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domingo, 21 de outubro de 2018

Transtorno Obsessivo Compulsivo

Interessante crônica de Antônio Prata publicada hoje na Folha de São Paulo


— Ele disse numa entrevista que fechava o Congresso no dia em que tomasse posse.

— Rapaz... Sou contra fechar o Congresso. Mas é melhor do que a roubalheira do PT.

— Ele também disse que tinha que matar 30 mil pro Brasil dar certo.

— Feio matar 30 mil. Mas é melhor do que a roubalheira do PT.

— Aqui ele fala que prefere filho morto a filho gay.

— Qualquer filho é melhor do que a roubalheira do PT.

— Sua frase não tem muito sentido.

— Melhor não ter muito sentido do que a roubalheira do PT.

— Aqui ele falando que é a favor da tortura.

— Sou contra tortura. Mas é melhor do que a roubalheira do PT.

— Será? Aqui, 2018, ele falando que o livro de cabeceira dele é do Brilhante Ustra, o torturador que levou duas crianças de 5 e 4 anos, pelas mãos, para verem o pai e a mãe torturados numa sala do DOI-Codi. A mãe estava nua e vomitada, presa à cadeira do dragão.

— Melhor levar criança pra ver pais torturados do que pra ver a roubalheira do PT.

— Frase da mãe torturada: “Minha filha perguntava: ‘Mãe, por que você ficou azul e o pai verde?” Ela continua: “Meu filho até hoje lembra do momento em que eu falava ‘Edson’ e ele olhava para mim e não sabia que eu era a mãe dele. Estava desfigurada”.

— E quem desfigurou o Brasil? A roubalheira do PT!

— Se só roubalheira conta... Ele tinha uma funcionária fantasma na Câmara, paga com dinheiro do povo para dar água aos cachorros dele, na casa de praia em Angra dos Reis.

— O que é uma funcionária fantasma perto da roubalheira do PT?

— Ele e os filhos, que se dedicam unicamente à política, têm 13 imóveis no valor de R$ 15 milhões de reais. Não é estranho?

— Muito mais estranho é a roubalheira do PT.

— Em um só ano, um dos filhos dele gastou R$ 40 mil reais de verba parlamentar com passagens pro Rio Grande do Sul, onde morava a namorada e para Santa Catarina, onde tem amigos.

— O importante é acabar com a roubalheira do PT. Tudo menos a roubalheira do PT!

— Não é o que acham os principais órgãos de imprensa do mundo. Olha essa lista de jornais e revistas alertando pro perigo desse cara ser eleito. The Economist, New York Times, The Guardian, Deutsche Welle.

— Tudo mídia comunista comprada com dinheiro da roubalheira do PT.

— Ué, por que a roubalheira do PT comprou toda a mídia internacional e se esqueceu da brasileira, que continua tratando o cara como um candidato normal e um risco à democracia igual ao de Haddad?

— Tática de guerrilha da roubalheira do PT. A mídia brasileira está como os vietcongs, escondida debaixo da terra, disfarçada de arbusto para atacar de surpresa no final e garantir a boquinha na roubalheira do PT.

— Sei. Mas vamos supor só por um momento que a imprensa global não esteja comprada pelo dinheiro da roubalheira do PT. Vamos supor que eles estejam certos em apontar o abismo que ele representa. Vamos supor que ele ganhe e ponha em prática o que vem dizendo que porá desde que começou na política. Vamos supor que ele persiga minorias ou faça vista grossa para quem perseguir. Que ele censure. Torture. Mate.

— Importante é acabar com a roubalheira do PT.

— E se for você o torturado? Você na cadeira do dragão.

— Enquanto eu tiver meu crânio esmagado pelo menos não vou pensar na roubalheira do PT.

— E se você for morto?

— Estarei livre, finalmente, da roubalheira do PT.

Apoio, Solidariedade, União, Sobrevivência

Mais importante que o resultado das urnas é formar laços de apoio e solidariedade para enfrentar os próximos 4 anos. Unidos, sobreviveremos!


sábado, 20 de outubro de 2018

Pesadelos 3

Crepúsculo. Uma planície coberta com as cinzas de uma floresta calcinada. Até onde a vista alcança, milhares de cruzes feitas de pau-brasil; milhares de índios crucificados; crianças, mulheres e homens crucificados em milhares de cruzes feitas de pau-brasil. Quem fez isso? Tento gritar, mas minha boca foi costurada. Quem fez isso? Tento fechar os olhos, mas minhas pálpebras foram arrancadas. Quem fez isso? Me resta apenas contemplar silenciosamente o horror que tortura minha alma.

Pesadelos 2

Caminho numa floresta sombria. Por todos os lados me vejo cercado por armadilhas: laços, redes, alçapões. Quem preparou todas essas armadilhas? Quem deseja me capturar? Quem deseja me prender? Quem deseja tirar minha liberdade?
***
Torrencial tempestade inunda o Rio de Janeiro. Uma grande caravana tenta fugir da cidade, em busca de um lugar seguro. Assustadores drones sobrevoam a multidão, lançando bombas e disparando projéteis contra os fugitivos. A tempestade segue rugindo.

Caloteiros de bem

O ônibus para. Dois homens entram furtivamente pela porta de trás - o conhecido calote carioca. O motorista grita para que desçam. Começa uma viva altercação entre os três. Um dos caloteiros brada ao motorista que quando Bolsonaro for eleito e ele tiver sua arma, matará o motorista que fizer com ele essa "palhaçada". Note-se: uma ameaça de morte em nome do sagrado direito de cometer uma infração. Ao fim e ao cabo, o motorista desistiu da discussão, talvez intimidado, e os dois "caloteiros de bem" sentaram-se num banco perto do meu. Ao longo da viagem, conversavam indignados sobre o aumento da criminalidade no Rio de Janeiro. Cada um tire suas conclusões do surreal episódio... Eu, francamente, não consigo compreender!

Pesadelos 1

Baratas. Baratas. Muitas, muitas baratas. Invadem minha casa, inexoravelmente, marchando em fileiras cerradas. "Elas estão organizadas!", grito. "Quem está organizando isso?". Tremo, impotente, sem saber quem comanda esse asqueroso exército de insetos, nem de qual esgoto ele saiu.
***
Estou seminu e descalço, vestindo apenas um short, cercado por uma multidão hostil e raivosa. "Queria ter pelo menos um chinelo", penso, desalentado. Gritam, berram, bradam, vociferam, contra a minha nudez. Indefeso, abandonado, mudo, não sei como reagir.
Vou dormir. Me acordem em 2022 - se houver eleições.

Alerta aos servidores

Você gosta de expressar sua opinião, amigo servidor público? Pois bem, comece a se preocupar. Em sua maioria, os estatutos dos servidores municipais, estaduais e federais foram redigidos durante a ditadura e NÃO foram revisados após a Constituição de 1988. Seus textos ainda mantém artigos que permitem à entidade empregadora punir de várias maneiras, inclusive com exoneração, o servidor que se expresse publicamente de modo desabonador a respeito do órgão que serve. Tais situações se tornaram raras devido a certo fair-play democrático do novo pacto republicano. Mas os dispositivos legais permanecem lá, prontos para serem usados por um presidente, governador ou prefeito com tendências autoritárias - uma postagem no Facebook poderá ser usada contra você; poderá até custar seu emprego. E eles nem precisarão fazer um golpe institucional para amordaçar você. Pense bem.

Diretas Já 2022

Lutemos pelo melhor até o último instante, mas estejamos bem preparados para o pior. Na dúvida, já podemos ir articulando um movimento "Diretas Já 2022", se for necessário. Não, não estou brincando. É muito sério. Mesmo.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Les Choses et les Mots

Conheço muitas Coisas-sem-Palavras, mas conheço poucas Palavras-sem-Coisas, como cachemopos ou perintilias. Consigo inventar muitas Palavras-sem-Coisas (zalibungas e maralineos, por exemplo), mas no fundo não vale tanto a pena, pois são apenas Palavras que não significam lá muita Coisa.

Posso estar pentagonalmente enganado, mas creio que as Coisas precedem as Palavras e provavelmente importam muito mais que elas, até para aquelas pessoas estranhas que escrevem livros - exceto, talvez, para alguns pensadores pós-modernos (menos, é claro, quando se trata de contracheque, que é Coisa séria). Molière tinha uma ou duas Palavras a dizer sobre esse tipo de Coisa.

No que me diz respeito, prefiro escrever uma Palavra-Revólver a encarar uma Coisa-Revólver - diferenciar as duas Coisas é bom sinal de sanidade mental, pois qualquer pessoa de tino sabe que ser atingido por uma Coisa-Bala de qualquer calibre dói muito mais que dizer "fui ferido por uma Palavra-Bala", por mais alto que se grite isso (é uma daquelas Coisas que soam esquisitamente em voz alta).

É bem verdade, por outro lado, que, a seu fabuloso modo, Palavras também são Coisas - de uma natureza muito peculiar, evidentemente. Palavras são Coisas poderosas e perigosas, inclusive, capazes de mobilizar e movimentar outras Coisas, que ferem e matam, literalmente: Palavras atiram pedras, acendem fogueiras, puxam gatilhos e atam nós corrediços.

As Coisas-Palavras e as Palavras-Coisas se complementam, moldam e movimentam. São vento, moinho, mó, trigo e farinha. São serpentes mordendo suas próprias caudas. Verbo e Carne, talvez.

De qualquer forma, um homem sem Palavra se faz Coisa: não sabe o que diz. Mas mesmo os homens de Palavra devem permanecer sempre atentos às Coisas que nos deixam sem Palavras. Conheço muitas Palavras que valem mil Coisas, mas poucas Coisas que valham mil Palavras.

Acabamos voltando ao começo, se não for o avesso, o começo do avesso, ou até, quem sabe, o avesso do começo. Confuso, me pergunto se comecei mal e terminei pior, ou se terminei mal e comecei pior - embora uma Coisa seja menos pior que a outra; nem tudo é questão apenas de Palavras.

Como logobundo que me faço, admito que, no fim das contas, tudo isso pode soar um tanto contabuloso...

domingo, 14 de outubro de 2018

A boa notícia é que ainda temos um arsenal nuclear suficiente para destruir 5 vezes a humanidade inteira em estado de prontidão. Cortesia: China, Rússia, EUA e outros amigos.
Alexandre Frota não será um deputado, mas um sintoma...

Regra de Ouro das redes sociais

"Quem fala o que quer, pode ouvir o que não quer".

Liberdade de expressão é isso. Todo mundo (eu, você ou o seu vizinho), de vez em quando, é grosseiro, sarcástico ou se expressa mal. Às vezes magoamos, com ou sem intenção de magoar. Faz parte do jogo, faz parte da vida. De vez em quando precisamos desculpar ou pedir desculpas. Não machuca.

Terminológica

Não sou especialista em História Contemporânea, mas na minha opinião, Bolsonaro não é fascista. A Ditadura Militar também não era fascista. Autoritarismo não é sinônimo de fascismo. Mas autoritarismo já é uma coisa suficientemente ruim. Péssima. Abominável. Ele não.
Nada mais imprudente que subestimar uma ameaça. A prudência excessiva reserva arrependimentos menores que aqueles trazidos pela confiança exagerada. "O seguro morreu de velho".