelt o uso de bases litorâneas no Brasil, oferta esta que foi recusada, presumivelmente porque Roosevelt não podia permitir-se contrariar o Congresso isolacionista, dando a impressão que se preparava para a guerra. E uma oferta brasileira de comprar destroieres excedentes dos EUA foi igualmente recusada quando as autoridades americanas cederam aos protestos da Argentina contra a venda. Quando a guerra finalmente eclodiu em 1939, Getúlio e seus generais, lembrando essas rejeições, preferiram permanecer neutros até que os Estados Unidos estivessem preparados para pagar um preço justo pelo apoio brasileiro. Além disso, os brasileiros continuavam a cultivar relações com as potências do Eixo como parte do jogo de usá-las contra os Estados Unidos.
O Brasil não declarou guerra até meados de 1942, quando os que estavam em cima do muro puderam ver que a sorte militar havia virado para o lados dos Aliados. A invasão da Rússia em 1941 havia apanhado a Wermacht em um feroz inverno russo, e os submarinos alemães sofriam pesadas perdas na batalha do Atlântico. O Brasil não podia esperar mais se pretendia obter alguma compensação atraente por entrar na guerra.
O Brasil tinha ao menos dois trunfos de que os Aliados precisavam. Um era matéria-prima, incluindo borracha natural, quartzo (essencial para comunicações por rádio) e outros minerais. O outro era seu litoral, que oferecia bases aéreas e marítimas em pontos estratégicos no Oceano Atlântico. Getúlio conseguiu um acordo atraente, pelo qual o país concordava em fornecer a matéria-prima e as bases aos EUA, apenas em troca de equipamento militar, assistência técnica e financiamento para uma usina siderúrgica brasileira (localizada em Volta Redonda). Essa aliança fez do Brasil o mais evidente parceiro latino-americano dos Estados Unidos na guerra. Além disso, estabelecia precedente para o apoio do governo americano à industrialização de base em um país do Terceiro Mundo.
Em 1941 Getúlio começou a mover-se em direção aos Aliados ao aprovar um projeto da Pan American Airways (sob contrato do exército dos EUA) para modernizar aeroportos no Norte e Nordeste. Em janeiro de 1942, na conferência do Rio de Janeiro, onde o apoio latino-americano para a entrada na guerra agora prevalecia, graças ao ataque japonês a Pearl Harbor, o Brasil rompeu ostensivamente com o Eixo. O ingresso do Brasil na guerra tinha uma importante implicação para a política interna. A decisão de unir-se às democracias era um golpe contra os autoritaristas que alegavam que a democracia não tinha lugar no Brasil, e supunham que Getúlio concordava com eles. Este e seus generais, ao questionarem essa suposição, estavam montando o cenário para um debate que iria terminar com o fim da ditadura getulista.
Com a entrada do Brasil na guerra, uma onda de funcionários norte-americanos, tanto militares como civis, veio ao Brasil. [...] Em 1943, brasileiros e norte-americanos construíram uma rede de modernas bases militares aéreas e marítimas no litoral do Nordeste.
Junto com a ofensiva militar dos EUA no Brasil veio uma ofensiva cultural. O presidente Roosevelt designou o multimilionário Nelson Rockefeller para dirigir um novo escritório cujo objetivo era promover a melhoria das relações culturais com a América Latina, tendo o Brasil como alvo principal. O escritório de Rockefeller recrutou talentos como Orson Welles e Walt Disney para fazerem filmes voltados ao fortalecimento da opinião pró-EUA.
[...]
Por trás dessas atividades jaziam objetivos d elongo prazo dos EUA: sendo um deles o aumento de sua penetração econômica no país. Embora o investimento norte-americano no Brasil já superasse o investimento britânico, investidores norte-americanos ansiavam por novos progressos. [...] A colaboração durante a guerra oferecia uma base excelente para a ofensiva econômica norte-americana posterior. Aviões norte-americanos passaram a dominar não apenas o uso militar, mas também o civil.
[...]
O desejo de Getúlio de identificar o Brasil com a causa dos Aliados levou-o a oferecer três divisões do Exército brasileiro, cujos oficiais se entusiasmaram com a ideia, para combater os alemães no cenário de guerra do Mediterrâneo. Getúlio tinha dois importantes propósitos ao insistir no papel militar brasileiro: um era enfatizar a posição do Brasil como único país latino-americano a enviar forças terrestres sob sua própria bandeira para a guerra [...]; e o segundo era despertar o orgulho brasileiro e dar ao público uma razão patriótica para apoiar o governo.
Para enfatizar que se tratava de um esforço nacional, Getúlio queria efetivos recrutados por todo o país e insistiu para que todo estado fosse representado, independentemente da qualidade dos recrutas locais. A força resultante era altamente heterogênea, carecendo de treinamento comum e desprovida por completo de experiência de combate. [...] Os comandantes [brasileiros] esperavam combater na África do Norte, portanto as tropas receberam uniformes de verão, mas a Força Expedicionária Brasileira, ou FEB, foi designada para operar com o Quinto Exército dos EUA, que combatia contra a renhida defesa alemã em terrenos montanhosos ao norte de Roma, exatamente quando se iniciava um rigoroso inverno. Os brasileiros foram lançados à batalha com a missão de escalar um precipício no qual os alemães estavam com os canhões em posição dominante. Apanhados no fogo cerrado, sofreram pesadas baixas e retiraram-se desordenadamente.
Embora difícil de surpreender, [...] o fracasso nesse primeiro combate foi extremamente perturbador para os comandantes brasileiros, que recorreram aos norte-americanos para ajuda e orientação. As tropas nacionais passaram por rápido retreinamento e logo retornaram ao combate. Seu desempenho foi significativamente melhor, e eles ajudaram a capturar Monte Cassino, o monastério histórico que assinalava a principal posição alemã. O registro do combate brasileiro na Itália tornou-se ulteriormente objeto de amarga controvérsia: os relatos oficiais enfatizavam o autêntico heroísmo depois do retreinamento, mas os críticos (incluindo alguns oficiais brasileiros) enfatizavam o fracasso inicial pelo qual eles injustamente culpavam comandantes incompetentes.
Em torno de 1934, o tipo de confronto geopolítico europeu já estava se tornando claro. A Alemanha nazista tinha seus olhos não apenas em seus vizinhos europeus, mas também sobre a crescente influência no Hemisfério Ocidental. Ela identificava o Brasil como um importante parceiro comercial e começava a exercer influência sobre essa relação bilateral, por meio de um mecanismo que consistia numa moeda alemã especial usada para pagar pelas exportações brasileiras, que podia ser resgatada apenas pela compra de exportações alemãs, criando uma forma de comércio amarrado. [...] Entretanto, os alemães estavam interessados em mais do que comércio. Eles também queriam atrair o Brasil para a sua esfera político-militar, e cultivavam sistematicamente a amizade com oficiais do Exército brasileiro, conhecidos como admiradores da destreza militar alemã, bem como ofereciam ao Brasil armas e treinamento técnico. Do mesmo modo que no período pré-Primeira Guerra Mundial, o governo dos EUA preocupava-se com essa estratégia alemã, tendo o Departamento de Estado denunciado a política comercial alemã como discriminatória. Os militares americanos tentaram agir contra as ofertas alemãs de armas e treinamento, mas fracassaram neste esforço. Getúlio havia tentado obter equipamento militar americano antes, mas o Congresso dos EUA, um corpo bastante isolacionista durante a década de 1930, proibira a venda de armas no exterior pelos Estados Unidos.
[...]
A opinião pública brasileira era o alvo em uma batalha sobre que lado apoiar na guerra que se aproximava na Europa. O sentimento da elite favorecia fortemente os Aliados por razões culturais, e, até sua supressão em 1935, os comunistas também haviam sido eficazes em promover opiniões antinazistas. Mas alguns brasileiros, como em 1914, eram favoráveis à Alemanha, não obstante os laços culturais históricos.
Getúlio mostrava-se inclinado a procurar os Estados Unidos para laços militares, tentando, como já citamos, comprar armas deles antes de se voltar para a Alemanha. Em 1937 ele também oferecera ao presidente Roosevelt o uso de bases litorâneas no Brasil, oferta esta que foi recusada, presumivelmente porque Roosevelt não podia permitir-se contrariar o Congresso isolacionista, dando a impressão que se preparava para a guerra. E uma oferta brasileira de comprar destroieres excedentes dos EUA foi igualmente recusada quando as autoridades americanas cederam aos protestos da Argentina contra a venda. Quando a guerra finalmente eclodiu em 1939, Getúlio e seus generais, lembrando essas rejeições, preferiram permanecer neutros até que os Estados Unidos estivessem preparados para pagar um preço justo pelo apoio brasileiro. Além disso, os brasileiros continuavam a cultivar relações com as potências do Eixo como parte do jogo de usá-las contra os Estados Unidos.
O Brasil não declarou guerra até meados de 1942, quando os que estavam em cima do muro puderam ver que a sorte militar havia virado para o lados dos Aliados. A invasão da Rússia em 1941 havia apanhado a Wermacht em um feroz inverno russo, e os submarinos alemães sofriam pesadas perdas na batalha do Atlântico. O Brasil não podia esperar mais se pretendia obter alguma compensação atraente por entrar na guerra.
O Brasil tinha ao menos dois trunfos de que os Aliados precisavam. Um era matéria-prima, incluindo borracha natural, quartzo (essencial para comunicações por rádio) e outros minerais. O outro era seu litoral, que oferecia bases aéreas e marítimas em pontos estratégicos no Oceano Atlântico. Getúlio conseguiu um acordo atraente, pelo qual o país concordava em fornecer a matéria-prima e as bases aos EUA, apenas em troca de equipamento militar, assistência técnica e financiamento para uma usina siderúrgica brasileira (localizada em Volta Redonda). Essa aliança fez do Brasil o mais evidente parceiro latino-americano dos Estados Unidos na guerra. Além disso, estabelecia precedente para o apoio do governo americano à industrialização de base em um país do Terceiro Mundo.
Em 1941 Getúlio começou a mover-se em direção aos Aliados ao aprovar um projeto da Pan American Airways (sob contrato do exército dos EUA) para modernizar aeroportos no Norte e Nordeste. Em janeiro de 1942, na conferência do Rio de Janeiro, onde o apoio latino-americano para a entrada na guerra agora prevalecia, graças ao ataque japonês a Pearl Harbor, o Brasil rompeu ostensivamente com o Eixo. O ingresso do Brasil na guerra tinha uma importante implicação para a política interna. A decisão de unir-se às democracias era um golpe contra os autoritaristas que alegavam que a democracia não tinha lugar no Brasil, e supunham que Getúlio concordava com eles. Este e seus generais, ao questionarem essa suposição, estavam montando o cenário para um debate que iria terminar com o fim da ditadura getulista.
Com a entrada do Brasil na guerra, uma onda de funcionários norte-americanos, tanto militares como civis, veio ao Brasil. [...] Em 1943, brasileiros e norte-americanos construíram uma rede de modernas bases militares aéreas e marítimas no litoral do Nordeste.
Junto com a ofensiva militar dos EUA no Brasil veio uma ofensiva cultural. O presidente Roosevelt designou o multimilionário Nelson Rockefeller para dirigir um novo escritório cujo objetivo era promover a melhoria das relações culturais com a América Latina, tendo o Brasil como alvo principal. O escritório de Rockefeller recrutou talentos como Orson Welles e Walt Disney para fazerem filmes voltados ao fortalecimento da opinião pró-EUA.
[...]
Por trás dessas atividades jaziam objetivos d elongo prazo dos EUA: sendo um deles o aumento de sua penetração econômica no país. Embora o investimento norte-americano no Brasil já superasse o investimento britânico, investidores norte-americanos ansiavam por novos progressos. [...] A colaboração durante a guerra oferecia uma base excelente para a ofensiva econômica norte-americana posterior. Aviões norte-americanos passaram a dominar não apenas o uso militar, mas também o civil.
[...]
O desejo de Getúlio de identificar o Brasil com a causa dos Aliados levou-o a oferecer três divisões do Exército brasileiro, cujos oficiais se entusiasmaram com a ideia, para combater os alemães no cenário de guerra do Mediterrâneo. Getúlio tinha dois importantes propósitos ao insistir no papel militar brasileiro: um era enfatizar a posição do Brasil como único país latino-americano a enviar forças terrestres sob sua própria bandeira para a guerra [...]; e o segundo era despertar o orgulho brasileiro e dar ao público uma razão patriótica para apoiar o governo.
Para enfatizar que se tratava de um esforço nacional, Getúlio queria efetivos recrutados por todo o país e insistiu para que todo estado fosse representado, independentemente da qualidade dos recrutas locais. A força resultante era altamente heterogênea, carecendo de treinamento comum e desprovida por completo de experiência de combate. [...] Os comandantes [brasileiros] esperavam combater na África do Norte, portanto as tropas receberam uniformes de verão, mas a Força Expedicionária Brasileira, ou FEB, foi designada para operar com o Quinto Exército dos EUA, que combatia contra a renhida defesa alemã em terrenos montanhosos ao norte de Roma, exatamente quando se iniciava um rigoroso inverno. Os brasileiros foram lançados à batalha com a missão de escalar um precipício no qual os alemães estavam com os canhões em posição dominante. Apanhados no fogo cerrado, sofreram pesadas baixas e retiraram-se desordenadamente.
Embora difícil de surpreender, [...] o fracasso nesse primeiro combate foi extremamente perturbador para os comandantes brasileiros, que recorreram aos norte-americanos para ajuda e orientação. As tropas nacionais passaram por rápido retreinamento e logo retornaram ao combate. Seu desempenho foi significativamente melhor, e eles ajudaram a capturar Monte Cassino, o monastério histórico que assinalava a principal posição alemã. O registro do combate brasileiro na Itália tornou-se ulteriormente objeto de amarga controvérsia: os relatos oficiais enfatizavam o autêntico heroísmo depois do retreinamento, mas os críticos (incluindo alguns oficiais brasileiros) enfatizavam o fracasso inicial pelo qual eles injustamente culpavam comandantes incompetentes.
O engajamento do Brasil no combate deixou um legado significativo. Primeiro, forneceu uma base para a reivindicação do país de um papel importante no pós-guerra [...]. Segundo, o envio da força expedicionária aumentou imensamente o prestígio do Exército brasileiro. Como os únicos latino-americanos a terem lutado na Europa, os brasileiros podiam manter a cabeça erguida entre os Aliados. Terceiro, o combate conjunto na Itália fortaleceu os laços entre os militares norte-americanos e brasileiros, mesmo considerando-se que o Brasil permanecia claramente como o sócio menor.
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