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sábado, 12 de outubro de 2013

Imaginários partilhados

Trecho de Histoire de Lynx de Claude Lévi-Strauss


“As semelhanças entre as narrativas do Velho e do Novo Mundo que nos detiveram no capítulo anterior são de outra natureza. Elas datam de uma época recente, sua origem não tem mistério. No decorrer do século XIx, os “viajantes”, como eram chamados então, canadenses empregados pela Companhia da Baía de Hudson, tinham com os índios relações muito próximas.

À noite, ao redor das fogueiras, os “viajantes” contavam, provavelmente em jargão chinook[1], várias histórias tiradas do folclore francês. Encontramos o nome Ti-Jean (Petit Jean) de um herói particularmente popular no Canadá em versões recolhidas muito mais tarde da boca de contadores de história indígenas: Butcetca em shuswap, Laptissán em nariz-furado, Ptciza em kalapuya, Kicon em cree, Ticon em ojibwa...

Entre tantas outras ideias fecundas, Boas teve aquela de incitar jovens pesquisadores canadenses a recolher em suas campanhas os restos de um folclore francês pelo qual, localmente, ninguém se interessava. A coleta foi fabulosa. Ela certamente não oferece uma imagem estática do que era o folclore francês no século XVII. Transplantado para um novo solo, ele recebeu contribuições, sofreu influências; ele também evoluiu de modo autônomo. Mas seu material era muito mais rico que aquele que subsistia na memória dos contadores franceses na mesma época. Imagina-se que os índios tenham sido seduzidos pela verve, pelo maravilhoso, pelos detalhes pitorescos ou fantásticos de contos que, sob esses aspectos, não perdiam em nada para os seus próprios, e onde encontravam um modelo de herói feio e desprezado que lhes era familiar. Nada de espantoso então se eles atribuem a Snánaz, depois de sua vitória sobre o vento, aquela sobre a besta de sete cabeças. A versão shuswap imputa a Snánaz, ainda obscuro e ridicularizado por sua ingenuidade, os mesmos enganos que aqueles dos quais, entre os índios Thompson, era culpado um personagem chamado Jack, prova de sua extração europeia. Entre as narrativas francesas e as suas, os índios rapidamente perceberam as semelhanças, e incorporaram diversos incidentes das primeiras a suas próprias tradições”.



[1] Espécie de língua franca empregada entre os indígenas norte-americanos ao longo da costa do Pacífico.

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