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domingo, 26 de julho de 2015

Clio mutilada - Escalas e proporções

Dedico este mal acabado ensaio ao Prof. Guilherme Pereira das Neves,  semeador de interessantes inquietações

Há muitos anos, nós historiadores temos deixado de lado, consciente ou inconscientemente, as "grandes narrativas". As sínteses amplas e ousadas parecem nos intimidar cada vez mais, devido a considerações de caráter teórico, metodológico e, muitas vezes, ideológico. Também não me parecem desprezíveis as pressões de ordem prática, promovidas pelo sistema acadêmico vigente, especialmente as políticas de financiamento à pesquisa.

Muito se tem discutido as escalas de análise, mas a verdade é que optamos por recortes analíticos cada vez menores: regiões geográficas por vezes ínfimas, intervalos de tempo breves (ou brevíssimos), trajetórias individuais, e por aí afora.

Enxergamos cada vez melhor as árvores, mas parece cada vez mais difícil perceber a floresta ("Há floresta?" - perguntariam os pós-modernos de plantão).

Mas, no fim das contas, me pergunto: temos um problema de escala ou de projeção?

Desde o século XVI, nossos primos geógrafos lidam, de modo bastante visceral, com problemática semelhante: como representar adequadamente um planeta esférico e tridimensional sobre um suporte plano (logo, bidimensional)? Essa defasagem de uma dimensão representa tremendo desafio, implicando, grosso modo, na perda de "um terço" da realidade.

Uma maneira relativamente simples de lidar com essa questão consiste no uso de escalas cartográficas relativamente amplas (quanto maior a escala, menor a área representada), onde o fator de distorção é consideravelmente amenizado. Reduz-se o mundo a uma coleção fraturada de cartas locais, cujo cotejo fornece uma imago mundi relativamente inteligível e coerente, mas perdendo-se boa parte de sua coesão. Obtemos uma soma de quadriláteros que jamais chegarão perto da esfera: jogamos fora a curvatura, produzimos uma Terra mutilada, picotada, desconjuntada.

A representação holística e sintética de nosso planeta conduz inevitavelmente à elaboração de projeções variadas, recorrendo a diversos e complexos artifícios geométricos e matemáticos. Ao longo dos últimos séculos a ciência cartográfica desenvolveu e aperfeiçoou inúmeras formas de projeção bidimensional da Terra. Basicamente, cada projeção permite representar de forma acurada e precisa algum aspecto específico da esfera terrestre, preservando e privilegiando determinados ângulos, proporções, formas e dimensões em detrimento de outro ângulos, proporções, formas ou dimensões. Podemos ter representações fidedignas de paralelos, meridianos, continentes, oceanos ou regiões polares, mas nunca de todos ao mesmo tempo. Ainda assim, cada uma dessas projeções fornece uma aceitável impressão de conjunto de nosso planeta. Além disso, o cotejo crítico entre essas diversas projeções nos permite melhor aquilatar o efeito de suas respectivas distorções.

Por outro lado, é importante lembrar que as escalas que privilegiam a representação regional escamoteiam, mas não escapam às problemáticas de projeção - apenas as tornam menos perceptíveis e, portanto, muito mais traiçoeiras. Por menos atenção à floresta, tendemos a olhar as árvores de modo mais descuidado.

Retornemos aos domínios de Clio e à questão das "grandes narrativas": num mundo globalizado, cujas partes se tornam cada vez mais integradas, elas me parecem imprescindíveis. No entanto, como viabilizá-las? Como problematizá-las de modo satisfatório? Creio que um caminho possível seria justamente a escolha e a elaboração conscienciosas do que poderíamos pensar como "projeções historiográficas". Em grande medida, a problemática central das projeções geométricas gira em torno de ângulos, especialmente da determinação de ângulos específicos que permitam transpor e traduzir satisfatoriamente certas características do espaço representado ao suporte desejado. De certa maneira, trata-se de um exercício de distorção controlada, segundo uma perspectiva cuidadosamente selecionada, a servir como fio de Ariadne nos labirintos do espaço.

Nesse sentido, qualquer "grande narrativa" será sempre distorcida a partir de determinada perspectiva - trata-se de contingência incontornável. Por outro lado, tal como sucede em cartografia, as microescalas não evitam ou impedem distorções, apenas as tornam mais difíceis de detectar ou perceber. A partir de minha breve experiência como historiador, tenho a impressão de que a forma mais comum de distorção promovida pelo recurso às "pequenas narrativas" é a perda ou o escamoteamento de uma das dimensões mais essenciais da experiência histórica, a diacronia. Ora, me parece que o predomínio de uma História sem diacronia nos conduz, perdoem-me o exagero, a mutilar Clio. E para que nos servirá Clio mutilada, picotada, desconjuntada?

Sendo a arte da projeção uma questão de selecionar ângulos, parece-me que o principal problema na elaboração de uma "grande narrativa" é a escolha de uma perspectiva capaz de nos guiar pelos labirintos do tempo - um fio de Ariadne. Como ditam os princípios da projeção, tal escolha implica em determinar o que desejamos ganhar através da "grande narrativa", mas também o que estamos dispostos a perder em seu processo de formulação.

Minhas primeiras reflexões em torno dessa questão datam de 2012, quando escrevi meu terceiro livro, A ilha e o tempo, dedicado à história dos 400 anos da cidade de São Luís do Maranhão. Agora me dou conta de que o "tempo" foi meu labirinto, enquanto a "ilha" me serviu como fio de Ariadne. Concebi esse trabalho segundo um duplo artifício: narrar a história de São Luís a partir de uma perspectiva global, simultaneamente narrando a história do mundo a partir de uma perspectiva ludovicense, promovendo um jogo de reflexos e refrações, a partir da experiência de diversos personagens que vivenciaram São Luís ao longo de seus 400 anos.

Para tanto, me inspirei particularmente na noção matemática de fractalidade, entre outros modelos vagamente inspirados pelas ciências exatas. Tais ruminações renderam uma espetacular madrugada de diálogo com meu "irmão" Kainã, jovem físico de grande perspicácia - na verdade, essa instigante tertúlia interdisciplinar vem, desde então, suscitando inúmeros questionamentos acerca de diversas problemáticas ontológicas, bem como sobre as múltiplas possibilidades de diálogo entre as ciências humanas e exatas.

Durante boa parte do século XX os historiadores buscaram ferramentas nas ciências exatas, especialmente na Estatística, com a finalidade mais ou menos explícita de alcançar novos patamares de objetividade científica. Essa abordagem rendeu resultados consideráveis em determinadas áreas, especialmente na história da economia e da demografia, mas hoje muitos olham com desdém para essa historiografia dita "serial". Por sinal, me parece que o colapso dessa abordagem corresponde, em grande medida, ao desenvolvimento do ceticismo acerca das "grandes narrativas".

Havia implícita nesse modelo, creio eu, uma concepção estritamente "denotativa" da Matemática e de seus recursos de modelação da realidade. Penso que talvez seja o momento de retomar o diálogo historiográfico com as ciências exatas, sobre novas bases, especialmente buscando na linguagem matemática um potencial "conotativo", não capaz de ancorar objetivamente a História no concreto, mas de ampliar nossas possibilidades de abstração em torno da experiência histórica, inspirando novos olhares, capazes de formular "grandes narrativas" de modo criativo e inovador - algo como uma "hermenêutica matemática" (ou uma "retórica matemática"), capaz de expressar ou sintetizar as experiências do ser humano no tempo através dessa linguagem cujas potencialidades, literalmente, tendem ao infinito.

Por que não?

Esse texto só existe devido a inúmeras pessoas, especialmente minha esposa, Priscila, verdadeira co-autora de A ilha e o tempo, meu ex-orientador e sempre amigo, Rodrigo Bentes Monteiro, o embaixador Vasco Mariz, o Prof. Sebastião Moreira Duarte, o Dr. Luís Mário Duarte, os "irmãos" Kainã e Igor, e os amigos Roger Marques e Fred Oliveira, entre outros companheiros de jornada e de lutas.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Quem oprime?

Hoje, em sala de aula, um aluno deu vários tapas nas nádegas de uma colega. Ela reclamou, solicitando minha intervenção

Detalhes: o aluno em questão é negro, bastante pobre e é tratado pela família com grande descaso, frequentando a escola com roupas encardidas, por vezes exalando odores característicos de falta de higiene. A aluna pertence ao sexo feminino (obviamente), é branca e parece ter condição social e familiar consideravelmente melhor que a do menino; pela linguagem que anda por aí, poderíamos dizer que ela goza de "privilégios".

Educadamente, solicitei INÚMERAS vezes ao aluno que parasse de agredir sexualmente a colega e que a tratasse com o devido respeito, mas precisei falar com rispidez para que ele finalmente atendesse. Discuti brevemente a questão ("você gostaria que fizessem isso com a sua mãe, etc"), mas creio que minhas ponderações "entraram por um ouvido e saíram pelo outro".

Meu aluno é oprimido ou opressor? Ou desempenha ambos os papéis? E a aluna, branca, de classe média baixa, "privilegiada" - oprimida ou opressora? E eu, professor, homem-branco-heterossexual-de-classe-média, tentando ensinar o menino a respeitar as mulheres, tal como me ensinara meu avô (homem-branco-etc), sou opressor?

É muito fácil criar rótulos e estereótipos. Difícil mesmo é lidar com a complexidade da realidade.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Violência e poder

Trecho do livro A história do mundo em 100 objetos, de Neil MacGregor



Etiqueta da Sandália do rei Den (c. 2985 a.C.)

"Esta pequena etiqueta é a primeira imagem de um governante na história da humanidade. É impressionante, e talvez um tanto desanimador, que, já nos primórdios, o governante queira ser mostrado como comandante-chefe, conquistando o inimigo. É assim que, desde os tempos antigos, o poder é projetado por imagens, e há qualquer coisa de perturbadoramente familiar nisso. Em suas formas simplificadas e sua calculada manipulação de escala, lembra, estranhamente, uma charge contemporânea.

O trabalho do fabricante de etiquetas era, porém, muito sério: fazer seu líder parecer invencível e semidivino e mostrar que Den era o único homem capaz de garantir aquilo que os egípcios, como todo mundo, queria de seus governantes - lei e ordem. Dentro dos domínios do faraó, esperava-se que todos obedecessem e assumissem uma clara identidade egípcia. A mensagem em nossa etiqueta de sandália é que o preço da oposição era alto e doloroso.

Essa mensagem é transmitida não apenas na imagem, mas também por escrito. Há alguns hieróglifos primitivos arranhados no marfim que nos dão o nome do rei Den e, entre ele e o inimigo, as terríveis palavras 'eles não devem existir'. Esses 'outros' serão destruídos. Todos os truques de propaganda política selvagem já estão aqui: o governante calmo e vitorioso em contraste com o inimigo estrangeiro, derrotado, desfigurado. Não sabemos quem é ele; no entanto, uma inscrição do lado direito da etiqueta diz o seguinte: 'A primeira oportunidade de derrotar o leste'. Como o solo arenoso sob as figuras eleva-se à direita, já se sugeriu que o inimigo vem do Sinai, a leste.

[...]

É uma estratégia desalentadoramente familiar. Conquista-se apoio total dentro do país dando atenção especial às ameaças externas, mas as armas necessárias para esmagar o inimigo também servem para cuidar dos adversários internos. A retórica política da agressão estrangeira é respaldada pelo controle interno enérgico".

domingo, 31 de maio de 2015

Leituras - "Bloodlust", de Russell Jacoby

Acabo de ler Bloodlust - On the roots of violence from Cain and Abel to the present, do historiador Russell Jacoby. Trata-se de obra instigante, provocativa, e um tanto perturbadora.

Composto por quatro ensaios, o livro discute uma curiosa teoria, a de que a violência humana se canaliza principalmente para aqueles que estão mais próximos, em termos culturais, ideológicos, religiosos, etc. Segundo Jacoby, as "pequenas diferenças" causam mais ódio e violência que as "grandes diferenças". Seu ponto de partida são os mitos de Caim e Abel e dos gêmeos Rômulo e Remo, exemplos arquetípicos de disputa e assassinato entre irmãos. Ao longo dos ensaios, o historiador nos conduz através de diversos conflitos fratricidas, desde as Guerras de Religião na França quinhentista aos recentes conflitos nos Bálcãs, passando por inúmeras guerras civis e genocídios.

O argumento é muito bem desenvolvido, através de inúmeros exemplos. Como salienta Jacoby, o massacre de São Bartolomeu não foi promovido por pessoas estranhas, mas por vizinhos e parentes, gente que se conhecia e convivia cotidianamente. Da mesma forma, as comunidades judaicas na Alemanha antes do Holocausto não constituíam um povo distante e extremamente diferenciado; pelo contrário, os judeus alemães eram bem integrados, tendo desde o século XVIII assimilado os valores da cultura alemã, em relação à qual nutriam sentimentos de pertença. Por sinal, alguns dos mais virulentos antissemitas vinham de famílias judaicas convertidas mais ou menos recentemente. Outro caso curioso é o de Mohamed Atta, um dos participantes dos atentados de 11 de Setembro. Atta não era um completo estranho à cultura ocidental: era formado em Engenharia e Arquitetura, tendo defendido tese de mestrado na Alemanha. Seu ódio ao Ocidente vinha da ameaçadora proximidade, não da distância.

Mas como explicar esse perturbador paradoxo?

Jacoby propõe algumas soluções, recorrendo ao diálogo interdisciplinar, especialmente com a Antropologia e a Psicanálise. O historiador lança mão da noção de "desejo mimético", proposta pelo pensador René Girard: a proximidade cultural instigaria desejos semelhantes, promovendo e acirrando conflitos e rivalidades.

Bloodlust propõe uma reflexão curiosa, ao mesmo tempo que nos deixa questionamentos inquietantes. Um livro fascinante.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Leituras - "Sangue Azul", de Ana Carolina Delmas

É com grande satisfação que falo de Sangue Azul, cuja autora é minha amiga de longa data, Ana Carolina Delmas. Por sinal, o livro mostra que, embora tenha se tornado doutora em História, continua sendo a menina com fichário do Harry Potter que conheci na graduação.

O romance narra as aventuras de Olivia Spenser, jovem melancólica e solitária que descobre um oculto mundo de magia, habitado por criaturas fantásticas e fascinantes. Não revelo mais para não estragar as surpresas do leitor!

A trama se desenvolve em ritmo vertiginoso, lembrando algumas das aventuras de Tintin - mal dá para acreditar que a autora conseguiu desenvolver uma narrativa tão densa em cerca de 400 páginas! O livro desperta a curiosidade desde os primeiros parágrafos e é difícil interromper a leitura, pois a história apresenta inúmeros momentos climáticos e muitas reviravoltas.

No entanto, é interessante observar que, apesar do rápido ritmo, a narrativa nos conduz aos poucos e de maneira bastante orgânica da Londres contemporânea ao mundo mágico, numa transição quase imperceptível, à moda das lendas celtas e dos romances medievais. Por sinal, um dos pontos fortes de Sangue Azul é a maneira pela qual entrelaça o "nosso mundo" ao universo da magia de modo espontâneo e convincente, sem rupturas abruptas ou descontinuidades flagrantes: celulares e trens de alta velocidade aqui convivem harmoniosamente com unicórnios ou centauros - sem falar nos fofos talulos.

A protagonista é uma personagem encantadora e é instigante acompanhá-la em sua jornada mágica. O elenco do romance é imenso, e há diversas figuras e criaturas interessantes, entre as quais destaco a cativante mantícora Baruk Naveen, cujo desenvolvimento na trama é surpreendente. Também gostei muito de Sir Benjamin Knightley, personagem desaparecido desde o início do livro, mas cujas marcas povoam o mundo mágico e cujos feitos passados afetam o rumo da história, tendo uma presença talvez mais forte pelo modo como se sente sua ausência - um feito literário considerável.

Muitos dos personagens (a maioria, na verdade) são imortais, com séculos de existência e aí a formação de Ana como historiadora faz a diferença, entremeando suas trajetórias de vida com diversos momentos históricos. Destaco ainda que o mundo elaborado pela autora se apropria de modo bastante criativo e original de diversas influências mitológicas e literárias, constituindo um bom exemplar daquilo que Tolkien propunha como "subcriação".

Por fim, é bom ver uma escritora brasileira produzindo um romance que não se veja estreitamente atrelado a temas "nacionais", como acontece tão frequentemente, embora esse mundo mágico tenha me parecido um tanto "eurocêntrico" - quem sabe numa continuação Olivia e Nicolas não poderiam encontrar o curupira ou a mula-sem-cabeça?

Concluo com uma passagem de que gostei muito, e que resume o espírito do livro:

"Acreditar não é um processo fácil. Eu testemunhei muitas coisas, vivenciei muito e ainda assim posso afirmar que conheci apenas uma pequena parte do que existe. [...] Por sorte, mente e conhecimento são ilimitados, têm franca e infinita capacidade de expansão".

quinta-feira, 30 de abril de 2015

PSDB, PT e a violência policial

Ano de 2013

Os professores do Estado e do município do Rio de Janeiro realizaram uma greve com grandes manifestações de rua.

Em diversos momentos a Polícia Militar usou de extrema violência contra os grevistas, especialmente na "Batalha da Cinelândia", a serviço de Eduardo Paes e Sérgio Cabral, ambos do PMDB e aliados políticos do PT e da presidente da República.

Dilma ficou calada. Calada.

Neste mesmo ano as forças policiais de diversos Estados usaram de truculência extrema contra inúmeros manifestantes.

Um oficial da PM de São Paulo foi brutalmente agredido por manifestantes; a mesma presidente que se calara diante de episódios de violência policial fez questão de emitir pronunciamento em rede nacional de televisão para repudiar a agressão do policial.

Dois pesos, duas medidas.

Ano de 2014

Nova greve dos professores do Estado e do Município do Rio.

O governo do Estado e a prefeitura do Rio iniciaram processos imorais por abandono de emprego contra diversos profissionais; sem qualquer respaldo da Justiça, Eduardo Paes cortou os salários de milhares de professores, em ato completamente ilegal.

Dilma: nem um pio.

Ano de 2015

Greve dos professores do Estado do Paraná. Manifestação contra decisão arbitrária de usar fundo da previdência paranaense para acertar as contas deficitárias do governo.

Atos de violência policial; verdadeiro massacre em Curitiba.

Reação de inúmeros petistas assumidos ou enrustidos: criticar o governador Beto Richa e seu partido, o PSDB, manifestando (por quê?) sua satisfação com a reeleição de Dilma.

Moral da história

Acho lamentáveis os atos de Beto Richa (e detesto o PSDB) - mas também acho detestável a omissão de Dilma em defesa do "organismo" PT-PMDB.

Gritar contra uns e calar em favor de outros é patético; chega de hipocrisia, pessoal.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Quero menos

Consumimos demais. Para isso, produzimos demais, e então trabalhamos demais, poluímos demais e vivemos de menos.

Precisamos de muito menos. Consumir menos, para produzir, trabalhar e poluir menos. E então nossa vida será muito, muito mais!

Como dizia Gandhi, "a civilização, no sentido real da palavra, não consiste na multiplicação, mas na vontade de espontânea limitação das necessidades. Só essa espontânea limitação acarreta a felicidade e a verdadeira satisfação".

Quero menos!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

"Realismo" e Fantasia

Há pouco tempo exibi para uma de minhas turmas a belíssima animação Princesa Mononoke, de Hayao Miyazaki, uma fantasia com profunda mensagem acerca de nossa civilização industrial e suas contradições.



Todavia, vários alunos, em lugar de apreciar a experiência, reclamaram que o filme tinha "muita mentira". Curiosamente, esses mesmos jovens, em seus 13 e 14 anos, se mostram ávidos consumidores de todo tipo de produto ou marca a eles oferecido, sem reclamar de todas as mentirosas e falaciosas promessas que a publicidade lhes impinge quotidianamente. Estranho "realismo"

Mas meus jovens alunos não estão sozinhos. Há por aí gente tão "realista" que só "acredita" em contracheque, cartão de crédito, boletim, telejornal, cigarro, sexo, carnaval, futebol, shopping center, carro do ano, dívidas, álcool, redes sociais, financiamentos, parcelas e prestações... "Realismo" pedestre, prosaico, conformado e conformista. "Realismo" bitolado, incapaz de entrever ou imaginar alternativas de vida além daquelas que a sociedade de consumo oferece.

A fantasia liberta, revela mundos possíveis e impossíveis. A fantasia manifesta verdades que se furtam ao "realismo" superficial. A imaginação explora as fronteiras do pensamento e desafia os limites da realidade.

Não à toa, inquisidores e teólogos viam com desconfiança as potencialidades da imaginação, que diziam maleável às influências satânicas, pronta a inspirar pensamentos e atitudes contrários à boa ordem. Toda fantasia é potencialmente subversiva.

Finalizo citando Tolstói: "Baixar o nível do ideal é não só diminuir as probabilidades de alcançar a perfeição, mas destruir o próprio ideal".

É preciso imaginar, sonhar, fantasiar, idealizar, criar.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

"Morte ao povo branco"

Hoje de manhã me deparei com as seguintes palavras pichadas num banheiro da UERJ, redigidas com a mesma caligrafia:

"Morte ao povo branco

Guerrilha Negra

Racistas F.D.P.!"

Para início de conversa, tais palavras têm por trás um discurso genocida, direcionado contra o "povo branco". Não há muito que discutir - é lamentável e seria lamentável que essa frase fosse redigida contra qualquer outro "povo". Não existe muita diferença - talvez nenhuma - entre esse tipo de atitude e os valores de um jovem hitlerista ou de um adepto da Ku Klux Klan. Eu imagino, e espero, que o autor da frase não tenha intenção real de matar ninguém, mas a fala tem caráter violento, reforçado pelo termo "guerrilha".

Por outro lado, é irônico que ele xingue os "racistas F.D.P.", à medida em que o seu próprio discurso tem uma matriz racista, pregando a violência contra outras pessoas a partir de critérios raciais. É um discurso baseado no ódio. Não nego que esse ódio possa ser explicado: é provável que o rapaz que escreveu isso já tenha sofrido muita discriminação, preconceito, abuso policial, entre outras coisas. Explica, mas não justifica - ou seja, não torna esse discurso justo. Há que se lembrar a figura de Mandela, que tanto lutou contra todo tipo de racismo e contra todo tipo de ódio. Não se cura ódio com uma dose oposta de ódio. Mesmo no período em que aderiu à revolta armada, Mandela lutava contra a instituição do apartheid, não contra o "povo branco" da África do Sul.

Vale também salientar que esse tipo de discurso também desfavorece a imagem de todos os movimentos negros, que lutam por causas justíssimas. Quando o autor prega uma "guerrilha negra" para exterminar o "povo branco", depõe publicamente contra todos os outros que defendem justas causas, o que é uma pena. É uma fala que sustenta preconceitos, em lugar de desfazê-los.

São palavras violentas, e infelizmente, violência gera mais violência. Tanto é que, logo abaixo, uma outra pessoa pichou uma réplica: "Heil, Abdias!", em referência ao falecido Abdias Nascimento, importante figura do movimento negro no Brasil. A réplica é totalmente absurda e injusta, comparando Nascimento a Hitler, mas comprova o que sustento acima: tais atitudes desfavorecem o movimento negro.

Uma outra pessoa escreveu uma segunda réplica: "Vai ler Darcy Ribeiro!". São palavras mais amenas, mas revelam uma agressividade velada. Obviamente não se trata de uma simples e inocente recomendação bibliográfica; o autor dessa réplica queria certamente rotular o defensor da "guerrilha negra" como um ignorante, carente de recursos intelectuais. Ambas réplicas são lastimáveis, pois respondem à violência de modo agressivo.

Uma terceira réplica dizia: "No Brasil, todo branco é negro, e todo negro é branco", aludindo à mestiçagem brasileira. No limite, vale questionar se o defensor da "guerrilha negra" não teria ascendentes brancos. Seria ele um negro "puro"? Sendo ele um negro "puro", poderia advogar também a morte de pessoas menos "puras"? Quem poderia lutar nessa "guerrilha negra"? Qualquer discurso de pureza racial está fadado ao fracasso, pois, na verdade, todos somos mestiços, em termos biológicos ou culturais; raças não existem. Talvez essa terceira réplica represente as palavras mais sensatas escritas naquela parede.

Mas não quero atribuir um excesso de importância às palavras de um jovem revoltado por razões justas, mas orientando sua revolta em sentidos injustos. Tudo que quero lembrar é que, onde sobra agressão, falta diálogo. Lembro do célebre discurso de Martin Luther King, que sonhava com uma sociedade onde todas as pessoas se entendessem e amassem, independentemente de suas "raças". Rezo para que um dia possamos superar todos os erros e fantasmas de nosso passado escravista e racista, para tornar esse sonho realidade.

"Eu tenho um sonho" - tradução integral

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

40 centavos - Coisas grandes e pequenas

Nesta sexta-feira pretendo ir ao 5º Ato contra o aumento das passagens. Por quê? Vale o esforço e o aborrecimento? Vale enfrentar a truculência policial por isso?

40 centavos não parecem nada; em termos meramente financeiros, não são nada. Mas a questão não é financeira, é política. Trata-se de mandar uma mensagem aos senhores Eduardo Paes e Pezão.

O aumento da passagem parece uma questão pequena. No entanto, as piores usurpações geralmente começam de modo lento e gradativo, nas "coisas pequenas". Começamos abrindo mão dessas coisas pequenas, justamente porque elas são "pequenas e sem importância", e abrimos cada vez mais espaço para que os tiranos ajam tranquilamente. Vendo a apatia popular, eles se sentem encorajados a coisas piores. Terminamos abrindo mão das grandes porque perdemos a força de resistir. Quando engolimos sapos passivamente, resmungando de lado, mas obedecendo, damos aos tiranos o poder para enfiar sapos cada vez maiores em nossas goelas.

Não é por 40 centavos, é por princípios. É para mostrar aos senhores prefeito e governador que eles não podem nos esmagar sob qualquer arbitrariedade. É para reafirmar e construir o poder do povo, para defender os alicerces da democracia.

E a democracia vale muito mais que quarenta centavos...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ecos de Paris

Paris é cidade ao mesmo tempo encantadora e sufocante, fascinante e monstruosa. Respiramos um ar suave e denso, carregado com mais de dois mil anos de história, dois milênios de glórias e tragédias.

A cidade é monumental, cada esquina traz uma memória - lembranças doces ou amargas. Cada boulevard leva o nome de um general ou de uma batalha.

Palco de grandes triunfos do intelecto, das artes, da ciência, mas também de terríveis atos de violência e selvageria. Paris é tudo ou nada - o ápice da civilização e o abismo da barbárie ao mesmo tempo: a ópera e o massacre, o ballet e a guerra, o cavalete e a guilhotina, a escultura e o canhão, Victor Hugo e Napoleão III.

Mesmo o Louvre, palácio da beleza e do saber, já foi antro de intrigas e violências; Notre Dame, templo de arte e de intolerância. Para cada pedra ou tijolo, existe uma lágrima e uma gota de sangue; cada encanto se enraíza em mil tormentos.

O turista deslumbrado se deixa iludir pela beleza superficial, mas o historiador conhece as pulsantes entranhas de Paris.

Como não amar essa cidade? Como não detestar essa cidade? Paris é intensa demais: precisa ser amada e odiada.

O ar da cidade ecoa muitas vozes, cânticos de júbilo e gritos de dor. Paris tem um passado ensurdecedor...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O mal-estar da classe média

Dedicado a Fred Oliveira e Roger Marques

Coisa curiosa, a classe média - especialmente a classe média "de esquerda", que adora enxovalhar... a própria classe média. Ou a "classe mérdia", como gostam de dizer enquanto pregam a consciência... "de classe". Mas consciência de classe alheia - se arrogam o título de procuradores políticos do povão, enquanto os pobres, geralmente, aspiram subir à classe média - ou simplesmente querem ficar ricos, de preferência jogando futebol. Duvida? Entreviste uns 20 alunos de escola municipal.

Já dizia Joãozinho Trinta: quem gosta de pobreza é intelectual; pobre gosta é de luxo. Aliás, intelectual gosta da pobreza dos outros; morar na favela que é bom... Vista de longe, bem longe, a pobreza é uma coisa admirável.

Nesse sentido, os "pensadores" [?!] reacionários têm alguma dose de razão quando criticam a "esquerda caviar" ou a "esquerda festiva".

Quando vejo proprietários ou herdeiros de imóveis fazendo mochilão na Europa e apedrejando a "classe mérdia", penso em, sei lá... telhados de vidro?

Felizmente, vivemos numa época em que qualquer um consegue se dizer oprimido por algo ou alguém. A não ser que você seja homem, branco e heterossexual - a epítome da opressão.

Cá entre nós, acho que esse pessoal podia buscar construir uma identidade como trabalhadores de classe média...

domingo, 25 de janeiro de 2015

Oprimidos e opressores

Quem é oprimido? Quem é opressor?

Quem os separa e classifica em suas respectivas gavetas? Quem define, traça e desenha essas linhas? Quem estabelece, categoricamente, essas categorias?

Telêmaco - negro e machista. Oprimido ou opressor?

Eufrásia - mulher e homófoba. Oprimida ou opressora?

Godofredo - homossexual e racista. Oprimido ou opressor?

Entre os estereótipos e discursos de nossa maniqueísta imaginação é fácil buscar "oprimidos" e "opressores", vítimas perfeitas de perfeitos algozes; difícil é encontrar pessoas reais, em suas profundas e pulsantes contradições, onde os papéis se diluem e as opressões são imprevisíveis... Na vida real, distante das platônicas abstrações ideológicas, há algozes de manhã que se tornam vítimas à noite - e vice-versa.

Talvez, no distante mundo real, até alguns homens brancos e heterossexuais - pasmem! - sejam oprimidos por alguém...

sábado, 24 de janeiro de 2015

Rio e São Paulo: água, política e oportunismo eleitoral

Durante as eleições de 2014 surgiram vários dedos apontando para a crise hídrica de São Paulo, acusando - com justiça - a incompetência e imprevidência da gestão do PSDB. Publicações pró-PT não se cansavam de abordar o assunto, para desmoralizar a candidatura de Aécio Neves. Eleitores de Dilma alardeavam o problema nas redes sociais, quase satisfeitos com a falta d`água em São Paulo.

Agora, poucos meses depois, o Estado do Rio também se encontra na iminência de uma crise. Nossos reservatórios mostram níveis de água alarmantemente baixos. Curiosamente, não tenho visto críticas tão vigorosas ou insistentes à administração fluminense. Tanta vontade de apedrejar o PSDB, tanta apatia contra o PMDB alinhado com Dilma...

O cotejo entre essas atitudes me parece emblemático de nossa imaturidade política - especialmente entre aqueles que gostam de se dizer "politizados", mas se comportam como bovina massa de manobra, empurrada ao sabor dos oportunismos eleitorais. Acima de tudo, tal atitude trai uma falta de honestidade política, um exercício seletivo de crítica e indignação que só empobrece o debate democrático. "Aos amigos, tudo; aos inimigos, as críticas".

Somos todos analfabetos políticos?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Coari, 2015: considerações sobre a revolta popular

Quem planta injustiça, colhe revolta.

Enquanto ainda lhe deixam um pouco de dignidade, o ser humano pode permanecer dócil, obediente e submisso; pode ser pisoteado com um sorriso amarelo no rosto, fazendo piada. No entanto, quando o precipitam na miséria, tudo pode acontecer.

Há cerca de cinco meses os servidores da Prefeitura de Coari, Amazonas, não vêm recebendo seus salários, devido à administração irresponsável do município; isso afeta não apenas os funcionários propriamente ditos, mas o comércio varejista da cidade.

Na última semana, cerca de 400 pessoas revoltadas atacaram a Câmara dos Vereadores, as residências de alguns vereadores, e incendiaram as residências do prefeito e de sua mãe.  Também houve saques. Felizmente ninguém saiu morto ou ferido. Me parece um fato inédito na história recente da república brasileira: ataques diretos à pessoa e aos bens dos governantes.

As imagens de Coari são ao mesmo tempo belas, tristes e preocupantes.

 
 
 


Não justifico ou aprovo essa reação popular - violência gera violência, num ciclo de dor crescente e cada vez mais difícil de romper; o ideal seria buscar estratégias pacíficas e construtivas para resolver a situação.

No entanto, é o que acontece quando pessoas são brutalmente privadas do seu sustento. Cortar o salário de alguém é uma violência muito cruel. Conheci essa dor na carne, quando o Sr. Eduardo Paes, desrespeitando a Constituição e a Lei Orgânica do município do Rio, descontou meu salário pela participação na greve de 2014. Só quem sofreu uma coisa dessas tem ideia do quanto é horrível ter seu sustento comprometido por um governo arbitrário. Imagine cinco meses nessa situação...

Como dizia Victor Hugo, só é possível existir paz quando se instauram condições objetivas de participação democrática para todos. Quando não há diálogo, quando não se criam vias de entendimento pacífico, quando os poderosos se prevalecem da violência contra o povo, o desfecho será, normalmente, mais violento.


 



Espero que as autoridades amazonenses ajam com sabedoria, procurando caminhos para conciliação, reconhecendo ao povo seus justos direitos. Espero também que os órgãos municipais de Coari sejam devidamente responsabilizados pela situação. Temo pela onda de repressão que talvez se abata sobre o povo de Coari - e torço para que esse povo valente encontre outras estratégias para fazer suas legítimas reivindicações.

A situação em Coari é um lembrete para todos os nossos governantes. Ou botamos a democracia brasileira no eixos, ou teremos situações cada vez mais difíceis - principalmente para os políticos. Nossos prefeitos, vereadores, governadores, deputados, senadores, presidente, precisam perceber que, entre tamanhas injustiças, abusos e arbitrariedades, NINGUÉM está seguro. Que lembrem de Luís XVI e Maria Antonieta...