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terça-feira, 3 de maio de 2016

Impérios, culturas e "globalização"

Extrato do ensaio A sociologia e a teoria do progresso, de Christopher Dawson, originalmente publicado em 1921

"Até agora, a ciência histórica não tem se preocupado com as unidades espirituais que são as civilizações, mas, somente, com as unidades políticas, o Estado e o Império. Tem-se buscado dar a eles uma interpretação em termos raciais ou políticos, em vez de relacioná-los à cultura mundial ou à vida regional. Uma vez que consideremos raça como divorciada da região e da civilização, ela se torna uma abstração perniciosa, a qual falsifica toda a visão histórica. Disso são testemunhas as falsas generalizações de historiadores ingleses e alemães de meados do século XIX, além do curioso misticismo racial de escritores como Houston Stewart Chamberlain. Ainda mais comum e perigosa é a errônea leitura da história de cunho político-imperialista, a qual sempre justifica o vencedor, medindo os valores sociais sob o ponto de vista do poder material. Esse é o erro que está na base da maior parte de nossas concepções errôneas de progresso, o qual forja uma falsa ideia sobre os meios de unificação social. Diferentemente da civilização que se configura como uma cooperação espiritual de sociedades regionais, o imperialismo se estrutura através de uma unificação forçada e externa, a qual pode ferir ou até mesmo destruir os delicados organismos da vida local. Ele só pode ter real valor para uma cultura se atuar como servidor de uma unidade cultural ou de uma força espiritual que já exista, como no caso do Império Romano, que se apresentava como servidor do helenismo, do Império Bizantino, servidor do cristianismo, ou do Chinês, servidor do confucionismo. Nos últimos cinquenta anos, o imperialismo, seja ele de ordem militar ou econômica, tendeu a prevalecer sobre o elemento espiritual na sociedade mundial europeia. A organização econômica do mundo ultrapassou, em muito, sua unidade espiritual, e o desenvolvimento natural da vida regional tem sido reprimido, ou simplesmente substituído, por um poder mundial menos vital, mas mecanicamente mais forte. Portanto, a grande cidade moderna, em vez de realizar a verdadeira vocação da cidade, que é promover o encontro e o casamento entre a região e a civilização, acaba não sendo nem regional, nem cultural, mas apenas o mero produto de uma indústria mundial e de um imperialismo econômico.

Essas forças são, de fato, parte de um movimento de degeneração, assim como de crescimento, ainda que elas tenham sido saudadas mundo afora como as reais depositárias da civilização e do progresso. O verdadeiro progresso, todavia, não consiste num avanço quantitativo em riqueza e em números, nem mesmo num avanço qualitativo em tecnologia e controle dos recursos materiais, apesar de todos eles desempenharem um papel secundário em seu movimento. O fator essencial do progresso corresponde a um processo de integração, uma união crescente entre o espírito de toda a civilização e a personalidade da sociedade local. Essa evolução de uma consciência de grupo mais rica e mais plena pode ser traçada na história de todas as épocas que nos são conhecidas. Linhas de progresso parcial, contínuas melhorias nas artes, por exemplo, são obscuras e frequentemente é impossível rastreá-las, mas esse grande movimento de integração, o qual tem prosseguido, quase sem interrupção, da aurora da civilização nos vales dos grandes rios até o presente momento, é real e incontestável. Também não podemos dispensar como mera utopia a ideia de que esse processo continue até que a humanidade como um todo encontre expressão social - não necessariamente sob um Estado - mas numa civilização comum e numa consciência comum -, uma síntese na qual cada região leve sua contribuição para o todo, sem perder sua própria alma sob a pressão da mão morta do imperialismo mundial".

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