domingo, 19 de fevereiro de 2017

Carnaval, cultura e política (ainda)

Reação a um comentário no Facebook, sobre a ausência ou menosprezo da esquerda em relação ao Carnaval, especialmente quanto ao mundo do samba

Frequentar o Carnaval é do gosto de cada um. Eu, particularmente, detesto (por causa da bebida e gente pelada, por assim dizer, embora eu não seja evangélico!rs). 

De resto, há que se reconhecer que é uma parte muito significativa da vida cultural do país, especialmente em algumas cidades, como Salvador e Rio. Como tal, precisa ser objeto de políticas culturais. 

O grande problema político no Carnaval carioca, me parece, é o modo como os recursos públicos investidos na festividade são usados de modo extremamente assimétrico, favorecendo nitidamente uma determinada hierarquia entre as escolas de samba, e privilegiando uma determinada forma de expressão/manifestação carnavalesca (escola de samba) em detrimento de outras. É essa concentração de recursos que precisa ser discutida politicamente. 

De resto, acho que a esquerda vem sendo muito desleixada para com a cultura como um todo, erudita ou popular. Não vejo o abandono dos museus durante a Era PT, a lenta agonia do Theatro Municipal ou a desconcertante anemia do setor livreiro sendo suficientemente discutidos pelas esquerdas. E tudo isso é grave, porque cultura, em todos os seus registros, é vida.

Também acho que há uma nuance importantíssima: as escolas de samba JÁ são a manifestação carnavalesca majoritária e, de longe, a mais favorecida pelos recursos públicos. 

Acho que o "povo do samba" já tem até mais do que deveria, em termos de recursos públicos; a briga importante precisa ser travada ENTRE o "povo do samba", para discutir a distribuição mais justa e/ou adequada desses recursos; o papel da prefeitura nessa discussão deveria ser muito mais de mediação. 

Além disso, sabemos que a questão implica outros interesses de ordem comercial bem distantes da esfera cultural propriamente dita, especialmente o a televisão e o setor hoteleiro. Como diz um amigo meu que é fissurado em samba e entende do assunto, a ingerência da televisão no mundo do Carnaval é um problema que precisa ser seriamente enfrentado.

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