Siga a Oficina no seu e-mail!

terça-feira, 17 de maio de 2016

"Lamentações de Ipuwer"

Trechos das Lamentações de Ipuwer, texto produzido no Egito, durante período de crise do Antigo Império; transcritos de Dinâmicas da História do mundo, de Christopher Dawson

"Pasmem, estrangeiros chegaram à nossa terra. Os homens do Egito não são mais encontrados em lugar algum. O povo do deserto tomou o seu lugar. A terra está desolada, os lares abandonados. Arqueiros de um país estranho chegaram ao Egito.

A barca do Alto Egito está à deriva. As cidades estão destruídas. Os homens fogem terra adentro, para morar em tendas.

As estradas estão vigiadas. Os homens ficam de tocaia na beira dos caminhos para infligir ao viajante uma morte humilhante, roubando-lhe os bens.

O gado permanece desgarrado. Não há mais homens para cuidar do gado. Quando o Nilo transborda, ninguém ara, pois dizem, 'Não sabemos o que pode acontecer'.

O sangue se esparrama por todos os lados. A morte impera. Os homens são poucos, e aquele que enterra seu irmão está em toda parte. As mulheres ficaram estéreis,  pois o Criador não confecciona mais homens, por causa do estado da terra.

[...]

Os nobres estão aflitos e a turba regozija-se. Toda cidade diz: 'Venha e nos deixe derrubar aqueles que têm autoridade entre nós'.

A terra gira como a roda do ceramista. Ladrões se tornam homens de respeito e os ricos são saqueados. Os grandes estão famintos e aflitos, ao passo que aqueles que serviam têm agora servidores. Ele, que transportava mensagens para outros, agora manda mensagens para fazer valer sua autoridade.

O pobre possui os ricos. Aquele que andava descalço agora guarda tesouros. Aquele que não tinha uma vaca possui rebanhos. O luxo se espalha entre o povo. Ouro e joias adornam o pescoço dos escravos, mas as patroas dizem, 'Ah, se tivéssemos algo para comer!'. As veneráveis senhoras sofrem como servas. Suas escravas são, agora, patroas de suas bocas.

Aqueles que construíam túmulos para si se tornaram empregados; aqueles que remavam no barco de Deus estão sob o porrete. Os homens não velejam mais para Biblos. Que faremos para obter o cedro para nossas múmias, em cujo produto os Puros são enterrados, e cujo óleo embalsama o príncipe, desde a distante terra de Keftiu (Creta)? Eles não mais retornam. O ouro e as coisas preciosas desapareceram. Os homens jogam seus mortos no rio. O Nilo se transformou num cemitério.

[...]

Pasmem! Aquilo que outrora nunca foi veio a se passar. O Rei foi levado por homens da destruição. Homens sem fé ou entendimento privaram nossa terra de sua realeza. Eles se revoltaram contra a Coroa Sagrada, o defensor de Rá, o qual faz reinar a paz nas Duas Terras. A Serpente foi retirada de seu lugar, e o segredo dos Reis da Terra Alta e Baixa está desnudado.

Da sublime Sala do Julgamento os escritos foram levados, seu interior está exposto. As repartições do governo foram abertas e seus escritos foram levados, de forma que os servos se tornam senhores de servos. Ai de mim, pela maldade desta geração! Os registros contábeis dos escribas foram levados. O grão do Egito é de quem vier pegar.

As leis da Sala do Julgamento são jogadas fora. O pobre as quebra em público nas ruas. O pobre participa da grandeza da Divina Enéada, enquanto os filhos dos príncipes são jogados nas ruas.

As coisas vistas no passado pereceram. A terra se encontra exaurida, como o linho seco. Seria o caso de se dar o fim do homem, que a concepção e o nascimento falhassem! Para que o choro da terra cessasse e o conflito deixasse de existir!

Quando Rá criou o homem, ele primeiro não separou o virtuoso do profano? É dito que ele é o Pastor dos Homens. Quando seu rebanho está disperso, ele o vigia, ajuntando-o novamente.

Caso ele tivesse percebido, desde o início, a natureza deles, então teria estendido seu braço, destruindo a erva daninha. Mas nesta época, não há mais um condutor. Onde está ele? Dorme? Seu poder não pode ser visto".

Nenhum comentário: