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quinta-feira, 10 de março de 2016

Quem bate nos professores do Brasil?



Em primeiro lugar, os alunos. As agressões começam em sala de aula. Agressões morais. Agressões verbais. Até agressões físicas.

Na PRIMEIRA SEMANA de aula desse ano um aluno mandou uma colega minha “tomar no c*”. Xingamentos na saída da escola, na rua ou no ponto de ônibus fazem parte da rotina.

Um amigo meu, que trabalha numa daquelas áreas eufemisticamente rotuladas como “de risco”, ouve constantemente os alunos avisando-lhe que “vai rolar o coreto” – uma simpática gíria para “assalto”. Sempre “de brincadeira”.

Ano passado, eu mesmo fui vítima de duas agressões físicas – uma acidental, a outra proposital. A agressão acidental aconteceu quando precisei separar uma briga DENTRO de sala de aula. A agressão proposital foi provocada por um aluno que atirou uma mochila contra meu rosto – “de brincadeira”, é claro. Meu olho ficou doendo por três dias – e não foi “brincadeira”.

Também no ano passado, soube que um aluno puxou uma pistola contra um professor numa escola carioca. Pressionou várias vezes o gatilho - por sorte, a arma não disparou. Não saiu no RJ TV. “Brincadeira”?

Em breve teremos aulas de defesa pessoal nos cursos de licenciatura.

Aulas inteiras são literalmente desperdiçadas solucionando problemas disciplinares que sequer deviam existir.

Por que isso acontece? Por que tanta agressividade? Educar incomoda?

Honestamente, não sei. Só sei que inúmeros estatutos e regimentos nos amarram. As unidades escolares dispõem de pouquíssimos recursos para resolver de modo eficaz esse tipo de situação. Transferir um aluno que não respeita colegas e professores para outra escola é quase tão difícil quanto enviar um explorador a Marte.

É claro que podemos denunciar um estudante por desacato ao servidor no exercício da função (3 a 12 meses de reclusão). Um tanto extremo, não? Nunca fiz isso; não acho que enviar um jovem mal-educado para uma instituição correcional vá de fato “corrigi-lo”.

Ficamos perdidos entre a leniência do Estatuto da Criança e do Adolescente e o rigor do Código Penal.

Depois, somos novamente agredidos pelos responsáveis por esses alunos, que via de regra acham que apenas a escola deve educar seus filhos e, muitas vezes, ainda reclamam quando não toleramos certas “brincadeiras”.

“Ele também é assim em casa”. “Não entendo, ele tem tudo que quer” [sic]. “Não sei mais o que fazer com ele”. Etc. Não surpreende que uma das frases que mais ouvimos de alunos seja: “Eu não respeito nem minha mãe...”!

Muitos responsáveis, aliás, só comparecem à escola para resolver assuntos pertinentes ao Bolsa Família. “Só venho à escola para ganhar presença”, já me disse um aluno.

Também somos agredidos pelo conselho tutelar e pelo juizado de menores, que normalmente não agem em relação aos casos que chegam a essas instâncias - mesmo que envolvam situações domésticas de abandono ou abuso. Ficamos sozinhos diante desses problemas.

Acima de tudo, somos agredidos de todas as formas imagináveis pelas secretarias de educação, que pouco fazem para amenizar os excessos e faltas que nos assaltam. Excesso de alunos em sala de aula. Excesso de “metas” de aprovação. Excesso de projetos mirabolantes e milionários. Excesso de tecnologias revolucionárias que não funcionam por falta de manutenção. Excesso de terceirização. Excesso de contratos temporários. Falta de concursos. Falta de cumprimento à lei de 1/3 da carga horária para planejamento. Falta de pessoal administrativo suficiente nas escolas, especialmente inspetores e coordenadores. Entre carências e excessos, sofre o professor.

Somos agredidos por legisladores cujos projetos visam cercear a autonomia pedagógica.

Somos agredidos pela imprensa que enaltece esses grandes administradores e legisladores, verdadeiros salvadores da pátria (“educadora”) – a mesma imprensa que adora dizer que greves de professores “prejudicam os alunos”.

Somos agredidos por todas as fundações, institutos e ONGs que vampirizam recursos públicos vendendo soluções milagrosas para a educação pública.

Somos agredidos ainda por parte da “inteligência” brasileira. Há cerca de um mês, li uma entrevista de um economista “de aluguel”, “especialista” em educação, afirmando que a escola deve parar de “empurrar responsabilidades” para a família do estudante. Segundo essa sumidade, o único papel da família é dar amor, alimentação e botar o jovem para dormir cedo; o resto é com a escola. Somos agredidos por todos os “intelectuais” que gostam de nos “defender”, mas não gostam de nos OUVIR.

Nessa pátria “educadora”, também somos agredidos pelo governo federal, que não cobra o mínimo de transparência no uso dos recursos transferidos pela União às prefeituras e governos estaduais. É mais fácil entender a Crítica da razão pura que saber exatamente de que maneira são empregadas as verbas do FUNDEB. Esse mesmo governo federal promove a usurpação de recursos da educação pública em benefício de instituições particulares de ensino, através de programas “sociais”, “sócio-eleitorais” ou “sócio-eleitoreiros” – à preferência do freguês, que tem sempre razão. Se não mantivermos olho vivo, esse mesmo governo empregará os rendimentos do pré-sal na promoção da educação... privada. Mas quem precisa se preocupar, depois do despertar da jararaca?

Finalmente, quando ousamos sair às ruas com nossas reivindicações, não faltam spray (in english) de pimenta, lacrimogêneo, balas de borracha e “casse-têtes” (en français). Cortes sumários de salário, sem obedecer aos ritos da lei, também não são impossíveis. Quem sai na chuva...

Somos agredidos pelas direções sindicais, mais preocupadas com a promoção de seus respectivos partidos políticos que com os interesses da categoria.

Somos agredidos pela maioria dos cidadãos, que permanece indiferente a tudo isso, e depois se escandaliza quando uma pessoa é esfaqueada num bairro nobre.

O professor do ensino básico está sempre errado. Sempre é culpa dele.

Alguém fica surpreso que os professores constituam uma das categorias recordistas em licenças médicas no serviço público? No fim das contas, reformulo minha indagação: quem NÃO bate nos professores do Brasil?

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