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quarta-feira, 11 de julho de 2012

Fora do prumo...

Nessa semana estivemos em Rouen. Ficamos apaixonados pelos prédios da cidade construídos em "colombage", usando grandes toras de carvalho extraídas das florestas da região. É um tipo de construção típica da Bretanha e da Normandia. Como as fotos mostram, a construção ia muito de improviso...


 Essa parece que fico esprimidinha...

 Segundo meu amigo Igor, engenheiro civil, trata-se de uma patologia da edificação chamada de recalque diferencial.
 Apesar da cara medieval, esses prédios são em sua maioria dos séculos XVI, XVII e XVIII.
 Talvez ainda mais interessante seja essa igreja construída em homenagem a Joana D`Arc, no local onde ela foi queimada. Construída no século XX, o arquiteto teve a excelente ideia de se inspirar nas características arquitetônicas da cidade para construir um prédio propositadamente torto. Excelente exemplo de apropriação e "reciclagem" da História...

domingo, 1 de julho de 2012

Da arte de visitar museus

Desde bem pequeno sempre fui apaixonado por museus, uma das coisas que devo agradecer imensamente a minha família. Francamente, não lembro quando fui a um museu pela primeira vez, nem onde. Essa semana estive justamente pensando sobre o quanto essa experiência sempre renovada tem sido crucial em minha formação, e por outro lado, o quanto meu modo de visitar museus foi se transformando ao longo do tempo, conferindo sempre novos sentidos a essa vivência.

Quando criança, sentia essas visitas como algo mágico, envolto em profundo encantamento. Lembro sempre do quanto fiquei fascinado pelo barco chinês de brinquedo que pertenceu a D. Pedro II, peça de beleza inigualável, no Museu Histórico Nacional. Como descrever a inveja que à época senti do pequeno imperador por possuir um brinquedo tão fabuloso? Durante muito tempo, na minha ingenuidade infantil sonhei com a possibilidade de que alguma fábrica de brinquedos contemporânea - mais especificamente, a Estrela - tivesse a genial ideia de relançar o barquinho no mercado... Durante toda minha infância entretive essa relação de fascínio com os museus que visitava, relação muito mais empática e emotiva que intelectual, obviamente. Fico feliz de constatar que ainda hoje essa emoção não se tornou totalmente estranha: ainda sinto bater mais forte o coração ao encontrar determinadas peças, como o calendário de Coligny ou a estátua do almirante Chabot... Esses encontros, esperados ou inesperados, são sempre fascinantes.

Durante minha adolescência essa relação começou a passar por um longo processo de transformação, motivado especialmente pelo sonho de me tornar arqueólogo, lá pelos 13 anos de idade - quando desisti de ser detetive da Interpol! Com essa idade passei a consumir avidamente qualquer material sobre História que me caísse nas mãos - de livros, enciclopédias e revistas a filmes ou música clássica. Iniciava-se uma intensa fase de bricolagem intelectual, em que tentava simplesmente acumular de modo pouco crítico leituras e informações - quanto mais melhor! Obviamente os museus se tornaram um lugar privilegiado nesse sentido. Do olhar encantado, passei a um olhar fortemente analítico, conscientemente treinado, centrado em esforços de identificação, classificação (estilística, cronológica, geográfica...) e memorização. Foi nessa época que comecei a ler com rigor quase monástico todas as tabuletas que encontrava pela frente, detendo-me com atenção a literalmente cada peça: numa vitrine  com 40 artefatos, eu examinaria detidamente cada um deles! Foi nessa época que comecei a andar sozinho pela cidade, e visitar museus era uma de minhas diversões favoritas. Ia quase uma vez por mês ao Museu Nacional de Belas Artes! Não era incomum que eu visitasse duas vezes as exposições que mais me interessavam; cada visita dessas era atividade para muitas horas... As exposições permamentes se tornaram particularmente íntimas, objeto de uma contemplação longa e "vagabunda", quanto mais íntimo eu me tornava desses acervos...

Aos poucos essa experiência foi mudando de rumo, já no final de minha adolescência. Comecei a desenvolver um olhar cada vez menos classificatório e mnemônico, ao mesmo tempo mais crítico e mais sensível aos significados sociais, políticos, culturais e estéticos das peças. De certo modo, comecei a vivenciar a visita a museus como um encontro com fontes primárias, o que se acentuou muito mais com o ingresso na faculdade de História.

Desde então, meu olhar sobre os museus tem mudado muito. Creio que tenho construído uma relação mais autônoma com as exposições, à medida em que meus próprios conhecimentos me permitem hoje compreender algo consultando menos sistematicamente as placas, textos ou diagramas. De fato, atualmente me detenho muito menos sobre cada peça individualmente, mesmo porque qualquer acervo tem densidades variadas, com peças mais ordinárias, passíveis de uma apreensão em grupo, por assim dizer, e outras mais instigantes, que solicitam maior atenção - de certo modo, uma alternância entre olhar quantitativo ou qualitativo. Por outro lado, certa maturidade intelectual me dá maior segurança para decidir o que corresponde mais profundamente aos meus interesses e questionamentos pessoais - somada à óbvia constatação de que uma apreensão integral e definitiva do museu será sempre impossível. Além disso, tenho desenvolvido certa curiosidade "meta-museológica", cada vez mais aguçada: me questiono sobre a composição retórica da exposição visitada e sobre os discursos que ela subentende,  mas também sobre a própria história peculiar de cada museu, sua fundação e suas transformações, enfim, seu "devir institucional". De certo modo, agora mesmo, no momento da escrita desse post, me dou conta de que tenho tido cada vez mais uma relação dialética com os museus e seus acervos...

Peço perdão aos que tenham achado maçante essa egocêntrica digressão - enfim, aos que se interessaram suficientemente para chegar até aqui... Mas termino perguntando-lhes: e vocês, como visitam os museus? Quero ouvir seus comentários!

sábado, 30 de junho de 2012

Era uma vez em Lugdunum...

Estivemos ontem em Lugdunum, ou melhor, Lyon! A cidade foi o principal centro administrativo da Gália, durante o período posterior à conquista romana. Sobre a colina de Fourvière (corruptela de "Forum Vetus"), ainda é possível visitar as fabulosas ruínas do assentamento, além do excelente Museu Galo-romano.

A experiência de caminhar ali foi simplesmente indescritível. O melhor que posso fazer nesse sentido é postar algumas fotos... Afinal de contas, uma imagem diz mais que mil palavras!












domingo, 24 de junho de 2012

Aventuras na Bretanha - episódio I: Rennes

Ontem realizei um sonho: visitar a Bretanha francesa - também conhecida como "Pequena Bretanha" na Idade Média, em oposição à "Grã-Bretanha". Aguardava esse momento desde os 15 anos de idade... Meu primeiro "ataque" foi em Rennes, mas já tenho outras incursões programadas! A viagem foi tão emocionante que precisarei dividir o post em partes!

I - Na trilha dos celtas

Como se sabe, a Bretanha é um dos últimos centros de cultura celta ainda viva, especialmente devido à manutenção da língua bretã. Visitar Rennes, especialmente o Musée de Bretagne, foi uma experiência fantástica nesse sentido!

A fabulosa exposição permanente se propõe a apresentar cronologicamente a história da região através de inúmeros artefatos, desde a Pré-história aos dias atuais. Para um apaixonado pela cultura celta, foi uma experiência simplesmente indescrítivel. Particularmente instigante foi a possibilidade de seguir ao fio do tempo as transformações da cultura material na Bretanha e perceber o quanto uma herança celta e galo-romana se constituiu não exatamente através de permanências puras e simples, mas de um constante processo de reinvenção que continua até hoje.

Nesse sentido, o que mais atraiu minha atenção foi justamente observar as peculiaridades da arte bretã medieval, em perspectiva comparativa às obras que pude ver no Louvre. Nunca havia dedicado muita atenção à produção medieval de origem céltica, uma vez que sempre me interessei mais pela cultura celta da antiguidade, pelos "irredutíveis gauleses" contemporâneos de Astérix!

A arte da Bretanha na Idade Média é obviamente muito parecida com o resto da produção europeia da época, mas é nítido que sob as mesmas convergências e convenções estilísticas românicas ou góticas, a arte da região soube manter características perceptivelmente "célticas"; o mesmo vale para as expressões do período romano, com um inconfundível "traço" local. Indo além, encontramos um mesmo meneio céltico na época moderna e na contemporaneidade, particularmente no que diz respeito ao entalhe em madeira. Fiquei particularmente impressionado também com as capas de chuva de pescadores, usadas no século XX, que lembram muito os famosos "genii cuculati" da arte galo-romana.

No fim das contas, fica a dúvida: foi a Bretanha céltica que se apropriou de outras expressões culturais ou as tradições posteriores que se apropriaram de um substrato celta? Me parece que nenhuma das duas formulações dá conta adequadamente dessas longas e complexas interações culturais ao longo de dois mil anos...

Talvez nada sintetize melhor essas questões que essa emblemática combinação heráldica sobre a porta de um edifício do século XVII onde hoje funciona um liceu: o arminho da Bretanha e a Flor-de-lis da monarquia francesa lado a lado, em simétrica equivalência...


II - As impermanências do espaço

Há muito tempo atrás, Rennes era uma cidade murada, como a maioria das aglomerações urbanas europeias. Nessa época, a principal porta da cidade era a "Porte Mordelaise", diante da qual, segundo a tradição, os duques da Bretanha deviam prestar juramento de proteger a liberdade do povo bretão, como parte de sua sagração. Era também através dessa porta que aconteciam as entradas reais e episcopais na cidade, acontecimentos de grande importância para a sociedade de Antigo Regime.

 Porte Mordelaise vista "de fora"
 Porte Mordelaise vista "de fora" (detalhe)
Porte Mordelaise vista "de dentro"

O conjunto das muralhas de Rennes foi obra dos séculos, iniciando-se no século III d.C., com as crises do Império Romano, que tornaram necessárias estruturas de proteção da cidade, vulnerável ante episódios de violência de saqueadores famintos. Ao longo da Idade Média esse complexo defensivo aumentaria gradativamente, até o século XV. Após mais de um milênio de trajetória, as defesas de Rennes em sua máxima extensão contavam com doze portas e dezesseis torres.

No entanto, o desenvolvimento da artilharia pesada e principalmente a união do Ducado da Bretanha à coroa francesa tornaram tais edificações inúteis, sendo demolidas ou simplesmente se desmantelando com o passar dos séculos. Atualmente restam apenas a Porte Mordelaise e a Tour Duchesne (abaixo).
Também a Tour Duchesne tem uma curiosa história: durante séculos foi local dos jogos de "papegaut" em Rennes. Costume surgido na Idade Média,  esses jogos eram competições de companhias de arqueiros, onde uma ave de madeira ou papelão - o "papegaut" - era afixada no alto de um mastro ou de uma torre. Todos os arqueiros tentavam acertar o alvo, e o primeiro que conseguisse recebia o título de "roy du papegaut" e um prêmio invejável: um ano de isenção de impostos! Posteriormente o costume foi incorporado às companhias de arcabuzeiros, caindo em desuso apenas no século XVIII. Poucas cidades, entretanto, obtinham o "privilège de papegaut".

Como se vê, a porta e a torre não eram lugares ordinários, marcando eventos importantes para a cidade ou para o Ducado da Bretanha, que reforçavam seu prestígio social e importância política. Contudo,  muita coisa mudou... Pedindo informações, ninguém sabia o que era a "Tour Duchesne", ou melhor, ninguém reconhecia o topônimo. A torre tão importante, símbolo de um privilégio da cidade, se tornou apenas uma edificação anônima...

Por outro lado, a experiência de cruzar a Porte Mordelaise me pareceu muita curiosa, por um motivo: ela perdeu completamente seu significado original! Afinal de contas, o ato de passar sob seus arcos significava entrar na cidade, não apenas em seu sentido físico e material, mas também simbólico; significava provavelmente gozar da segurança, do prestígio e do privilégio ligado ao interior da enceinte de Rennes. Não é difícil imaginar o quanto de alívio sentiam as pessoas que adentravam o recinto amuralhado numa época em que a região era infestada por bandos de salteadores que não hesitavam em atacar mesmo próximo às muralhas da cidade!

No presente, a distinção entre "dentro" e "fora" deixou de existir, uma vez que a cidade cresceu e a própria muralha enquanto divisor espacial perdeu seu sentido original. Assim como a ausência "densa" da Bastilha é testemunho de transformações sociais significativas, a Porte Mordelaise e a Tour Duchesne se tornaram testemunhos da ausência "sutil" de uma relação humana com o espaço urbano que se perdeu.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Olhares congelados

Tenho pensado muito sobre janelas.

Sempre fui fanático por elas, devo dizer. Sempre que chego a um ambiente novo, boa parte de minha atenção vai para o que se pode ver através da janela. No entanto, subindo as escadarias de Notre Dame, comecei a me dar conta de algo muito interessante: de certo modo, uma janela é um olhar congelado no tempo...

Precisamente ao ver essa janela, comecei a me perguntar: o que alguém via dessa janela, na Idade Média? De lá para cá, quantas pessoas já pararam aqui para olhar o panorama da cidade de Paris? Mas esse foi apenas o começo de uma reflexão, aprofundada visitando o Chateau de Vincennes.
Bom exemplo são as janelas do "chemin de ronde" (acima), o caminho percorrido pelas sentinelas para vigilância do castelo. Comecei a me questionar não apenas a experiência daqueles que estiveram à janela olhando, mas do processo criativo que produziu a janela a ser olhada. Essas janelas foram originalmente concebidas como postos privilegiados para a defesa do castelo, sendo testemunhos de uma concepção estratégica do terreno circundante. Construir uma janela é também dirigir olhares para algo que está em determinada direção. Toda janela traz embutida uma especificidade do olhar, uma perspectiva própria.

Por exemplo, Raymond du Temple, arquiteto do Chateau de Vincennes, construído para o rei Carlos V, foi habilíssimo programador de espaços. Sua grande cartada foi, certamente, a escada do rei, dando acesso aos visitantes.
O projeto era brilhante, correspondendo perfeitamente ao momento de consolidação da monarquia francesa. Essa escada de aparato convidava o visitante a subir lentamente, contemplando através de seus balcões a magnífica e grandiosa fachada do castelo, preparando sutilmente o encontro com o rei. Talvez, por um contágio do olhar, o monarca parecesse tão admirável quanto sua bela fortaleza. Ao mesmo tempo, quão diferentes os modos de ver incitados pelas grandes janelas da escada e as pequenas vigias do "chemin de ronde"! Raymond du Temple era também um exímio construtor de olhares...

Enfim, a janela é frequentemente portadora de uma intencionalidade, seja ela militar, pragmática, estética, religiosa ou mesmo política. Nesse sentido, a janela é testemunho de uma determinada perspectiva, de uma específica interpretação do espaço circundante e do olhar que se quer projetar sobre esse mesmo espaço.

No entanto, é essencial lembrar algo banal: que não se trata obviamente uma imagem congelada, afinal de contas o espaço muda constantemente ao redor da janela. Também é desnecessário dizer que me parece muito difícil (e provavelmente pouco útil) realizar uma "historiografia das janelas"... Ainda assim, vale a pena debruçar-se sobre uma janela antiga, qualquer janela, e imaginar, se perguntar o que seria possível ver dali em outros tempos e, principalmente, por que ela foi construída sob esse ponto de vista. Em suma, tentar enxergar a realidade através desse "olhar congelado"...

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A densidade da ausência

Na última semana estive na Place de la Bastille. Como se sabe, a fortaleza foi destruída durante a Revolução Francesa. Hoje restam apenas as pedras que marcam o contorno da construção. Apenas uma placa comemorativa explicita esses vestígios, por sinal difíceis de distinguir com todo o trânsito da praça. Não fossem essas lembranças, pareceriam apenas pedras comuns no chão...

 Ao lado, outra placa, em agradecimento "a nossos pais de 1789", dedicada pelos "estudantes de 1880".
É difícil definir a sensação de estranheza experimentada num lugar que ao mesmo tempo foi, simbolicamente, o epicentro da contemporaneidade, o ponto de partida do estranho mundo em que vivemos hoje, mas que não guarda muitas lembranças visíveis do que era a Bastilha em 1789, à ocasião daquele fatídico 14 de julho.

Por estranho que pareça, o que se sente ali é uma ausência incomensuravelmente densa, como um objeto invisível mas poderoso, um centro gravitacional que só pode ser percebido por seus efeitos; como um buraco negro, talvez, ou como uma radiação de fundo. É como se a Bastilha destroçada nunca tivesse deixado de estar ali; mais complexo ainda, é como se ela só exista significativamente exatamente porque deixou de existir. Um paradoxo: ela só está ali porque não está ali.

Como uma espécie de "matéria escura", uma massa colossal de simbolismo invisível, que faz gravitacionar a seu redor inúmeros outros monumentos significativamente ligados direta ou indiretamente à própria Revolução, como a Torre Eiffel (comemorativa do centenário), o Arco do Triunfo (marcando as vitórias do exército revolucionário), entre tantos outros (Invalides, Conciergerie, etc).

De fato, talvez seja tão importante porque sua ausência represente a posteriori a própria "destruição" do Antigo Regime. De qualquer forma, me parece inevitável que a Bastilha perdeu sua existência material apenas para adquirir um outro tipo de existência muito mais poderosa, onipresente e incontornável: a existência simbólica. Tornou-se um monumento tecido de ausência.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Notre Dame de Paris, 2012


Hoje realizei um velho sonho: visitar Notre Dame! Justamente Notre Dame de Paris, 1482 foi o primeiro livro de Victor Hugo que li, o início de uma grande paixão literária. Em grande parte devo a essa leitura boa parte dos desenvolvimentos posteriores de minha formação como historiador. Particularmente emocionante foi o encontro com as famosas gárgulas. O telhado de Notre Dame é um lugar para se sonhar...


O olhar sonhador dessa gárgula simiesca me parece muito curioso... Que panorama ele teria descortinado do alto da catedral na Paris medieval? Ele "viu", em seu posto de sentinela imóvel, a Île de la Cité e as duas margens do Sena se transformando ao longo de quase 850 anos de história. Debruçada no parapeito de Notre Dame, essa gárgula "assistiu" ao massacre de São Bartolomeu, a Revolução francesa e tantos e tantos outros acontecimentos centrais à história da França e do Ocidente...

Não resisti à tentação de um bate-papo ao melhor "estilo Quasímodo"... Por sinal, Victor Hugo é um personagem central da história de Notre Dame, à medida em que precipitou a formação de novos significados em torno do edifício e do patrimônio histórico francês em geral. Recomendo a todos a leitura do magnífico capítulo "Paris à vol d`oiseau", verdadeira obra-prima historiográfica. Escrevendo sobre Notre Dame, Hugo se tornou parte importantíssima da história da própria catedral. Que mais poderia desejar um escritor?




 É impressionante pensar que essas esculturas estão lá há quase um milênio, e continuam tão vivas e fascinantes quanto à época em que sofreram os primeiros golpes do cinzel... Por sinal, o camarada aí em cima saiu de Hogwarts ou da Terra Média?
No entanto, é interessante observar que Notre Dame é mais que uma obra medieval: é um edifício vivo que encontrou sua evolução ao longo de séculos da história da França e de Paris. Por exemplo, que dizer dessa magnífica imagem de Joana d`Arc? Esculpida no ínício do século XX, a imagem remete também a um período da história francesa posterior à construção da catedral. Desde seu princípio, Notre Dame tem sido capaz de atrair e integrar transformações constantes. Talvez seja por isso mesmo a mais importante construção da Île de la Cité, resistindo aos séculos, enquanto todo o resto se desmanchava ao seu redor...

Contudo, a peça mais interessante para mim foi essa Nossa Senhora de Guadalupe, incorporada à catedral em 1685, sob encomenda de um aristocrata da alta nobreza francesa (esqueci seu nome!). Uma imagem originária do Novo Mundo, elaborada no seio das culturas ameríndias do México, conseguiu abrir caminho e encontrar seu espaço numa catedral construída no coração do Velho Mundo. Como são complexas as relações e mediações culturais que tornaram isso possível! Faz pensar na Guerra das Imagens, obra magistral de Gruzinski onde justamente a Virgem de Guadalupe ocupa papel central; lembra também o magistral Inferno atlântico de Laura de Melo e Souza: a América também moldou a Europa na Idade Moderna...
 E como estará Notre Dame de Paris em 2112? Só as gárgulas saberão...

terça-feira, 15 de maio de 2012

Primeiras impressões parisienses

Paris é linda. Isso não quer dizer muita coisa, mas é verdade. Mas não exatamente pela cidade em si, por suas construções belíssimas. Há algo aqui que é muito, muito especial. Hoje, andando nos corredores da Sorbonne, tive uma pista do que pode ser isso. Tudo aqui é História, mas não história encapsulada, isolada numa bolha. Ao contrário do Rio, onde os espaços arquitetônicos percebidos como "do passado" ou "do presente" são muito claramente demarcados, a relação entre passado e presente na tessitura urbana parisiense parece muito mais fluida. As construções são muitas vezes uma bricolagem de usos diversos. O prédio da Sorbonne é quase milenar, mas é um edifício vivo, cheio de adaptações para os usos do presente. É um tanto como se os homens de hoje pedissem licença aos seus ancestrais para se apropriarem de sua construção para novos usos. Também é curioso observar o quanto essa atitude parece natural para os estudantes que estão lá.

Mas seria possível ser de outra maneira? Sobrevoar a França é uma experiência única, não tanto pela beleza da paisagem, mas pela inevitável comparação à América do Sul. Aqui, as terras parecem ter sido plenamente domesticadas pelo homem, após milênios de ocupação intensiva do solo. Uma linda colcha de retalhos de campos sucedendo a campos, pontilhada aqui e ali por alguns bosques, que são muito mais fruto da iniciativa humana, vestígios de antigas reservas de caça, repositórios de lenha, que propriamente uma floresta primária. Sobrevoar a França torna visível, perceptível "a olho nu", digamos assim, o quanto nós somos realmente uma força da natureza, enquanto coletividade humana. Muito bonito, mas um tanto melancólico. Por outro lado, nossa América do Sul, permanece em grande parte indomada, apesar dos milênios de ocupação indígena. Visto de cima, o Novo Mundo parece mais pujante, parece guardar uma força juvenil, uma energia vital mais poderosa, não sei...

Ao mesmo tempo, passar pela Península Ibérica parece muito evocativo, ou talvez esclarecedor. Apesar da curta distância, é um outro mundo. A natureza é muito mais agreste, rude, difícil, em comparação à fertilidade das planícies francesa... Fica mais fácil entender porque a aventura marítima sempre foi tão atraente aos ibéricos, enquanto os franceses só começaram a tê-la por necessária muito mais tarde, em meados do século XVII.

Continuo viajando com Clio; novidades em breves posts!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Uma fábula chinesa

Esta semana li uma belíssima antologia de fábulas chinesas, em tradução de Sérgio Capparelli e Márcia Schmaltz. Transcrevo aqui uma que me pareceu muito interessante...

"O Velho louco que removeu as montanhas" - Liezi

Perto das montanhas Taihang e Wangwu, vivia um velho de noventa anos que todo mundo achava louco. Ele tinha uma ideia fixa, a de remover as montanhas da frente de sua aldeia e levá-las para outro lugar. Ninguém acreditou que ele fosse fazer isso.

Certa noite todos foram dormir tranquilos. No dia seguinte, o velho louco acordou bem cedo e disse novamente que iria remover as duas montanhas, para abrir um caminho até Hanying, onde os agricultores iam vender seus produtos no mercado.

Ele começou a encher um cesto com pedras e, pouco depois, passou perto de sua casa com a carga nas costas.

Sua mulher perguntou: - Onde vai jogar a montanha?
-No mar Bohai.

Logo seu filho e seus três netos foram trabalhar com ele. Juntos quebravam as pedras, tiravam a terra, enchiam com ela os cestos e iam jogá-los no mar Bohai. Até o filho de sete anos da viúva que nascera depois da morte do vizinho, veio ajudá-los. Eles trabalhavam de domingo a domingo, de primavera a primavera, voltando para casa apenas uma vez por ano.

Mesmo algumas pessoas que não acreditavam que fosse possível tirar as montanhas do lugar se dispuseram a ajudar o velho louco. Primeiro sua mulher e seus outros filhos. Depois os vizinhos, e os vizinhos de seus vizinhos. Mais tarde acharam, sim, que a montanha tinha de dar passagem até Hanying.

Um sábio que vivia na curva do rio tentou dissuadi-lo daquela loucura.
-Deixa de ser doido. Um homem velho e fraco como você, incapaz de carregar um saco de areia, vai remover duas montanhas para mudá-las de lugar?

O velho deu um suspiro. Olhou para a montanha, olhou para o mar Bohai, lá longe, como se calculasse quanto tempo faltava para terminar o trabalho, e disse:
-Se eu morrer, eu deixo o meu filho, e o filho do meu filho, o filho do meu neto, o filho do filho do meu neto. Já as montanhas, não crescem mais, nem aumentam de tamanho. Por isso eu vou continuar meu trabalho.

O sábio da curva do rio não soube o que responder.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Au revoir!

Tenho andado ausente devido à falta de tempo, lutando contra a burocracia para resolver meus problemas antes da viagem. Nas próximas semanas permanecerei inativo. Volto à carga com posts diretamente da França! À bientôt!

Só deixo aqui uma pérola ouvida no ônibus:
"Certas civilizações antigas construíam coisas enormes, mas isso tem uma explicação científica: em certos ambientes, as pedras ficam mais leves!"....

sábado, 7 de abril de 2012

Por que estudar universos de fantasia? - Uma reflexão "filo-estruturalista"

Há muito tempo me interesso, enquanto historiador, pelo estudo de universos de fantasia. De fato, sei mais sobre a História da Terra Média e da República Galática do que sobre História Contemporânea. A Bordúria e a Sildávia também não me são estranhas, assim como o Nuevo Rico e San Teodoros de Tintin, sem falar de Rawajpoutalah. Ultimamente ando fascinado pelo legendarium de Krabat, sobre que pretendo escrever um post em breve. Além disso, minha esposa e eu temos mergulhado profundamente no universo de Harry Potter. Levo esse aprendizado - quase - a sério, o que me consome muitas horas. Particularmente os estudos sobre o mundo de Star Wars já viraram uma mania bastante cara. Todo esse investimento financeiro, emocional e, principalmente, intelectual vale a pena, enquanto aprendizado filosófico?

Devo confessar que minha resposta é positiva. O cotejo entre esses mundos fantásticos e realidades históricas tem sido muito esclarecedor em inúmeros momentos. Frequentemente a comparação entre situações ficcionais e reais tem me ajudado a compreender melhor as últimas, abrindo caminho para perspectivas novas. Por exemplo, estou atualmente lendo um livro sobre Star Wars que me possibilitou vários insights interessantes a respeito da transição da República ao Principado em Roma, especialmente o papel da Guerra das Gálias nesse processo. Outro bom exemplo foi o jogo Aragorn`s Quest, sobre o qual escrevi um post recentemente.

Em alguns casos, os universos ficcionais nos convidam a refletir sobre questões mais universais. A recente releitura de Krabat, de Otfried Preussler, me facultou importantes questionamentos a respeito das relações do ser humano com o poder e suas inúmeras contradições e ambiguidades. Da mesma forma, as complexas relações entre Voldemort e seus Comensais da Morte tem motivado curiosas reflexões acerca das intrincadas sobreposições de medo, amor, ambição e convicção que podem levar alguém a seguir um líder carismático.

Curiosamente, essas observações vão ao encontro de minhas recentes leituras de Lévi-Strauss, particularmente de Tristes tropiques e Histoire de lynx. Me despertaram a atenção as discretas observações do autor a respeito das possibilidades estruturais da língua e da mitologia em expressar virtualmente todas as combinações sociais imagináveis, que já existiram, existem ou existirão na vida real, mas também aquela dos mundos míticos e imaginários. Me deparei com essa afirmação primeiramente em Histoire de lynx, num magnífico capítulo onde analisa os escritos de Montaigne.

No entanto, ainda mais interessante é certa passagem de Tristes tropiques, onde o antropólogo se apropria do modelo da sociedade das cartas esboçado por Lewis Carroll, em Alice no país das maravilhas, aplicando-o como modelo de compreensão a respeito dos Kadiwéu do Planalto Central. A inusitada comparação rende belíssimas páginas no capítulo sobre essa nação indígena.

Guardadas sempre as devidas proporções e a sobriedade de comparação, o conhecimento dos universos de fantasia pode se revelar muito mais esclarecedor do que parece à primeira vista, levando a inesperadas perspectivas sobre o estudo das culturas e sociedades humanas.

terça-feira, 27 de março de 2012

Algumas reflexões sobre o ofício de historiador

Acabei de ler hoje um livro muito interessante, Uma breve história da Europa, de Jacques Le Goff. Trata-se de pequena obra, voltada para o público leigo, especialmente adolescentes; digamos que seja um "Le Goff menor".

Ainda assim, encontrei no livro em apreço alguns trechos muito interessantes sobre a função social do historiador, ainda mais valiosos justamente pelo nítido caráter formativo da reflexão desenvolvida. Cito textualmente os que mais chamaram minha atenção. É importante ter em mente o caráter especificamente europeu da obra em questão. Obviamente as preocupações do historiador brasileiro e as necessidades de nossa realidade social apontam em sentidos diferentes. Ainda assim os trechos parecem muito sugestivos.

"O conhecimento da história é muito importante para os europeus e para a construção da Europa. É preciso conhecer o passado para saber como preparar o futuro, desenvolver as boas tradições da Europa, evitar que os erros e crimes recomecem. Também é preciso evitar que se manipule a história forjando mitos nacionalistas. A História não deve ser um fardo a ser carregado ou uma má conselheira que legitima a violência. Com o tempo ela deve trazer a verdade, servir ao progresso".

"É preciso atualmente livrar as ideologias de seu caráter irracional e agressivo. É preciso transformá-las em ideais, ou seja, em bons modelos a serem alcançados ou a serem tomados como objetivos. É preciso substituir a agressividade dos conflitos de ideologias por debates de ideias pacíficas, honestas e tolerantes. A Europa deve ser um grande campo de diálogos pacíficos".

Por fim, o trecho a seguir me pareceu extremamente comovente pela sinceridade e pela sensibilidade, fechando com chave de ouro esse belíssimo livro:

"Creio que a realização de uma bela e boa Europa é o grande projeto oferecido à sua geração. Necessitamos, principalmente quando se é jovem, de um grande objetivo que seja um ideal e uma paixão. Apaixonem-se pela construção europeia, ela merece. Se ajudarem a realizá-la, ela lhes retribuirá, ainda que devam enfrentar algumas dificuldades. Nada de importante se obtém sem esforço. E não se esqueçam, por favor, que nada de bom se faz sem memória e que a história é feita para oferece uma memória justa que, pelo passado, iluminará o presente e o futuro de vocês".

sexta-feira, 23 de março de 2012

Ser um guerreiro na Idade Média - jogando... "Aragorn`s Quest"

Depois de muito tempo adormecida, eis que a oficina volta ao trabalho! Andei afastado por cometer a maior loucura de minha vida: eu e minha esposa nos atiramos à tarefa insana de escrever um livro de 250 páginas em pouco mais de um mês... Mais detalhes em breve. Depois desse tour de force me dei umas "férias", e estou de volta.

Para o relax, me dei de presente Aragorn`s Quest para Wii. Jogo fantástico, por vários motivos, e subestimado em todas as críticas que li. Por trás de um gráfico cartunesco, um jogo interessantíssimo, com uma narrativa sofisticada e uma jogabilidade altamente intuitiva e estimulante. Por sinal, o gráfico "pobre" libera todo o potencial de processamento para que a plataforma posso botar em cena literalmente algumas centenas de guerreiros altamente diferenciados de cada lado da batalha sem lapsos excessivos de carregamento e de modo altamente funcional.

Mas, vamos à História. O jogo é baseado na trilogia Senhor dos Anéis, sem depender exclusivamente da identidade visual dos filmes de Jackson, o que por si só já significa muito. É possível perceber a apropriação criativa dos originais de Tolkien, mas também das clássicas ilustrações de Alan Lee e de David Wenzel. No entanto, o mais interessante é a possibilidade de imersão numa batalha medieval como nunca vi em qualquer outro jogo.

Ok, uma batalha "medieval", afinal de contas, se trata de um universo ficcional. Ainda assim, o jogo se mostra surpreendentemente fiel aos ritmos, táticas, comportamentos esperados em uma batalha desse período, ao contrário da pseudo-estratégia antiga costumeira nesse gênero de jogos. Arqueiros, cavaleiros, infantes, se comportam de maneira bastante fiel, especialmente considerando-se a diversidade de terrenos e combates: há pântanos, planícies, colinas e fortalezas. Desenrolam-se escaramuças, batalhas campais e sítios, no ataque ou na defesa. Enfim, o jogo proporciona grande diversidade de experiências estratégicas, com objetivos coerentes e pertinentes a cada situação.

As armas são dignas de comentário à parte. Em lugar da diversidade quase absurda, uma seleção sóbria: espada, escudo, lança, arco. O jogo oferece um belíssimo sistema de luta com espada, baseado em movimentos de corte e estoque. A lança pode ser manuseada com bastante naturalidade, a pé ou a cavalo. O arco tem um sistema de mira quase simplório, compensado pela sobriedade dos contextos em que seu uso é exigido.

Last, but not least, o jogo apresenta um sistema de liderança muito instigante: o jogador não é convidado a dar ordens a seus soldados, mas a guiá-los pelo campo de batalha através do exemplo, avançando sobre as fileiras inimigas e empregando dois recursos, o grito de guerra ou o toque de trombeta. Através dessas manobras é possível incentivar os soldados ao assalto ou reuni-los numa posição estratégica para a defesa. Não era muito diferente nas batalhas medievais, a exemplo do que vemos na Chanson de Roland, no Nibelungenlied e outros textos da época. Com efeito, o jogo me fez compreender melhor, "na prática", o que seria a liderança carismática de que fala Weber.

Paradoxalmente, Aragorn`s Quest é um jogo de fantasia que pode conduzir a uma esclarecedora experiência do que seria estar na pele (ou sob a malha) de um guerreiro medieval.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

"Quem se contenta" - um apólogo de Ítalo Calvino

Pequeno texto de Calvino que parece descrever muito bem as funções sociais da bilharda no Brasil... digo, do Carnaval! Que lapso!

Havia um país em que tudo era proibido.

Ora, como a única coisa não proibida era o jogo de bilharda, os súditos se reuniam em certos campos que ficavam atrás da aldeia e ali, jogando bilharda, passavam os dias.

E como as proibições tinham vindo paulatinamente, sempre por motivos justificados, não havia ninguém que pudesse reclamar ou que não soubesse se adaptar.

Passaram-se os anos. Um dia, os condestáveis viram que não havia mais razão para que tudo fosse proibido e enviaram mensageiros para a avisar os súditos que podiam fazer o que quisessem.

Os mensageiros foram àqueles lugares onde os súditos costumavam se reunir.

- Saibam - anunciaram - que nada mais é proibido.

Eles continuaram a jogar bilharda.

-Entenderam? - os mensageiros insistiram. - Vocês estão livres para fazer o que quiserem.

-Muito bem - responderam os súditos. - Nós jogamos bilharda.

Os mensageiros se empenharam em recordar-lhes quantas ocupações belas e úteis havia, às quais eles tinham se dedicado no passado e poderiam agora novamente se dedicar. Mas eles não prestavam atenção e continuavam a jogar, uma batida atrás da outra, sem nem mesmo tomar fôlego.

Vendo que as tentativas eram inúteis, os mensageiros foram contar aos condestáveis.

-Nem uma, nem duas - disseram os condestáveis. - Proibamos o jogo de bilharda.

Aí então o povo fez uma revolução e matou-os todos.

Depois, sem perder tempo, voltou a jogar bilharda.


(Ítalo Calvino, Um general na biblioteca. Companhia das Letras, 2010)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Das possibilidades em História

Ando meio atarefado para postar aqui... Só terei tempo para o blog de novo lá para março. No entanto, essa semana li um trecho muito interessante de O negócio do Brasil, de Evaldo Cabral de Mello. Achei muito interessante o modo como o autor discute uma questão tão polêmica sem recorrer aos clichês de sempre...

"Escusado aduzir que o assunto aqui versado [as negociações diplomáticas em torno do Brasil holandês], como em geral os de história política e diplomática presta-se idealmente às análises contrafatuais, visando às possibilidades alternativas dos processes históricos, ou seja, 'aquilo que poderia ter sido e que não foi', como no verso de Manuel Bandeira. A moda está sendo tão cultivada, especialmente entre os anglo-saxões, que já caberia talvez falar num novo gênero historiográfico, a 'história virtual'. Na realidade, a novidade não é tão grande assim, na medida em que a contrafatualidade é inerente a todo raciocínio historiográfico, como há muito percebeu Max Weber, embora frequentemente não seja explicitada. Na fórmula de Raymon Aron: 'Todo historiador, para explicar o que foi, se pergunta o que poderia ter sido'. A atribuição de relevância a determinados fatos é feita mediante uma operação comparativa pela qual o historiador se pergunta o que teria ocorrido na inexistência deles. Donde o apelo de Huizinga no sentido de que ele procurasse inclusive colocar-se num ponto do passado no qual os fatores conhecidos parecem permitir diferentes caminhos. Se tratar de Salamina, deve fazê-lo como se os persas ainda pudessem ganhar a batalha; se se ocupar do golpe de Estado de Brumário, como se Bonaparte ainda pudesse ser ignominiosamente repelido'. Essa capacidade da historiografia de entrever alternativas mesmo quando elas já se fecharam de todo constitui uma das razões da originalidade da sua démarche científica".