quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Utilitarismo, Romantismo ou Vanguardismo?

Extrato de A Nova Ordem Ecológica, do filósofo Luc Ferry

Por trás desse debate [sobre a governança da União Europeia], que todos deveriam poder julgar por si mesmos, uma autêntica questão filosófica ressurgiu: a do estatuto da cultura em uma sociedade de onde as tradições religiosas e, com elas, a transcendência do sagrado por assim dizer se evaporaram. Mas, para avaliar finalmente a questão, seria necessário sair das oposições binárias nas quais querem com frequência nos encerrar: alta cultura literária contra subcultura técnica, tradição contra modernidade, obscurantismo romântico contra universalismo das Luzes, etc. Para muitos de nós, com efeito, o drama da cultura se desenrola nessas alternativas impossíveis.

Primeiramente, não são duas, mas três concepções filosóficas da cultura que não param de se enfrentar, cada uma pretendendo suplantar as outras duas em uma luta de morte. Podem-se, com os utilitaristas, considerar as obras como sendo "produtos", "mercadorias" que cumprem sua destinação quando, consumidas por um público, elas lhe dão satisfação. É essa visão consumista que os intelectuais críticos denunciam, em parte com razão, como sinal de uma "americanização do mundo". Pode-se em seguida, com os românticos, ver na obra de sucesso a expressão do gênio próprio de cada povo. Cada nação possui seu "espírito", sua "vida", e a língua, as instituições jurídicas e políticas, mas também a cultura em geral são suas manifestações especialmente perfeitas por não deixarem dúvidas quanto a seu rosto imanente. Pode-se por fim, contrariamente ao romantismo, atribuir à obra a tarefa heróica de subverter as formas estéticas do passado, de sair fora, assim como queriam os revolucionários franceses, dos códigos determinantes que constituem as tradições nacionais. Consumo, arraigamento, desprendimento: eis aí as três palavras mestras, as três bandeiras sob as quais se enfrentam ainda hoje os novos cruzados pós-religião. Três perversões possíveis, também: a demagogia do "tudo cultural", que ameaça sempre o utilitarismo, uma vez que o único critério se torna o sucesso, o efeito produzido sobre o público, excluindo qualquer outra unidade de valor. A quada no nacionalismo e no folclore, que espreitam um romantismo estreito. Ele oscila, então, entre a arrogância fascistizante e a falsa humildade do artesanato local. Quanto à ideologia da inovação, ela possui também seu reverso: no vanguardismo, que tanto caricaturou o gesto da liberdade, rebaixando-o à categoria de abstração nua. O conteúdo da arte reduziu-se então a ser tão somente encenação de símbolos da ruptura e da subversão pela subversão.

Os grandes debates sobre a a cultura a que assistimos desde a morte das vanguardas na metade dos anos 1970 nascem com frequência do fato de essas três visões da vida do espírito parecerem inconciliáveis: o vanguardismo, que dominou a "alta cultura" desse século, se opõe de maneira tão decidida ao amor romântico da tradição quanto ao reino cínico do mercado. Quanto ao romantismo, seu ódio ao desarraigamento inerente à cultura moderna só se iguala ao da plutocracia insolentemente exibida pelo mundo liberal. Sem se preocupar com um conflito que opõe a seus olhos o elitismo à desuetude, os defensores da indústria cultural prosseguem tranquilamente a produção de variedades e divertimentos mercantis. Seria preciso, pois, escolher o próprio campo, e como bons intelectuais que somos, com o vigor do desespero separar finalmente o joio do trigo. Uns nos convidam a optar pela inovação, pelo apoio fervoroso à "cultura difícil", mas "corajosa"; outros nos recomendam os valores seguros do patrimônio e dos autores clássicos.

Entre os três momentos da cultura, o desprendimento, o arraigamento e o consumo, é preciso de fato escolher? Não acredito. Pois a mais simples descrição fenomenológica das obras, por nós ditas "grandes", indica claramente serem elas as articuladoras das três instâncias: ao se emanciparem de um contexto que conservam até na inovação, elas conciliam de maneira cada vez mais original o desprendimento e o arraigamento que o vanguardismo e o romantismo isolam e tematizam de modo unilateral. É nessa articulação e somente por causa dela que elas provocam, para nossa maior alegria, a paixão de um espectador - esse prazer estético sem o qual mesmo a cultura mais elevada não valeria sequer uma hora de esforço. Para essa afirmação eu não vejo contraexemplo. Vale para a música como para a pintura, para a grande mesquita de Kairuan como para a Notre-Dame de Paris. Tanto uma quanto a outra pertencem a um contexto histórico e geográfico particular, tanto uma como a outra o transcendem para alcançar um público que ultrapassa de muito longe o dos fiéis aos quais o monumento parecia inicialmente destinado. E é nesse alargamento de horizontes, impossível fora da articulação dos aspectos que se queria separar por motivos ideológicos, que reside a verdadeira grandeza. O cosmopolitismo não se opõe mais aqui ao nacionalismo - mesmo que seja preciso afirmar a supremacia do momento de desprendimento dos códigos herdados sobre o momento da tradição: sem ele não haveria criação nem inovação, e é o rastro do propriamente humano que se evaporaria. É aí, me parece, que reside o verdadeiro perigo ao qual nos exporia uma vitória do ecologismo radical na opinião pública: ao considerar a cultura, à maneira da sociobiologia, um simples prolongamento da natureza, o mundo inteiro do espírito estaria sendo posto em perigo. Entre a barbárie e o humanismo, é à ecologia democrática que compete agora decidir.

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