Semana difícil, menos um post decente. Para finalizar as homenagens ao ciclismo, deixo uma imagem que marcou época: Bernard Hinault, um dos maiores ciclistas da História no Paris-Roubaix depois de uma queda e retornando à competição, mesmo com graves ferimentos. Grande guerreiro!
terça-feira, 26 de julho de 2011
sábado, 9 de julho de 2011
Nada de mulher...
Essa semana estou numa corrida para entregar um paper do doutorado. Assim sendo, postarei apenas uma curiosa e engraçada anedota, ainda em clima de Tour de France.
Em 1987 o Tour foi vencido pelo irlandês Stephen Roche. Em uma das etapas de montanha, particularmente difícil, Roche se esforçou ao máximo, cruzando a linha de chegada em primeiro lugar, muito antes dos outros atletas. Sua fadiga era tanta que, assim que ultrapassou a linha, simplesmente desmaiou no chão. Um Deus nos acuda! Correm os médicos para atendê-lo. Pouco depois, acordando completamente zonzo, o médico lhe pergunta como se sente. A réplica de Roche foi das mais inusitadas: "Tudo bem, doutor, mas nada de mulher...". Interrogado posteriormente, o ciclista confessou não ter explicação para sua estranha resposta...
Em 1987 o Tour foi vencido pelo irlandês Stephen Roche. Em uma das etapas de montanha, particularmente difícil, Roche se esforçou ao máximo, cruzando a linha de chegada em primeiro lugar, muito antes dos outros atletas. Sua fadiga era tanta que, assim que ultrapassou a linha, simplesmente desmaiou no chão. Um Deus nos acuda! Correm os médicos para atendê-lo. Pouco depois, acordando completamente zonzo, o médico lhe pergunta como se sente. A réplica de Roche foi das mais inusitadas: "Tudo bem, doutor, mas nada de mulher...". Interrogado posteriormente, o ciclista confessou não ter explicação para sua estranha resposta...
domingo, 3 de julho de 2011
Le Tour de France
Ontem começou a edição 2011 do Tour de France (ou "Volta da França"), a maior prova do ciclismo mundial. Quem me conhece sabe que sou aficcionado por ciclismo, embora não pratique faz alguns anos... Acompanho o Tour religiosamente todos os anos. A bem dizer, não estava muito entusiasmado com o Tour desse ano, por várias razões. Até ontem! As reviravoltas inesperadas que fazem a magia da prova estão novamente em ação, e o que prometia ser um Tour insosso como nos dois últimos anos ganhou novo interesse.
Mas esse blog é uma oficina de Clio, e a musa é tanto exigente quanto ciumenta! Então, vamos caçar onde a História se esconde no Tour de France. A tarefa nem é das mais difíceis, já que o Tour é uma das mais antigas provas esportivas do mundo: o primeiro aconteceu em 1903, comemorando 108 anos. Em todo esse tempo, pouquíssimas edições foram canceladas, devido à partipação francesa nas duas conflagrações mundiais. O Tour acontece todo ano, durante o mês de julho. Durante 21 dias os atletas percorrem cerca de três mil quilômetros pelas estradas francesas, num percurso que muda a cada competição. Depois de 108 anos, o Tour construiu inúmeras tradições e mitos.
Nesse post veremos um aspecto muito curioso dessa tradição, não apenas do Tour, mas do ciclismo em geral. O esporte chama atenção pelo seu forte ethos cavalheiresco, que vai muito além do mero fair play. De fato, a competição mostra uma curiosa permanência dos valores nobiliárquicos do Antigo Regime; os ciclistas muitas vezes se comportam como verdadeiros membros da antiga aristocracia guerreira. Alguns exemplos ilustram melhor que qualquer explicação...
Ano de 2003, centenário do Tour. Dois ciclistas competiam pela liderança da competição, o americano Lance Armstrong e seu arqui-rival, o alemão Jan Ulrich. O pelotão se engajava numa dura etapa, de escalada ao passo de Luz Ardiden, nos Pirineus. Eis que em determinado momento, Armstrong sofre uma dura queda, quando sua bicicleta se prende na bolsa carregada por uma criança. Em lugar de se aproveitar da situação, Ulrich reduziu a velocidade, aguardando seu adversário alcançá-lo, abrindo mão da vantagem. Perdeu a etapa, perdeu o Tour; ganhou a honra de tratar o rival dignamente.
Ano de 2004. O jovem francês Thomas Voeckler vestia a camisa amarela de líder da competição. Numa etapa particularmente difícil de escalada no Maciço Central, Voeckler se encontrava em terrível desvantagem, pois não havia nenhum membro de sua equipe em condições de acompanhá-lo e ajudar a enfrentar o vento. Num rasgo de generosidade que muito o honra, seu compatriota veterano Richard Virenque, que se encontrava muito à frente de Voeckler optou por aguardá-lo e trabalhou como seu gregário (espécie de ajudante), seguindo à frente e quebrando o vento. Os dois eram de equipes diferentes. Um belíssimo gesto de Virenque, em seu último Tour de France, coroando uma carreira vitoriosa, em que foi inúmeras vezes vencedor do prêmio de melhor montanhista.
Ano de 2010. Numa etapa decisiva disputavam o luxemburguês Andy Schleck, líder da prova, e o espanhol Alberto Contador. Num infeliz momento a correia da bicicleta de Schleck se rompeu, necessitando reparos. Abrindo mão do cavalheirismo, Contador atacou, ganhando a liderança; eventualmente venceu o Tour, à covardia. Ano de 2011. Na apresentação das equipes, na última sexta-feira, Contador foi vaiado durante sete minutos... O público pune a desonra!
A título de comparação, um episódio da guerra luso-francesa pelo Maranhão, em 1615. Derrotado na batalha de Guaxenduba, o líder francês La Ravardière amigavelmente envia seu médico para cuidar dos feridos portugueses. La Ravardière ficaria orgulhoso dos gestos de Virenque, Ulrich, Vietto, Hinault, e tantos outros ciclistas que contribuíram ao longo dos anos para manter acesa a chama do cavalheirismo, como verdadeiros fidalgos.
Mas esse blog é uma oficina de Clio, e a musa é tanto exigente quanto ciumenta! Então, vamos caçar onde a História se esconde no Tour de France. A tarefa nem é das mais difíceis, já que o Tour é uma das mais antigas provas esportivas do mundo: o primeiro aconteceu em 1903, comemorando 108 anos. Em todo esse tempo, pouquíssimas edições foram canceladas, devido à partipação francesa nas duas conflagrações mundiais. O Tour acontece todo ano, durante o mês de julho. Durante 21 dias os atletas percorrem cerca de três mil quilômetros pelas estradas francesas, num percurso que muda a cada competição. Depois de 108 anos, o Tour construiu inúmeras tradições e mitos.
Nesse post veremos um aspecto muito curioso dessa tradição, não apenas do Tour, mas do ciclismo em geral. O esporte chama atenção pelo seu forte ethos cavalheiresco, que vai muito além do mero fair play. De fato, a competição mostra uma curiosa permanência dos valores nobiliárquicos do Antigo Regime; os ciclistas muitas vezes se comportam como verdadeiros membros da antiga aristocracia guerreira. Alguns exemplos ilustram melhor que qualquer explicação...
Ano de 2003, centenário do Tour. Dois ciclistas competiam pela liderança da competição, o americano Lance Armstrong e seu arqui-rival, o alemão Jan Ulrich. O pelotão se engajava numa dura etapa, de escalada ao passo de Luz Ardiden, nos Pirineus. Eis que em determinado momento, Armstrong sofre uma dura queda, quando sua bicicleta se prende na bolsa carregada por uma criança. Em lugar de se aproveitar da situação, Ulrich reduziu a velocidade, aguardando seu adversário alcançá-lo, abrindo mão da vantagem. Perdeu a etapa, perdeu o Tour; ganhou a honra de tratar o rival dignamente.
Ano de 2004. O jovem francês Thomas Voeckler vestia a camisa amarela de líder da competição. Numa etapa particularmente difícil de escalada no Maciço Central, Voeckler se encontrava em terrível desvantagem, pois não havia nenhum membro de sua equipe em condições de acompanhá-lo e ajudar a enfrentar o vento. Num rasgo de generosidade que muito o honra, seu compatriota veterano Richard Virenque, que se encontrava muito à frente de Voeckler optou por aguardá-lo e trabalhou como seu gregário (espécie de ajudante), seguindo à frente e quebrando o vento. Os dois eram de equipes diferentes. Um belíssimo gesto de Virenque, em seu último Tour de France, coroando uma carreira vitoriosa, em que foi inúmeras vezes vencedor do prêmio de melhor montanhista.
Ano de 2010. Numa etapa decisiva disputavam o luxemburguês Andy Schleck, líder da prova, e o espanhol Alberto Contador. Num infeliz momento a correia da bicicleta de Schleck se rompeu, necessitando reparos. Abrindo mão do cavalheirismo, Contador atacou, ganhando a liderança; eventualmente venceu o Tour, à covardia. Ano de 2011. Na apresentação das equipes, na última sexta-feira, Contador foi vaiado durante sete minutos... O público pune a desonra!
A título de comparação, um episódio da guerra luso-francesa pelo Maranhão, em 1615. Derrotado na batalha de Guaxenduba, o líder francês La Ravardière amigavelmente envia seu médico para cuidar dos feridos portugueses. La Ravardière ficaria orgulhoso dos gestos de Virenque, Ulrich, Vietto, Hinault, e tantos outros ciclistas que contribuíram ao longo dos anos para manter acesa a chama do cavalheirismo, como verdadeiros fidalgos.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
"Entre Genebra e a Guanabara" - fotos do lançamento
Ontem aconteceu o tão aguardado (por mim!) lançamento de meu primeiro livro "Entre Genebra e a Guanabara" pela Topbooks, na Livraria da Travessa da Avenida Rio Branco. Agradeço aos muitos amigos que compareceram para compartilhar o momento, mas também aos que não puderam ir, mas estiveram lá de coração! Postando aqui as fotos do evento:
Aproveito para avisar a todos do lançamento de meu próximo livro, "Da Guanabara ao Sena", pela EdUFF, que ocorrerá na Bienal. Fiquem atentos!
Aproveito para avisar a todos do lançamento de meu próximo livro, "Da Guanabara ao Sena", pela EdUFF, que ocorrerá na Bienal. Fiquem atentos!
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Cozinha de Clio
Podemos encontrar Clio nos lugares mais inesperados. Quem gosta de cozinhar pode esbarrar com ela à beira do fogão...
Ultimamente tenho visto muitos livros sobre história da alimentação, para todos os gostos (com trocadilho). Há desde obras muito instigantes e sofisticadas (mesmo no setor de divulgação) às puramente oportunistas ao estilo "você sabia....?". Basta entrar em qualquer livraria e conferir. O interesse pelo tema não deveria surpreender, afinal de contas, comer é provavelmente a ação mais frequentemente repetida pelos seres humanos ao longo dos últimos duzentos mil anos; de fato, deve ter sido durante muitos milênios a mais importante preocupação de nossa espécie.
Dessa forma, quando comemos ou preparamos nossos alimentos, tais gestos nos unem a todos os nossos antepassados, quase sempre inconscientemente. Cozinhar e comer constituem deliciosas oportunidades para refletir sobre nossa condição histórica.
Um exemplo bastante simples é quando nos dedicamos a fazer pratos oriundos de outras culturas ou com origens em nosso passado remoto. Especialmente as adaptações sempre necessárias, de gosto, ingredientes, recursos, nos ajudam a medir distâncias culturais.
Outra experiência interessante é modificar algumas receitas de modo a promover "encontros culturais" na panela, como yakissoba com molho inglês! Misturar pratos e sobremesas também pode ser interessante (goulash com petit gateau, por exemplo...).
Mais casualmente, é interessante observar o quanto o mundo inteiro pode estar presente em um único prato cotidiano, provavelmente impossível séculos atrás, como arroz, feijão, bife e batata frita (de origens asiáticas, europeias, africanas e americanas) ou mesmo uma reles salada de frutas com maçã, banana, manga e abacaxi!
E chega por aqui; vou preparar o almoço!
Ultimamente tenho visto muitos livros sobre história da alimentação, para todos os gostos (com trocadilho). Há desde obras muito instigantes e sofisticadas (mesmo no setor de divulgação) às puramente oportunistas ao estilo "você sabia....?". Basta entrar em qualquer livraria e conferir. O interesse pelo tema não deveria surpreender, afinal de contas, comer é provavelmente a ação mais frequentemente repetida pelos seres humanos ao longo dos últimos duzentos mil anos; de fato, deve ter sido durante muitos milênios a mais importante preocupação de nossa espécie.
Dessa forma, quando comemos ou preparamos nossos alimentos, tais gestos nos unem a todos os nossos antepassados, quase sempre inconscientemente. Cozinhar e comer constituem deliciosas oportunidades para refletir sobre nossa condição histórica.
Um exemplo bastante simples é quando nos dedicamos a fazer pratos oriundos de outras culturas ou com origens em nosso passado remoto. Especialmente as adaptações sempre necessárias, de gosto, ingredientes, recursos, nos ajudam a medir distâncias culturais.
Outra experiência interessante é modificar algumas receitas de modo a promover "encontros culturais" na panela, como yakissoba com molho inglês! Misturar pratos e sobremesas também pode ser interessante (goulash com petit gateau, por exemplo...).
Mais casualmente, é interessante observar o quanto o mundo inteiro pode estar presente em um único prato cotidiano, provavelmente impossível séculos atrás, como arroz, feijão, bife e batata frita (de origens asiáticas, europeias, africanas e americanas) ou mesmo uma reles salada de frutas com maçã, banana, manga e abacaxi!
E chega por aqui; vou preparar o almoço!
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Imaginação e ensino de História
Em outra oportunidade já discuti por aqui sobre o uso de narrativas ficcionais ou míticas de época em sala de aula, enfatizando seu poder sobre a imaginação dos alunos. De fato, creio que a imaginação e a criatividade são das melhores ferramentas para que os alunos desenvolvam o raciocínio histórico.
Em minha prática pedagógica costumo propor muitas atividades nesse sentido, geralmente com resultados muito satisfatórios. Por exemplo, nesse ano realizei com uma de minhas turmas o seguinte exercício: eles deveriam escrever individualmente ou em duplas uma carta adotando a identidade fictícia de navegantes portugueses escrevendo ao rei sobre as terras que visitaram e as peripécias por que passaram. Na atividade eles tiveram total liberdade para criar terras, povos e até animais imaginários. O resultado foi muito positivo e tive textos muito criativos. Outro bom exemplo foi certo trabalho que fiz com algumas turmas em 2008 ao abordar os povos da Antiguidade e seus universos mitológicos. Tendo trabalhado algumas narrativas míticas propus aos alunos que criassem uma figura mitológica (divindade, herói ou monstro) e posteriormente inventassem uma história envolvendo esses personagens. A atividade gerou frutos positivos, especialmente em uma turma pouquíssimo interessada que se sentiu muito mobilizada pela proposta.
Obviamente a intenção da atividade não é a fixação ou memorização de conteúdo da disciplina. Seu objetivo é estimular o aluno a pôr-se no lugar dos seres humanos da época estudada, a pensar segundo seus critérios e valores, enfim, a ver o mundo por outra perspectiva. Considero estas habilidades muito importantes para a formação de um aluno capaz de pensar historicamente.
Concluo lembrando o historiador britânico Peter Laslett, que ressaltava a importância da imaginação histórica no ofício de historiador, ajudando-o a se guiar nos labirintos das fontes, interpretando-as criativamente, de modo a propor questionamentos ou hipóteses cada vez mais ricos.
Em minha prática pedagógica costumo propor muitas atividades nesse sentido, geralmente com resultados muito satisfatórios. Por exemplo, nesse ano realizei com uma de minhas turmas o seguinte exercício: eles deveriam escrever individualmente ou em duplas uma carta adotando a identidade fictícia de navegantes portugueses escrevendo ao rei sobre as terras que visitaram e as peripécias por que passaram. Na atividade eles tiveram total liberdade para criar terras, povos e até animais imaginários. O resultado foi muito positivo e tive textos muito criativos. Outro bom exemplo foi certo trabalho que fiz com algumas turmas em 2008 ao abordar os povos da Antiguidade e seus universos mitológicos. Tendo trabalhado algumas narrativas míticas propus aos alunos que criassem uma figura mitológica (divindade, herói ou monstro) e posteriormente inventassem uma história envolvendo esses personagens. A atividade gerou frutos positivos, especialmente em uma turma pouquíssimo interessada que se sentiu muito mobilizada pela proposta.
Obviamente a intenção da atividade não é a fixação ou memorização de conteúdo da disciplina. Seu objetivo é estimular o aluno a pôr-se no lugar dos seres humanos da época estudada, a pensar segundo seus critérios e valores, enfim, a ver o mundo por outra perspectiva. Considero estas habilidades muito importantes para a formação de um aluno capaz de pensar historicamente.
Concluo lembrando o historiador britânico Peter Laslett, que ressaltava a importância da imaginação histórica no ofício de historiador, ajudando-o a se guiar nos labirintos das fontes, interpretando-as criativamente, de modo a propor questionamentos ou hipóteses cada vez mais ricos.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Leituras - "O planalto e a estepe", de Pepetela
Comecei a ler o livro hoje mesmo e ainda nem cheguei à metade; mesmo assim, já recomendo. Nunca tinha lido nada do famoso romancista angolano, mas já me apaixonei por sua belíssima prosa; o livro é daqueles que você pega e não quer mais largar (ao contrário de certo livro do Sarney que já disseram maliciosamente que quando você larga, não quer mais pegar...).
O livro conta a história de amor entre um angolano e uma mongol (mas ainda não cheguei nessa parte...). Até onde li, a narrativa em primeira pessoa conta as memórias do protagonista Júlio desde sua infância em Lubango, nos anos 40 até sua estadia de estudos em Moscou como "bolsista-revolucionário" nos anos 60.
O romance retrata com grande sensibilidade os caminhos e descaminhos do personagem, nos fazendo conhecer (e sentir) os conflitos e tensões de Angola pouco antes da descolonização através da figura angustiada de Júlio, jovem branco e pobre (um "mapundeiro", segundo o termo pejorativo usado na época, como aprendi no livro) num país dividido por duras assimetrias raciais e sociais. Seu indeciso percurso como "revolucionário" a favor da independência e do socialismo também compõe rico retrato do período em que a União Soviética ainda disputava com o "mundo livre" pela hegemonia global.
Recomendo entusiasticamente a todos os amigos!
O livro conta a história de amor entre um angolano e uma mongol (mas ainda não cheguei nessa parte...). Até onde li, a narrativa em primeira pessoa conta as memórias do protagonista Júlio desde sua infância em Lubango, nos anos 40 até sua estadia de estudos em Moscou como "bolsista-revolucionário" nos anos 60.
O romance retrata com grande sensibilidade os caminhos e descaminhos do personagem, nos fazendo conhecer (e sentir) os conflitos e tensões de Angola pouco antes da descolonização através da figura angustiada de Júlio, jovem branco e pobre (um "mapundeiro", segundo o termo pejorativo usado na época, como aprendi no livro) num país dividido por duras assimetrias raciais e sociais. Seu indeciso percurso como "revolucionário" a favor da independência e do socialismo também compõe rico retrato do período em que a União Soviética ainda disputava com o "mundo livre" pela hegemonia global.
Recomendo entusiasticamente a todos os amigos!
terça-feira, 31 de maio de 2011
Ócio e negócio
Quase duas semanas sem post, por motivo de "força menor", preguiça! Na verdade, andei muito ocupado nos últimos finais de semana jogando Age of Empires III; para quem gosta de jogos e de História Moderna é uma grande pedida. A ação se passa entre os séculos XVI e XIX e disponibiliza diversas civilizações, inclusive a portuguesa. Mas, aproveitando o tempo de ócio, falemos sobre... ócio!
Pouco pensamos nas profundas relações que existem entre as palavras "ócio" e "negócio", etimologicamente derivadas do Latim. Para os patrícios romanos a noção de otium era extremamente importante: significava a liberdade de qualquer obrigação, o fato de não sofrer qualquer tipo de pressão; também podia designar a paz entre os cidadãos. Secundariamente tinha o sentido de lazer, sendo esse seu significado mais comum atualmente. Para muitos, o otium constituiria o supremo bem.
Por outro lado, negotium seria, literalmente, aquilo que "nega o otium", ou seja, as obrigações e deveres, sejam eles públicos ou privados. Em oposição ao ócio, o negócio seria indesejado, ao mesmo tempo que inevitável para a maioria, mesmo os patrícios, frequentemente ocupados com a vida pública e a manutenção de seus interesses. De certo modo, o otium se configurava como uma utopia, muito acalentada e almejada, mas pouco realizada.
Pierre Grimal em L`empire romain relata uma anedota curiosa, que mostra o poder desse ideal entre os antigos romanos: escolhido pelo senado romano para suceder Otávio Augusto como imperador, Tibério se mostraria relutante em aceitar, pois tal compromisso o afastaria do otium. Somente através da insistência do senado o eleito aceitaria a honra de ser imperador e o negotium que a acompanhava. Se tais sentimentos realmente animavam Tibério é impossível saber. Contudo, a história parecia crível aos cronistas da época, o que nos basta por aqui.
A noção parece bastante persistente em sua essência. Não à toa vemos Baldessare Catiglione reafirmá-la no século XVI, em O cortesão. Segundo a obra, o perfeito cortesão deveria conhecer e praticar de tudo, sem dedicar-se excessivamente a nada, o que seria digno apenas de plebeus. Fernando Bouza Álvarez lembra em Imagen y propaganda, livro que recomendo a todos, que nessa época era desejável que um nobre soubesse ler e escrever, desde que sua caligrafia fosse perceptivelmente ruim, evidenciando não usar a escrita além do adequado para sua posição social. Da mesma forma, geralmente os reis, príncipes e fidalgos mais importantes não liam muita coisa, sendo servidos por quem lhes lesse em voz alta.
A própria plebe desfrutava de largas horas de ócio nessa época, possíveis graças à frouxa disciplina de trabalho, como mostra E. P. Thompson no clássico Costumes em comum, onde aborda a cultura popular inglesa na Idade Moderna. Cita um poema satírico de 1639 que bem mostra essa tendência:
"Sabes que a Segunda é irmã de Domingo;
E Terça é outra igual;
Nas Quartas deves ir à Igreja e rezar;
Quinta é meio feriado;
Sexta é muito tarde para fiar;
Sábado é meio feriado, de novo."
A partir do século XVIII essa ética e sua estética foram gradativamente suplantadas pela transformação social motivada pela Revolução Industrial. Começava a ditadura da produtividade e dos relógios, em que tristemente vivemos até hoje. Não podemos esquecer a hipocrisia desses novos valores, tão bem denunciada pelo provérbio popular e por sua zombeteira resposta "Deus ajuda quem cedo madruga" e "Mais vale quem Deus ajuda que quem cedo madruga". Por sinal, aproveitando o trocadilho, fiquemos com a sabedoria de Seu Madruga: "Não há trabalho ruim; ruim é ter que trabalhar"!
Pouco pensamos nas profundas relações que existem entre as palavras "ócio" e "negócio", etimologicamente derivadas do Latim. Para os patrícios romanos a noção de otium era extremamente importante: significava a liberdade de qualquer obrigação, o fato de não sofrer qualquer tipo de pressão; também podia designar a paz entre os cidadãos. Secundariamente tinha o sentido de lazer, sendo esse seu significado mais comum atualmente. Para muitos, o otium constituiria o supremo bem.
Por outro lado, negotium seria, literalmente, aquilo que "nega o otium", ou seja, as obrigações e deveres, sejam eles públicos ou privados. Em oposição ao ócio, o negócio seria indesejado, ao mesmo tempo que inevitável para a maioria, mesmo os patrícios, frequentemente ocupados com a vida pública e a manutenção de seus interesses. De certo modo, o otium se configurava como uma utopia, muito acalentada e almejada, mas pouco realizada.
Pierre Grimal em L`empire romain relata uma anedota curiosa, que mostra o poder desse ideal entre os antigos romanos: escolhido pelo senado romano para suceder Otávio Augusto como imperador, Tibério se mostraria relutante em aceitar, pois tal compromisso o afastaria do otium. Somente através da insistência do senado o eleito aceitaria a honra de ser imperador e o negotium que a acompanhava. Se tais sentimentos realmente animavam Tibério é impossível saber. Contudo, a história parecia crível aos cronistas da época, o que nos basta por aqui.
A noção parece bastante persistente em sua essência. Não à toa vemos Baldessare Catiglione reafirmá-la no século XVI, em O cortesão. Segundo a obra, o perfeito cortesão deveria conhecer e praticar de tudo, sem dedicar-se excessivamente a nada, o que seria digno apenas de plebeus. Fernando Bouza Álvarez lembra em Imagen y propaganda, livro que recomendo a todos, que nessa época era desejável que um nobre soubesse ler e escrever, desde que sua caligrafia fosse perceptivelmente ruim, evidenciando não usar a escrita além do adequado para sua posição social. Da mesma forma, geralmente os reis, príncipes e fidalgos mais importantes não liam muita coisa, sendo servidos por quem lhes lesse em voz alta.
A própria plebe desfrutava de largas horas de ócio nessa época, possíveis graças à frouxa disciplina de trabalho, como mostra E. P. Thompson no clássico Costumes em comum, onde aborda a cultura popular inglesa na Idade Moderna. Cita um poema satírico de 1639 que bem mostra essa tendência:
"Sabes que a Segunda é irmã de Domingo;
E Terça é outra igual;
Nas Quartas deves ir à Igreja e rezar;
Quinta é meio feriado;
Sexta é muito tarde para fiar;
Sábado é meio feriado, de novo."
A partir do século XVIII essa ética e sua estética foram gradativamente suplantadas pela transformação social motivada pela Revolução Industrial. Começava a ditadura da produtividade e dos relógios, em que tristemente vivemos até hoje. Não podemos esquecer a hipocrisia desses novos valores, tão bem denunciada pelo provérbio popular e por sua zombeteira resposta "Deus ajuda quem cedo madruga" e "Mais vale quem Deus ajuda que quem cedo madruga". Por sinal, aproveitando o trocadilho, fiquemos com a sabedoria de Seu Madruga: "Não há trabalho ruim; ruim é ter que trabalhar"!
sábado, 14 de maio de 2011
Lugares - Confeitaria Cavé
A ideia dessa nova "rubrica" é convidar os queridos leitores a visitar lugares que remetam ao passado, fugindo, contudo, dos itinerários mais convencionais, como museus ou monumentos. Afinal, a História está em todos os lugares, basta enxergar com olhos curiosos.
Para começar, que tal uma deliciosa "pesquisa de campo" na Confeitaria Cavé, no Centro do Rio? Situada na Rua Sete de Setembro, 137, a casa foi fundada em 1860 pelo francês Charles Auguste Cavé, sendo a confeitaria mais antiga da cidade ainda em funcionamento. Diz-se que era frequentada por grandes personalidades do Brasil da época, embora não ficasse na Rua do Ouvidor, mais badalada.
É interessante visitar o salão de chá, e imaginar o que permanece de original e o que mudou ao longo do tempo. Uma peculiaridade importante é a presença do logis, pequena sala envidraçada, separada do resto do salão, comum nos restaurantes europeus da época. Ali os clientes podiam se sentar com maior privacidade, talvez a cortinas fechadas. A crer nas narrativas de Eça de Queirós, também eram usados para encontros mais "íntimos". Atualmente só é utilizado com reserva prévia e cardápio pré-determinado.
Também é imprescindível prestar atenção ao menu, observando o que ficou e o que mudou. E não esqueça de pedir os deliciosos bem-casados!
Para começar, que tal uma deliciosa "pesquisa de campo" na Confeitaria Cavé, no Centro do Rio? Situada na Rua Sete de Setembro, 137, a casa foi fundada em 1860 pelo francês Charles Auguste Cavé, sendo a confeitaria mais antiga da cidade ainda em funcionamento. Diz-se que era frequentada por grandes personalidades do Brasil da época, embora não ficasse na Rua do Ouvidor, mais badalada.
É interessante visitar o salão de chá, e imaginar o que permanece de original e o que mudou ao longo do tempo. Uma peculiaridade importante é a presença do logis, pequena sala envidraçada, separada do resto do salão, comum nos restaurantes europeus da época. Ali os clientes podiam se sentar com maior privacidade, talvez a cortinas fechadas. A crer nas narrativas de Eça de Queirós, também eram usados para encontros mais "íntimos". Atualmente só é utilizado com reserva prévia e cardápio pré-determinado.
Também é imprescindível prestar atenção ao menu, observando o que ficou e o que mudou. E não esqueça de pedir os deliciosos bem-casados!
Imagens e sociedade
Ultimamente tenho refletido sobre a presença das imagens em nossa sociedade, o que não é novidade nenhuma, e sobre a veiculação das imagens em outras épocas, o que também não é exatamente novidade.
Mais particularmente, tenho pensado sobre o quanto somos diariamente expostos a literalmente centenas, talvez milhares, de imagens novas todos os dias: outdoors constantemente mudados nas ruas, novos comerciais, novos programas na televisão, novos conteúdos que encontramos na internet. Contudo, estamos tão acostumados a ver sempre novas imagens, estáticas ou em movimento, que mal nos damos conta de que nem sempre foi assim.
Pelo contrário, ao pensarmos, por exemplo, um indivíduo que vivesse em uma aldeia medieval ou no Brasil colonial, é provável que ele passasse anos, talvez a vida inteira, vendo sempre as mesmas imagens, sem tomar contato com nenhuma representação gráfica nova: as mesmas pinturas na igreja local, as mesmas tapeçarias ou mosaicos; enfim, enquanto somos bombardeados diariamente com inúmeras imagens que desconhecíamos até a véspera, em outras épocas, o convívio com as imagens sofria poucas e lentas mudanças.
Qual seria o impacto disso nas respectivas sociedades? Difícil dizer. É comum se falar no poder da imagem no mundo atual, muito grande, por sinal. No entanto, por outro lado, talvez essa força seja hoje objeto de uma banalização maior, ante o grande fluxo de imagens descartáveis em que estamos imersos. É provável que em outras épocas seu poder estivesse justamente no sentido contrário, na escassez de imagens novas e, por conseguinte, em sua familiaridade cotidiana. Como aquilatar os sentimentos de continuidade, estabilidade ou fidelidade que poderiam gerar nos indivíduos de que falamos?
Talvez testemunhe desse poder a verdadeira veneração por determinadas imagens que encontramos em outras épocas, a principiar, mais próximo de nós, pelo culto católico. Encerremos com um exemplo extremamente eloquente: era crença comum no Egito antigo que imagens pintadas pudessem ganhar vida, ao ponto de animais perigosos como leões ou serpentes serem frequentemente representados com defeitos físicos, de modo a serem inofensivos, mesmo que saltassem da parede...
Mais particularmente, tenho pensado sobre o quanto somos diariamente expostos a literalmente centenas, talvez milhares, de imagens novas todos os dias: outdoors constantemente mudados nas ruas, novos comerciais, novos programas na televisão, novos conteúdos que encontramos na internet. Contudo, estamos tão acostumados a ver sempre novas imagens, estáticas ou em movimento, que mal nos damos conta de que nem sempre foi assim.
Pelo contrário, ao pensarmos, por exemplo, um indivíduo que vivesse em uma aldeia medieval ou no Brasil colonial, é provável que ele passasse anos, talvez a vida inteira, vendo sempre as mesmas imagens, sem tomar contato com nenhuma representação gráfica nova: as mesmas pinturas na igreja local, as mesmas tapeçarias ou mosaicos; enfim, enquanto somos bombardeados diariamente com inúmeras imagens que desconhecíamos até a véspera, em outras épocas, o convívio com as imagens sofria poucas e lentas mudanças.
Qual seria o impacto disso nas respectivas sociedades? Difícil dizer. É comum se falar no poder da imagem no mundo atual, muito grande, por sinal. No entanto, por outro lado, talvez essa força seja hoje objeto de uma banalização maior, ante o grande fluxo de imagens descartáveis em que estamos imersos. É provável que em outras épocas seu poder estivesse justamente no sentido contrário, na escassez de imagens novas e, por conseguinte, em sua familiaridade cotidiana. Como aquilatar os sentimentos de continuidade, estabilidade ou fidelidade que poderiam gerar nos indivíduos de que falamos?
Talvez testemunhe desse poder a verdadeira veneração por determinadas imagens que encontramos em outras épocas, a principiar, mais próximo de nós, pelo culto católico. Encerremos com um exemplo extremamente eloquente: era crença comum no Egito antigo que imagens pintadas pudessem ganhar vida, ao ponto de animais perigosos como leões ou serpentes serem frequentemente representados com defeitos físicos, de modo a serem inofensivos, mesmo que saltassem da parede...
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Em cartaz... "Thor", de Kenneth Branagh
Recomendo a todos o filme Thor, atualmente em cartaz. Entre os motivos, a excelente direção de Kennet Branagh, célebre pela fantástica série de adaptações cinematográficas de Shakespeare nos anos 90; ressalto nesse sentido as atuações ricamente teatrais, raras num filme de super-heróis e que caíram como luva no universo mítico de Thor, especialmente a brilhante atuação de Tom Hiddleston, no papel de Loki. Além disso, achei a estética do filme bastante apurada, tanto visualmente quanto pela trilha sonora.
Mas e a História? Como se sabe, o personagem Thor, da Marvel Comics, tem seu universo profundamente inspirado na mitologia germano-escandinava. O grande trunfo do filme, contudo, foi se aproximar mais do universo mítico original que de sua versão quadrinística, reforçando o tom épico da narrativa. Nesse sentido, torna-se muito interessante o modo como o filme se apropria de uma mitologia milenar, reconstruindo-a a partir dos quadrinhos, que de certo modo funcionam aqui mais como um prisma que como base para a narrativa. Resumindo, o filme se destaca bastante entre a (não tão) recente onda de filmes de super-heróis, comprovando que apesar de muita porcaria, a temática pode render bons frutos na mão de diretores competentes, como já demonstrou Chris Nolan com as duas últimas aventuras de Batman.
Mas e a História? Como se sabe, o personagem Thor, da Marvel Comics, tem seu universo profundamente inspirado na mitologia germano-escandinava. O grande trunfo do filme, contudo, foi se aproximar mais do universo mítico original que de sua versão quadrinística, reforçando o tom épico da narrativa. Nesse sentido, torna-se muito interessante o modo como o filme se apropria de uma mitologia milenar, reconstruindo-a a partir dos quadrinhos, que de certo modo funcionam aqui mais como um prisma que como base para a narrativa. Resumindo, o filme se destaca bastante entre a (não tão) recente onda de filmes de super-heróis, comprovando que apesar de muita porcaria, a temática pode render bons frutos na mão de diretores competentes, como já demonstrou Chris Nolan com as duas últimas aventuras de Batman.
Perfil - Gandhi e a cultura ocidental
Não pretendo apresentar aqui uma biografia desse fantástico personagem, tanto pelo espaço insuficiente quanto por minha incapacidade de tentar algo nesse sentido. O objetivo desse post é apenas traçar pequeno esboço das relações de Mahatma Gandhi com a cultura ocidental, geralmente ignoradas ou esquecidas em favor de suas raízes hinduístas.
Ao contrário do que geralmente se acredita, o pensamento ocidental representa parte importantíssima de sua formação. Nesse sentido, convém lembrar que toda sua instrução formal foi de caráter ocidentalizante, tendo mesmo cursado o ensino superior na Inglaterra, onde se formou advogado. Por sinal, o próprio Gandhi se lamentava de seu conhecimento superficial a respeito de alguns ramos da filosofia hinduísta, como a ioga.
Duas influências devem ser particularmente ressaltadas sob esse aspecto. Uma delas é a do escritor russo Léon Tolstói, cuja leitura foi essencial na formação moral do ativista indiano. Para se ter uma ideia, em 1910, quando fundou uma comunidade de caráter utópico na África do Sul, muito antes de sua militância pela independência indiana, Gandhi a batizou como "Quinta Tolstói". De fato, muito de seu pensamento político, social e econômico (outra faceta pouco conhecida do líder) é tributário à leitura do russo. Aliás, segundo Pierre Meile, um de seus biógrafos já era leitor assíduo de Tolstói dez anos antes de sua primeira leitura do Bhagavad-Gita, um dos mais importantes textos da tradição religiosa hinduísta, como se sabe.
Outra leitura essencial em sua formação foi o pensador americano Henry David Thoreau, verdadeiro criador da noção de resistência passiva, conceito essencial da ação de Gandhi ao longo de toda sua vida política, desde as primeiras manifestações contra a obrigatoriedade do registro de indianos na África do Sul até sua longa luta pela independência da Índia. De fato, o consagrado termo Satyagraha ("busca da verdade") foi inicialmente pensado como "tradução" indiana da ideia de resistência passiva. Obviamente o conceito passou por amplos refinamentos posteriores, enriquecido por afluências de matriz hindu; contudo, seu ponto de partida estava em Thoreau.
Apenas a título de curiosidade, cabe apontar que um dos pensadores indianos mais admirados por Gandhi seria justamente o poeta Rabindranath Tagore, que chegou a qualificar como "o Sol da Índia". Também o genial Tagore entreteve profundas relações com a cultura ocidental, tendo feito estudos na Inglaterra e, ainda mais importante, sendo o primeiro escritor não-europeu a ganhar um Nobel de Literatura.
Certamente não se trata de afirmar que o pensamento de Gandhi era mera tradução "hinduizante" de conceitos ocidentais, como já li anos atrás em certo artigo da revista francesa Historia, o que seria banalizar sua situação de hibridismo cultural. Aliás, me parece que outro dos pilares de sua atuação, a noção de Ahimsa ("não-violência"), deve muito mais a seu contato com a cultura oriental, caminhando nos limites do hinduísmo e do budismo. Contudo, é muito instigante pensar sobre o grande alcance das reflexões que Gandhi pôde propor à cultura do século XX, a partir de sua estratégica posição na encruzilhada de diversas tradições culturais.
Talvez seja bastante produtivo pensá-lo como um indiano educado no seio da cultura ocidental e que, justamente por isso, foi capaz de reencontrar e interpretar a cultura indiana, especialmente hinduísta, de modo tão criativo e produtivo, dando origem a um dos movimentos mais inspiradores da história humana.
Ao contrário do que geralmente se acredita, o pensamento ocidental representa parte importantíssima de sua formação. Nesse sentido, convém lembrar que toda sua instrução formal foi de caráter ocidentalizante, tendo mesmo cursado o ensino superior na Inglaterra, onde se formou advogado. Por sinal, o próprio Gandhi se lamentava de seu conhecimento superficial a respeito de alguns ramos da filosofia hinduísta, como a ioga.
Duas influências devem ser particularmente ressaltadas sob esse aspecto. Uma delas é a do escritor russo Léon Tolstói, cuja leitura foi essencial na formação moral do ativista indiano. Para se ter uma ideia, em 1910, quando fundou uma comunidade de caráter utópico na África do Sul, muito antes de sua militância pela independência indiana, Gandhi a batizou como "Quinta Tolstói". De fato, muito de seu pensamento político, social e econômico (outra faceta pouco conhecida do líder) é tributário à leitura do russo. Aliás, segundo Pierre Meile, um de seus biógrafos já era leitor assíduo de Tolstói dez anos antes de sua primeira leitura do Bhagavad-Gita, um dos mais importantes textos da tradição religiosa hinduísta, como se sabe.
Outra leitura essencial em sua formação foi o pensador americano Henry David Thoreau, verdadeiro criador da noção de resistência passiva, conceito essencial da ação de Gandhi ao longo de toda sua vida política, desde as primeiras manifestações contra a obrigatoriedade do registro de indianos na África do Sul até sua longa luta pela independência da Índia. De fato, o consagrado termo Satyagraha ("busca da verdade") foi inicialmente pensado como "tradução" indiana da ideia de resistência passiva. Obviamente o conceito passou por amplos refinamentos posteriores, enriquecido por afluências de matriz hindu; contudo, seu ponto de partida estava em Thoreau.
Apenas a título de curiosidade, cabe apontar que um dos pensadores indianos mais admirados por Gandhi seria justamente o poeta Rabindranath Tagore, que chegou a qualificar como "o Sol da Índia". Também o genial Tagore entreteve profundas relações com a cultura ocidental, tendo feito estudos na Inglaterra e, ainda mais importante, sendo o primeiro escritor não-europeu a ganhar um Nobel de Literatura.
Certamente não se trata de afirmar que o pensamento de Gandhi era mera tradução "hinduizante" de conceitos ocidentais, como já li anos atrás em certo artigo da revista francesa Historia, o que seria banalizar sua situação de hibridismo cultural. Aliás, me parece que outro dos pilares de sua atuação, a noção de Ahimsa ("não-violência"), deve muito mais a seu contato com a cultura oriental, caminhando nos limites do hinduísmo e do budismo. Contudo, é muito instigante pensar sobre o grande alcance das reflexões que Gandhi pôde propor à cultura do século XX, a partir de sua estratégica posição na encruzilhada de diversas tradições culturais.
Talvez seja bastante produtivo pensá-lo como um indiano educado no seio da cultura ocidental e que, justamente por isso, foi capaz de reencontrar e interpretar a cultura indiana, especialmente hinduísta, de modo tão criativo e produtivo, dando origem a um dos movimentos mais inspiradores da história humana.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Lamento contra a barbárie
Hoje fui acordado pelo rádio, com a triste notícia do assassinato de um homem.
Um dos homens mais vis de que se teve notícia na década passada, Osama Bin Laden. Resta vivo outro homem, talvez ainda mais vil, George W. Bush. Dois líderes cruéis de legiões de loucos, responsáveis juntos pelas mortes e sofrimento de milhares de pessoas.
Milhares de pessoas comemoram em vários lugares dos EUA. Obama disse, em seu pronunciamento oficial, que justiça foi feita. Segundo Bush, seu colega de terrorismo, trata-se de vitória para os Estados Unidos. As bolsas asiáticas estão em alta, após a notícia.
Fico simplesmente chocado. Bin Laden não foi julgado ou condenado. Foi meramente executado, com um tiro na cabeça. Justiça, Presidente Obama? Isso é tudo que o Ocidente "cristão", "civilizado", "democrático" tem a dar em reposta a seus inimigos?
Estou apenas chocado diante da barbárie, transformada em espetáculo midiático. Lamento a barbárie, choro a barbárie. Barbárie ocidental, barbárie oriental.
Desculpem o desabafo.
Um dos homens mais vis de que se teve notícia na década passada, Osama Bin Laden. Resta vivo outro homem, talvez ainda mais vil, George W. Bush. Dois líderes cruéis de legiões de loucos, responsáveis juntos pelas mortes e sofrimento de milhares de pessoas.
Milhares de pessoas comemoram em vários lugares dos EUA. Obama disse, em seu pronunciamento oficial, que justiça foi feita. Segundo Bush, seu colega de terrorismo, trata-se de vitória para os Estados Unidos. As bolsas asiáticas estão em alta, após a notícia.
Fico simplesmente chocado. Bin Laden não foi julgado ou condenado. Foi meramente executado, com um tiro na cabeça. Justiça, Presidente Obama? Isso é tudo que o Ocidente "cristão", "civilizado", "democrático" tem a dar em reposta a seus inimigos?
Estou apenas chocado diante da barbárie, transformada em espetáculo midiático. Lamento a barbárie, choro a barbárie. Barbárie ocidental, barbárie oriental.
Desculpem o desabafo.
domingo, 1 de maio de 2011
Resultados da segunda enquete
Nossa última enquete foi sobre os temas de História do Brasil que mais interessam aos leitores. Sete pessoas votaram, totalizando vinte e um votos, pois cada um deveria votar em três temas. Computando cada voto como cerca de 5%, ficamos com os seguintes resultados aproximados:
Contatos culturais no Brasil Colonial – 20%
Presença francesa e holandesa na colônia – 15%
Religião e religiosidade na época colonial – 10%
Cultura no Brasil Imperial – 10%
Ditadura militar – 10%
Cultura no Brasil republicano – 10%
Democracia e cidadania no Brasil – 10%
Administração colonial- 5%
Política no Brasil Imperial – 5%
Escravidão e abolicionismo – 5%
Era Vargas – 5%
Leituras - "Cartas de meu moinho", de Alphonse Daudet
Um livro apaixonante, embora pouco conhecido no Brasil. Trata-se de uma antologia de contos do autor do mais conhecido Tartarin de Tarascon, publicada em 1866, sob a forma de folhetins, no jornal L`Événement. Na verdade, Lettres de mon moulin, Cartas de meu moinho, foi o trabalho que lançou sua carreira literária, tendo grande repercussão entre o público francês da época.
O livro se apresenta como conjunto de memórias ficcionais sobre o suposto período em que o autor teria vivido no Sul da França em um moinho desativado, comprado por ele para "seus trabalhos de poesia". Curiosamente, ainda hoje muitas pessoas acreditam que se trate de experiência verídica. Há inclusive um moinho na aldeia de Fontvieille conhecido como "Moinho de Alphonse Daudet", bastante visitado, e que hoje abriga um museu em homenagem ao autor.
Mas vamos aos contos, que são pequenas pérolas literárias, ao mesmo tempo encantadoras e envolventes. As narrativas transportam o leitor a outro tempo, ao cotidiano provinciano da França meridional no século XIX, desfilando diante do leitor personagens pitorescos, paisagens bucólicas e situações que vão desde o humorístico ao melancólico. Seria impossível falar aqui de todos; vou destacar apenas dois de meus favoritos.
O primeiro é "O segredo de mestre Cornille", que conta a história do moleiro Cornille, antigo dono do moinho de Daudet. Trata-se de simpático velhinho inconformado com a substituição dos moinhos de vento pelas máquinas de moagem a vapor. Seu segredo, que ninguém compreende, é de onde sai o trigo que continua triturando em seu moinho, que insiste em rodar... Mas isso não vou contar! É um conto belíssimo, que explora com grande sensibilidade o impacto da industrialização sobre a vida cotidiana das pessoas.
O outro é "As estrelas", que narra em primeira pessoa a paixão de um pastor de ovelhas pela "bela Stéphanette", filha de seu patrão. Um feliz acaso faz com que os dois passem uma noite juntos sob o céu estrelado dos Alpes. Para distrair a moça, o pastor começa a lhe falar das estrelas e de suas histórias, até que a moça dorme com a cabeça apoiada em seu ombro. Além de seu tocante e ingênuo romantismo, a história é muito interessante pelo modo como apresenta um saber astronômico popular, lembrando-nos de uma época em que o conhecimento científico acadêmico ainda não se impunha com a força que conhecemos, ou talvez, em que a Ciência ainda não havia se tornado uma religião...
Por fim, é sempre bom lembrar que, como qualquer obra, não se trata de janela transparente para a cultura popular do século XIX, mas de uma visão refratada através do autor. De qualquer forma, um livro extraordinário.
O livro se apresenta como conjunto de memórias ficcionais sobre o suposto período em que o autor teria vivido no Sul da França em um moinho desativado, comprado por ele para "seus trabalhos de poesia". Curiosamente, ainda hoje muitas pessoas acreditam que se trate de experiência verídica. Há inclusive um moinho na aldeia de Fontvieille conhecido como "Moinho de Alphonse Daudet", bastante visitado, e que hoje abriga um museu em homenagem ao autor.
Mas vamos aos contos, que são pequenas pérolas literárias, ao mesmo tempo encantadoras e envolventes. As narrativas transportam o leitor a outro tempo, ao cotidiano provinciano da França meridional no século XIX, desfilando diante do leitor personagens pitorescos, paisagens bucólicas e situações que vão desde o humorístico ao melancólico. Seria impossível falar aqui de todos; vou destacar apenas dois de meus favoritos.
O primeiro é "O segredo de mestre Cornille", que conta a história do moleiro Cornille, antigo dono do moinho de Daudet. Trata-se de simpático velhinho inconformado com a substituição dos moinhos de vento pelas máquinas de moagem a vapor. Seu segredo, que ninguém compreende, é de onde sai o trigo que continua triturando em seu moinho, que insiste em rodar... Mas isso não vou contar! É um conto belíssimo, que explora com grande sensibilidade o impacto da industrialização sobre a vida cotidiana das pessoas.
O outro é "As estrelas", que narra em primeira pessoa a paixão de um pastor de ovelhas pela "bela Stéphanette", filha de seu patrão. Um feliz acaso faz com que os dois passem uma noite juntos sob o céu estrelado dos Alpes. Para distrair a moça, o pastor começa a lhe falar das estrelas e de suas histórias, até que a moça dorme com a cabeça apoiada em seu ombro. Além de seu tocante e ingênuo romantismo, a história é muito interessante pelo modo como apresenta um saber astronômico popular, lembrando-nos de uma época em que o conhecimento científico acadêmico ainda não se impunha com a força que conhecemos, ou talvez, em que a Ciência ainda não havia se tornado uma religião...
Por fim, é sempre bom lembrar que, como qualquer obra, não se trata de janela transparente para a cultura popular do século XIX, mas de uma visão refratada através do autor. De qualquer forma, um livro extraordinário.
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