Ontem fui com minha amiga Rosiane ao ato nacional "Protestar não é crime". Embora não tenham comparecido os quatro mil previstos, foi uma bonita manifestação. Saímos da Candelária, entrando pela Rio Branco e dobrando na Almirante Barroso, até o Tribunal de Justiça. Até a hora em que eu e Ro viemos embora, a polícia ainda não havia provocado nenhum tumulto - apesar do efetivo gigantesco do Choque. Éramos gente de todas as tribos, de todas as opiniões, de todas as categorias, de todos os posicionamentos políticos, unidos por uma causa: LIBERDADE. Éramos o povo, oceano onde se afogam todos os tiranos, como dizia Victor Hugo.
Tenho duas coisas a destacar sobre o ato. Em primeiro lugar, fiquei muito contente ao ver alguns funcionários da COMLURB participando da manifestação. É bonito ver uma categoria tão desvalorizada e geralmente associada pelo preconceito social à ignorância conquistando seu devido lugar no concerto da cidadania - principalmente depois da belíssima e magistral greve que eles conduziram esse ano. São sinais de um real despertar dos trabalhadores.
Também fiquei muito feliz ao conversar com dois jovens, mal saídos da adolescência. Cheios de dúvidas, com posicionamentos políticos hesitantes, mas cheios de entusiasmo, aprendendo na rua a ser cidadãos, buscando, aos tateios, mas cheios de coragem, os significados da cidadania.
O Brasil está repleto de amanhã.
quinta-feira, 31 de julho de 2014
terça-feira, 29 de julho de 2014
Professores, traficantes e o mito de Prometeu
"Cuide do seu filho, antes que um professor de História ou de Filosofia o adote".
A infeliz citação reproduz (aproximadamente) o discurso de uma suposta poetisa, psicanalista e filósofa em recente debate radialístico. Como muitos devem ter percebido, trata-se de paráfrase de um slogan que saiu de moda, mas fazia muito sucesso alguns anos atrás:
"Cuide do seu filho, antes que um traficante o adote".
A comparação entre professor (de História ou Filosofia) e o traficante é triste, mas esclarecedora, à medida em que condensa de forma exemplar uma gama complexa de discursos que vêm sendo formulados desde a explosão de manifestações que ganharam as ruas do Brasil desde junho de 2013. Vamos por partes.
Em primeiro lugar, temos o discurso que tende a criminalizar as manifestações e as reivindicações populares, confundindo-as propositalmente com o vandalismo, que ocorre pontualmente - geralmente num circuito de retroalimentação e interdependência com a violência policial. Aliás, embora seja professor de História, não apoio a ação violenta, nem a tática black bloc. Assim, no dizer da distinta "pensadora" brasileira o manifestante é confundido com o vândalo, que por sua vez é confundido com o traficante, criminoso por excelência no imaginário brasileiro.
Por outro lado, a fala da poetisa [sic] também traduz um velho discurso que tende a ver os professores da área de humanas como "revolucionários" e subversivos em potencial. Mais ainda, temos visto uma postura nitidamente persecutória em relação ao magistério, perceptível desde a violência policial contra professores, prisão política de diversos profissionais da área, tentativa de associar o sindicato dos profissionais da Educação aos "vândalos" fabricados pela mídia ou projetos como o famigerado "Escola sem Partido", do pequeno Bolsonaro. Assim, o professor se equipara ao manifestante, ao vândalo e, por fim, ao traficante - todos criminosos.
Talvez esse discurso seja bastante influenciado pelas grandes greves do magistério em 2013, e todo o circo midiático, político e policial montado em torno delas, com direito a Cinelândia cercada e bombardeio aéreo de lacrimogênio: tudo pela Educação! No entanto, creio que a ferida é ainda mais profunda, ligada ao movimento geral de sucateamento da educação pública e de desvalorização da profissão docente. Mais ainda, revela o pavor que os poderosos sentem contra a educação e o esclarecimento das massas.
Tudo isso nos leva ao mito grego de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses, símbolo da luz do conhecimento, entregando-o aos mortais. A punição para esse grave crime é uma das mais severas e cruéis registradas pela mitologia: o titã foi acorrentado a um rochedo no alto do Cáucaso, sendo diariamente visitado por um abutre que devora seu fígado, que cresce durante a noite apenas para renovar seu sofrimento no dia seguinte, por toda a eternidade.
Na Grécia antiga, como no Brasil atual, oferecer o fogo do conhecimento ao povo é crime grave, tão grave quanto traficar drogas, praticar atos de vandalismo ou exercer pacificamente o direito democrático de reivindicar.
A infeliz citação reproduz (aproximadamente) o discurso de uma suposta poetisa, psicanalista e filósofa em recente debate radialístico. Como muitos devem ter percebido, trata-se de paráfrase de um slogan que saiu de moda, mas fazia muito sucesso alguns anos atrás:
"Cuide do seu filho, antes que um traficante o adote".
A comparação entre professor (de História ou Filosofia) e o traficante é triste, mas esclarecedora, à medida em que condensa de forma exemplar uma gama complexa de discursos que vêm sendo formulados desde a explosão de manifestações que ganharam as ruas do Brasil desde junho de 2013. Vamos por partes.
Em primeiro lugar, temos o discurso que tende a criminalizar as manifestações e as reivindicações populares, confundindo-as propositalmente com o vandalismo, que ocorre pontualmente - geralmente num circuito de retroalimentação e interdependência com a violência policial. Aliás, embora seja professor de História, não apoio a ação violenta, nem a tática black bloc. Assim, no dizer da distinta "pensadora" brasileira o manifestante é confundido com o vândalo, que por sua vez é confundido com o traficante, criminoso por excelência no imaginário brasileiro.
Por outro lado, a fala da poetisa [sic] também traduz um velho discurso que tende a ver os professores da área de humanas como "revolucionários" e subversivos em potencial. Mais ainda, temos visto uma postura nitidamente persecutória em relação ao magistério, perceptível desde a violência policial contra professores, prisão política de diversos profissionais da área, tentativa de associar o sindicato dos profissionais da Educação aos "vândalos" fabricados pela mídia ou projetos como o famigerado "Escola sem Partido", do pequeno Bolsonaro. Assim, o professor se equipara ao manifestante, ao vândalo e, por fim, ao traficante - todos criminosos.
Talvez esse discurso seja bastante influenciado pelas grandes greves do magistério em 2013, e todo o circo midiático, político e policial montado em torno delas, com direito a Cinelândia cercada e bombardeio aéreo de lacrimogênio: tudo pela Educação! No entanto, creio que a ferida é ainda mais profunda, ligada ao movimento geral de sucateamento da educação pública e de desvalorização da profissão docente. Mais ainda, revela o pavor que os poderosos sentem contra a educação e o esclarecimento das massas.
Tudo isso nos leva ao mito grego de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses, símbolo da luz do conhecimento, entregando-o aos mortais. A punição para esse grave crime é uma das mais severas e cruéis registradas pela mitologia: o titã foi acorrentado a um rochedo no alto do Cáucaso, sendo diariamente visitado por um abutre que devora seu fígado, que cresce durante a noite apenas para renovar seu sofrimento no dia seguinte, por toda a eternidade.
Na Grécia antiga, como no Brasil atual, oferecer o fogo do conhecimento ao povo é crime grave, tão grave quanto traficar drogas, praticar atos de vandalismo ou exercer pacificamente o direito democrático de reivindicar.
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terça-feira, 1 de abril de 2014
A Marcha da Família e o Muro de Berlim
Felizmente a Marcha da Família organizada no domingo retrasado foi um belíssimo e retumbante fiasco. Confesso que o resultado me deixou aliviado, mas também bastante surpreso. Não imaginei que o movimento seria tão esvaziado, especialmente considerando as opiniões que vemos por aí, de um conservadorismo quase chulo. Não consigo deixar de me indagar: por quê?
Alinhavar explicações de ordem causal é sempre complicado em História - aliás, no campo das humanidades, em geral. No entanto, parece-me oportuno traçar algumas considerações acerca da situação, especialmente comparando a marcha original e seu triste remake.
Antes de tudo, me parece essencial lembrar a diferença das conjunturas internacionais em torno dos dois episódios, aspecto que me parece de altíssima relevância. Afinal de contas, a marcha de 64 se deu em plena Guerra Fria, em meio à atmosfera de polarização ideológica que se sabe. A "ameaça comunista" era muito mais tangível e, em certo sentido, real. A Revolução Cubana estava logo na esquina, ora bolas! Creio que faltou à versão atualizada esse apelo de perigo iminente. Em tempos em que a maior potência "socialista" fabrica i-phones, quem vai dar crédito aos psicóticos delirante que vêm o neoliberalíssimo PT como um antro de "stalinistas bolivarianos" [sic]? O Muro de Berlim caiu, mas os "marchadeiros" não parecem ter percebido.
Por outro lado, acho que faltou UDN! Os partidos de oposição foram suficientemente espertos para não endossarem essa roubada, assim como a grande mídia. Nos tempos que correm, nem a Globo quer segurar essa batata quente; eles sabem que a verdade é dura... Também vale lembrar que a Dilma não é exatamente um Jango.
Por fim, o panorama religioso do Brasil mudou muito nos últimos 50 anos. Em 1964, a Igreja Católica era claramente hegemônica, em todos os sentidos: no número de fiéis, em sua relevância política e social, em seu prestígio cultural arraigado. Vivemos hoje num país sem identidade religiosa prediminante, marcado por ampla diversidade de credos e cultos. Por sinal, a própria Igreja Católica mudou muito em suas relações com a política nacional, mantendo uma presença muito mais sutil. Além disso, os católicos não são mais os mesmos; o processo de secularização da cultura brasileira se encontra muito mais acentuado. Ouso imaginar que haja hoje muito menos católicos "praticantes" e que esses "pratiquem" muito menos que os de 64.
Em suma, acho que a marcha de 2014 evidencia muitas das mudanças políticas, sociais e culturais vividas nas últimas décadas, no Brasil e no mundo.
Alinhavar explicações de ordem causal é sempre complicado em História - aliás, no campo das humanidades, em geral. No entanto, parece-me oportuno traçar algumas considerações acerca da situação, especialmente comparando a marcha original e seu triste remake.
Antes de tudo, me parece essencial lembrar a diferença das conjunturas internacionais em torno dos dois episódios, aspecto que me parece de altíssima relevância. Afinal de contas, a marcha de 64 se deu em plena Guerra Fria, em meio à atmosfera de polarização ideológica que se sabe. A "ameaça comunista" era muito mais tangível e, em certo sentido, real. A Revolução Cubana estava logo na esquina, ora bolas! Creio que faltou à versão atualizada esse apelo de perigo iminente. Em tempos em que a maior potência "socialista" fabrica i-phones, quem vai dar crédito aos psicóticos delirante que vêm o neoliberalíssimo PT como um antro de "stalinistas bolivarianos" [sic]? O Muro de Berlim caiu, mas os "marchadeiros" não parecem ter percebido.
Por outro lado, acho que faltou UDN! Os partidos de oposição foram suficientemente espertos para não endossarem essa roubada, assim como a grande mídia. Nos tempos que correm, nem a Globo quer segurar essa batata quente; eles sabem que a verdade é dura... Também vale lembrar que a Dilma não é exatamente um Jango.
Por fim, o panorama religioso do Brasil mudou muito nos últimos 50 anos. Em 1964, a Igreja Católica era claramente hegemônica, em todos os sentidos: no número de fiéis, em sua relevância política e social, em seu prestígio cultural arraigado. Vivemos hoje num país sem identidade religiosa prediminante, marcado por ampla diversidade de credos e cultos. Por sinal, a própria Igreja Católica mudou muito em suas relações com a política nacional, mantendo uma presença muito mais sutil. Além disso, os católicos não são mais os mesmos; o processo de secularização da cultura brasileira se encontra muito mais acentuado. Ouso imaginar que haja hoje muito menos católicos "praticantes" e que esses "pratiquem" muito menos que os de 64.
Em suma, acho que a marcha de 2014 evidencia muitas das mudanças políticas, sociais e culturais vividas nas últimas décadas, no Brasil e no mundo.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Moda e Arte
Trechos de A linguagem das coisas, de Deyan Sudjic
"Moda não é arte. Mas nunca antes a moda se esforçou tanto para sugerir que poderia ser.
[...]
A pergunta a fazer não é tanto: moda é mesmo design?, mas sim: o que a moda fez com o design? E, aliás: o que fez com a arte, a fotografia e a arquitetura?
[...]
A moda, segundo os puritanos, é o que costumava ser chamado de arte menor. Mas, para o bem ou para o mal, não há nada de menor na moda, que injeta sexo, status e celebridade diretamente na veia. E foi essa combinação que conferiu uma quantidade enorme de poder, tanto financeiro quanto cultural, a seus controladores. Juntando tudo isso, não surpreende que a moda tenha ficado simplesmente muito grande e muito poderosa para ser descartada como um frívola questão secundária. A moda tem a capacidade de apertar todos os botões da vida contemporânea.
[...]
Miuccia Prada usa a linguagem do design de forma mais sofisticada do que muitos de seus concorrentes. [...] Certamente é provocador, mas no fim não passa de uma tentativa de fazer a Prada se destacar da concorrência para vender mais ternos por mais dinheiro - se bem que uma tentativa baseada na análise dos signos convencionalmente usados para sugerir moda, e em sua inversão".
"Moda não é arte. Mas nunca antes a moda se esforçou tanto para sugerir que poderia ser.
[...]
A pergunta a fazer não é tanto: moda é mesmo design?, mas sim: o que a moda fez com o design? E, aliás: o que fez com a arte, a fotografia e a arquitetura?
[...]
A moda, segundo os puritanos, é o que costumava ser chamado de arte menor. Mas, para o bem ou para o mal, não há nada de menor na moda, que injeta sexo, status e celebridade diretamente na veia. E foi essa combinação que conferiu uma quantidade enorme de poder, tanto financeiro quanto cultural, a seus controladores. Juntando tudo isso, não surpreende que a moda tenha ficado simplesmente muito grande e muito poderosa para ser descartada como um frívola questão secundária. A moda tem a capacidade de apertar todos os botões da vida contemporânea.
[...]
Miuccia Prada usa a linguagem do design de forma mais sofisticada do que muitos de seus concorrentes. [...] Certamente é provocador, mas no fim não passa de uma tentativa de fazer a Prada se destacar da concorrência para vender mais ternos por mais dinheiro - se bem que uma tentativa baseada na análise dos signos convencionalmente usados para sugerir moda, e em sua inversão".
domingo, 16 de março de 2014
A estranha vida dos ocos
O mundo está cheio de ocos.
Eles constituem 90% da população mundial ou mais. Não espanta: eles são fabricados em massa, produção industrial por maquinário publicitário. A fachada às vezes muda, mas por dentro são todos iguais.
Os ocos são movidos por dinheiro e dívidas; isso faz parte do design, eles são fabricados apenas para consumir, gastar, fazer dívidas e exibir o dinheiro que não têm, do berço ao túmulo, pelo máximo de gerações possíveis. Aliás, não importa o nível de renda, todo oco é endividado, porque nunca há dinheiro suficiente para satisfazer seus desejos ocos, que brotam a cada novo surto publicitário. Ele não sai do shopping sem uma nova ambição oca; sua droga favorita é o cartão de crédito.
São escravos do pior tipo: pensam que são livres - estamos na era do grilhão virtual.
Os ocos não gostam de pensar, satisfeitos em fazer parte de uma mente coletiva burra. Pensar é um perigo para o oco: ele pode desconfiar que é oco, consome coisas ocas, segue padrões ocos e tem uma cabeça oca. E aí ele tem que optar: muda? Continua oco? E o que pensará o resto da gente oca? Melhor cortar o mal pela raiz, não pensar nunca, ou pensar só pela metade - para ter a ilusão de que pensa alguma coisa. Por sinal, ele pode se lembrar que os ocos não são imortais, que amanhã ele será um oco velho e, depois de amanhã, um oco morto.
Mas no fundo, o oco é apenas um eco de outros ocos, eles vivem para a reverberação mútua e mecânica, para ser o oco dos ecos, o eco dos ocos, o eco do eco do oco dos ocos.
Os ocos mais funcionais são grandes glosadores, sabem imitar com tamanha originalidade que até parecem pensar de verdade.
Mas não confunda. Há ocos em todo canto, no mundo inteiro, em todas as classes sociais, da favela a Manhattan.
Há ocos de todos os níveis de escolaridade, categoria profissional e filiação espiritual: ocos analfabetos, ocos médicos, ocos lixeiros, ocos doutores, ocos evangélicos, ocos espíritas, ocos de direita, ocos bacharéis, ocos professores, ocos pedreiros, ocos engenheiros, ocos católicos, ocos de esquerda, ocos com MBA (e haja oco com MBA - quanto mais oco, mais ele precisa acumular MBAs), ocos artistas, ocos "intelectuais" (também são muitos), etc, etc, etc...
Ocos gostam muito de títulos, que exibem e exigem como rótulo, ajudam a saber o que "pensar" de cada um. Nesse sentido, nada pior que um oco com pós-doutorado.
E quem governa os ocos? Outros ocos, é claro! Ocos gostam de mandar e obedecer, especialmente quando a coerção é suave. Assim oco que manda pode pensar que é bonzinho e oco que obedece pode pensar que é livre. Alguns ocos são políticos, muitos não suportam política, e outros precisam pensar - e dizer, e berrar - que são "politizados".
O oco do século XXI adora viajar, apenas para poder ecoar os clichês de outros oco-turistas investidos de maior autoridade. O oco viajante volta de qualquer lugar com uma renovada bagagem de lugares-comuns, baseados nas quase experiências que tiveram. Ele nunca encontra nada digno de interesse, porque seu olhar já está pronto antes de pisar no aeroporto. Ele já sabe o que vai ver, o que vai dizer do que verá e, principalmente, passará longas horas de sua quase-viagem postando dúzias de fotos dessa quase-aventura, para que todos seus quase-amigos saibam como ele está quase (mas apenas quase) se divertindo. A diversão propriamente dita será quantificada depois, pelo número de curtidas na sua foto.
Mas quem é oco? Eu sou oco. Você também. Não nos enganemos.
Parafraseando Buda, todos somos ocos - só varia a medida. Uns são mais, outros menos; alguns quase totalmente, outros quase nada. Mas podemos ser menos ocos a cada dia que passa...
Eles constituem 90% da população mundial ou mais. Não espanta: eles são fabricados em massa, produção industrial por maquinário publicitário. A fachada às vezes muda, mas por dentro são todos iguais.
Os ocos são movidos por dinheiro e dívidas; isso faz parte do design, eles são fabricados apenas para consumir, gastar, fazer dívidas e exibir o dinheiro que não têm, do berço ao túmulo, pelo máximo de gerações possíveis. Aliás, não importa o nível de renda, todo oco é endividado, porque nunca há dinheiro suficiente para satisfazer seus desejos ocos, que brotam a cada novo surto publicitário. Ele não sai do shopping sem uma nova ambição oca; sua droga favorita é o cartão de crédito.
São escravos do pior tipo: pensam que são livres - estamos na era do grilhão virtual.
Os ocos não gostam de pensar, satisfeitos em fazer parte de uma mente coletiva burra. Pensar é um perigo para o oco: ele pode desconfiar que é oco, consome coisas ocas, segue padrões ocos e tem uma cabeça oca. E aí ele tem que optar: muda? Continua oco? E o que pensará o resto da gente oca? Melhor cortar o mal pela raiz, não pensar nunca, ou pensar só pela metade - para ter a ilusão de que pensa alguma coisa. Por sinal, ele pode se lembrar que os ocos não são imortais, que amanhã ele será um oco velho e, depois de amanhã, um oco morto.
Mas no fundo, o oco é apenas um eco de outros ocos, eles vivem para a reverberação mútua e mecânica, para ser o oco dos ecos, o eco dos ocos, o eco do eco do oco dos ocos.
Os ocos mais funcionais são grandes glosadores, sabem imitar com tamanha originalidade que até parecem pensar de verdade.
Mas não confunda. Há ocos em todo canto, no mundo inteiro, em todas as classes sociais, da favela a Manhattan.
Há ocos de todos os níveis de escolaridade, categoria profissional e filiação espiritual: ocos analfabetos, ocos médicos, ocos lixeiros, ocos doutores, ocos evangélicos, ocos espíritas, ocos de direita, ocos bacharéis, ocos professores, ocos pedreiros, ocos engenheiros, ocos católicos, ocos de esquerda, ocos com MBA (e haja oco com MBA - quanto mais oco, mais ele precisa acumular MBAs), ocos artistas, ocos "intelectuais" (também são muitos), etc, etc, etc...
Ocos gostam muito de títulos, que exibem e exigem como rótulo, ajudam a saber o que "pensar" de cada um. Nesse sentido, nada pior que um oco com pós-doutorado.
E quem governa os ocos? Outros ocos, é claro! Ocos gostam de mandar e obedecer, especialmente quando a coerção é suave. Assim oco que manda pode pensar que é bonzinho e oco que obedece pode pensar que é livre. Alguns ocos são políticos, muitos não suportam política, e outros precisam pensar - e dizer, e berrar - que são "politizados".
O oco do século XXI adora viajar, apenas para poder ecoar os clichês de outros oco-turistas investidos de maior autoridade. O oco viajante volta de qualquer lugar com uma renovada bagagem de lugares-comuns, baseados nas quase experiências que tiveram. Ele nunca encontra nada digno de interesse, porque seu olhar já está pronto antes de pisar no aeroporto. Ele já sabe o que vai ver, o que vai dizer do que verá e, principalmente, passará longas horas de sua quase-viagem postando dúzias de fotos dessa quase-aventura, para que todos seus quase-amigos saibam como ele está quase (mas apenas quase) se divertindo. A diversão propriamente dita será quantificada depois, pelo número de curtidas na sua foto.
Mas quem é oco? Eu sou oco. Você também. Não nos enganemos.
Parafraseando Buda, todos somos ocos - só varia a medida. Uns são mais, outros menos; alguns quase totalmente, outros quase nada. Mas podemos ser menos ocos a cada dia que passa...
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Top 3 - Cotidiano
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Viver em Paris
Em seu cotidiano, os parisienses desfrutam de atividades únicas, como:
-pegar metrô cheio e sem ar condicionado na hora do rush - em Paris.
-enfrentar fila de banco - em Paris.
-resolver burocracia no banco - em Paris.
-ficar preocupado com o orçamento da semana - em Paris.
-comer apressadamente no McDonald`s para a aula que começa em 20 minutos - em Paris.
-zanzar durante dias por meia cidade para resolver a burocracia insana do serviço de imigração - em Paris.
-gastar dinheiro com essa burocracia insana - em Paris.
-mofar na fila do supermercado - em Paris.
-caçar uma padaria aberta depois das 18:00 - em Paris.
-lavar louça - em Paris.
-lavar roupa - em Paris.
-separar o lixo - em Paris.
-jogar seu complicado lixo fora - em Paris.
O resto é coisa de turista...
-pegar metrô cheio e sem ar condicionado na hora do rush - em Paris.
-enfrentar fila de banco - em Paris.
-resolver burocracia no banco - em Paris.
-ficar preocupado com o orçamento da semana - em Paris.
-comer apressadamente no McDonald`s para a aula que começa em 20 minutos - em Paris.
-zanzar durante dias por meia cidade para resolver a burocracia insana do serviço de imigração - em Paris.
-gastar dinheiro com essa burocracia insana - em Paris.
-mofar na fila do supermercado - em Paris.
-caçar uma padaria aberta depois das 18:00 - em Paris.
-lavar louça - em Paris.
-lavar roupa - em Paris.
-separar o lixo - em Paris.
-jogar seu complicado lixo fora - em Paris.
O resto é coisa de turista...
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
A mentira nas redes sociais
Depois de longa ausência, finalmente entreguei minha tese; a oficina volta a funcionar.
Hoje minha esposa comprou um livro delicioso: Como ter uma vida normal sendo louca, de Camila Fremder e Jana Rosa. Li inteirinho no caminho para casa - sim, sou pobre, ando de ônibus e fiquei preso no engarrafamento! As autoras abordam várias situações do cotidiano com um humor que vai desde o nonsense à mais fina ironia, fazendo rir e refletir ao mesmo tempo. Resolvi transcrever integralmente o último (e melhor) capítulo do livro.
"Este ensinamento não deveria ter esse título redundante, porque não existem redes sociais sem mentiras.
Todos que já viram fotos do Orkut Büyükkökte (o criador do Orkut) e do Mark Zuckerberg (criador do Facebook) entendem o porquê do esforço de criar um mundo onde podemos ser mais bonitos, ricos e magros dentro de uma banheira tomando champanhe.
No começo até nos esforçávamos para falar a verdade quando entrávamos em comunidades do Orkut, ingenuamente, conversando com pessoas do mundo inteiro sobre assuntos que, muitas vezes, queimavam o filme, sem nenhum cuidado com o que escrevíamos e nenhum medo de nos expor.
Talvez pelo layout mais clean do Facebook e pelas pessoas que começaram a usar o Orkut para fazer perfis maldosos, ameaças e aceitar testimonials sem noção, quando chegamos no Face nos sentimos mais intimidadas para abrir a vida. Tudo começou a ficar mais difícil, com mais links, mais páginas e mais funções, além de pela primeira vez ser muito restrito, apenas para quem conhecíamos.
Nos últimos anos fomos treinadas a agir de caso pensado. Abandonamos aqueles amigos que nunca vimos da comunidade "Remédio tarja preta" e todas as fotos sem maquiagem e de roupa feia que tirávamos em câmeras digitais, e nos tornamos pessoas que só podem ser felizes, bonitas, críticas, viajadas e entendidas de música.
Hoje, se você escrever em uma rede social que está chateada, as pessoas vão te achar depressiva, e depressiva é muito distante de chateada, como você e todos os psicólogos do mundo bem sabem. A verdade é que você tem que estar feliz, muito feliz, mais feliz do que o normal de feliz, mais feliz do que se sente quando nasce um filho seu, todos os dias, o tempo todo. E tem que ser feliz besta, amorosa, do tipo que gosta de todo mundo e manda corações o tempo todo, para qualquer pessoa que tem preguiça na vida real.
Inclusive o coração, que no passado já foi um símbolo do amor, hoje é usado para mandar respostas rápidas para alguém que você não está a fim de escrever qualquer palavra.
Quando começamos a usar o Twitter, ainda tínhamos um resto de ingenuidade do Orkut, que nos fazia contar o que almoçávamos, como estávamos nos sentindo e quando levávamos um pé na bunda, com detalhes e nomes. Também falávamos mal do emprego, do chefe, de pessoas conhecidas, de minorias e de famosos, porque achávamos que era uma terra de ninguém, e era mesmo.
Hoje ninguém conta na timeline que está triste porque terminou - as pessoas mandam indiretas. Ninguém fala o que realmente está sentindo, pois todos se sentem bem, maravilhosos, fingem que estão programando a próxima viagem, frequentando festas exclusivas, dando check-in nos lugares que vão, como se fosse interessante saber quem foi onde.
Se você falar mal do chefe ou do emprego, não só fica desempregada como também nunca mais arruma um trabalho na vida, em nenhum outro país, porque as redes sociais também mostram quem conhece quem. Mesmo se você for para a Romênia tentar recomeçar a vida, alguém vai conhecer alguém que conhece alguém que conhece seu ex-chefe, e vai contar por inbox que você o criticou na internet.
Já estava de bom tamanho a paranoia que criamos no Twitter, fingindo o tempo todo sermos engraçadas, críticas, inteligentes e ocupadas, e aí apareceu o Instagram para acabar com tudo.
Nossa vida, que ainda era 30% real, virou uma completa mentira. Nossa pele nunca mais teve cor de pele, ela agora é Valecia, mas muitas vezes é Earlybird. Nossos cachorros não são mais o melhor amigo do homem, são objetos de exposição para competir quem tem o cão mais fofinho. Os filhos também servem para isso, e quem tiver um bebê gordinho e sorridente será eterno naquele aplicativo ou eterno enquanto o bebê não crescer e se tornar um adolescente desproporcional.
Pedimos comida pensando em tirar foto: muitas vezes trocamos um risoto por cheeseburger, só porque o cheeseburger é muito mais fotogênico, além de risoto parecer vômito. E engordamos muitos quilos, de tantas sobremesas que clicamos e comemos. Depois emagrecemos, só pra poder frequentar a academia e tirar fotos no espelho dela. Ninguém nunca mais se concentrou no pilates, porque estamos muito preocupadas tirando fotos de ponta-cabeça para colocar o filtro Brannan e criar hashtags do tipo #pilates #instavibe #saúde #justme #projetoverão.
Namorar também nunca mais foi a mesma coisa, porque cada estágio do relacionamento do casal precisa ser registrado. Desde o primeiro beijo até a primeira viagem com a família. Desde o presente que ele traz quando viaja até o anel do noivado, o casamento, a lua de mel em detalhes. E se rolar um divórcio precoce, não nos desesperamos mais, é só postar a foto de um livro de autoajuda e uma paisagem bonita que todos vão acreditar que está tudo bem.
Mas passamos tantas horas por dia mentindo sobre ser feliz que nós mesmas começamos a acreditar. Agora não conseguimos nem mais encontrar os amigos e curtir o momento, porque estamos muito ocupados olhando o celular e bolando um post para mostrar na próxima foto o quanto somos felizes, legais e conversamos quando estamos juntos, sendo que cada um está olhando para uma telinha e contando o número de likes que recebeu em uma foto ou frase, para saber se é querido ou não.
E mesmo sabendo tudo isso, e nos achando loucas, não pretendemos mudar. Muito pelo contrário, queremos mentir muito mais. Vai que pensando dessa forma tão otimista e positiva e fingindo que somos maravilhosas, absolutamente felizes e ricas, não nos tornamos isso finalmente?"
Hoje minha esposa comprou um livro delicioso: Como ter uma vida normal sendo louca, de Camila Fremder e Jana Rosa. Li inteirinho no caminho para casa - sim, sou pobre, ando de ônibus e fiquei preso no engarrafamento! As autoras abordam várias situações do cotidiano com um humor que vai desde o nonsense à mais fina ironia, fazendo rir e refletir ao mesmo tempo. Resolvi transcrever integralmente o último (e melhor) capítulo do livro.
"Este ensinamento não deveria ter esse título redundante, porque não existem redes sociais sem mentiras.
Todos que já viram fotos do Orkut Büyükkökte (o criador do Orkut) e do Mark Zuckerberg (criador do Facebook) entendem o porquê do esforço de criar um mundo onde podemos ser mais bonitos, ricos e magros dentro de uma banheira tomando champanhe.
No começo até nos esforçávamos para falar a verdade quando entrávamos em comunidades do Orkut, ingenuamente, conversando com pessoas do mundo inteiro sobre assuntos que, muitas vezes, queimavam o filme, sem nenhum cuidado com o que escrevíamos e nenhum medo de nos expor.
Talvez pelo layout mais clean do Facebook e pelas pessoas que começaram a usar o Orkut para fazer perfis maldosos, ameaças e aceitar testimonials sem noção, quando chegamos no Face nos sentimos mais intimidadas para abrir a vida. Tudo começou a ficar mais difícil, com mais links, mais páginas e mais funções, além de pela primeira vez ser muito restrito, apenas para quem conhecíamos.
Nos últimos anos fomos treinadas a agir de caso pensado. Abandonamos aqueles amigos que nunca vimos da comunidade "Remédio tarja preta" e todas as fotos sem maquiagem e de roupa feia que tirávamos em câmeras digitais, e nos tornamos pessoas que só podem ser felizes, bonitas, críticas, viajadas e entendidas de música.
Hoje, se você escrever em uma rede social que está chateada, as pessoas vão te achar depressiva, e depressiva é muito distante de chateada, como você e todos os psicólogos do mundo bem sabem. A verdade é que você tem que estar feliz, muito feliz, mais feliz do que o normal de feliz, mais feliz do que se sente quando nasce um filho seu, todos os dias, o tempo todo. E tem que ser feliz besta, amorosa, do tipo que gosta de todo mundo e manda corações o tempo todo, para qualquer pessoa que tem preguiça na vida real.
Inclusive o coração, que no passado já foi um símbolo do amor, hoje é usado para mandar respostas rápidas para alguém que você não está a fim de escrever qualquer palavra.
Quando começamos a usar o Twitter, ainda tínhamos um resto de ingenuidade do Orkut, que nos fazia contar o que almoçávamos, como estávamos nos sentindo e quando levávamos um pé na bunda, com detalhes e nomes. Também falávamos mal do emprego, do chefe, de pessoas conhecidas, de minorias e de famosos, porque achávamos que era uma terra de ninguém, e era mesmo.
Hoje ninguém conta na timeline que está triste porque terminou - as pessoas mandam indiretas. Ninguém fala o que realmente está sentindo, pois todos se sentem bem, maravilhosos, fingem que estão programando a próxima viagem, frequentando festas exclusivas, dando check-in nos lugares que vão, como se fosse interessante saber quem foi onde.
Se você falar mal do chefe ou do emprego, não só fica desempregada como também nunca mais arruma um trabalho na vida, em nenhum outro país, porque as redes sociais também mostram quem conhece quem. Mesmo se você for para a Romênia tentar recomeçar a vida, alguém vai conhecer alguém que conhece alguém que conhece seu ex-chefe, e vai contar por inbox que você o criticou na internet.
Já estava de bom tamanho a paranoia que criamos no Twitter, fingindo o tempo todo sermos engraçadas, críticas, inteligentes e ocupadas, e aí apareceu o Instagram para acabar com tudo.
Nossa vida, que ainda era 30% real, virou uma completa mentira. Nossa pele nunca mais teve cor de pele, ela agora é Valecia, mas muitas vezes é Earlybird. Nossos cachorros não são mais o melhor amigo do homem, são objetos de exposição para competir quem tem o cão mais fofinho. Os filhos também servem para isso, e quem tiver um bebê gordinho e sorridente será eterno naquele aplicativo ou eterno enquanto o bebê não crescer e se tornar um adolescente desproporcional.
Pedimos comida pensando em tirar foto: muitas vezes trocamos um risoto por cheeseburger, só porque o cheeseburger é muito mais fotogênico, além de risoto parecer vômito. E engordamos muitos quilos, de tantas sobremesas que clicamos e comemos. Depois emagrecemos, só pra poder frequentar a academia e tirar fotos no espelho dela. Ninguém nunca mais se concentrou no pilates, porque estamos muito preocupadas tirando fotos de ponta-cabeça para colocar o filtro Brannan e criar hashtags do tipo #pilates #instavibe #saúde #justme #projetoverão.
Namorar também nunca mais foi a mesma coisa, porque cada estágio do relacionamento do casal precisa ser registrado. Desde o primeiro beijo até a primeira viagem com a família. Desde o presente que ele traz quando viaja até o anel do noivado, o casamento, a lua de mel em detalhes. E se rolar um divórcio precoce, não nos desesperamos mais, é só postar a foto de um livro de autoajuda e uma paisagem bonita que todos vão acreditar que está tudo bem.
Mas passamos tantas horas por dia mentindo sobre ser feliz que nós mesmas começamos a acreditar. Agora não conseguimos nem mais encontrar os amigos e curtir o momento, porque estamos muito ocupados olhando o celular e bolando um post para mostrar na próxima foto o quanto somos felizes, legais e conversamos quando estamos juntos, sendo que cada um está olhando para uma telinha e contando o número de likes que recebeu em uma foto ou frase, para saber se é querido ou não.
E mesmo sabendo tudo isso, e nos achando loucas, não pretendemos mudar. Muito pelo contrário, queremos mentir muito mais. Vai que pensando dessa forma tão otimista e positiva e fingindo que somos maravilhosas, absolutamente felizes e ricas, não nos tornamos isso finalmente?"
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Jaulas e janelas
Imagine a paisagem mais fantástica possível: um vulcão em erupção; uma aurora boreal sobre um plácido lago; uma revoada de pássaros sobre o pantanal; o entardecer em Veneza; cerejeiras em flor num palácio japonês; as cataratas do Iguaçu ou de Niágara; uma noite estrelada sobre o Atacama; manadas de animais selvagens bebendo água na savana; Macchu Picchu; a Cidade Proibida; qualquer outra coisa que lhe agradar.
Agora imagine uma sala com uma ampla janela panorâmica de onde se descortina essa paisagem.
Agora imagine uma pessoa nessa sala.
Agora imagine que essa pessoa não liga a mínima para a paisagem, mas observa embevecida a janela propriamente dita, atenta a todos os seus detalhes: o vidro e sua espessura, o caixilho, a largura e a altura da janela, etc. É uma janela perfeitamente ordinária, como qualquer outra - no entanto, o observador não tem olhos para a outra coisa. Comenta entusiasticamente a janela com aqueles ao seu redor. Redige anotações sobre a janela; desenha esboços da janela; fotografa os detalhes da janela; elabora gráficos e tabelas sobre a janela. Para o observador, a janela se tornou uma jaula.
Agora imagine que uma terceira pessoa consulta essas anotações, desenhos, fotografias, gráficos e tabelas. Ela saberá tudo sobre a janela, mas quase nada sobre a paisagem deslumbrante - apenas um ou outro elemento marginal, relacionado à janela.
Às vezes, lendo alguns trabalhos acadêmicos, me sinto como essa terceira pessoa.
Agora imagine uma sala com uma ampla janela panorâmica de onde se descortina essa paisagem.
Agora imagine uma pessoa nessa sala.
Agora imagine que essa pessoa não liga a mínima para a paisagem, mas observa embevecida a janela propriamente dita, atenta a todos os seus detalhes: o vidro e sua espessura, o caixilho, a largura e a altura da janela, etc. É uma janela perfeitamente ordinária, como qualquer outra - no entanto, o observador não tem olhos para a outra coisa. Comenta entusiasticamente a janela com aqueles ao seu redor. Redige anotações sobre a janela; desenha esboços da janela; fotografa os detalhes da janela; elabora gráficos e tabelas sobre a janela. Para o observador, a janela se tornou uma jaula.
Agora imagine que uma terceira pessoa consulta essas anotações, desenhos, fotografias, gráficos e tabelas. Ela saberá tudo sobre a janela, mas quase nada sobre a paisagem deslumbrante - apenas um ou outro elemento marginal, relacionado à janela.
Às vezes, lendo alguns trabalhos acadêmicos, me sinto como essa terceira pessoa.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Fazer a diferença
Trecho do romance Extremely loud & incredibly close ("Tão forte, tão perto") de Jonathan Safran Foer
"Eu li o primeiro capítulo de Uma breve História do Tempo quando Papai ainda estava vivo, e me senti incrivelmente mal sobre quão relativamente insignificante a vida é, e como, comparado ao universo e comparado ao tempo, a minha existência não importava realmente nada. Quando Papai me aconchegava à noite e conversávamos sobre o livro, eu perguntei se ele podia pensar numa solução para aquele problema. 'Qual problema?' 'O problema do quanto somos relativamente insignificantes.' Ele disse, 'Bem, o que aconteceria se uma avião largasse você no meio do deserto do Saara e você pegasse um único grão de areia com uma pinça e o movesse um milímetro?' Eu disse, 'Eu provavelmente morreria de desidratação.' Ele disse, 'Eu quero dizer exatamente naquele momento, quando você movesse aquele único grão de areia. O que significaria?' Eu disse, 'Eu não sei; o quê?' Ele disse, 'Pense sobre isso.' Eu pensei sobre isso. 'Eu acho que eu teria movido um grão de areia.' 'O que significa que você teria mudado o Saara.' 'E daí?' 'E daí? Daí que o Saara é um vasto deserto. E ele existiu por milhões de anos. E você o mudou!' 'É verdade!' Eu disse, sentando-me. 'Eu mudei o Saara!' 'O que significa...?', ele disse. 'O quê? Me diga.' 'Bem, não estou falando sobre pintar a Mona Lisa ou curar o câncer. Estou falando apenas sobre mover um único grão de areia um milímetro.' 'Sim?' 'Se você não tivesse feito isso, a história humana teria sido de um modo...' 'A-hã?' 'Mas você fez isso, então...?' Eu fiquei em pé na cama, apontei meus dedos para as estrelas falsas, e gritei: 'Eu mudei o curso da história humana!' 'Isso mesmo.' 'Eu mudei o universo!' 'Você mudou.' 'Eu sou Deus!' 'Você é um ateu.' 'Eu não existe!' Eu caí de volta na cama, em seus braços, e nós gargalhamos juntos."
"Eu li o primeiro capítulo de Uma breve História do Tempo quando Papai ainda estava vivo, e me senti incrivelmente mal sobre quão relativamente insignificante a vida é, e como, comparado ao universo e comparado ao tempo, a minha existência não importava realmente nada. Quando Papai me aconchegava à noite e conversávamos sobre o livro, eu perguntei se ele podia pensar numa solução para aquele problema. 'Qual problema?' 'O problema do quanto somos relativamente insignificantes.' Ele disse, 'Bem, o que aconteceria se uma avião largasse você no meio do deserto do Saara e você pegasse um único grão de areia com uma pinça e o movesse um milímetro?' Eu disse, 'Eu provavelmente morreria de desidratação.' Ele disse, 'Eu quero dizer exatamente naquele momento, quando você movesse aquele único grão de areia. O que significaria?' Eu disse, 'Eu não sei; o quê?' Ele disse, 'Pense sobre isso.' Eu pensei sobre isso. 'Eu acho que eu teria movido um grão de areia.' 'O que significa que você teria mudado o Saara.' 'E daí?' 'E daí? Daí que o Saara é um vasto deserto. E ele existiu por milhões de anos. E você o mudou!' 'É verdade!' Eu disse, sentando-me. 'Eu mudei o Saara!' 'O que significa...?', ele disse. 'O quê? Me diga.' 'Bem, não estou falando sobre pintar a Mona Lisa ou curar o câncer. Estou falando apenas sobre mover um único grão de areia um milímetro.' 'Sim?' 'Se você não tivesse feito isso, a história humana teria sido de um modo...' 'A-hã?' 'Mas você fez isso, então...?' Eu fiquei em pé na cama, apontei meus dedos para as estrelas falsas, e gritei: 'Eu mudei o curso da história humana!' 'Isso mesmo.' 'Eu mudei o universo!' 'Você mudou.' 'Eu sou Deus!' 'Você é um ateu.' 'Eu não existe!' Eu caí de volta na cama, em seus braços, e nós gargalhamos juntos."
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Olhares sobre a Zona Norte
Sem qualquer despeito, não troco meus subúrbios por mil leblons. A beleza está em todo lugar, para os que sabem (ou querem) ver de verdade.
Infelizmente, a resolução da câmera é quase tão ruim quanto o fotógrafo...
Lugares: Abolição, Engenho de Dentro, Marechal Hermes, Méier
Infelizmente, a resolução da câmera é quase tão ruim quanto o fotógrafo...
Lugares: Abolição, Engenho de Dentro, Marechal Hermes, Méier
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Tempo e morte
Outra passagem interessantíssima de Menino de lugar nenhum, de David Mitchell
"Como cemitérios são recheados de corpos em decomposição, é meio óbvio que sejam lugares assustadores. Pelo menos um pouco. Mas poucas coisas são uma coisa só quando você pensa nelas por tempo suficiente. Nos dias de sol do verão passado, eu ia de bicicleta até os lugares mais distantes que meu mapa 150 da Ordnance Survey permitia. Uma vez fui até Winchcombe. Quando eu encontrava uma igreja normanda (arredondada) ou saxônica (atarracada) sem ninguém por perto, escondia a bicicleta nos fundos e deitava na grama do cemitério. Ouvia pássaros invisíveis, de vez em quando achava uma flor num pote de geleia. Nunca cheguei a ver Excalibur cravada numa pedra, mas encontrei uma lápide de 1665, que foi o ano da peste. Esse foi meu recorde. Lápides geralmente se desmancham depois de alguns séculos. Até a morte meio que morre. Num cemitério de Bredon Hill, li a frase mais triste de todos os tempos. SUAS VIRTUDES ABUNDANTES TERIAM ADORNADO UMA VIDA MAIS LONGA. O jeito de enterrar pessoas também tem alguma relação com a moda, como usar calças de boca larga ou estreita. Teixos são plantados em cemitérios porque o diabo odeia cheiro de teixo, de acordo com o sr. Broadwas. Não sei se acredito nisso, mas sei que a brincadeira do copo é coisa séria. Tem um montão de histórias em que o copo vai formando coisas tipo 'S-A-T-A-N-A-S-C-O-M-A-N-D-A' e depois explode. Aí o pessoal tem que chamar um padre. (Uma vez o Grant Burch ficou possuído e disse pro Philip Phelps que ele ia morrer em 2 de agosto de 1985. Agora Philip Phelps nunca dorme sem colocar uma Bíblia debaixo do travesseiro.)
Sempre enterram as pessoas com a cabeça pro oeste, pra que quando soar a Última Trombeta no fim dos tempos todos os defuntos saiam das tumbas e caminhem na direção oeste até chegarem ao Trono de Jesus, onde vão ser julgados. Isso significa que, saindo de Black Swan Green, o Trono de Jesus vai estar em Aberystwyth. Mas os suicidas são enterrados com a cabeça pro norte. Esses aí nunca vão conseguir encontrar Jesus, porque gente morta só caminha em linha reta. Eles vão acabar parando em John o`Groats. Aberystwyth é meio que um fim de mundo, mas, segundo meu pai, John o`Groats é só um punhado de casinhas que ficam onde a Escócia termina de repente.
Nenhum deus não seria melhor que um deus que faz isso com as pessoas?"
"Como cemitérios são recheados de corpos em decomposição, é meio óbvio que sejam lugares assustadores. Pelo menos um pouco. Mas poucas coisas são uma coisa só quando você pensa nelas por tempo suficiente. Nos dias de sol do verão passado, eu ia de bicicleta até os lugares mais distantes que meu mapa 150 da Ordnance Survey permitia. Uma vez fui até Winchcombe. Quando eu encontrava uma igreja normanda (arredondada) ou saxônica (atarracada) sem ninguém por perto, escondia a bicicleta nos fundos e deitava na grama do cemitério. Ouvia pássaros invisíveis, de vez em quando achava uma flor num pote de geleia. Nunca cheguei a ver Excalibur cravada numa pedra, mas encontrei uma lápide de 1665, que foi o ano da peste. Esse foi meu recorde. Lápides geralmente se desmancham depois de alguns séculos. Até a morte meio que morre. Num cemitério de Bredon Hill, li a frase mais triste de todos os tempos. SUAS VIRTUDES ABUNDANTES TERIAM ADORNADO UMA VIDA MAIS LONGA. O jeito de enterrar pessoas também tem alguma relação com a moda, como usar calças de boca larga ou estreita. Teixos são plantados em cemitérios porque o diabo odeia cheiro de teixo, de acordo com o sr. Broadwas. Não sei se acredito nisso, mas sei que a brincadeira do copo é coisa séria. Tem um montão de histórias em que o copo vai formando coisas tipo 'S-A-T-A-N-A-S-C-O-M-A-N-D-A' e depois explode. Aí o pessoal tem que chamar um padre. (Uma vez o Grant Burch ficou possuído e disse pro Philip Phelps que ele ia morrer em 2 de agosto de 1985. Agora Philip Phelps nunca dorme sem colocar uma Bíblia debaixo do travesseiro.)
Sempre enterram as pessoas com a cabeça pro oeste, pra que quando soar a Última Trombeta no fim dos tempos todos os defuntos saiam das tumbas e caminhem na direção oeste até chegarem ao Trono de Jesus, onde vão ser julgados. Isso significa que, saindo de Black Swan Green, o Trono de Jesus vai estar em Aberystwyth. Mas os suicidas são enterrados com a cabeça pro norte. Esses aí nunca vão conseguir encontrar Jesus, porque gente morta só caminha em linha reta. Eles vão acabar parando em John o`Groats. Aberystwyth é meio que um fim de mundo, mas, segundo meu pai, John o`Groats é só um punhado de casinhas que ficam onde a Escócia termina de repente.
Nenhum deus não seria melhor que um deus que faz isso com as pessoas?"
domingo, 27 de outubro de 2013
Tempo e medo
Interessante passagem do romance Menino de lugar nenhum (Black Swan Green) de David Mitchell, situado na Inglaterra em 1982, que nos lembra que até nossos medos são datados. Também nos lembra o quanto adolescentes ocidentais do sexo masculino costumam ser idiotas...
"Por algum motivo, o assunto mudou e virou 'a pior maneira de morrer'.
Ser mordido por uma mamba verde - opinou Gilbert Swinyard. - É a cobra mais mortal do mundo. Os órgãos explodem e o mijo se mistura com o sangue. Pura agonia.
-Pura agonia, sim - fungou Grant Burch -, mas você morre bem rápido. Quer saber o que seria pior? Ter a pele arrancada como se fosse uma meia. É isso que os índios apaches fazem com você. Os melhores levam uma noite inteira pra fazer isso.
Pete Redmarley contou que tinha ouvido falar de um tipo de execução vietcongue. - Eles tiram sua roupa, amarram você e enfiam queijo processado no seu rabo. Aí trancam você num caixão que tem um cano. Aí botam uns ratos esfomeados dentro do cano. Os ratos comem o queijo todinho e depois continuam mastigando você por dentro.
Todo mundo olhou pro Tom Yew, esperando uma resposta. - Tem uma coisa que eu sempre sonho - ele demorou um século pra dar uma tragada no cigarro. - Eu estou com o último grupo de sobreviventes depois de uma guerra atômica. A gente está caminhando por uma estrada. Não tem carro nenhum, só mato. Toda vez que olho pra trás vejo menos gente. A radiação vai pegando um por um. - Deu uma olhada pro Nick, o irmão dele, e depois pro lago congelado. - Não é morrer que me incomoda. O problema é saber que eu vou ser o último.
Ninguém falou nada por um tempinho.
Ross Wilcox chegou perto da gente. Levou um século pra dar uma tragada no cigarro, cheio de pose. - Se não fosse o Winston Churchill, todos vocês iam estar falando alemão.
Ah, claro. Como se Ross Wilcox tivesse alguma chance de evitar ser capturado e liderar um grupo de resistência. Morri de vontade de falar pra aquele tapado que, na verdade, se os japoneses nunca tivessem bombardeado Peal Harbour, os Estados Unidos nunca teriam entrado na guerra, a Grã-Bretanha teria passado fome até se render e Winston Churchill teria sido executado como criminoso de guerra. Mas eu sabia que não podia fazer isso. Tinha uma coleção inteira de palavras traváveis nisso tudo e naquele janeiro o Carrasco andava bem impiedoso. Aí eu falei que ia dar uma volta pra mijar, me levantei e caminhei um pouco pela trilha que levava até a vila. -Ei, Taylor! - berrou Gary Drake. - Se você sacudir o pinto mais de duas vezes, já virou sacanagem! - Isso fez Neal Brose e Ross Wilcox morrerem de rir. Fiz um sinal da vitória com os dedos sem nem me virar pra trás. Esse papo de sacudir o pinto é a mania do momento. Não confio em ninguém a ponto de perguntar o que significa".
"Por algum motivo, o assunto mudou e virou 'a pior maneira de morrer'.
Ser mordido por uma mamba verde - opinou Gilbert Swinyard. - É a cobra mais mortal do mundo. Os órgãos explodem e o mijo se mistura com o sangue. Pura agonia.
-Pura agonia, sim - fungou Grant Burch -, mas você morre bem rápido. Quer saber o que seria pior? Ter a pele arrancada como se fosse uma meia. É isso que os índios apaches fazem com você. Os melhores levam uma noite inteira pra fazer isso.
Pete Redmarley contou que tinha ouvido falar de um tipo de execução vietcongue. - Eles tiram sua roupa, amarram você e enfiam queijo processado no seu rabo. Aí trancam você num caixão que tem um cano. Aí botam uns ratos esfomeados dentro do cano. Os ratos comem o queijo todinho e depois continuam mastigando você por dentro.
Todo mundo olhou pro Tom Yew, esperando uma resposta. - Tem uma coisa que eu sempre sonho - ele demorou um século pra dar uma tragada no cigarro. - Eu estou com o último grupo de sobreviventes depois de uma guerra atômica. A gente está caminhando por uma estrada. Não tem carro nenhum, só mato. Toda vez que olho pra trás vejo menos gente. A radiação vai pegando um por um. - Deu uma olhada pro Nick, o irmão dele, e depois pro lago congelado. - Não é morrer que me incomoda. O problema é saber que eu vou ser o último.
Ninguém falou nada por um tempinho.
Ross Wilcox chegou perto da gente. Levou um século pra dar uma tragada no cigarro, cheio de pose. - Se não fosse o Winston Churchill, todos vocês iam estar falando alemão.
Ah, claro. Como se Ross Wilcox tivesse alguma chance de evitar ser capturado e liderar um grupo de resistência. Morri de vontade de falar pra aquele tapado que, na verdade, se os japoneses nunca tivessem bombardeado Peal Harbour, os Estados Unidos nunca teriam entrado na guerra, a Grã-Bretanha teria passado fome até se render e Winston Churchill teria sido executado como criminoso de guerra. Mas eu sabia que não podia fazer isso. Tinha uma coleção inteira de palavras traváveis nisso tudo e naquele janeiro o Carrasco andava bem impiedoso. Aí eu falei que ia dar uma volta pra mijar, me levantei e caminhei um pouco pela trilha que levava até a vila. -Ei, Taylor! - berrou Gary Drake. - Se você sacudir o pinto mais de duas vezes, já virou sacanagem! - Isso fez Neal Brose e Ross Wilcox morrerem de rir. Fiz um sinal da vitória com os dedos sem nem me virar pra trás. Esse papo de sacudir o pinto é a mania do momento. Não confio em ninguém a ponto de perguntar o que significa".
sábado, 12 de outubro de 2013
Imaginários partilhados
Trecho de Histoire de Lynx de Claude Lévi-Strauss
“As semelhanças entre
as narrativas do Velho e do Novo Mundo que nos detiveram no capítulo anterior
são de outra natureza. Elas datam de uma época recente, sua origem não tem
mistério. No decorrer do século XIx, os “viajantes”, como eram chamados então,
canadenses empregados pela Companhia da Baía de Hudson, tinham com os índios
relações muito próximas.
À noite, ao redor das fogueiras,
os “viajantes” contavam, provavelmente em jargão chinook[1],
várias histórias tiradas do folclore francês. Encontramos o nome Ti-Jean (Petit
Jean) de um herói particularmente popular no Canadá em versões recolhidas muito
mais tarde da boca de contadores de história indígenas: Butcetca em shuswap, Laptissán
em nariz-furado, Ptciza em kalapuya, Kicon em cree, Ticon em ojibwa...
Entre tantas outras
ideias fecundas, Boas teve aquela de incitar jovens pesquisadores canadenses a
recolher em suas campanhas os restos de um folclore francês pelo qual,
localmente, ninguém se interessava. A coleta foi fabulosa. Ela certamente não
oferece uma imagem estática do que era o folclore francês no século XVII.
Transplantado para um novo solo, ele recebeu contribuições, sofreu influências;
ele também evoluiu de modo autônomo. Mas seu material era muito mais rico que
aquele que subsistia na memória dos contadores franceses na mesma época.
Imagina-se que os índios tenham sido seduzidos pela verve, pelo maravilhoso,
pelos detalhes pitorescos ou fantásticos de contos que, sob esses aspectos, não
perdiam em nada para os seus próprios, e onde encontravam um modelo de herói
feio e desprezado que lhes era familiar. Nada de espantoso então se eles
atribuem a Snánaz, depois de sua vitória sobre o vento, aquela sobre a besta de
sete cabeças. A versão shuswap imputa a Snánaz, ainda obscuro e ridicularizado
por sua ingenuidade, os mesmos enganos que aqueles dos quais, entre os índios
Thompson, era culpado um personagem chamado Jack, prova de sua extração
europeia. Entre as narrativas francesas e as suas, os índios rapidamente
perceberam as semelhanças, e incorporaram diversos incidentes das primeiras a
suas próprias tradições”.
[1]
Espécie de língua franca empregada entre os indígenas norte-americanos ao longo
da costa do Pacífico.
domingo, 6 de outubro de 2013
Viva sua história
Trecho inspirador do livro Onde as árvores cantam, de Laura Gallego García
"-Contam-se muitas coisas acerca da Grande Floresta - sussurrou Viana.
Oki assentiu; seus olhos brilhavam, delatando a paixão que sentia por todo tipo de histórias. A moça entendeu que, agora sim, estava falando o idioma dele.
-Pode-se acreditar nelas ou não - acrescentou ela, cuidadosamente -, mas suponho que não seja isso o que importa, não?
-Não é o que importa. - Oki concordou com a cabeça e seus cabelos pretos e hirsutos se agitaram sob seu chapéu. - O essencial é a história em si.
-Compreendo - disse Viana.
E era verdade que compreendia. No entanto, aquilo não solucionava sua dúvida, e não sabia como perguntar de novo a Oki sem que ele se ofendesse.
-Você deseja saber se vale a pena, não é? - disse então o menestrel. - Se você deve assumir o risco e sair ao encontro da lenda.
-Sim - respondeu Viana, agradecida. - Sim, é isso mesmo.
-Porque pode ser que você descubra o mistério ou encontre a morte certa. Quem sabe? Moça, vou dizer uma coisa: o mundo está cheio de histórias. Todas as pessoas e todas as coisas têm histórias para contar. A algumas delas se chega por meio de gente como eu, que as relata para que não sejam esquecidas. Outras se vivem. Entende?
Viana fez que sim, embora não estivesse certa de compreender tudo.
-Agora você deve decidir - concluiu Oki - se continuará sendo uma ouvinte ou, ao contrário, se sairá em busca da própria história.
-É possível que tenha relação com a fonte da eterna juventude?
-...com a busca da fonte da eterna juventude - corrigiu o menestrel. - Mas só se você se arriscar a viver essa história saberá como ela termina. A não ser, evidentemente, que espere que outra pessoa a viva por você. Então, é possível que, daqui a um tempo, conheça o final pela boca de alguém como eu.
Viana assentiu de novo. Dessa vez entendeu efetivamente.
-Posso ser uma espectadora - resumiu - ou a protagonista da minha história. E isso implica riscos."
"-Contam-se muitas coisas acerca da Grande Floresta - sussurrou Viana.
Oki assentiu; seus olhos brilhavam, delatando a paixão que sentia por todo tipo de histórias. A moça entendeu que, agora sim, estava falando o idioma dele.
-Pode-se acreditar nelas ou não - acrescentou ela, cuidadosamente -, mas suponho que não seja isso o que importa, não?
-Não é o que importa. - Oki concordou com a cabeça e seus cabelos pretos e hirsutos se agitaram sob seu chapéu. - O essencial é a história em si.
-Compreendo - disse Viana.
E era verdade que compreendia. No entanto, aquilo não solucionava sua dúvida, e não sabia como perguntar de novo a Oki sem que ele se ofendesse.
-Você deseja saber se vale a pena, não é? - disse então o menestrel. - Se você deve assumir o risco e sair ao encontro da lenda.
-Sim - respondeu Viana, agradecida. - Sim, é isso mesmo.
-Porque pode ser que você descubra o mistério ou encontre a morte certa. Quem sabe? Moça, vou dizer uma coisa: o mundo está cheio de histórias. Todas as pessoas e todas as coisas têm histórias para contar. A algumas delas se chega por meio de gente como eu, que as relata para que não sejam esquecidas. Outras se vivem. Entende?
Viana fez que sim, embora não estivesse certa de compreender tudo.
-Agora você deve decidir - concluiu Oki - se continuará sendo uma ouvinte ou, ao contrário, se sairá em busca da própria história.
-É possível que tenha relação com a fonte da eterna juventude?
-...com a busca da fonte da eterna juventude - corrigiu o menestrel. - Mas só se você se arriscar a viver essa história saberá como ela termina. A não ser, evidentemente, que espere que outra pessoa a viva por você. Então, é possível que, daqui a um tempo, conheça o final pela boca de alguém como eu.
Viana assentiu de novo. Dessa vez entendeu efetivamente.
-Posso ser uma espectadora - resumiu - ou a protagonista da minha história. E isso implica riscos."
sábado, 5 de outubro de 2013
Maravilhas ocultas
Hoje seguia eu em minha peregrinação semanal a Niterói, cruzando nossa
belíssima Guanabara na minha tão querida (?) barca. Uma viagem que já
se tornou mais que rotineira após dois anos de mestrado e quatro de
doutorado na UFF.
No entanto, hoje tive uma companhia de viagem pouco comum. Na fileira de assentos atrás de mim sentou-se um grupo composto por uma família vinda de São Paulo, acompanhados por uma parente ou amiga carioca.
Pelo que percebi, era sua primeira visita ao Rio. Mal deixamos a Praça XV, eis que surge no horizonte algo que provoca viva admiração entre os turistas: a ponte Rio-Niterói. Os visitantes ficaram simplesmente extasiados, exclamando comentários entusiasmados a respeito da grandiosidade da obra. De fato, é um notável feito de engenharia. É titânica, colossal, incrível!
Fiquei chocado ao perceber o quanto a magnífica ponte, enterrada sob meu olhar rotineiro e cansado, não despertava mais minha atenção, tornando-se um banal detalhe da paisagem. E olha que a ponte é grande! Sacudido pelo inesperado entusiasmo dos companheiros de viagem, me dei ao trabalho de olhar pela janela, contemplando a estrutura com renovado interesse.
Quantos espetáculos cotidianos não perdemos em nosso olhar viciado? Fiquei pensando no quanto é importante compartilhar perspectivas com nossos semelhantes; enxergando o mundo através de outros olhos, reencontramos as maravilhas ocultas sob a fadiga, reencantamos nossa realidade...
No entanto, hoje tive uma companhia de viagem pouco comum. Na fileira de assentos atrás de mim sentou-se um grupo composto por uma família vinda de São Paulo, acompanhados por uma parente ou amiga carioca.
Pelo que percebi, era sua primeira visita ao Rio. Mal deixamos a Praça XV, eis que surge no horizonte algo que provoca viva admiração entre os turistas: a ponte Rio-Niterói. Os visitantes ficaram simplesmente extasiados, exclamando comentários entusiasmados a respeito da grandiosidade da obra. De fato, é um notável feito de engenharia. É titânica, colossal, incrível!
Fiquei chocado ao perceber o quanto a magnífica ponte, enterrada sob meu olhar rotineiro e cansado, não despertava mais minha atenção, tornando-se um banal detalhe da paisagem. E olha que a ponte é grande! Sacudido pelo inesperado entusiasmo dos companheiros de viagem, me dei ao trabalho de olhar pela janela, contemplando a estrutura com renovado interesse.
Quantos espetáculos cotidianos não perdemos em nosso olhar viciado? Fiquei pensando no quanto é importante compartilhar perspectivas com nossos semelhantes; enxergando o mundo através de outros olhos, reencontramos as maravilhas ocultas sob a fadiga, reencantamos nossa realidade...
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