Extrato de Anatomia da vingança - Figuras elementares da reciprocidade de Mark R. Anspach
"A fé dos indivíduos no valor do dinheiro é indispensável para o funcionamento do mercado. Os economistas ortodoxos tentam reduzir a economia monetária a uma série de transações contratuais entre pares de agentes individuais. Orléan mostra que esse mecanismo encontra seu limite quando se trata de explicar o próprio dinheiro. Este não é o resultado de um contrato entre indivíduos, só pode ser a expressão de um nível transcendente - mesmo quando se trata do caso de uma transcendência emergente, de uma autotranscendência.
Materializando-se no dinheiro, a autotranscendência do grupo social intervém como mediador nas transações entre indivíduos. E é porque o grupo como um todo é o intermediário de toda transação entre dois indivíduos que essas transações podem parecer independentes umas das outras. Mas, na verdade, participam de um vasto círculo positivo, em que cada um aceita o dinheiro que circula, na esperança de que os outros farão a mesma coisa.
A fragilidade desse círculo aparece claramente cada vez que o dinheiro entra em crise. O círculo positivo transforma-se então em círculo negativo: cada um se recusa a aceitar o dinheiro temendo que os outros façam a mesma coisa. A crença no não valor do dinheiro se autorrealiza com a mesma aparência de fatalidade que a crença em seu valor. Quando falta o "complemento de fé" necessário para a unidade do todo, o dinheiro cai por terra. É a vingança do círculo.
Evidentemente, o círculo não age sempre de forma tão fulminante. Em geral a sua vingança é insidiosa; manifesta-se não pela ruína do dinheiro, mas por uma erosão lenta e progressiva de seu valor - ou, pelo contrário, por um aumento velado desse mesmo valor, que acaba também travando as trocas. Pois, se o dinheiro se torna uma mercadoria demasiadamente rara, os consumidores vão hesitar em gastá-lo. Mas a renda dos consumidores deriva do investimento dos empresários e a renda das empresas decorre do gasto dos consumidores: outro círculo positivo pronto para mudar de orientação assim que a confiança desaparece. Dessa vez, cada um se recusará a dar seu dinheiro temendo que os outros façam a mesma coisa. Os trabalhadores terão medo de comprar se não tiverem certeza de poder encontrar um emprego bem remunerado, e as empresas terão medo de contratar se não tiverem certeza de poder vender seus produtos por um bom preço.
A economia de mercado se baseia enfim na relação circular entre dois princípios muito simples: 1) o dinheiro é obtido na troca de bens; 2) os bens são obtidos em troca de dinheiro. Enquanto a máquina ficar dando voltas, pode-se acreditar que a articulação desses dois princípios é natural. Mas, como acabamos de ver, a máquina pode ficar paralisada de duas formas: ou os agentes temem não obter dinheiro suficiente por seus bens, ou temem não obter bens suficientes por seu dinheiro. O primeiro temor traduz-se pela elevação do desemprego e o segundo, pela alta dos preços. Porém, cada um desses temores é autorrealizador. Depois que se instala, destina-se a se perpetuar. Os círculos viciosos da inflação e do desemprego não são fenômenos marginais ou contingentes. Estes desnudam a circularidade na própria base do sistema".
sexta-feira, 31 de julho de 2015
quarta-feira, 29 de julho de 2015
Legados
Extrato do livro L`Anthropologie face aux problèmes du monde moderne, de Claude Lévi-Strauss
"Há dois ou três séculos, a civilização ocidental se dedicou principalmente ao conhecimento científico e suas aplicações. Se adotarmos esse critério, faremos da quantidade de energia disponível per capita o índice do grau de desenvolvimento das sociedades humanas. Se o critério fosse a aptidão para triunfar sobre meios geográficos particularmente hostis, os Esquimós e os Beduínos levariam os louros. A Índia soube melhor que nenhuma outra civilização elaborar um sistema filosófico e religioso capaz de reduzir os riscos psicológicos de um desequilíbrio demográfico. O Islã formulou uma teoria da solidariedade de todas as formas de atividade humana: técnica, econômica, social e espiritual, e sabem que lugar proeminente essa visão do homem e do mundo permitiu aos árabes ocupar na vida intelectual da Idade Média. O Oriente e o Extremo-Oriente possuem sobre o Ocidente uma dianteira de vários milênios em tudo que diz respeito às relações entre o físico e o moral, e à utilização dos recursos dessa suprema máquina que é o corpo humano. Atrasados nos planos técnico e econômico, os [aborígenes] Australianos elaboraram sistemas sociais e familiares de tão grande complexidade que para compreendê-los é necessário apelar a certas formas da matemática moderna. Podemos neles reconhecer os primeiros teóricos do parentesco.
A contribuição da África é mais complexa, mas também mais obscura, pois nós apenas começamos a compreender o papel de melting pot que ela desenvolveu no Mundo Antigo. A civilização egípcia é inteligível apenas como obra comum da Ásia e da África. E os grandes sistemas políticos da África antiga, suas contribuições jurídicas, seu pensamento filosófico durante muito tempo oculto aos ocidentais, suas artes plásticas e sua música são outros tantos aspectos de um passado muito fértil. Pensemos enfim nas múltiplas contribuições da América precolombiana à cultura material do Velho Mundo. Em primeiro lugar, a batata, a borracha, o tabaco [sic] e a coca (base da anestesia moderna), que, a diversos títulos, constituem quatro pilares da civilização ocidental; o milho e o amendoim, que revolucionaram a economia africana antes mesmo de serem conhecidos na Europa e, para o milho, de lá se espalhar; em seguida, o cacau, a baunilha, o tomate, o abacaxi, a pimenta, várias espécies de feijões, algodões e cucurbitáceas. Enfim, o zero, base da aritmética e, indiretamente, da matemática moderna, era conhecido e utilizado pelos maias ao menos meio milênio antes de sua descoberta pelos índios que o transmitiram à Europa por intermediação dos árabes. Por essa razão, talvez, o calendário maia era, em época igual, mais exato que aquele do Velho Mundo".
"Há dois ou três séculos, a civilização ocidental se dedicou principalmente ao conhecimento científico e suas aplicações. Se adotarmos esse critério, faremos da quantidade de energia disponível per capita o índice do grau de desenvolvimento das sociedades humanas. Se o critério fosse a aptidão para triunfar sobre meios geográficos particularmente hostis, os Esquimós e os Beduínos levariam os louros. A Índia soube melhor que nenhuma outra civilização elaborar um sistema filosófico e religioso capaz de reduzir os riscos psicológicos de um desequilíbrio demográfico. O Islã formulou uma teoria da solidariedade de todas as formas de atividade humana: técnica, econômica, social e espiritual, e sabem que lugar proeminente essa visão do homem e do mundo permitiu aos árabes ocupar na vida intelectual da Idade Média. O Oriente e o Extremo-Oriente possuem sobre o Ocidente uma dianteira de vários milênios em tudo que diz respeito às relações entre o físico e o moral, e à utilização dos recursos dessa suprema máquina que é o corpo humano. Atrasados nos planos técnico e econômico, os [aborígenes] Australianos elaboraram sistemas sociais e familiares de tão grande complexidade que para compreendê-los é necessário apelar a certas formas da matemática moderna. Podemos neles reconhecer os primeiros teóricos do parentesco.
A contribuição da África é mais complexa, mas também mais obscura, pois nós apenas começamos a compreender o papel de melting pot que ela desenvolveu no Mundo Antigo. A civilização egípcia é inteligível apenas como obra comum da Ásia e da África. E os grandes sistemas políticos da África antiga, suas contribuições jurídicas, seu pensamento filosófico durante muito tempo oculto aos ocidentais, suas artes plásticas e sua música são outros tantos aspectos de um passado muito fértil. Pensemos enfim nas múltiplas contribuições da América precolombiana à cultura material do Velho Mundo. Em primeiro lugar, a batata, a borracha, o tabaco [sic] e a coca (base da anestesia moderna), que, a diversos títulos, constituem quatro pilares da civilização ocidental; o milho e o amendoim, que revolucionaram a economia africana antes mesmo de serem conhecidos na Europa e, para o milho, de lá se espalhar; em seguida, o cacau, a baunilha, o tomate, o abacaxi, a pimenta, várias espécies de feijões, algodões e cucurbitáceas. Enfim, o zero, base da aritmética e, indiretamente, da matemática moderna, era conhecido e utilizado pelos maias ao menos meio milênio antes de sua descoberta pelos índios que o transmitiram à Europa por intermediação dos árabes. Por essa razão, talvez, o calendário maia era, em época igual, mais exato que aquele do Velho Mundo".
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Filosofia do recesso escolar
HIPÓTESE 1: Algumas pessoas não sabem desenvolver argumentos lógicos.
HIPÓTESE 2: As paixões ideológicas distorcem a capacidade de raciocínio das pessoas.
HIPÓTESE 3: Ambas as hipóteses podem se complementar e/ou potencializar.
HIPÓTESE 4: Eu não sei raciocinar logicamente.
HIPÓTESE 5: Considerando correta a hipótese 4, as hipóteses de 1 a 3 devem ser desconsideradas.
HIPÓTESE 6: Considerando correta a hipótese 4, eu poderia ser classificado entre as pessoas que são objeto da hipótese 1.
HIPÓTESE 7:...
HIPÓTESE n: Se eu não estivesse em recesso escolar, não elaboraria esses argumentos estúpidos de forma tão detalhada.
HIPÓTESE 2: As paixões ideológicas distorcem a capacidade de raciocínio das pessoas.
HIPÓTESE 3: Ambas as hipóteses podem se complementar e/ou potencializar.
HIPÓTESE 4: Eu não sei raciocinar logicamente.
HIPÓTESE 5: Considerando correta a hipótese 4, as hipóteses de 1 a 3 devem ser desconsideradas.
HIPÓTESE 6: Considerando correta a hipótese 4, eu poderia ser classificado entre as pessoas que são objeto da hipótese 1.
HIPÓTESE 7:...
HIPÓTESE n: Se eu não estivesse em recesso escolar, não elaboraria esses argumentos estúpidos de forma tão detalhada.
domingo, 26 de julho de 2015
Chapolim, herói subversivo
Apesar de seu cada vez mais estrondoso sucesso mundial, o gênero artístico "super-herói" parece ser um fenômeno exclusivamente ianque. Raramente um super-herói sério produzido fora dos Estados Unidos obtém sucesso. Por incrível que pareça, acho que o Chapolim Colorado é o único grande êxito internacional do gênero criado fora dos EUA, ou pelo menos um dos maiores êxitos - mas, obviamente, não se trata de uma obra séria. Talvez seja, justamente, uma exceção que confirma a regra. Mas como explicar esse êxito? Uma explicação tentadoramente simples é que nós, latinoamericanos, não levamos nossos respectivos países a sério, fazendo sentido que nosso herói seja uma figura picaresca. Contudo, me parece possível explorar mais profundamente o pitoresco personagem.
Para tanto, lancemos primeiro nosso olhar sobre seus equipamentos, a começar pela famosa "marreta biônica". Um martelo de combate é uma arma de natureza violenta e brutal, destinada ao esmagamento de carnes e ossos. No caso de Chapolim, o malho representa uma imagem nitidamente inofensiva, composto de plástico em cores berrantes. Não transmite ideia de peso ou dureza. Parece um brinquedo, pois é, com efeito, um brinquedo. Provoca o riso, evoca certo distanciamento da realidade, e convida o espectador à brincadeira. Ninguém vai se machucar de verdade. Nenhum crânio será esmagado. Uma cabeça realmente contundida provoca medo, piedade, censura, mas um golpe da "marreta biônica" nos faz rir.
Por outro lado, temos a pílula de polegarina (ou nanicolina). Em geral, os heróis buscam instrumentos que os tornem mais fortes e poderosos, que os engrandeçam, ao passo que as pílulas reduzem o Chapolim, tornam-no fraco e vulnerável. Um gato ou um rato tornam-se ameaças temíveis para o encolhido herói. Outra inversão, ou subversão.
Para encerrar a questão dos equipamentos, lembremos a "corneta paralisadora", cujas aparições são raras, porém marcantes. Ao realizar seu efeito paralisante, constitui uma negação do movimento, enquanto as capacidades da maioria dos super-heróis tendem normalmente à ampliação do movimento, como a força do Hulk, a velocidade do Flash ou a capacidade de voo do Superman. Se, em grande medida, os super-heróis constituem pessoas "ampliadas", o Chapolim, pelo contrário, pode ser considerado, em sentidos tanto simbólicos quanto literais, uma pessoa "reduzida".
Os bordões do personagem também são indícios interessantes para interpretá-lo. "Meus movimentos são friamente calculados" e "suspeitei desde o princípio" são frases que geralmente pontuam situações onde se passa justamente o contrário, ou seja, quando Chapolim mostra menos destreza ou perspicácia, onde ele se mostra a antítese do super-herói, desastrado e tolo.
Em muitos episódios, Chapolim é vítima de abusos verbais ou físicos, e reage, encarando o espectador: "Se aproveitam de minha nobreza". O bordão também costuma ser empregado quando o personagem se vê pressionado a agir de determinada maneira. Ambas as situações denotam a vulnerabilidade do protagonista, bem como seu papel muitas vezes passivo, ao contrário do que normalmente se passa nas narrativas de super-heróis - por exemplo, Batman e Superman, dois dos arquétipos máximos desse universo raramente perdem o controle da situação, enquanto Chapolim parece quase sempre ser um joguete das circunstâncias. Por sinal, o herói mexicano muitas vezes não age movido por seus princípios, precisando ser insistentemente coagido, ao que responde com seus clássicos "sim, eu vou..." ou "sim, eu faço..."
Por vezes, o personagem consegue, numa reviravolta, dominar os problemas, pronunciando seu vitorioso "não contavam com minha astúcia". No entanto, é bom salientar que essa astúcia do Chapolim jamais se configura como as hábeis e meticulosas manobras do Batman, mas sempre como fruto de um feliz improviso. É uma astúcia de malandro, de pícaro, não de estrategista.
Em seus atos e palavras Chapolim parece sempre agir às avessas do que se espera de um super-herói. Talvez por isso viva confundindo a sabedoria comum articulada pelos ditados e provérbios, invertendo e distorcendo sua lógica e valores. O caráter confuso e caótico do personagem talvez se expresse em sua forma mais eloquente através do bordão "Palma, palma, não priemos cânico!", subversão extrema dos códigos linguísticos, que também revela o ambíguo código de ética do Chapolim, onde os termos se subvertem: o herói se dispõe a ajudar os vilões, ou pior ainda, põem-se a agredir as próprias pessoas que viera ajudar. Definitivamente, o Chapolim não é confiável.
Por fim, todas essas características parecem convergir para a própria emblemática do personagem. Chapulines são pequenos insetos da América do Norte.
No entanto, há que se ressaltar uma peculiaridade: trata-se de um inseto consagrado a usos culinários, geralmente cultivados para consumo. Sua forma de consumo mais comum é torrado e temperado com sal, alho e suco de lima.
A maioria dos super-heróis ou vilões de inspiração animal usa como "totem" alguma espécie grande ou ameçadora: morcego, tigre, carcaju ("wolverine"), lince, leopardo, urso, lobo, tubarão, rinoceronte, águia, falcão, gavião... Mesmo nos casos de pequenos insetos ou artrópodes, trata-se de animais relativamentes agressivos, como aranhas, escorpiões ou vespas. Em uma palavra, os emblemas no universo dos super-heróis remetem normalmente a espécies de predadores. Os chapulines são justamente o contrário, isto é, presas, animais destinados ao consumo e à alimentação humana. Animais que os seres humanos comem, não animais que temem. Retornamos, de certo modo, à imagem da "marreta biônica": uma arma inofensiva, que não inspira medo.
Mais ainda, animais criados em cativeiro, os chapulines são criaturas domésticas, inofensivas dominadas pelo ser humano, enquanto a maioria dos emblemas animais usados no mundo dos super-heróis remete a espécies selvagens, que escapam ao nosso domínio e controle. Não temos um Homem-Cachorro, uma Mulher-Vaca, um Super-Cavalo, um Garoto-Bode ou uma Menina-Ovelha. Tais figuras não inspirariam temor ou respeito, mas riso - como o Chapolim. Sob esse aspecto, a figura da Mulher-Gato parece bastante reveladora: é uma personagem perpetuamente dividida entre o mundo da lei e da justiça e o submundo do crime, tal como os gatos são animais semi-domesticados, imperfeitamente domados e controlados, imprevisíveis, divididos entre o lar e a rua, a meio caminho entre a cultura e a natureza.
Assim, esse pequeno ensaio sobre o Chapolim nos conduz a uma dupla conclusão: é um herói latinoamericano não apenas porque rimos dele, mas porque o associamos a uma série de imagens culturalmente arraigadas, cristalizadas e reificadas acerca da própria América Latina: fraco, tolo, desastrado, passivo, malandro, paralisado, vulnerável, pouco confiável. E assim, o aceitamos como nosso herói, porque consideramos a nós mesmos dignos (apenas?) do riso, da caçoada, do deboche. Parafraseando De Gaulle, não somos "países sérios".
Por outro lado, o contraste entre o Chapolim e os super-heróis "sérios" expõe melhor algumas das raízes desse gênero: o selvagem, o indomável, o natural, aquilo que não pode ser controlado. Não seria Superman uma verdadeira força da natureza? Fruto de uma cultura industrial, os super-heróis revelam o quanto de "arcaico" ou "primitivo" ainda persiste em nosso espírito, o quanto tais emblemas ainda constituem uma mitologia apelativa a nossas sensibilidades. Como já dizia Lévi-Strauss, o "pensamento selvagem" continua presente entre nós e em nós...
Para tanto, lancemos primeiro nosso olhar sobre seus equipamentos, a começar pela famosa "marreta biônica". Um martelo de combate é uma arma de natureza violenta e brutal, destinada ao esmagamento de carnes e ossos. No caso de Chapolim, o malho representa uma imagem nitidamente inofensiva, composto de plástico em cores berrantes. Não transmite ideia de peso ou dureza. Parece um brinquedo, pois é, com efeito, um brinquedo. Provoca o riso, evoca certo distanciamento da realidade, e convida o espectador à brincadeira. Ninguém vai se machucar de verdade. Nenhum crânio será esmagado. Uma cabeça realmente contundida provoca medo, piedade, censura, mas um golpe da "marreta biônica" nos faz rir.
Por outro lado, temos a pílula de polegarina (ou nanicolina). Em geral, os heróis buscam instrumentos que os tornem mais fortes e poderosos, que os engrandeçam, ao passo que as pílulas reduzem o Chapolim, tornam-no fraco e vulnerável. Um gato ou um rato tornam-se ameaças temíveis para o encolhido herói. Outra inversão, ou subversão.
Para encerrar a questão dos equipamentos, lembremos a "corneta paralisadora", cujas aparições são raras, porém marcantes. Ao realizar seu efeito paralisante, constitui uma negação do movimento, enquanto as capacidades da maioria dos super-heróis tendem normalmente à ampliação do movimento, como a força do Hulk, a velocidade do Flash ou a capacidade de voo do Superman. Se, em grande medida, os super-heróis constituem pessoas "ampliadas", o Chapolim, pelo contrário, pode ser considerado, em sentidos tanto simbólicos quanto literais, uma pessoa "reduzida".
Os bordões do personagem também são indícios interessantes para interpretá-lo. "Meus movimentos são friamente calculados" e "suspeitei desde o princípio" são frases que geralmente pontuam situações onde se passa justamente o contrário, ou seja, quando Chapolim mostra menos destreza ou perspicácia, onde ele se mostra a antítese do super-herói, desastrado e tolo.
Em muitos episódios, Chapolim é vítima de abusos verbais ou físicos, e reage, encarando o espectador: "Se aproveitam de minha nobreza". O bordão também costuma ser empregado quando o personagem se vê pressionado a agir de determinada maneira. Ambas as situações denotam a vulnerabilidade do protagonista, bem como seu papel muitas vezes passivo, ao contrário do que normalmente se passa nas narrativas de super-heróis - por exemplo, Batman e Superman, dois dos arquétipos máximos desse universo raramente perdem o controle da situação, enquanto Chapolim parece quase sempre ser um joguete das circunstâncias. Por sinal, o herói mexicano muitas vezes não age movido por seus princípios, precisando ser insistentemente coagido, ao que responde com seus clássicos "sim, eu vou..." ou "sim, eu faço..."
Por vezes, o personagem consegue, numa reviravolta, dominar os problemas, pronunciando seu vitorioso "não contavam com minha astúcia". No entanto, é bom salientar que essa astúcia do Chapolim jamais se configura como as hábeis e meticulosas manobras do Batman, mas sempre como fruto de um feliz improviso. É uma astúcia de malandro, de pícaro, não de estrategista.
Em seus atos e palavras Chapolim parece sempre agir às avessas do que se espera de um super-herói. Talvez por isso viva confundindo a sabedoria comum articulada pelos ditados e provérbios, invertendo e distorcendo sua lógica e valores. O caráter confuso e caótico do personagem talvez se expresse em sua forma mais eloquente através do bordão "Palma, palma, não priemos cânico!", subversão extrema dos códigos linguísticos, que também revela o ambíguo código de ética do Chapolim, onde os termos se subvertem: o herói se dispõe a ajudar os vilões, ou pior ainda, põem-se a agredir as próprias pessoas que viera ajudar. Definitivamente, o Chapolim não é confiável.
Por fim, todas essas características parecem convergir para a própria emblemática do personagem. Chapulines são pequenos insetos da América do Norte.
No entanto, há que se ressaltar uma peculiaridade: trata-se de um inseto consagrado a usos culinários, geralmente cultivados para consumo. Sua forma de consumo mais comum é torrado e temperado com sal, alho e suco de lima.
A maioria dos super-heróis ou vilões de inspiração animal usa como "totem" alguma espécie grande ou ameçadora: morcego, tigre, carcaju ("wolverine"), lince, leopardo, urso, lobo, tubarão, rinoceronte, águia, falcão, gavião... Mesmo nos casos de pequenos insetos ou artrópodes, trata-se de animais relativamentes agressivos, como aranhas, escorpiões ou vespas. Em uma palavra, os emblemas no universo dos super-heróis remetem normalmente a espécies de predadores. Os chapulines são justamente o contrário, isto é, presas, animais destinados ao consumo e à alimentação humana. Animais que os seres humanos comem, não animais que temem. Retornamos, de certo modo, à imagem da "marreta biônica": uma arma inofensiva, que não inspira medo.
Mais ainda, animais criados em cativeiro, os chapulines são criaturas domésticas, inofensivas dominadas pelo ser humano, enquanto a maioria dos emblemas animais usados no mundo dos super-heróis remete a espécies selvagens, que escapam ao nosso domínio e controle. Não temos um Homem-Cachorro, uma Mulher-Vaca, um Super-Cavalo, um Garoto-Bode ou uma Menina-Ovelha. Tais figuras não inspirariam temor ou respeito, mas riso - como o Chapolim. Sob esse aspecto, a figura da Mulher-Gato parece bastante reveladora: é uma personagem perpetuamente dividida entre o mundo da lei e da justiça e o submundo do crime, tal como os gatos são animais semi-domesticados, imperfeitamente domados e controlados, imprevisíveis, divididos entre o lar e a rua, a meio caminho entre a cultura e a natureza.
Assim, esse pequeno ensaio sobre o Chapolim nos conduz a uma dupla conclusão: é um herói latinoamericano não apenas porque rimos dele, mas porque o associamos a uma série de imagens culturalmente arraigadas, cristalizadas e reificadas acerca da própria América Latina: fraco, tolo, desastrado, passivo, malandro, paralisado, vulnerável, pouco confiável. E assim, o aceitamos como nosso herói, porque consideramos a nós mesmos dignos (apenas?) do riso, da caçoada, do deboche. Parafraseando De Gaulle, não somos "países sérios".
Por outro lado, o contraste entre o Chapolim e os super-heróis "sérios" expõe melhor algumas das raízes desse gênero: o selvagem, o indomável, o natural, aquilo que não pode ser controlado. Não seria Superman uma verdadeira força da natureza? Fruto de uma cultura industrial, os super-heróis revelam o quanto de "arcaico" ou "primitivo" ainda persiste em nosso espírito, o quanto tais emblemas ainda constituem uma mitologia apelativa a nossas sensibilidades. Como já dizia Lévi-Strauss, o "pensamento selvagem" continua presente entre nós e em nós...
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Clio mutilada - Escalas e proporções
Dedico este mal acabado ensaio ao Prof. Guilherme Pereira das Neves, semeador de interessantes inquietações
Há muitos anos, nós historiadores temos deixado de lado, consciente ou inconscientemente, as "grandes narrativas". As sínteses amplas e ousadas parecem nos intimidar cada vez mais, devido a considerações de caráter teórico, metodológico e, muitas vezes, ideológico. Também não me parecem desprezíveis as pressões de ordem prática, promovidas pelo sistema acadêmico vigente, especialmente as políticas de financiamento à pesquisa.
Muito se tem discutido as escalas de análise, mas a verdade é que optamos por recortes analíticos cada vez menores: regiões geográficas por vezes ínfimas, intervalos de tempo breves (ou brevíssimos), trajetórias individuais, e por aí afora.
Enxergamos cada vez melhor as árvores, mas parece cada vez mais difícil perceber a floresta ("Há floresta?" - perguntariam os pós-modernos de plantão).
Mas, no fim das contas, me pergunto: temos um problema de escala ou de projeção?
Desde o século XVI, nossos primos geógrafos lidam, de modo bastante visceral, com problemática semelhante: como representar adequadamente um planeta esférico e tridimensional sobre um suporte plano (logo, bidimensional)? Essa defasagem de uma dimensão representa tremendo desafio, implicando, grosso modo, na perda de "um terço" da realidade.
Uma maneira relativamente simples de lidar com essa questão consiste no uso de escalas cartográficas relativamente amplas (quanto maior a escala, menor a área representada), onde o fator de distorção é consideravelmente amenizado. Reduz-se o mundo a uma coleção fraturada de cartas locais, cujo cotejo fornece uma imago mundi relativamente inteligível e coerente, mas perdendo-se boa parte de sua coesão. Obtemos uma soma de quadriláteros que jamais chegarão perto da esfera: jogamos fora a curvatura, produzimos uma Terra mutilada, picotada, desconjuntada.
A representação holística e sintética de nosso planeta conduz inevitavelmente à elaboração de projeções variadas, recorrendo a diversos e complexos artifícios geométricos e matemáticos. Ao longo dos últimos séculos a ciência cartográfica desenvolveu e aperfeiçoou inúmeras formas de projeção bidimensional da Terra. Basicamente, cada projeção permite representar de forma acurada e precisa algum aspecto específico da esfera terrestre, preservando e privilegiando determinados ângulos, proporções, formas e dimensões em detrimento de outro ângulos, proporções, formas ou dimensões. Podemos ter representações fidedignas de paralelos, meridianos, continentes, oceanos ou regiões polares, mas nunca de todos ao mesmo tempo. Ainda assim, cada uma dessas projeções fornece uma aceitável impressão de conjunto de nosso planeta. Além disso, o cotejo crítico entre essas diversas projeções nos permite melhor aquilatar o efeito de suas respectivas distorções.
Por outro lado, é importante lembrar que as escalas que privilegiam a representação regional escamoteiam, mas não escapam às problemáticas de projeção - apenas as tornam menos perceptíveis e, portanto, muito mais traiçoeiras. Por menos atenção à floresta, tendemos a olhar as árvores de modo mais descuidado.
Retornemos aos domínios de Clio e à questão das "grandes narrativas": num mundo globalizado, cujas partes se tornam cada vez mais integradas, elas me parecem imprescindíveis. No entanto, como viabilizá-las? Como problematizá-las de modo satisfatório? Creio que um caminho possível seria justamente a escolha e a elaboração conscienciosas do que poderíamos pensar como "projeções historiográficas". Em grande medida, a problemática central das projeções geométricas gira em torno de ângulos, especialmente da determinação de ângulos específicos que permitam transpor e traduzir satisfatoriamente certas características do espaço representado ao suporte desejado. De certa maneira, trata-se de um exercício de distorção controlada, segundo uma perspectiva cuidadosamente selecionada, a servir como fio de Ariadne nos labirintos do espaço.
Nesse sentido, qualquer "grande narrativa" será sempre distorcida a partir de determinada perspectiva - trata-se de contingência incontornável. Por outro lado, tal como sucede em cartografia, as microescalas não evitam ou impedem distorções, apenas as tornam mais difíceis de detectar ou perceber. A partir de minha breve experiência como historiador, tenho a impressão de que a forma mais comum de distorção promovida pelo recurso às "pequenas narrativas" é a perda ou o escamoteamento de uma das dimensões mais essenciais da experiência histórica, a diacronia. Ora, me parece que o predomínio de uma História sem diacronia nos conduz, perdoem-me o exagero, a mutilar Clio. E para que nos servirá Clio mutilada, picotada, desconjuntada?
Sendo a arte da projeção uma questão de selecionar ângulos, parece-me que o principal problema na elaboração de uma "grande narrativa" é a escolha de uma perspectiva capaz de nos guiar pelos labirintos do tempo - um fio de Ariadne. Como ditam os princípios da projeção, tal escolha implica em determinar o que desejamos ganhar através da "grande narrativa", mas também o que estamos dispostos a perder em seu processo de formulação.
Minhas primeiras reflexões em torno dessa questão datam de 2012, quando escrevi meu terceiro livro, A ilha e o tempo, dedicado à história dos 400 anos da cidade de São Luís do Maranhão. Agora me dou conta de que o "tempo" foi meu labirinto, enquanto a "ilha" me serviu como fio de Ariadne. Concebi esse trabalho segundo um duplo artifício: narrar a história de São Luís a partir de uma perspectiva global, simultaneamente narrando a história do mundo a partir de uma perspectiva ludovicense, promovendo um jogo de reflexos e refrações, a partir da experiência de diversos personagens que vivenciaram São Luís ao longo de seus 400 anos.
Para tanto, me inspirei particularmente na noção matemática de fractalidade, entre outros modelos vagamente inspirados pelas ciências exatas. Tais ruminações renderam uma espetacular madrugada de diálogo com meu "irmão" Kainã, jovem físico de grande perspicácia - na verdade, essa instigante tertúlia interdisciplinar vem, desde então, suscitando inúmeros questionamentos acerca de diversas problemáticas ontológicas, bem como sobre as múltiplas possibilidades de diálogo entre as ciências humanas e exatas.
Durante boa parte do século XX os historiadores buscaram ferramentas nas ciências exatas, especialmente na Estatística, com a finalidade mais ou menos explícita de alcançar novos patamares de objetividade científica. Essa abordagem rendeu resultados consideráveis em determinadas áreas, especialmente na história da economia e da demografia, mas hoje muitos olham com desdém para essa historiografia dita "serial". Por sinal, me parece que o colapso dessa abordagem corresponde, em grande medida, ao desenvolvimento do ceticismo acerca das "grandes narrativas".
Havia implícita nesse modelo, creio eu, uma concepção estritamente "denotativa" da Matemática e de seus recursos de modelação da realidade. Penso que talvez seja o momento de retomar o diálogo historiográfico com as ciências exatas, sobre novas bases, especialmente buscando na linguagem matemática um potencial "conotativo", não capaz de ancorar objetivamente a História no concreto, mas de ampliar nossas possibilidades de abstração em torno da experiência histórica, inspirando novos olhares, capazes de formular "grandes narrativas" de modo criativo e inovador - algo como uma "hermenêutica matemática" (ou uma "retórica matemática"), capaz de expressar ou sintetizar as experiências do ser humano no tempo através dessa linguagem cujas potencialidades, literalmente, tendem ao infinito.
Por que não?
Esse texto só existe devido a inúmeras pessoas, especialmente minha esposa, Priscila, verdadeira co-autora de A ilha e o tempo, meu ex-orientador e sempre amigo, Rodrigo Bentes Monteiro, o embaixador Vasco Mariz, o Prof. Sebastião Moreira Duarte, o Dr. Luís Mário Duarte, os "irmãos" Kainã e Igor, e os amigos Roger Marques e Fred Oliveira, entre outros companheiros de jornada e de lutas.
Há muitos anos, nós historiadores temos deixado de lado, consciente ou inconscientemente, as "grandes narrativas". As sínteses amplas e ousadas parecem nos intimidar cada vez mais, devido a considerações de caráter teórico, metodológico e, muitas vezes, ideológico. Também não me parecem desprezíveis as pressões de ordem prática, promovidas pelo sistema acadêmico vigente, especialmente as políticas de financiamento à pesquisa.
Muito se tem discutido as escalas de análise, mas a verdade é que optamos por recortes analíticos cada vez menores: regiões geográficas por vezes ínfimas, intervalos de tempo breves (ou brevíssimos), trajetórias individuais, e por aí afora.
Enxergamos cada vez melhor as árvores, mas parece cada vez mais difícil perceber a floresta ("Há floresta?" - perguntariam os pós-modernos de plantão).
Mas, no fim das contas, me pergunto: temos um problema de escala ou de projeção?
Desde o século XVI, nossos primos geógrafos lidam, de modo bastante visceral, com problemática semelhante: como representar adequadamente um planeta esférico e tridimensional sobre um suporte plano (logo, bidimensional)? Essa defasagem de uma dimensão representa tremendo desafio, implicando, grosso modo, na perda de "um terço" da realidade.
Uma maneira relativamente simples de lidar com essa questão consiste no uso de escalas cartográficas relativamente amplas (quanto maior a escala, menor a área representada), onde o fator de distorção é consideravelmente amenizado. Reduz-se o mundo a uma coleção fraturada de cartas locais, cujo cotejo fornece uma imago mundi relativamente inteligível e coerente, mas perdendo-se boa parte de sua coesão. Obtemos uma soma de quadriláteros que jamais chegarão perto da esfera: jogamos fora a curvatura, produzimos uma Terra mutilada, picotada, desconjuntada.
A representação holística e sintética de nosso planeta conduz inevitavelmente à elaboração de projeções variadas, recorrendo a diversos e complexos artifícios geométricos e matemáticos. Ao longo dos últimos séculos a ciência cartográfica desenvolveu e aperfeiçoou inúmeras formas de projeção bidimensional da Terra. Basicamente, cada projeção permite representar de forma acurada e precisa algum aspecto específico da esfera terrestre, preservando e privilegiando determinados ângulos, proporções, formas e dimensões em detrimento de outro ângulos, proporções, formas ou dimensões. Podemos ter representações fidedignas de paralelos, meridianos, continentes, oceanos ou regiões polares, mas nunca de todos ao mesmo tempo. Ainda assim, cada uma dessas projeções fornece uma aceitável impressão de conjunto de nosso planeta. Além disso, o cotejo crítico entre essas diversas projeções nos permite melhor aquilatar o efeito de suas respectivas distorções.
Por outro lado, é importante lembrar que as escalas que privilegiam a representação regional escamoteiam, mas não escapam às problemáticas de projeção - apenas as tornam menos perceptíveis e, portanto, muito mais traiçoeiras. Por menos atenção à floresta, tendemos a olhar as árvores de modo mais descuidado.
Retornemos aos domínios de Clio e à questão das "grandes narrativas": num mundo globalizado, cujas partes se tornam cada vez mais integradas, elas me parecem imprescindíveis. No entanto, como viabilizá-las? Como problematizá-las de modo satisfatório? Creio que um caminho possível seria justamente a escolha e a elaboração conscienciosas do que poderíamos pensar como "projeções historiográficas". Em grande medida, a problemática central das projeções geométricas gira em torno de ângulos, especialmente da determinação de ângulos específicos que permitam transpor e traduzir satisfatoriamente certas características do espaço representado ao suporte desejado. De certa maneira, trata-se de um exercício de distorção controlada, segundo uma perspectiva cuidadosamente selecionada, a servir como fio de Ariadne nos labirintos do espaço.
Nesse sentido, qualquer "grande narrativa" será sempre distorcida a partir de determinada perspectiva - trata-se de contingência incontornável. Por outro lado, tal como sucede em cartografia, as microescalas não evitam ou impedem distorções, apenas as tornam mais difíceis de detectar ou perceber. A partir de minha breve experiência como historiador, tenho a impressão de que a forma mais comum de distorção promovida pelo recurso às "pequenas narrativas" é a perda ou o escamoteamento de uma das dimensões mais essenciais da experiência histórica, a diacronia. Ora, me parece que o predomínio de uma História sem diacronia nos conduz, perdoem-me o exagero, a mutilar Clio. E para que nos servirá Clio mutilada, picotada, desconjuntada?
Sendo a arte da projeção uma questão de selecionar ângulos, parece-me que o principal problema na elaboração de uma "grande narrativa" é a escolha de uma perspectiva capaz de nos guiar pelos labirintos do tempo - um fio de Ariadne. Como ditam os princípios da projeção, tal escolha implica em determinar o que desejamos ganhar através da "grande narrativa", mas também o que estamos dispostos a perder em seu processo de formulação.
Minhas primeiras reflexões em torno dessa questão datam de 2012, quando escrevi meu terceiro livro, A ilha e o tempo, dedicado à história dos 400 anos da cidade de São Luís do Maranhão. Agora me dou conta de que o "tempo" foi meu labirinto, enquanto a "ilha" me serviu como fio de Ariadne. Concebi esse trabalho segundo um duplo artifício: narrar a história de São Luís a partir de uma perspectiva global, simultaneamente narrando a história do mundo a partir de uma perspectiva ludovicense, promovendo um jogo de reflexos e refrações, a partir da experiência de diversos personagens que vivenciaram São Luís ao longo de seus 400 anos.
Para tanto, me inspirei particularmente na noção matemática de fractalidade, entre outros modelos vagamente inspirados pelas ciências exatas. Tais ruminações renderam uma espetacular madrugada de diálogo com meu "irmão" Kainã, jovem físico de grande perspicácia - na verdade, essa instigante tertúlia interdisciplinar vem, desde então, suscitando inúmeros questionamentos acerca de diversas problemáticas ontológicas, bem como sobre as múltiplas possibilidades de diálogo entre as ciências humanas e exatas.
Durante boa parte do século XX os historiadores buscaram ferramentas nas ciências exatas, especialmente na Estatística, com a finalidade mais ou menos explícita de alcançar novos patamares de objetividade científica. Essa abordagem rendeu resultados consideráveis em determinadas áreas, especialmente na história da economia e da demografia, mas hoje muitos olham com desdém para essa historiografia dita "serial". Por sinal, me parece que o colapso dessa abordagem corresponde, em grande medida, ao desenvolvimento do ceticismo acerca das "grandes narrativas".
Havia implícita nesse modelo, creio eu, uma concepção estritamente "denotativa" da Matemática e de seus recursos de modelação da realidade. Penso que talvez seja o momento de retomar o diálogo historiográfico com as ciências exatas, sobre novas bases, especialmente buscando na linguagem matemática um potencial "conotativo", não capaz de ancorar objetivamente a História no concreto, mas de ampliar nossas possibilidades de abstração em torno da experiência histórica, inspirando novos olhares, capazes de formular "grandes narrativas" de modo criativo e inovador - algo como uma "hermenêutica matemática" (ou uma "retórica matemática"), capaz de expressar ou sintetizar as experiências do ser humano no tempo através dessa linguagem cujas potencialidades, literalmente, tendem ao infinito.
Por que não?
Esse texto só existe devido a inúmeras pessoas, especialmente minha esposa, Priscila, verdadeira co-autora de A ilha e o tempo, meu ex-orientador e sempre amigo, Rodrigo Bentes Monteiro, o embaixador Vasco Mariz, o Prof. Sebastião Moreira Duarte, o Dr. Luís Mário Duarte, os "irmãos" Kainã e Igor, e os amigos Roger Marques e Fred Oliveira, entre outros companheiros de jornada e de lutas.
quinta-feira, 16 de julho de 2015
Quem oprime?
Hoje, em sala de aula, um aluno deu vários tapas nas nádegas de uma colega. Ela reclamou, solicitando minha intervenção
Detalhes: o aluno em questão é negro, bastante pobre e é tratado pela família com grande descaso, frequentando a escola com roupas encardidas, por vezes exalando odores característicos de falta de higiene. A aluna pertence ao sexo feminino (obviamente), é branca e parece ter condição social e familiar consideravelmente melhor que a do menino; pela linguagem que anda por aí, poderíamos dizer que ela goza de "privilégios".
Educadamente, solicitei INÚMERAS vezes ao aluno que parasse de agredir sexualmente a colega e que a tratasse com o devido respeito, mas precisei falar com rispidez para que ele finalmente atendesse. Discuti brevemente a questão ("você gostaria que fizessem isso com a sua mãe, etc"), mas creio que minhas ponderações "entraram por um ouvido e saíram pelo outro".
Meu aluno é oprimido ou opressor? Ou desempenha ambos os papéis? E a aluna, branca, de classe média baixa, "privilegiada" - oprimida ou opressora? E eu, professor, homem-branco-heterossexual-de-classe-média, tentando ensinar o menino a respeitar as mulheres, tal como me ensinara meu avô (homem-branco-etc), sou opressor?
É muito fácil criar rótulos e estereótipos. Difícil mesmo é lidar com a complexidade da realidade.
Detalhes: o aluno em questão é negro, bastante pobre e é tratado pela família com grande descaso, frequentando a escola com roupas encardidas, por vezes exalando odores característicos de falta de higiene. A aluna pertence ao sexo feminino (obviamente), é branca e parece ter condição social e familiar consideravelmente melhor que a do menino; pela linguagem que anda por aí, poderíamos dizer que ela goza de "privilégios".
Educadamente, solicitei INÚMERAS vezes ao aluno que parasse de agredir sexualmente a colega e que a tratasse com o devido respeito, mas precisei falar com rispidez para que ele finalmente atendesse. Discuti brevemente a questão ("você gostaria que fizessem isso com a sua mãe, etc"), mas creio que minhas ponderações "entraram por um ouvido e saíram pelo outro".
Meu aluno é oprimido ou opressor? Ou desempenha ambos os papéis? E a aluna, branca, de classe média baixa, "privilegiada" - oprimida ou opressora? E eu, professor, homem-branco-heterossexual-de-classe-média, tentando ensinar o menino a respeitar as mulheres, tal como me ensinara meu avô (homem-branco-etc), sou opressor?
É muito fácil criar rótulos e estereótipos. Difícil mesmo é lidar com a complexidade da realidade.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Violência e poder
Trecho do livro A história do mundo em 100 objetos, de Neil MacGregor
Etiqueta da Sandália do rei Den (c. 2985 a.C.)
"Esta pequena etiqueta é a primeira imagem de um governante na história da humanidade. É impressionante, e talvez um tanto desanimador, que, já nos primórdios, o governante queira ser mostrado como comandante-chefe, conquistando o inimigo. É assim que, desde os tempos antigos, o poder é projetado por imagens, e há qualquer coisa de perturbadoramente familiar nisso. Em suas formas simplificadas e sua calculada manipulação de escala, lembra, estranhamente, uma charge contemporânea.
O trabalho do fabricante de etiquetas era, porém, muito sério: fazer seu líder parecer invencível e semidivino e mostrar que Den era o único homem capaz de garantir aquilo que os egípcios, como todo mundo, queria de seus governantes - lei e ordem. Dentro dos domínios do faraó, esperava-se que todos obedecessem e assumissem uma clara identidade egípcia. A mensagem em nossa etiqueta de sandália é que o preço da oposição era alto e doloroso.
Essa mensagem é transmitida não apenas na imagem, mas também por escrito. Há alguns hieróglifos primitivos arranhados no marfim que nos dão o nome do rei Den e, entre ele e o inimigo, as terríveis palavras 'eles não devem existir'. Esses 'outros' serão destruídos. Todos os truques de propaganda política selvagem já estão aqui: o governante calmo e vitorioso em contraste com o inimigo estrangeiro, derrotado, desfigurado. Não sabemos quem é ele; no entanto, uma inscrição do lado direito da etiqueta diz o seguinte: 'A primeira oportunidade de derrotar o leste'. Como o solo arenoso sob as figuras eleva-se à direita, já se sugeriu que o inimigo vem do Sinai, a leste.
[...]
É uma estratégia desalentadoramente familiar. Conquista-se apoio total dentro do país dando atenção especial às ameaças externas, mas as armas necessárias para esmagar o inimigo também servem para cuidar dos adversários internos. A retórica política da agressão estrangeira é respaldada pelo controle interno enérgico".
Etiqueta da Sandália do rei Den (c. 2985 a.C.)
"Esta pequena etiqueta é a primeira imagem de um governante na história da humanidade. É impressionante, e talvez um tanto desanimador, que, já nos primórdios, o governante queira ser mostrado como comandante-chefe, conquistando o inimigo. É assim que, desde os tempos antigos, o poder é projetado por imagens, e há qualquer coisa de perturbadoramente familiar nisso. Em suas formas simplificadas e sua calculada manipulação de escala, lembra, estranhamente, uma charge contemporânea.
O trabalho do fabricante de etiquetas era, porém, muito sério: fazer seu líder parecer invencível e semidivino e mostrar que Den era o único homem capaz de garantir aquilo que os egípcios, como todo mundo, queria de seus governantes - lei e ordem. Dentro dos domínios do faraó, esperava-se que todos obedecessem e assumissem uma clara identidade egípcia. A mensagem em nossa etiqueta de sandália é que o preço da oposição era alto e doloroso.
Essa mensagem é transmitida não apenas na imagem, mas também por escrito. Há alguns hieróglifos primitivos arranhados no marfim que nos dão o nome do rei Den e, entre ele e o inimigo, as terríveis palavras 'eles não devem existir'. Esses 'outros' serão destruídos. Todos os truques de propaganda política selvagem já estão aqui: o governante calmo e vitorioso em contraste com o inimigo estrangeiro, derrotado, desfigurado. Não sabemos quem é ele; no entanto, uma inscrição do lado direito da etiqueta diz o seguinte: 'A primeira oportunidade de derrotar o leste'. Como o solo arenoso sob as figuras eleva-se à direita, já se sugeriu que o inimigo vem do Sinai, a leste.
[...]
É uma estratégia desalentadoramente familiar. Conquista-se apoio total dentro do país dando atenção especial às ameaças externas, mas as armas necessárias para esmagar o inimigo também servem para cuidar dos adversários internos. A retórica política da agressão estrangeira é respaldada pelo controle interno enérgico".
domingo, 31 de maio de 2015
Leituras - "Bloodlust", de Russell Jacoby
Acabo de ler Bloodlust - On the roots of violence from Cain and Abel to the present, do historiador Russell Jacoby. Trata-se de obra instigante, provocativa, e um tanto perturbadora.
Composto por quatro ensaios, o livro discute uma curiosa teoria, a de que a violência humana se canaliza principalmente para aqueles que estão mais próximos, em termos culturais, ideológicos, religiosos, etc. Segundo Jacoby, as "pequenas diferenças" causam mais ódio e violência que as "grandes diferenças". Seu ponto de partida são os mitos de Caim e Abel e dos gêmeos Rômulo e Remo, exemplos arquetípicos de disputa e assassinato entre irmãos. Ao longo dos ensaios, o historiador nos conduz através de diversos conflitos fratricidas, desde as Guerras de Religião na França quinhentista aos recentes conflitos nos Bálcãs, passando por inúmeras guerras civis e genocídios.
O argumento é muito bem desenvolvido, através de inúmeros exemplos. Como salienta Jacoby, o massacre de São Bartolomeu não foi promovido por pessoas estranhas, mas por vizinhos e parentes, gente que se conhecia e convivia cotidianamente. Da mesma forma, as comunidades judaicas na Alemanha antes do Holocausto não constituíam um povo distante e extremamente diferenciado; pelo contrário, os judeus alemães eram bem integrados, tendo desde o século XVIII assimilado os valores da cultura alemã, em relação à qual nutriam sentimentos de pertença. Por sinal, alguns dos mais virulentos antissemitas vinham de famílias judaicas convertidas mais ou menos recentemente. Outro caso curioso é o de Mohamed Atta, um dos participantes dos atentados de 11 de Setembro. Atta não era um completo estranho à cultura ocidental: era formado em Engenharia e Arquitetura, tendo defendido tese de mestrado na Alemanha. Seu ódio ao Ocidente vinha da ameaçadora proximidade, não da distância.
Mas como explicar esse perturbador paradoxo?
Jacoby propõe algumas soluções, recorrendo ao diálogo interdisciplinar, especialmente com a Antropologia e a Psicanálise. O historiador lança mão da noção de "desejo mimético", proposta pelo pensador René Girard: a proximidade cultural instigaria desejos semelhantes, promovendo e acirrando conflitos e rivalidades.
Bloodlust propõe uma reflexão curiosa, ao mesmo tempo que nos deixa questionamentos inquietantes. Um livro fascinante.
Composto por quatro ensaios, o livro discute uma curiosa teoria, a de que a violência humana se canaliza principalmente para aqueles que estão mais próximos, em termos culturais, ideológicos, religiosos, etc. Segundo Jacoby, as "pequenas diferenças" causam mais ódio e violência que as "grandes diferenças". Seu ponto de partida são os mitos de Caim e Abel e dos gêmeos Rômulo e Remo, exemplos arquetípicos de disputa e assassinato entre irmãos. Ao longo dos ensaios, o historiador nos conduz através de diversos conflitos fratricidas, desde as Guerras de Religião na França quinhentista aos recentes conflitos nos Bálcãs, passando por inúmeras guerras civis e genocídios.
O argumento é muito bem desenvolvido, através de inúmeros exemplos. Como salienta Jacoby, o massacre de São Bartolomeu não foi promovido por pessoas estranhas, mas por vizinhos e parentes, gente que se conhecia e convivia cotidianamente. Da mesma forma, as comunidades judaicas na Alemanha antes do Holocausto não constituíam um povo distante e extremamente diferenciado; pelo contrário, os judeus alemães eram bem integrados, tendo desde o século XVIII assimilado os valores da cultura alemã, em relação à qual nutriam sentimentos de pertença. Por sinal, alguns dos mais virulentos antissemitas vinham de famílias judaicas convertidas mais ou menos recentemente. Outro caso curioso é o de Mohamed Atta, um dos participantes dos atentados de 11 de Setembro. Atta não era um completo estranho à cultura ocidental: era formado em Engenharia e Arquitetura, tendo defendido tese de mestrado na Alemanha. Seu ódio ao Ocidente vinha da ameaçadora proximidade, não da distância.
Mas como explicar esse perturbador paradoxo?
Jacoby propõe algumas soluções, recorrendo ao diálogo interdisciplinar, especialmente com a Antropologia e a Psicanálise. O historiador lança mão da noção de "desejo mimético", proposta pelo pensador René Girard: a proximidade cultural instigaria desejos semelhantes, promovendo e acirrando conflitos e rivalidades.
Bloodlust propõe uma reflexão curiosa, ao mesmo tempo que nos deixa questionamentos inquietantes. Um livro fascinante.
terça-feira, 19 de maio de 2015
Leituras - "Sangue Azul", de Ana Carolina Delmas
É com grande satisfação que falo de Sangue Azul, cuja autora é minha amiga de longa data, Ana Carolina Delmas. Por sinal, o livro mostra que, embora tenha se tornado doutora em História, continua sendo a menina com fichário do Harry Potter que conheci na graduação.
O romance narra as aventuras de Olivia Spenser, jovem melancólica e solitária que descobre um oculto mundo de magia, habitado por criaturas fantásticas e fascinantes. Não revelo mais para não estragar as surpresas do leitor!
A trama se desenvolve em ritmo vertiginoso, lembrando algumas das aventuras de Tintin - mal dá para acreditar que a autora conseguiu desenvolver uma narrativa tão densa em cerca de 400 páginas! O livro desperta a curiosidade desde os primeiros parágrafos e é difícil interromper a leitura, pois a história apresenta inúmeros momentos climáticos e muitas reviravoltas.
No entanto, é interessante observar que, apesar do rápido ritmo, a narrativa nos conduz aos poucos e de maneira bastante orgânica da Londres contemporânea ao mundo mágico, numa transição quase imperceptível, à moda das lendas celtas e dos romances medievais. Por sinal, um dos pontos fortes de Sangue Azul é a maneira pela qual entrelaça o "nosso mundo" ao universo da magia de modo espontâneo e convincente, sem rupturas abruptas ou descontinuidades flagrantes: celulares e trens de alta velocidade aqui convivem harmoniosamente com unicórnios ou centauros - sem falar nos fofos talulos.
A protagonista é uma personagem encantadora e é instigante acompanhá-la em sua jornada mágica. O elenco do romance é imenso, e há diversas figuras e criaturas interessantes, entre as quais destaco a cativante mantícora Baruk Naveen, cujo desenvolvimento na trama é surpreendente. Também gostei muito de Sir Benjamin Knightley, personagem desaparecido desde o início do livro, mas cujas marcas povoam o mundo mágico e cujos feitos passados afetam o rumo da história, tendo uma presença talvez mais forte pelo modo como se sente sua ausência - um feito literário considerável.
Muitos dos personagens (a maioria, na verdade) são imortais, com séculos de existência e aí a formação de Ana como historiadora faz a diferença, entremeando suas trajetórias de vida com diversos momentos históricos. Destaco ainda que o mundo elaborado pela autora se apropria de modo bastante criativo e original de diversas influências mitológicas e literárias, constituindo um bom exemplar daquilo que Tolkien propunha como "subcriação".
Por fim, é bom ver uma escritora brasileira produzindo um romance que não se veja estreitamente atrelado a temas "nacionais", como acontece tão frequentemente, embora esse mundo mágico tenha me parecido um tanto "eurocêntrico" - quem sabe numa continuação Olivia e Nicolas não poderiam encontrar o curupira ou a mula-sem-cabeça?
Concluo com uma passagem de que gostei muito, e que resume o espírito do livro:
"Acreditar não é um processo fácil. Eu testemunhei muitas coisas, vivenciei muito e ainda assim posso afirmar que conheci apenas uma pequena parte do que existe. [...] Por sorte, mente e conhecimento são ilimitados, têm franca e infinita capacidade de expansão".
O romance narra as aventuras de Olivia Spenser, jovem melancólica e solitária que descobre um oculto mundo de magia, habitado por criaturas fantásticas e fascinantes. Não revelo mais para não estragar as surpresas do leitor!
A trama se desenvolve em ritmo vertiginoso, lembrando algumas das aventuras de Tintin - mal dá para acreditar que a autora conseguiu desenvolver uma narrativa tão densa em cerca de 400 páginas! O livro desperta a curiosidade desde os primeiros parágrafos e é difícil interromper a leitura, pois a história apresenta inúmeros momentos climáticos e muitas reviravoltas.
No entanto, é interessante observar que, apesar do rápido ritmo, a narrativa nos conduz aos poucos e de maneira bastante orgânica da Londres contemporânea ao mundo mágico, numa transição quase imperceptível, à moda das lendas celtas e dos romances medievais. Por sinal, um dos pontos fortes de Sangue Azul é a maneira pela qual entrelaça o "nosso mundo" ao universo da magia de modo espontâneo e convincente, sem rupturas abruptas ou descontinuidades flagrantes: celulares e trens de alta velocidade aqui convivem harmoniosamente com unicórnios ou centauros - sem falar nos fofos talulos.
A protagonista é uma personagem encantadora e é instigante acompanhá-la em sua jornada mágica. O elenco do romance é imenso, e há diversas figuras e criaturas interessantes, entre as quais destaco a cativante mantícora Baruk Naveen, cujo desenvolvimento na trama é surpreendente. Também gostei muito de Sir Benjamin Knightley, personagem desaparecido desde o início do livro, mas cujas marcas povoam o mundo mágico e cujos feitos passados afetam o rumo da história, tendo uma presença talvez mais forte pelo modo como se sente sua ausência - um feito literário considerável.
Muitos dos personagens (a maioria, na verdade) são imortais, com séculos de existência e aí a formação de Ana como historiadora faz a diferença, entremeando suas trajetórias de vida com diversos momentos históricos. Destaco ainda que o mundo elaborado pela autora se apropria de modo bastante criativo e original de diversas influências mitológicas e literárias, constituindo um bom exemplar daquilo que Tolkien propunha como "subcriação".
Por fim, é bom ver uma escritora brasileira produzindo um romance que não se veja estreitamente atrelado a temas "nacionais", como acontece tão frequentemente, embora esse mundo mágico tenha me parecido um tanto "eurocêntrico" - quem sabe numa continuação Olivia e Nicolas não poderiam encontrar o curupira ou a mula-sem-cabeça?
Concluo com uma passagem de que gostei muito, e que resume o espírito do livro:
"Acreditar não é um processo fácil. Eu testemunhei muitas coisas, vivenciei muito e ainda assim posso afirmar que conheci apenas uma pequena parte do que existe. [...] Por sorte, mente e conhecimento são ilimitados, têm franca e infinita capacidade de expansão".
quinta-feira, 30 de abril de 2015
PSDB, PT e a violência policial
Ano de 2013
Os professores do Estado e do município do Rio de Janeiro realizaram uma greve com grandes manifestações de rua.
Em diversos momentos a Polícia Militar usou de extrema violência contra os grevistas, especialmente na "Batalha da Cinelândia", a serviço de Eduardo Paes e Sérgio Cabral, ambos do PMDB e aliados políticos do PT e da presidente da República.
Dilma ficou calada. Calada.
Neste mesmo ano as forças policiais de diversos Estados usaram de truculência extrema contra inúmeros manifestantes.
Um oficial da PM de São Paulo foi brutalmente agredido por manifestantes; a mesma presidente que se calara diante de episódios de violência policial fez questão de emitir pronunciamento em rede nacional de televisão para repudiar a agressão do policial.
Dois pesos, duas medidas.
Ano de 2014
Nova greve dos professores do Estado e do Município do Rio.
O governo do Estado e a prefeitura do Rio iniciaram processos imorais por abandono de emprego contra diversos profissionais; sem qualquer respaldo da Justiça, Eduardo Paes cortou os salários de milhares de professores, em ato completamente ilegal.
Dilma: nem um pio.
Ano de 2015
Greve dos professores do Estado do Paraná. Manifestação contra decisão arbitrária de usar fundo da previdência paranaense para acertar as contas deficitárias do governo.
Atos de violência policial; verdadeiro massacre em Curitiba.
Reação de inúmeros petistas assumidos ou enrustidos: criticar o governador Beto Richa e seu partido, o PSDB, manifestando (por quê?) sua satisfação com a reeleição de Dilma.
Moral da história
Acho lamentáveis os atos de Beto Richa (e detesto o PSDB) - mas também acho detestável a omissão de Dilma em defesa do "organismo" PT-PMDB.
Gritar contra uns e calar em favor de outros é patético; chega de hipocrisia, pessoal.
Os professores do Estado e do município do Rio de Janeiro realizaram uma greve com grandes manifestações de rua.
Em diversos momentos a Polícia Militar usou de extrema violência contra os grevistas, especialmente na "Batalha da Cinelândia", a serviço de Eduardo Paes e Sérgio Cabral, ambos do PMDB e aliados políticos do PT e da presidente da República.
Dilma ficou calada. Calada.
Neste mesmo ano as forças policiais de diversos Estados usaram de truculência extrema contra inúmeros manifestantes.
Um oficial da PM de São Paulo foi brutalmente agredido por manifestantes; a mesma presidente que se calara diante de episódios de violência policial fez questão de emitir pronunciamento em rede nacional de televisão para repudiar a agressão do policial.
Dois pesos, duas medidas.
Ano de 2014
Nova greve dos professores do Estado e do Município do Rio.
O governo do Estado e a prefeitura do Rio iniciaram processos imorais por abandono de emprego contra diversos profissionais; sem qualquer respaldo da Justiça, Eduardo Paes cortou os salários de milhares de professores, em ato completamente ilegal.
Dilma: nem um pio.
Ano de 2015
Greve dos professores do Estado do Paraná. Manifestação contra decisão arbitrária de usar fundo da previdência paranaense para acertar as contas deficitárias do governo.
Atos de violência policial; verdadeiro massacre em Curitiba.
Reação de inúmeros petistas assumidos ou enrustidos: criticar o governador Beto Richa e seu partido, o PSDB, manifestando (por quê?) sua satisfação com a reeleição de Dilma.
Moral da história
Acho lamentáveis os atos de Beto Richa (e detesto o PSDB) - mas também acho detestável a omissão de Dilma em defesa do "organismo" PT-PMDB.
Gritar contra uns e calar em favor de outros é patético; chega de hipocrisia, pessoal.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Quero menos
Consumimos demais. Para isso, produzimos demais, e então trabalhamos demais, poluímos demais e vivemos de menos.
Precisamos de muito menos. Consumir menos, para produzir, trabalhar e poluir menos. E então nossa vida será muito, muito mais!
Como dizia Gandhi, "a civilização, no sentido real da palavra, não consiste na multiplicação, mas na vontade de espontânea limitação das necessidades. Só essa espontânea limitação acarreta a felicidade e a verdadeira satisfação".
Quero menos!
Precisamos de muito menos. Consumir menos, para produzir, trabalhar e poluir menos. E então nossa vida será muito, muito mais!
Como dizia Gandhi, "a civilização, no sentido real da palavra, não consiste na multiplicação, mas na vontade de espontânea limitação das necessidades. Só essa espontânea limitação acarreta a felicidade e a verdadeira satisfação".
Quero menos!
Assuntos relacionados:
Cotidiano,
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Economia,
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Revolução Industrial,
Tecnologia
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
"Realismo" e Fantasia
Há pouco tempo exibi para uma de minhas turmas a belíssima animação Princesa Mononoke, de Hayao Miyazaki, uma fantasia com profunda mensagem acerca de nossa civilização industrial e suas contradições.
Todavia, vários alunos, em lugar de apreciar a experiência, reclamaram que o filme tinha "muita mentira". Curiosamente, esses mesmos jovens, em seus 13 e 14 anos, se mostram ávidos consumidores de todo tipo de produto ou marca a eles oferecido, sem reclamar de todas as mentirosas e falaciosas promessas que a publicidade lhes impinge quotidianamente. Estranho "realismo"
Mas meus jovens alunos não estão sozinhos. Há por aí gente tão "realista" que só "acredita" em contracheque, cartão de crédito, boletim, telejornal, cigarro, sexo, carnaval, futebol, shopping center, carro do ano, dívidas, álcool, redes sociais, financiamentos, parcelas e prestações... "Realismo" pedestre, prosaico, conformado e conformista. "Realismo" bitolado, incapaz de entrever ou imaginar alternativas de vida além daquelas que a sociedade de consumo oferece.
A fantasia liberta, revela mundos possíveis e impossíveis. A fantasia manifesta verdades que se furtam ao "realismo" superficial. A imaginação explora as fronteiras do pensamento e desafia os limites da realidade.
Não à toa, inquisidores e teólogos viam com desconfiança as potencialidades da imaginação, que diziam maleável às influências satânicas, pronta a inspirar pensamentos e atitudes contrários à boa ordem. Toda fantasia é potencialmente subversiva.
Finalizo citando Tolstói: "Baixar o nível do ideal é não só diminuir as probabilidades de alcançar a perfeição, mas destruir o próprio ideal".
É preciso imaginar, sonhar, fantasiar, idealizar, criar.
Todavia, vários alunos, em lugar de apreciar a experiência, reclamaram que o filme tinha "muita mentira". Curiosamente, esses mesmos jovens, em seus 13 e 14 anos, se mostram ávidos consumidores de todo tipo de produto ou marca a eles oferecido, sem reclamar de todas as mentirosas e falaciosas promessas que a publicidade lhes impinge quotidianamente. Estranho "realismo"
Mas meus jovens alunos não estão sozinhos. Há por aí gente tão "realista" que só "acredita" em contracheque, cartão de crédito, boletim, telejornal, cigarro, sexo, carnaval, futebol, shopping center, carro do ano, dívidas, álcool, redes sociais, financiamentos, parcelas e prestações... "Realismo" pedestre, prosaico, conformado e conformista. "Realismo" bitolado, incapaz de entrever ou imaginar alternativas de vida além daquelas que a sociedade de consumo oferece.
A fantasia liberta, revela mundos possíveis e impossíveis. A fantasia manifesta verdades que se furtam ao "realismo" superficial. A imaginação explora as fronteiras do pensamento e desafia os limites da realidade.
Não à toa, inquisidores e teólogos viam com desconfiança as potencialidades da imaginação, que diziam maleável às influências satânicas, pronta a inspirar pensamentos e atitudes contrários à boa ordem. Toda fantasia é potencialmente subversiva.
Finalizo citando Tolstói: "Baixar o nível do ideal é não só diminuir as probabilidades de alcançar a perfeição, mas destruir o próprio ideal".
É preciso imaginar, sonhar, fantasiar, idealizar, criar.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
"Morte ao povo branco"
Hoje de manhã me deparei com as seguintes palavras pichadas num banheiro da UERJ, redigidas com a mesma caligrafia:
"Morte ao povo branco
Guerrilha Negra
Racistas F.D.P.!"
Para início de conversa, tais palavras têm por trás um discurso genocida, direcionado contra o "povo branco". Não há muito que discutir - é lamentável e seria lamentável que essa frase fosse redigida contra qualquer outro "povo". Não existe muita diferença - talvez nenhuma - entre esse tipo de atitude e os valores de um jovem hitlerista ou de um adepto da Ku Klux Klan. Eu imagino, e espero, que o autor da frase não tenha intenção real de matar ninguém, mas a fala tem caráter violento, reforçado pelo termo "guerrilha".
Por outro lado, é irônico que ele xingue os "racistas F.D.P.", à medida em que o seu próprio discurso tem uma matriz racista, pregando a violência contra outras pessoas a partir de critérios raciais. É um discurso baseado no ódio. Não nego que esse ódio possa ser explicado: é provável que o rapaz que escreveu isso já tenha sofrido muita discriminação, preconceito, abuso policial, entre outras coisas. Explica, mas não justifica - ou seja, não torna esse discurso justo. Há que se lembrar a figura de Mandela, que tanto lutou contra todo tipo de racismo e contra todo tipo de ódio. Não se cura ódio com uma dose oposta de ódio. Mesmo no período em que aderiu à revolta armada, Mandela lutava contra a instituição do apartheid, não contra o "povo branco" da África do Sul.
Vale também salientar que esse tipo de discurso também desfavorece a imagem de todos os movimentos negros, que lutam por causas justíssimas. Quando o autor prega uma "guerrilha negra" para exterminar o "povo branco", depõe publicamente contra todos os outros que defendem justas causas, o que é uma pena. É uma fala que sustenta preconceitos, em lugar de desfazê-los.
São palavras violentas, e infelizmente, violência gera mais violência. Tanto é que, logo abaixo, uma outra pessoa pichou uma réplica: "Heil, Abdias!", em referência ao falecido Abdias Nascimento, importante figura do movimento negro no Brasil. A réplica é totalmente absurda e injusta, comparando Nascimento a Hitler, mas comprova o que sustento acima: tais atitudes desfavorecem o movimento negro.
Uma outra pessoa escreveu uma segunda réplica: "Vai ler Darcy Ribeiro!". São palavras mais amenas, mas revelam uma agressividade velada. Obviamente não se trata de uma simples e inocente recomendação bibliográfica; o autor dessa réplica queria certamente rotular o defensor da "guerrilha negra" como um ignorante, carente de recursos intelectuais. Ambas réplicas são lastimáveis, pois respondem à violência de modo agressivo.
Uma terceira réplica dizia: "No Brasil, todo branco é negro, e todo negro é branco", aludindo à mestiçagem brasileira. No limite, vale questionar se o defensor da "guerrilha negra" não teria ascendentes brancos. Seria ele um negro "puro"? Sendo ele um negro "puro", poderia advogar também a morte de pessoas menos "puras"? Quem poderia lutar nessa "guerrilha negra"? Qualquer discurso de pureza racial está fadado ao fracasso, pois, na verdade, todos somos mestiços, em termos biológicos ou culturais; raças não existem. Talvez essa terceira réplica represente as palavras mais sensatas escritas naquela parede.
Mas não quero atribuir um excesso de importância às palavras de um jovem revoltado por razões justas, mas orientando sua revolta em sentidos injustos. Tudo que quero lembrar é que, onde sobra agressão, falta diálogo. Lembro do célebre discurso de Martin Luther King, que sonhava com uma sociedade onde todas as pessoas se entendessem e amassem, independentemente de suas "raças". Rezo para que um dia possamos superar todos os erros e fantasmas de nosso passado escravista e racista, para tornar esse sonho realidade.
"Eu tenho um sonho" - tradução integral
"Morte ao povo branco
Guerrilha Negra
Racistas F.D.P.!"
Para início de conversa, tais palavras têm por trás um discurso genocida, direcionado contra o "povo branco". Não há muito que discutir - é lamentável e seria lamentável que essa frase fosse redigida contra qualquer outro "povo". Não existe muita diferença - talvez nenhuma - entre esse tipo de atitude e os valores de um jovem hitlerista ou de um adepto da Ku Klux Klan. Eu imagino, e espero, que o autor da frase não tenha intenção real de matar ninguém, mas a fala tem caráter violento, reforçado pelo termo "guerrilha".
Por outro lado, é irônico que ele xingue os "racistas F.D.P.", à medida em que o seu próprio discurso tem uma matriz racista, pregando a violência contra outras pessoas a partir de critérios raciais. É um discurso baseado no ódio. Não nego que esse ódio possa ser explicado: é provável que o rapaz que escreveu isso já tenha sofrido muita discriminação, preconceito, abuso policial, entre outras coisas. Explica, mas não justifica - ou seja, não torna esse discurso justo. Há que se lembrar a figura de Mandela, que tanto lutou contra todo tipo de racismo e contra todo tipo de ódio. Não se cura ódio com uma dose oposta de ódio. Mesmo no período em que aderiu à revolta armada, Mandela lutava contra a instituição do apartheid, não contra o "povo branco" da África do Sul.
Vale também salientar que esse tipo de discurso também desfavorece a imagem de todos os movimentos negros, que lutam por causas justíssimas. Quando o autor prega uma "guerrilha negra" para exterminar o "povo branco", depõe publicamente contra todos os outros que defendem justas causas, o que é uma pena. É uma fala que sustenta preconceitos, em lugar de desfazê-los.
São palavras violentas, e infelizmente, violência gera mais violência. Tanto é que, logo abaixo, uma outra pessoa pichou uma réplica: "Heil, Abdias!", em referência ao falecido Abdias Nascimento, importante figura do movimento negro no Brasil. A réplica é totalmente absurda e injusta, comparando Nascimento a Hitler, mas comprova o que sustento acima: tais atitudes desfavorecem o movimento negro.
Uma outra pessoa escreveu uma segunda réplica: "Vai ler Darcy Ribeiro!". São palavras mais amenas, mas revelam uma agressividade velada. Obviamente não se trata de uma simples e inocente recomendação bibliográfica; o autor dessa réplica queria certamente rotular o defensor da "guerrilha negra" como um ignorante, carente de recursos intelectuais. Ambas réplicas são lastimáveis, pois respondem à violência de modo agressivo.
Uma terceira réplica dizia: "No Brasil, todo branco é negro, e todo negro é branco", aludindo à mestiçagem brasileira. No limite, vale questionar se o defensor da "guerrilha negra" não teria ascendentes brancos. Seria ele um negro "puro"? Sendo ele um negro "puro", poderia advogar também a morte de pessoas menos "puras"? Quem poderia lutar nessa "guerrilha negra"? Qualquer discurso de pureza racial está fadado ao fracasso, pois, na verdade, todos somos mestiços, em termos biológicos ou culturais; raças não existem. Talvez essa terceira réplica represente as palavras mais sensatas escritas naquela parede.
Mas não quero atribuir um excesso de importância às palavras de um jovem revoltado por razões justas, mas orientando sua revolta em sentidos injustos. Tudo que quero lembrar é que, onde sobra agressão, falta diálogo. Lembro do célebre discurso de Martin Luther King, que sonhava com uma sociedade onde todas as pessoas se entendessem e amassem, independentemente de suas "raças". Rezo para que um dia possamos superar todos os erros e fantasmas de nosso passado escravista e racista, para tornar esse sonho realidade.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
40 centavos - Coisas grandes e pequenas
Nesta sexta-feira pretendo ir ao 5º Ato contra o aumento das passagens. Por quê? Vale o esforço e o aborrecimento? Vale enfrentar a truculência policial por isso?
40 centavos não parecem nada; em termos meramente financeiros, não são nada. Mas a questão não é financeira, é política. Trata-se de mandar uma mensagem aos senhores Eduardo Paes e Pezão.
O aumento da passagem parece uma questão pequena. No entanto, as piores usurpações geralmente começam de modo lento e gradativo, nas "coisas pequenas". Começamos abrindo mão dessas coisas pequenas, justamente porque elas são "pequenas e sem importância", e abrimos cada vez mais espaço para que os tiranos ajam tranquilamente. Vendo a apatia popular, eles se sentem encorajados a coisas piores. Terminamos abrindo mão das grandes porque perdemos a força de resistir. Quando engolimos sapos passivamente, resmungando de lado, mas obedecendo, damos aos tiranos o poder para enfiar sapos cada vez maiores em nossas goelas.
Não é por 40 centavos, é por princípios. É para mostrar aos senhores prefeito e governador que eles não podem nos esmagar sob qualquer arbitrariedade. É para reafirmar e construir o poder do povo, para defender os alicerces da democracia.
E a democracia vale muito mais que quarenta centavos...
40 centavos não parecem nada; em termos meramente financeiros, não são nada. Mas a questão não é financeira, é política. Trata-se de mandar uma mensagem aos senhores Eduardo Paes e Pezão.
O aumento da passagem parece uma questão pequena. No entanto, as piores usurpações geralmente começam de modo lento e gradativo, nas "coisas pequenas". Começamos abrindo mão dessas coisas pequenas, justamente porque elas são "pequenas e sem importância", e abrimos cada vez mais espaço para que os tiranos ajam tranquilamente. Vendo a apatia popular, eles se sentem encorajados a coisas piores. Terminamos abrindo mão das grandes porque perdemos a força de resistir. Quando engolimos sapos passivamente, resmungando de lado, mas obedecendo, damos aos tiranos o poder para enfiar sapos cada vez maiores em nossas goelas.
Não é por 40 centavos, é por princípios. É para mostrar aos senhores prefeito e governador que eles não podem nos esmagar sob qualquer arbitrariedade. É para reafirmar e construir o poder do povo, para defender os alicerces da democracia.
E a democracia vale muito mais que quarenta centavos...
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Ecos de Paris
Paris é cidade ao mesmo tempo encantadora e sufocante, fascinante e monstruosa. Respiramos um ar suave e denso, carregado com mais de dois mil anos de história, dois milênios de glórias e tragédias.
A cidade é monumental, cada esquina traz uma memória - lembranças doces ou amargas. Cada boulevard leva o nome de um general ou de uma batalha.
Palco de grandes triunfos do intelecto, das artes, da ciência, mas também de terríveis atos de violência e selvageria. Paris é tudo ou nada - o ápice da civilização e o abismo da barbárie ao mesmo tempo: a ópera e o massacre, o ballet e a guerra, o cavalete e a guilhotina, a escultura e o canhão, Victor Hugo e Napoleão III.
Mesmo o Louvre, palácio da beleza e do saber, já foi antro de intrigas e violências; Notre Dame, templo de arte e de intolerância. Para cada pedra ou tijolo, existe uma lágrima e uma gota de sangue; cada encanto se enraíza em mil tormentos.
O turista deslumbrado se deixa iludir pela beleza superficial, mas o historiador conhece as pulsantes entranhas de Paris.
Como não amar essa cidade? Como não detestar essa cidade? Paris é intensa demais: precisa ser amada e odiada.
O ar da cidade ecoa muitas vozes, cânticos de júbilo e gritos de dor. Paris tem um passado ensurdecedor...
A cidade é monumental, cada esquina traz uma memória - lembranças doces ou amargas. Cada boulevard leva o nome de um general ou de uma batalha.
Palco de grandes triunfos do intelecto, das artes, da ciência, mas também de terríveis atos de violência e selvageria. Paris é tudo ou nada - o ápice da civilização e o abismo da barbárie ao mesmo tempo: a ópera e o massacre, o ballet e a guerra, o cavalete e a guilhotina, a escultura e o canhão, Victor Hugo e Napoleão III.
Mesmo o Louvre, palácio da beleza e do saber, já foi antro de intrigas e violências; Notre Dame, templo de arte e de intolerância. Para cada pedra ou tijolo, existe uma lágrima e uma gota de sangue; cada encanto se enraíza em mil tormentos.
O turista deslumbrado se deixa iludir pela beleza superficial, mas o historiador conhece as pulsantes entranhas de Paris.
Como não amar essa cidade? Como não detestar essa cidade? Paris é intensa demais: precisa ser amada e odiada.
O ar da cidade ecoa muitas vozes, cânticos de júbilo e gritos de dor. Paris tem um passado ensurdecedor...
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