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sábado, 23 de agosto de 2014

Gentalha - Seu Madruga e a violência na América Latina

Como já discuti em outros posts, a querida vila do Chaves me parece um ótimo reflexo das dinâmicas sociais na América Latina. Ultimamente tenho prestado bastante atenção às representações da violência na obra de Bolaños; por sinal, a "boa vizinhança" é ambiente extremamente violento, em que pese a estética caricata e estilizada sob a qual essa violência se apresenta. A priori, vale ainda observar que o seriado apresenta normalmente dois tipos de agressão, que podemos classificar respectivamente como intencional e acidental. Como veremos, essa distinção é bastante relevante.

Recentemente me dei conta de um detalhe revelador: Seu Madruga é o fulcro da violência em Chaves, através do qual se articulam as agressões intencionais praticadas na vila, atuando como ponto de convergência entre o mundo das crianças e o dos adultos. Recontrapuxa!

Comecemos pelo mundo dos adultos. Não são incomuns as agressões entre adultos em Chaves, mas na maior parte das vezes são acidentais - como o significativo beliscão do Prof. Girafales em Dona Clotilde (cujas conotações sexuais não pretendo discutir aqui) ou as eventuais pancadas de Dona Florinda em Seu Barriga ou Prof. Girafales. O único adulto agredido de forma intencional e consistente é Seu Madruga: pelos mais variados motivos, o pobre homem já apanhou de praticamente todos os adultos da série, como Prof. Girafales, Seu Barriga, Dona Glória e até mesmo da apaixonada "Bruxa do 71"; sua principal agressora, desnecessário lembrar, é Dona Florinda. E lembremos: ela bate nele por ser gentalha. Homem pobre, sem instrução e habitualmente desempregado (por opção), Seu Madruga é por excelência a vítima de agressões no mundo dos adultos.

Certa situação é particularmente elucidativa: em determinado episódio, Seu Barriga agride Quico acidentalmente, mas, como de costume, Dona Florinda reage batendo em Seu Madruga. O equívoco é desfeito logo depois, mas a zelosa mãe não pede desculpas, apenas murmurando entre dentes que "errar é humano". Ainda mais sugestivo é o fato de, devidamente esclarecida, ela não agredir Seu Barriga. O pobre Madruga é passível de agressão, mas não Barriga, proprietário do cortiço; ele não é gentalha. Não é difícil perceber o paralelo com a violência nas sociedades latino-americanas.


Quando passamos ao mundo das crianças, a situação se inverte: Seu Madruga é o principal agressor adulto. São raras as ocasiões em que outros adultos batam nas crianças, mas ele distribui pancadas entre Chiquinha, Quico e Chaves. Por vezes suas agressões são muito violentas, como os murros que aplica na cabeça de Chaves ou quando apaga um cigarro (!) na mão de Quico. Ora, Seu Madruga raramente reage à violência dos adultos, mas canaliza sua raiva para as crianças - lembrando as reflexões de Foucault sobre a "microfísica do poder". Também não é situação muito diferente do que vivenciamos na América Latina - geralmente a corda arrebenta para o lado dos mais frágeis socialmente, especialmente as crianças e mulheres; o quadro muitas vezes se agrava entre as camadas menos instruídas da população. E, de fato, não são raros os episódios em que Seu Barriga e principalmente o Prof. Girafales repreendem Seu Madruga, homem menos "esclarecido", pela violência que usa contra as crianças. Reside aí profunda ironia, já que os mesmos não se poupam de agredir o próprio Madruga, e muito menos se incomodam com a cruzada de Dona Florinda contra a gentalha. Pelo contrário, em algumas situações Prof. Girafales aconselha sua amada a não bater no pobre homem apenas para não "sujar suas mãos com semelhante porcaria".

No entanto, a relação de Seu Madruga com o mundo infantil é marcada por outra inversão: a única criança que agride deliberadamente um adulto é Quico; ainda por cima, essa violência é praticada de modo sistemático. "Gentalha, gentalha!" - os gritos do menino não poderiam ser mais expressivos. Desde criança, Quico aprende que a gente "da alta" pode bater na gentalha. Por sinal, a violência exercida pelo garoto é extremamente significativa, à medida que em muitas ocasiões ele sabe que Seu Madruga é inocente, mas o agride instintivamente ao ouvir as palavras mágicas de sua mãe: "Vamos, Quico...". Em muitas situações a violência de Dona Florinda contra Seu Madruga é gratuita, e o filho a segue pelo mesmo caminho. Seu Madruga, Quico e Dona Florinda constituem o tripé que sustenta a violência em Chaves, numa dinâmica estribada nas relações sociais tensas vividas na América Latina. Na verdade, vejo Quico como um menino de bom coração, mas que recebe de sua mãe uma educação extremamente preconceituosa, arrastado a um precoce aprendizado da violência - nesse sentido, vale lembrar algumas observações de Gilberto Freyre no clássico Casa-grande & senzala.


Concluo esse já longo texto lembrando uma das cenas mais belas, brutais e pungentes do seriado. Em certo episódio, Chaves faz um comentário jocoso a respeito de Dona Florinda, provocando risos descontrolados em Seu Madruga. A mulher bate nele repetidas vezes, com agressividade crescente, mas o homem continua gargalhando, com intensidade cada vez maior, indiferente à violência de que é vítima. Irritada e cansada, Dona Florinda se retira, acompanhada por Quico - não sem seu habitual "gentalha, gentalha"! Seu Madruga continua rindo, triunfante. Há um quê de metalinguístico nessa cena, onde o seriado humorístico celebra a gargalhada vitoriosa contra a violência, o espírito inabalável ante a força, o riso em seu pleno potencial libertador.

Possa a gentalha latino-americana rir cada vez mais escancaradamente na cara dos tiranos de plantão.

Um comentário:

Anônimo disse...

O retrato pintado por bolaños há quase 40 anos mudou muito pouco. O mais curioso é ver que México e o Brasil (e talvez outros países) sao muito semelhantes na dinâmica social . Nom texto só tenho uma sugestão para fazer.. O quico ao bater no sr madruga nao reage instintivamente, mas sim pelo"reflexo" da doutrinação imposta pela D. Florinda.... Ótimo texto (como sempre) ass. Thiago Alvarenga