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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Orgulho bobo

Pode ser uma coisa boba e trivial, mas me sinto contente em morar num edifício denominado José do Patrocínio, em homenagem ao merecidamente célebre jornalista e abolicionista.


A culpa é da Isabel

 Minha avó tinha um vizinho nos anos 50 que ainda dizia "Isso é tudo culpa da Princesa Isabel". Os netos desse cara devem estar por aí, possivelmente apoiando o dito-cujo.

Lei Áurea: o "crime" da Princesa Isabel...

Carta a um stereo-mega-surround evagelizador

Prezado Vizinho,

Ouvir música gospel no último volume não "evangelizará" ninguém. O senhor está apenas oferecendo exemplo de má educação. Por gentileza, não transforme nosso prédio em uma Torre de Babel!

Atenciosamente,
Um outro cristão




domingo, 4 de agosto de 2019

Apenas um bispo

Não sou grande coisa como enxadrista.

Isto esclarecido, acabo de concluir uma das partidas mais interessantes que já joguei - contra uma inteligência artificial, digamos, razoável. Em todo caso, uma inteligência artificial forte suficiente para destroçar meu jogo, deixando-me apenas com o rei, um bispo, uma torre e um punhado de peões contra um poderoso batalhão.

Apesar da desvantagem, segui resistindo - ou sobrevivendo - xeque após xeque, sem grande esperança de virar o jogo, adiando o inevitável xeque-mate.

No entanto, oportunidades inesperadas acontecem. Uma breve sequência de erros do adversário ofereceu a fugidia oportunidade de capturar uma torre com meu bispo sobrevivente. Pouco depois, consegui realizar um xeque com minha única torre.

Com paciência e persistência ia capturando peças adversárias com o bispo e usando a torre para alguns xeques providenciais. Perdia um peão aqui e ali, mas paulatinamente reduzia minha desvantagem.

Me restavam apenas dois peões bastante avançados, mas bloqueados desde o início do jogo, quando tive refresco suficiente para remover os obstáculos usando o bispo. Duas jogadas depois pude promover um desses peões a rainha. Daí em diante, usando essa rainha e a torre consegui eliminar todas as ameaças restantes.

Capturado o último cavalo adversário, restavam apenas os dois reis, minha rainha, minha torre, meu derradeiro peão e o intrépido bispo. Nas jogadas seguintes não foi difícil usar rainha e torre para cercar o oponente até o xeque-mate.

Esse é, provavelmente, o mais doce tipo de vitória em qualquer gênero de jogo: sofrida, sob opressiva desvantagem, sempre a um passo da derrota, com poucas expectativas razoáveis de virada - até que, súbita, tênue, quase inacreditável, surge uma ínfima oportunidade, nada além de um vislumbre de esperança na hora mais sombria. Todavia, agarrando tenazmente essa quase desesperada esperança, mero fio de luz num labirinto de trevas, faz-se possível alcançar a saída.

Apenas um bispo, na casa certa, na jogada certa, pode fazer toda a diferença. Bem aproveitada, uma ínfima oportunidade pode iniciar uma grande mudança. Para alcançar tal oportunidade, pode ser necessário passar por duras perdas, suportar inúmeros reveses e resistir jogada após jogada, apesar de nenhuma esperança tangível.

Assim também é nas pequenas e grandes coisas da vida. Suportando, dia após dia, as adversidades, às vezes chega aquele breve, inefável momento que abre a pequenina porta que conduz para fora do sombrio labirinto, transmutando a insustentável desvantagem em doce vitória.

Por certo, a vida senpre termina num xeque-mate, mas como lembra a encantadora Sonmi de Cloud Atlas, os verdadeiros vencedores são aqueles que conseguem vislumbrar um xeque-mate depois do xeque-mate...


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Complexo de Mutema

"O problema do brasileiro é viver esperando um Sassá Mutema". - Sabedoria de um taxista que me conduziu hoje.


quarta-feira, 31 de julho de 2019

Satisfação retrospectiva

A cada dia do mandato Bolsonaro me sinto mais contente com o fracasso de Lula em suas tentativas de introduzir o Brasil no Conselho de Segurança da ONU...

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Bolsonaro e a guerra aos mortos

Reza a lenda que certo cortesão do mui-católico imperador Carlos V lhe sugeriu em certa ocasião que abrisse a sepultura de Martinho Lutero e profanasse os restos mortais do reformador.

Diante da grotesca sugestão, Carlos V teria respondido muito cavalheirescamente: "Eu não faço guerra aos mortos". É difícil saber a veracidade dessa história, mas a moral da anedota é muito simples: gente civilizada respeita os mortos e o luto, por mais execráveis que lhe pareçam os defuntos.

O respeito diante da morte, da doença e da dor do adversário é uma das linhas que demarca a fronteira entre a civilidade e a barbárie.

Hoje, com suas grotescas, imorais e indecorosas insinuações acerca do falecido pai do atual presidente da OAB, o Sr. Jair Messias Bolsonaro confirma mais uma vez sua vocação para a selvageria.

O triste episódio lembra certa reflexão do historiador conservador Christopher Dawson:

Um valentão pode ser melhor [na guerra] que um intelectual, mas uma sociedade dominada por valentões não é necessariamente uma sociedade corajosa; é mais provável que seja uma sociedade desintegrada e desordenada. 

Temos hoje um "valentão" como presidente, acompanhado no poder por muitos outros "valentões" da mesma estirpe. As circunstâncias exigem de todos os brasileiros de bom-senso, independentemente de suas convicções políticas, a coragem e a firmeza de caráter para não ceder à imensa tentação de responder às provocações dos "valentões" com a mesma truculência.

Não podemos entrar no jogo dos "valentões", pois o resultado final desse jogo significa o naufrágio da democracia, da república e da própria sociedade. Se nos tornamos bárbaros a pretexto de combater a barbárie, passamos a ser parte do problema, e nos afastamos da solução.

Não se apaga um incêndio com querosene. A brutalidade só pode ser efetivamente superada pela inabalável mansidão. Mas como é duro tal desafio...


quarta-feira, 24 de julho de 2019

terça-feira, 23 de julho de 2019

Dispensa comentários

"Hot-Dog do Senhor - O preferido do presidente".

Weintraub vaiado

O Ministro da Educação Abraham Weintraub acaba de ser alvo de uma manifestação no Pará, enquanto jantava numa praça com sua família. O episódio suscita algumas reflexões e críticas a ambos os lados:

-Apesar da justa indignação suscitada pelas atitudes do ministro, acho esse tipo de manifestação contraproducente: ajuda pouco, deixa os ânimos ainda mais acirrados e dão margem ao sujeito para se fazer de vítima. No limite, guardadas as proporções, acaba legitimando episódios como o da FLIP.

-Anexar gritos de "Lula Livre" a tudo esvazia qualquer causa, por justa que seja...

-Há de se convir que o contexto da manifestação foi pouco feliz. Desrespeitaram a família do sujeito. Não é bacana. Há que se preservar alguns limites. É questão de civilidade e de fair play democrático.

-A tortuosa redação dos queixumes do ministro no Twitter é uma atração à parte (abaixo). O Ministro da Educação mal consegue escrever um texto coerente com poucas dezenas de caracteres. Não espanta que tivesse um desempenho acadêmico pífio durante a graduação. Só mesmo com muita kafta pra aguentar...

-Acho engraçado ver um ministro que sempre se manifesta com indecorosa truculência e anda com gente que defende execução extrajudicial no café da manhã equiparando vaia a violação de direitos humanos... Haja paciência.

-É curioso que o ministro se escandalize com o desrespeito a seus filhos, mas tolere que o presidente enalteça o trabalho infantil...


sábado, 20 de julho de 2019

Liderança Mundial

O Brasil não se destaca no desenvolvimento de inteligência artificial, mas certamente é uma liderança global em burrice natural.

Peço antecipadamente desculpas aos encantadores burrinhos por compará-los à gente brasílica.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Algumas coisas são mais complexas do que parecem; outras parecem mais complexas do que realmente são - discernir umas das outras é uma arte mais difícil do que se imagina.

sábado, 13 de julho de 2019

Minha candidatura diplomática

Se falar inglês e fritar hambúrguer nas montanhas do Colorado qualificam Eduardo Bolsonaro a ser embaixador em Washington, calculo que meu diploma C2 de proficiência em língua francesa aplicada a Ciências Humanas, concedido pelo Ministério da Educação (da França) e meu breve período como pesquisador-visitante na Sorbonne me qualifiquem muito amplamente para nossa embaixada em Paris. Falta ser amigo dos filhos do Macron, mas suponho que seja um problema contornável - afinal de contas, sei de cor alguns refrões de Montand, Aznavour e Trenet, e isso deve ser considerado em meu favor. 14 de julho seria provavelmente um bom dia para discutir minha indicação. Há espaço na minha agenda.  Jair, je suis là!


sexta-feira, 12 de julho de 2019

Carta Aberta aos Eleitores de Bolsonaro

Caro Cidadão,

escrevo para você que votou em Jair Bolsonaro no 1° ou no 2° turno das eleições de 2018. Não votei em Bolsonaro em nenhum dos dois turnos, mas respeito a sua escolha.

Não sei que motivos levaram você a votar em Bolsonaro. Talvez você gostasse dele ou achasse que ele era a melhor opção para o Brasil. Talvez você simplesmente não quisesse mais uma gestão petista.

Parto do princípio de que você é um cidadão bem intencionado, respeitável, trabalhador, cumpridor das leis, cuidadoso com sua família e leal a seus amigos. Não quero acreditar que você seja fascista, racista, homofóbico ou ignorante. Talvez você o considere realmente "o Mito"; ou talvez você não concorde com 100% do que Bolsonaro diz.

É provável que você tenha assistido a posse presidencial em janeiro repleto de esperanças - seu candidato venceu e você achava que ele iria melhorar a situação do país. Talvez você pensasse: "esse presidente vai acabar com a corrupção no Brasil"; "Bolsonaro vai acabar com as mamatas"; ou ainda, "ele vai botar o país em ordem".

Todavia, me pergunto: o que você pensa agora, após seis meses de governo? Você está satisfeito? Você vê indícios de melhora?

Mais ainda: alguma coisa está melhor para sua família graças a Bolsonaro? Você se sente mais seguro em sua cidade? Você está menos endividado? Está mais fácil pagar suas contas? Seu salário melhorou? Está sobrando mais dinheiro no final do mês? Sua poupança cresceu? Seus amigos ou parentes desempregados conseguiram emprego? A escola do seu filho melhorou? Você sente mais confiança no atendimento do SUS? Enfim, você consegue perceber a SUA vida melhorando em algum aspecto?

Você ainda tem esperanças - "foram apenas seis meses", você me dirá. Talvez você tenha razão; ainda assim, você há de concordar que esse primeiro semestre de governo foi uma bagunça, um festival de trapalhadas e baixarias. Bolsonaro e sua equipe mal conseguem se entender; medidas são anunciadas por uns e logo depois desmentidas por outros. Os membros de seu partido brigam entre si pelas razões mais fúteis. Frota ofende Hasselmann, que xinga Kataguiri, que briga com Fulano... A cada semana há um novo escândalo. O presidente não sabe se comportar como presidente; posta barbaridades e até obscenidades em suas redes sociais. Enquanto isso, o Brasil segue estagnado. Quando as coisas começam tão mal, é provável que terminem pior - e ainda temos três anos e meio de governo pela frente...

Bolsonaro e Mourão se diziam preocupados com a família brasileira. A sua família? A minha família? Ou as famílias deles?

Em apenas seis meses, o filho de Mourão já foi promovido no Banco do Brasil e indicado a um elevado cargo gerencial; seu salário triplicou. Até Carlos Bolsonaro ironizou o fato nas redes
sociais: "esse é bom bagarai". Nos últimos dias, no entanto, chegou a vez de seu próprio irmão, Eduardo, ser sugerido pelo pai como potencial embaixador nos Estados Unidos - cargo para o qual não tem o menor preparo, mas cujas regalias pretende aproveitar. Onde está aquele Jair Bolsonaro que se dizia defensor da meritocracia? Será que Carlos também considera seu irmão "bom bagarai"?

Enquanto faltam postos de trabalho para milhões de brasileiros, não faltam excelentes oportunidades profissionais para as famílias presidenciais. O nome disso, todos nós sabemos: nepotismo. Foi para isso que você votou em Bolsonaro e Mourão? Após as eleições, muita gente afirmava que a mamata iria acabar; a realidade, no entanto, vem mostrando que as mamatas seguem firmes e fortes.

Em campanha, Bolsonaro defendia uma "nova política" - como se ele mesmo e seus familiares não tivessem passado quase três décadas vivendo da "velha política". Vale lembrar que durante muitos anos o Sr. Jair Messias Bolsonaro viveu muito confortável sob as asas de Maluf no PP, envolvido em inúmeros escândalos de corrupção.

Não comentarei a reforma previdenciária em curso, que promete prejudicar gravemente a todos nós trabalhadores; se informe sobre o assunto e julgue você mesmo, pois essa carta já se faz longa e não desejo cansá-lo demais.

Deixo aqui um simples convite à sua reflexão: será que vale a pena continuar defendendo Bolsonaro? Votar mal faz parte da vida de qualquer eleitor. Eu mesmo já me arrependi de ter votado em certos candidatos em determinadas ocasiões.

Decepções e frustrações, às vezes, podem nos paralisar. Entramos em estado de negação, enfiando a cabeça na terra como os proverbiais avestruzes; nos recusamos a enxergar a dura realidade, tapando o sol com a peneira. Arrumamos mil desculpas esfarrapadas para proteger o político que outrora mobilizou nosso entusiasmo. Tentamos coloca-lo acima do bem e do mal.

Não deveria ser assim. Temos que ser cidadãos, e não torcedores. Devemos cobrar e criticar todos os políticos, especialmente aqueles que nós mesmos elegemos. Eles não são nossos líderes iluminados; não são pessoas especiais e nem devem ser idolatrados. São apenas gente como a gente, pessoas que elegemos para cuidarem de nossos interesses coletivos. Eles estão lá para servir o povo, e não o contrário. Ao constatar nossos equívocos eleitorais, temos simplesmente que ter a coragem de admitir o erro, criticar aqueles que pisotearam nossas esperanças e faltaram com suas promessas - e não reelege-los nunca mais. Nunca é tarde demais para reparar um erro.

Termino, caro cidadão, com uma constatação banal: VOCÊ É MELHOR QUE BOLSONARO. Se você, como suponho, é uma pessoa bem intencionada, trabalhadora e cumpridora das leis, VOCÊ É MELHOR QUE BOLSONARO. Não perca seu tempo defendendo um político que não respeita sequer as pessoas mais próximas dele e que provavelmente não gastaria meio minuto para defender você. VOCÊ MERECE UM PRESIDENTE MELHOR QUE BOLSONARO.

Não peço a você que apressadamente jogue fora suas esperanças, apenas que observe muito bem como nosso presidente vem agindo e como agirá no resto de seu mandato. Reflita bastante - e faça a escolha que você julgar melhor em 2022. Melhor ainda: pense com muito cuidado e serenidade na hora de votar para prefeito e vereador em 2020.

Respeitosamente,
Luiz Fabiano de Freitas Tavares,
Professor, historiador e cidadão,
Ao seu dispor


quinta-feira, 11 de julho de 2019

"Nova Previdência" - Lágrimas de Fogo

Hoje choro lágrimas de fogo.

Choro pela maldição conjurada na Câmara dos Deputados contra o povo brasileiro.

Choro por essa sórdida "Reforma" que condenará milhões de trabalhadores a uma velhice de miserável subsistência. Choro por esse texto infame que rouba o pão da boca de inválidos, viúvas e órfãos.

Choro por essa abominação que promete acabar com privilégios, mas deixa intocados magistrados e militares.

Choro por aqueles que teimam em acreditar que essa reforma trará emprego e prosperidade ao país. Choro por essas vãs esperanças de gente desesperada.

Choro pela gente ingênua, esfaqueada nas costas por aqueles que prometiam zelar por seus interesses.

Choro por todos os analfabetos políticos, analfabetos funcionais, analfabetos disfuncionais e analfabetos emocionais que entregam o próprio destino em mãos tão imundas.

Choro pelas lágrimas de crocodilo derramadas por Rodrigo Maia. Choro pelos pérfidos aplausos que causaram essas lágrimas.

Sinto tristeza, raiva, indignação e impotência, misturadas, borbulhantes, ferventes.

Hoje sou um vulcão.

Hoje choro lágrimas de fogo.