domingo, 26 de julho de 2015

Clio mutilada - Escalas e proporções

Dedico este mal acabado ensaio ao Prof. Guilherme Pereira das Neves,  semeador de interessantes inquietações

Há muitos anos, nós historiadores temos deixado de lado, consciente ou inconscientemente, as "grandes narrativas". As sínteses amplas e ousadas parecem nos intimidar cada vez mais, devido a considerações de caráter teórico, metodológico e, muitas vezes, ideológico. Também não me parecem desprezíveis as pressões de ordem prática, promovidas pelo sistema acadêmico vigente, especialmente as políticas de financiamento à pesquisa.

Muito se tem discutido as escalas de análise, mas a verdade é que optamos por recortes analíticos cada vez menores: regiões geográficas por vezes ínfimas, intervalos de tempo breves (ou brevíssimos), trajetórias individuais, e por aí afora.

Enxergamos cada vez melhor as árvores, mas parece cada vez mais difícil perceber a floresta ("Há floresta?" - perguntariam os pós-modernos de plantão).

Mas, no fim das contas, me pergunto: temos um problema de escala ou de projeção?

Desde o século XVI, nossos primos geógrafos lidam, de modo bastante visceral, com problemática semelhante: como representar adequadamente um planeta esférico e tridimensional sobre um suporte plano (logo, bidimensional)? Essa defasagem de uma dimensão representa tremendo desafio, implicando, grosso modo, na perda de "um terço" da realidade.

Uma maneira relativamente simples de lidar com essa questão consiste no uso de escalas cartográficas relativamente amplas (quanto maior a escala, menor a área representada), onde o fator de distorção é consideravelmente amenizado. Reduz-se o mundo a uma coleção fraturada de cartas locais, cujo cotejo fornece uma imago mundi relativamente inteligível e coerente, mas perdendo-se boa parte de sua coesão. Obtemos uma soma de quadriláteros que jamais chegarão perto da esfera: jogamos fora a curvatura, produzimos uma Terra mutilada, picotada, desconjuntada.

A representação holística e sintética de nosso planeta conduz inevitavelmente à elaboração de projeções variadas, recorrendo a diversos e complexos artifícios geométricos e matemáticos. Ao longo dos últimos séculos a ciência cartográfica desenvolveu e aperfeiçoou inúmeras formas de projeção bidimensional da Terra. Basicamente, cada projeção permite representar de forma acurada e precisa algum aspecto específico da esfera terrestre, preservando e privilegiando determinados ângulos, proporções, formas e dimensões em detrimento de outro ângulos, proporções, formas ou dimensões. Podemos ter representações fidedignas de paralelos, meridianos, continentes, oceanos ou regiões polares, mas nunca de todos ao mesmo tempo. Ainda assim, cada uma dessas projeções fornece uma aceitável impressão de conjunto de nosso planeta. Além disso, o cotejo crítico entre essas diversas projeções nos permite melhor aquilatar o efeito de suas respectivas distorções.

Por outro lado, é importante lembrar que as escalas que privilegiam a representação regional escamoteiam, mas não escapam às problemáticas de projeção - apenas as tornam menos perceptíveis e, portanto, muito mais traiçoeiras. Por menos atenção à floresta, tendemos a olhar as árvores de modo mais descuidado.

Retornemos aos domínios de Clio e à questão das "grandes narrativas": num mundo globalizado, cujas partes se tornam cada vez mais integradas, elas me parecem imprescindíveis. No entanto, como viabilizá-las? Como problematizá-las de modo satisfatório? Creio que um caminho possível seria justamente a escolha e a elaboração conscienciosas do que poderíamos pensar como "projeções historiográficas". Em grande medida, a problemática central das projeções geométricas gira em torno de ângulos, especialmente da determinação de ângulos específicos que permitam transpor e traduzir satisfatoriamente certas características do espaço representado ao suporte desejado. De certa maneira, trata-se de um exercício de distorção controlada, segundo uma perspectiva cuidadosamente selecionada, a servir como fio de Ariadne nos labirintos do espaço.

Nesse sentido, qualquer "grande narrativa" será sempre distorcida a partir de determinada perspectiva - trata-se de contingência incontornável. Por outro lado, tal como sucede em cartografia, as microescalas não evitam ou impedem distorções, apenas as tornam mais difíceis de detectar ou perceber. A partir de minha breve experiência como historiador, tenho a impressão de que a forma mais comum de distorção promovida pelo recurso às "pequenas narrativas" é a perda ou o escamoteamento de uma das dimensões mais essenciais da experiência histórica, a diacronia. Ora, me parece que o predomínio de uma História sem diacronia nos conduz, perdoem-me o exagero, a mutilar Clio. E para que nos servirá Clio mutilada, picotada, desconjuntada?

Sendo a arte da projeção uma questão de selecionar ângulos, parece-me que o principal problema na elaboração de uma "grande narrativa" é a escolha de uma perspectiva capaz de nos guiar pelos labirintos do tempo - um fio de Ariadne. Como ditam os princípios da projeção, tal escolha implica em determinar o que desejamos ganhar através da "grande narrativa", mas também o que estamos dispostos a perder em seu processo de formulação.

Minhas primeiras reflexões em torno dessa questão datam de 2012, quando escrevi meu terceiro livro, A ilha e o tempo, dedicado à história dos 400 anos da cidade de São Luís do Maranhão. Agora me dou conta de que o "tempo" foi meu labirinto, enquanto a "ilha" me serviu como fio de Ariadne. Concebi esse trabalho segundo um duplo artifício: narrar a história de São Luís a partir de uma perspectiva global, simultaneamente narrando a história do mundo a partir de uma perspectiva ludovicense, promovendo um jogo de reflexos e refrações, a partir da experiência de diversos personagens que vivenciaram São Luís ao longo de seus 400 anos.

Para tanto, me inspirei particularmente na noção matemática de fractalidade, entre outros modelos vagamente inspirados pelas ciências exatas. Tais ruminações renderam uma espetacular madrugada de diálogo com meu "irmão" Kainã, jovem físico de grande perspicácia - na verdade, essa instigante tertúlia interdisciplinar vem, desde então, suscitando inúmeros questionamentos acerca de diversas problemáticas ontológicas, bem como sobre as múltiplas possibilidades de diálogo entre as ciências humanas e exatas.

Durante boa parte do século XX os historiadores buscaram ferramentas nas ciências exatas, especialmente na Estatística, com a finalidade mais ou menos explícita de alcançar novos patamares de objetividade científica. Essa abordagem rendeu resultados consideráveis em determinadas áreas, especialmente na história da economia e da demografia, mas hoje muitos olham com desdém para essa historiografia dita "serial". Por sinal, me parece que o colapso dessa abordagem corresponde, em grande medida, ao desenvolvimento do ceticismo acerca das "grandes narrativas".

Havia implícita nesse modelo, creio eu, uma concepção estritamente "denotativa" da Matemática e de seus recursos de modelação da realidade. Penso que talvez seja o momento de retomar o diálogo historiográfico com as ciências exatas, sobre novas bases, especialmente buscando na linguagem matemática um potencial "conotativo", não capaz de ancorar objetivamente a História no concreto, mas de ampliar nossas possibilidades de abstração em torno da experiência histórica, inspirando novos olhares, capazes de formular "grandes narrativas" de modo criativo e inovador - algo como uma "hermenêutica matemática" (ou uma "retórica matemática"), capaz de expressar ou sintetizar as experiências do ser humano no tempo através dessa linguagem cujas potencialidades, literalmente, tendem ao infinito.

Por que não?

Esse texto só existe devido a inúmeras pessoas, especialmente minha esposa, Priscila, verdadeira co-autora de A ilha e o tempo, meu ex-orientador e sempre amigo, Rodrigo Bentes Monteiro, o embaixador Vasco Mariz, o Prof. Sebastião Moreira Duarte, o Dr. Luís Mário Duarte, os "irmãos" Kainã e Igor, e os amigos Roger Marques e Fred Oliveira, entre outros companheiros de jornada e de lutas.

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