sábado, 3 de setembro de 2016

A invasão da política

Brilhante texto do historiador, musicólogo, baterista e amigo Tiago de Souza, sobre a invasão da política em todos os recantos de nosso cotidiano.

Ontem fui a um show. Só queria curtir um som de qualidade com minha esposa e amigos. O show começa. Impecável. Tudo lindo. No meio do show um dos integrantes do grupo começa a apresentar a banda. Ele está falando o nome do baixista. Mas algo acontece.
 

Um solitário grita.

FORA TEMER!


Eu ouvi. Menos de um segundo depois uma multidão atende o chamado e diz, mais alto.

FORAAA TEMEEEER!

Minha primeira reação foi montar uma cara de espanto e dizer: "Sério mesmo?! Aqui?" Mas achei valido, afinal, a situação está feia no Brasil. O negócio é bater de frente mesmo. Enfim. Segue o jogo. O show era com o público sentado. Infelizmente aqui no RJ o público não tem lá muito controle e educação nesse tipo de ambiente. Um grupo a minha esquerda se levanta e grita também. Um copo de cerveja tomba na mesa e a cachaça se esparrama em direção a uma senhora de uns setenta anos que estava sentada. Sem nem esboçar ressentimento ela arrasta a cadeira pro lado. Sem nem esboçar um pedido de desculpas o grupo repete o mantra do "Fora Temer". A banda ignora o público e continua a apresentar os integrantes. Os gritos continuam, porém, mais esparsos, raquíticos, esquálidos.

O guitarrista "puxa" um riff.

Temer é prontamente esquecido mas a falta de educação sobrevoa os corações com firmeza. Muita gente se levanta e, ignorando quem estava sentado, começa a rebolar. Como a carne de gente chata não é transparente, as vaias, garrafas e palavrões são inevitáveis. Não consigo me concentrar no riff.

Putz... O riff já passou.

Agora a vocalista está cantando.

Nao satisfeitos, as pessoas correm, bamboleiam para a "fila do gargarejo" carregando copos e latas na mesma mão. Outras tiram selfies. Outras pulam de uma fileira pra outra. Vejo uma outra senhorinha. Na frente dela estão quatro imbecis que, agitando os bracos e ensaiando uma coreografia tosca se entregam ao desbunde da arte. Óbvio que a senhorinha não consegue ver nada.

O guitarrista está solando!

Pego meu celular pra filmar: aquele solo é uma obra prima. Quero gravar materialmente esse momento. Começo a filmar discretamente. Na frente do guitarrista, na hora do solo, para meu espanto, alguém passa com uma FAIXA.

Nela a frase "GOLPISTA não passará".

A platéia urra. Será pelo solo ou pela faixa?

O show termina com pelo menos quatro momentos de "manifestação política" e eu, com a sensação de ter perdido muito por causa dessas manifestações.

Na hora de ir embora a mesma praxis é feita. Gritos, punhos no ar, "foras" e "abaixos" são ouvidos. Mas percebo tropeções, colunas tortas, passos trôpegos, gritos desconexos, berros meio engofados e sorrisos. Muitos. Mas não apenas sorrisos com aquela loucura que apenas quem quer mudar o mundo tem. Eram sorrisos etílicos, tortos, pincelados com alguns olhares perdidos. Não sei dizer se quem estava gritando sabia muito bem o que realmente estava dizendo ou querendo. Parecia o mesmo tipo de postura de uma turma que acabou de ser liberada para as férias de meio de ano ou para o recreio.
Cada um é livre pra gritar, berrar, questionar e buscar caminhos para um mundo melhor, a começar da política nacional. Eu também estou triste pelo país e quero fazer parte da mudança. Mas eu vi tanta baixeza, tanta gritaria a toa e sem o menor propósito que eu fiquei pensando em como eu poderia manifestar minha indignação pela atual situação do país sem ser mal educado e simplório. Definitivamente não é fazendo o tipo de coisa que eu vi ontem. Não naquele lugar. Naquele momento. Vamos lutar mas vamos usar as ferramentas certas e mexer nas peças que realmente devem ser mexidas.

Ontem a arte saiu perdendo.

E as senhorinhas mais ainda.

Deixo aqui o meu fora.

Fora Temer. Fora Dilma. Fora corruptos. Fora tudo de ruim que impede nosso povo de viver em paz. Mas também fora com a falta de educação e com os revolucionários de "copo e latinha na mão saindo do recreio".

 O Brasil precisa mesmo de um "acabou chorare" pra um monte de coisas...

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