domingo, 1 de setembro de 2013

Sobre professores e corujas


Repensar e recriar símbolos é sempre útil e necessário.

Um dos símbolos mais difundidos do ofício de professor é, sem dúvida, a coruja. Geralmente pensamos em corujas como aves bonitinhas, fofinhas e graciosas. De fato, o são. Mas há muito escondido sob essa simples aparência.


A relação entre a coruja e o magistério é bastante antiga, derivando do simbolismo em torno de Palas Atena, na Grécia. Como se sabe, um dos principais atributos de Atena é o patronato à sabedoria e à filosofia. A associação entre a deusa e a ave parece ter sido comum desde as mais arcaicas representações da divindade. Por quê?

Provavelmente a assimilação entre o animal e Palas se deve a uma das mais conhecidas características da coruja: ela consegue enxergar na escuridão, devido a uma série de adaptações na morfologia de seus olhos e no funcionamento de seu sistema nervoso central. Quem leu Homero sabe que também Atena recebia constantemente o epíteto de "aquela de olhos glaucos". Não é difícil perceber a analogia entre sabedoria e olhar penetrante, vinculando as duas. Daí ao magistério, vai pouca distância...


No entanto, poucas vezes pensamos no papel da coruja na cadeia alimentar. Corujas são predadores crepusculares e noturnos, temíveis aves de rapina. Há diferenças entre as variadas espécies, mas compartilham alguns traços gerais. Caçam pequenos mamíferos, peixes ou outras aves. Sua fisiologia é particularmente bem preparada para caçar e matar, indo além da visão apurada: sua audição é extremamente precisa; suas asas possuem uma aerodinâmica que permite que se abatam sobre a presa de modo silencioso; a plumagem tem cores discretas, que a camuflam no ambiente; suas garras estão entre as mais potentes das aves de rapina, aptas a esmagar e estraçalhar presas; seu bico funciona como uma tesoura, capaz de destrinchar rapidamente a carne de suas vítimas.


Também Palas Atena tinha caráter guerreiro. Representava sabedoria, mas também coragem e os aspectos estratégicos da guerra. Não à toa era frequentemente retratada armada e encouraçada, pronta para o combate, inspirando os mortais nas lides bélicas. Também aí ave e deusa se confundiam...


Nesse sentido, a coruja e a divindade podem ser símbolos para o magistério em luta, para os professores que "caçam" melhores condições de trabalho, que "batalham" por uma sociedade mais justa. Como corujas, precisamos enxergar na escuridão. Devemos ter ouvidos perspicazes, para denunciar os discursos insidiosos. Precisamos de garras fortes para estrangular a ignorância.

Que nossas palavras, como o bico da coruja, possam rasgar as iniquidades que assolam nossa profissão. Que nossas asas se abram para voar em liberdade, rumo a um futuro mais belo, mais feliz e mais harmonioso...

Seja a coruja nosso totem, símbolo e força!

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