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sábado, 30 de setembro de 2023

Brasil - Distopia da distopia

Ficções distópicas costumam imaginar regimes políticos opressivos onde a alta tecnologia é posta a serviço da vigilância da população sob os mais variados aspectos, estabelecendo intoleráveis sistemas de controle social.

Em uma autêntica distopia à brasileira os avançados sistemas de vigilância seriam adquiridos a preços superfaturados e apenas parcialmente instalados (fora do prazo, de preferência). O equipamento instalado seria parcamente supervisionado, por falta de pessoal, empregando mão-de-obra precarizada. Finalmente, o custoso equipamento logo deixaria de funcionar, por falta de manutenção. De resto, as autoridades em nossa distopia brasileira estariam mais interessadas em coletar propinas que em realmente vigiar a população...

Gambiarra panóptica


quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Criminosas lealdades de caserna

Segundo a revista Veja, ao sair da cadeia, o coronel Mauro Cid teria feito curiosa declaração: “A gente é leal ao superior, mas protege o subordinado” - formulação estranha, para dizer o mínimo. 

A única lealdade lícita e legítima que se espera de um militar é ao povo brasileiro, às instituições republicanas e à Constituição.

A relação entre superior e subordinado é um vínculo profissional e impessoal, regida apenas pela hierarquia militar e pela cadeia de comando; para além disso, nenhuma "lealdade" é necessária. Se o superior age de modo legal e legítimo, cabe o dever profissional; se o superior age fora da lei, qualquer lealdade é traição à República, ao povo brasileiro e às próprias Forças Armadas que, em suas atribuições institucionais, só podem ser prejudicadas por espúrios pactos particulares de lealdade.

Semelhante lealdade só se entende em função das mesquinhas picuinhas de caserna, tristemente comuns ou, pior, de inconfessáveis mutretas - igualmente comuns; não raro, picuinhas e mutretas caminham de mãos dadas. Nesse sentido, o leal subordinado aceita de bom grado a posição de cúmplice dos mal-feitos de seu superior, em detrimento dos interesses legítimos pelos quais se espera que trabalhe.

Por outro lado, que tipo de proteção um subordinado pode esperar em troca de sua lealdade? Proteção contra o que, ou contra quem?

Só se compreende tal proteção em termos de apadrinhamento para todo tipo de bocadas e peixadas das quais muitos militares se valem para obter promoções, cargos, indicações, transferências e outros benefícios. Tais relações de apadrinhamento tampouco servem à missão institucional das Forças Armadas, que precisam sempre das pessoas mais competentes no desempenho de cada função, e não das melhor relacionadas na caserna.

Em que outras circunstâncias um subordinado leal precisaria da proteção dos superiores? Quem age corretamente está devidamente protegido pela probidade de sua própria conduta; só se precisa de proteção especial para o cometimento de atos ilícitos, imorais ou indecorosos.

A equivocada fala de Mauro Cid parece mais adequada no âmbito de relações feudais, regidas pelos vínculos entre senhor e vassalo - o que pode ser muito bonito em romances de cavalaria, mas é completamente inadequado no contexto da ordem militar moderna.

Mas a declaração também remete a outra prática, quiçá mais afim à casta de militares à qual pertence o coronel Cid: lembra tremendamente as relações de "omertà" que se esperam entre mafiosos, unidos por laços de extremada lealdade contra as forças da Justiça. 

Pensando melhor, a fala de Cid não é nada estranha - é exatamente o tipo de coisa que se espera ouvir de um coronel que sai da prisão, devidamente ataviado por uma tornozeleira eletrônica...



quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Perfectivelmente imperfeita

À cidade dos homens cabe ser exatamente como é: tola, cruel e mesquinha, na exata medida em que somos tolos, cruéis e mesquinhos - tristonha resultante de abandonados planos, esquecidas promessas, desmentidas profecias e perdidas oportunidades; imperfeitamente perfectível, perfectivelmente imperfeita, atormentado reflexo do que somos e daquilo que gostaríamos de ser. E, no entanto, se move...

terça-feira, 29 de agosto de 2023

A inexorável marcha do tempo


Como meus alunos perguntando sobre um tipo de disco "velhão", supostamente da época da II Guerra, usado para passar filmes - custei a entender que o artefato em questão era o DVD...

O que o povo gosta

 Em doze anos mantendo esse blog aprendi uma coisa: moderação, racionalidade, concisão e simplicidade não geram (muito) engajamento; o público, via de regra, quer opiniões bombásticas, verborragia tonitruante e explicações convenientes. Alguns dos textos com maior repercussão na história desse blog são justamente aqueles cuja qualidade menos me agrada; c'est la vie...

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Gestão humana

Quando um gestor tem a necessidade de ressaltar a seus subordinados que ele "olha o lado humano" significa que provavelmente significa que ele "olha o lado humano" com muito menos frequência e sensibilidade do que seria desejável. A real empatia costuma se fazer sentir esponteamente.

domingo, 30 de julho de 2023

Acolhendo a paz

"Eu achava que a gente ficava em paz indo até ela, quando na verdade as coisas que dão significado pra gente acabam trazendo essa paz".

Tiago Peixoto

domingo, 23 de julho de 2023

Como detectar uma editora picareta?

Há por aí uma infinidade de editoras caça-níquel cuja principal atividade é cooptar "novos autores" para publicar em "parceria", dividindo os custos editoriais. Com raras exceções, é uma tremenda furada - fuja desse tipo de editora!

Nos países de língua inglesa editoras assim são adequadamente qualificadas como "vanity publishers" ou "vanity press", dispostas a acariciar a vaidade de autores novatos em troca de dinheiro fácil, com poucos riscoa. Publicam sem uma seleção criteriosa (desde que o autor pague para isso - bem caro, de preferência).

Esse tipo de editora sempre existiu, mas se tornou uma praga com a recente expansão das comunicações digitais, que facilitam tremendamente a busca de autores para depenar.

Há uma maneira extraordinariamente simples para detectar esse tipo de editora predatória: examine atentamente o site da editora. 

Editoras sérias querem, antes de tudo, promover seu catálogo e vender seus livros. Consequentemente, o site de uma editora assim se ocupa principalmente com a exposição de suas obras, visando converter o visitante em leitor; geralmente há pouco espaço dedicado à busca de novos autores. É comum que haja algum link intitulado "Publique conosco", mas geralmente é discreto (até difícil de achar, em alguns casos) e costuma remeter a uma página bastante sucinta expondo os padrões para submissão de originais e um contato, normalmente por e-mail.

O site de uma editora caça-níquel, por outro lado, quase sempre é voltado para atrair autores e a essa função dedica a maior parte das páginas e links. Como vender livros não é o objetivo principal desse tipo de editora há pouco destaque para o catálogo, que via de regra não é apresentado de modo visualmente atraente; também não há muitos detalhes das obras, dificultando a atração de potenciais leitores. Por outro lado, o site de uma editora picareta quase sempre é repleto de promessas de visibilidade para "novos talentos", quando não de sucesso. 

Editoras sérias vendem livros e procuram leitores; editoras predatórias vendem promessas e procuram autores - seus respectivos sites normalmente deixam evidentes essas diferenças de propósito. Fique atento!

https://blog.reedsy.com/guide/publishing-companies-to-avoid/vanity-press/


sábado, 1 de julho de 2023

Zelensky em guerra pela "democracia"

Eis que o Sr. Volodymyr Zelensky, comediante feito presidente, anuncia o cancelamento das eleições na Ucrânia "até o fim da guerra", Deus sabe quando. Tudo em nome da nobre luta pela democracia, obviamente. Os bravos guerreiros do Batalhão Azov devem estar contentes (embora talvez não tão contentes, devido à ascendência judaica do Sr. Zelensky). A suspensão de eleições provavelmente não será motivo de maiores questionamentos por parte da OTAN e seus mercadores de armas, tão compenetrados no combate à autocracia russa - afinal de contas, o show não pode parar...



sábado, 17 de junho de 2023

"One measure of a civilised society is the freedom and cheapness with which it encourages ideas to be communicated"

Ian McKellen

quinta-feira, 15 de junho de 2023

A pobreza, segundo o ChatGPT

Ontem, só por curiosidade, bati um papo sobre pobreza com o ChatGPT, para ver que platitudes ele me responderia. 

As respostas tendiam sempre a caracterizar a pobreza como uma infelicidade derivada de fatores múltiplos e complexos que afetam a "alocação de recursos". Pressionei de todas as maneiras possíveis para que ele me respondesse quem é responsável por essa "alocação de recursos", e só recebi respostas evasivas e genéricas.

Em linhas gerais, a pobreza seria uma coisa muito triste e lamentável, que simplesmente acontece, sem ser responsabilidade de ninguém. Perturbador, especialmente considerando que essas respostas são apenas uma colagem de material garimpado na web. Pelo menos não culpou os pobres por serem pobres. 

Em determinado momento provoquei, perguntando se pessoas ricas são cínicas - recebi uma notificação de que aquele prompt violava os termos de uso da plataforma. A inteligência é artificial, mas não é boba...

"Auto" - O robô comprometido com a preservação do status quo na animação Wall-E.


quarta-feira, 14 de junho de 2023

Prioridades civilizatórias e o paradoxo do "progresso"

Hoje um aluno escreveu em um trabalho sobre tempo e projetos de vida que um de seus sonhos para o futuro é ter "água todo dia em casa", pois o abastecimento é irregular onde mora - uma comunidade na Zona Norte do Rio de Janeiro. 

A humanidade já foi à Lua.

Uma estação espacial tripulada orbita sobre nossas cabeças.

Durante a atual pandemia foi possível desenvolver vacinas com rapidez jamais imaginada. 

Bilhões de dólares são investidos no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. 

Utilizamos rotineiramente tecnologias que deixariam Julio Verne desconcertado - e ainda nos damos ao luxo de queimar milhões de reais em fogos de artifício no Réveillon.

Apesar de tudo isso, neste século de tantos prodígios, conseguimos a proeza de termos famílias em uma das maiores cidades do hemisfério sul sem acesso regular ao recurso mais imprescindível à sobrevivência humana. 

A grande tragédia da humanidade há muito deixou de ser sua debilidade perante a natureza; milhões de seres humanos vivem à margem do "progresso" simplesmente porque ESCOLHEMOS que assim seja. Não nos falta tecnologia; falta-nos simplesmente vergonha na cara.

Nossa grande e verdadeira miséria é a monstruosa capacidade de tolerar que tanta gente viva tão mal, com uma resignação fatalista e calhorda.

Há quem tema o fim da humanidade; de minha parte, às vezes duvido que ela tenha realmente existido algum dia...

Irrigação no Egito Antigo; milênios depois, a água continua sendo um luxo para milhões de pessoas. 


segunda-feira, 12 de junho de 2023

Escola em disputa

Reflexão certeira do Prof. Vinicius Borges

Esquerda e direita no Brasil estão se especializando em usar a escola como um "campo de luta" onde tudo é mais importante do que a escola e os que nela trabalham e estudam.

sábado, 27 de maio de 2023

Luto, memórias e encantamento

Hoje recebi uma notícia triste - uma amiguinha de infância faleceu há poucos meses, com pouco mais que trinta anos de idade, vitimada por um câncer. 

Tivemos pouquíssimo convívio. Era prima de amigos, consideravelmente mais nova que nós. Tinha dois ou três anos quando veio com a mãe passar umas poucas semanas com os parentes. Era uma criança encantadora, como costumam ser nessa idade. 

Nunca mais nos vimos e havia caído em meu esquecimento há muitos anos, até a triste notícia de hoje. Considerando a idade, é provável que ela não guardasse qualquer memória a meu respeito.

Hoje, porém, ao saber de seu falecimento, inúmeras lembranças me afloraram à consciência, uma delas particularmente enternecedora.

Me recordo que a menina se encantou por um brinquedo que eu tinha, um "View Master 3D", espécie de binóculo desengonçado onde eram inseridos discos com imagens que contavam historinhas com personagens de filmes e desenhos animados. Ao se acionar uma alavanca, o disco girava e trocava a imagem estereoscópica exibida.

Não era um de meus brinquedos favoritos. Os discos com histórias eram bastante caros e eu possuía pouquíssimos. Para uma criança crescida como eu logo se tornava uma atividade enfadonha. O mesmo não sucedia com minha amiguinha, cujos pequenos olhos azuis ainda se encantavam com esse tipo de bagatela.

Várias vezes ao dia a pequena vinha à varanda de minha casa e pedia para usar o brinquedo. Passava longo tempo visualizando o mesmo disco, manuseando a alavanca, revendo incessantemente as mesmas imagens. Havia ali algo que a encantava, ainda que provavelmente não percebesse que as figuras compunham uma narrativa. Quando cansava de um disco, me pedia que trocasse por outro, operação muito simples, mas não para uma criança tão pequena.

Provavelmente ela foi a pessoa que mais aproveitou aquele brinquedo, que eu e meus amigos já estávamos grandes demais para apreciar com a mesma intensidade; já não tínhamos a mesma disposição para o deslumbramento que se encontra apenas nas crianças muito pequenas, para quem tudo é novidade.

Nunca mais a vi. De certo modo, para mim é como se tivesse morrido aquela criancinha de dois ou três anos, não uma mulher adulta.

Espero, com todo coração, que ao longo de sua breve vida ela tenha tido oportunidade de se encantar com muitas coisas, como outrora com as imagens coloridas daquele brinquedo.