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terça-feira, 19 de maio de 2015

Leituras - "Sangue Azul", de Ana Carolina Delmas

É com grande satisfação que falo de Sangue Azul, cuja autora é minha amiga de longa data, Ana Carolina Delmas. Por sinal, o livro mostra que, embora tenha se tornado doutora em História, continua sendo a menina com fichário do Harry Potter que conheci na graduação.

O romance narra as aventuras de Olivia Spenser, jovem melancólica e solitária que descobre um oculto mundo de magia, habitado por criaturas fantásticas e fascinantes. Não revelo mais para não estragar as surpresas do leitor!

A trama se desenvolve em ritmo vertiginoso, lembrando algumas das aventuras de Tintin - mal dá para acreditar que a autora conseguiu desenvolver uma narrativa tão densa em cerca de 400 páginas! O livro desperta a curiosidade desde os primeiros parágrafos e é difícil interromper a leitura, pois a história apresenta inúmeros momentos climáticos e muitas reviravoltas.

No entanto, é interessante observar que, apesar do rápido ritmo, a narrativa nos conduz aos poucos e de maneira bastante orgânica da Londres contemporânea ao mundo mágico, numa transição quase imperceptível, à moda das lendas celtas e dos romances medievais. Por sinal, um dos pontos fortes de Sangue Azul é a maneira pela qual entrelaça o "nosso mundo" ao universo da magia de modo espontâneo e convincente, sem rupturas abruptas ou descontinuidades flagrantes: celulares e trens de alta velocidade aqui convivem harmoniosamente com unicórnios ou centauros - sem falar nos fofos talulos.

A protagonista é uma personagem encantadora e é instigante acompanhá-la em sua jornada mágica. O elenco do romance é imenso, e há diversas figuras e criaturas interessantes, entre as quais destaco a cativante mantícora Baruk Naveen, cujo desenvolvimento na trama é surpreendente. Também gostei muito de Sir Benjamin Knightley, personagem desaparecido desde o início do livro, mas cujas marcas povoam o mundo mágico e cujos feitos passados afetam o rumo da história, tendo uma presença talvez mais forte pelo modo como se sente sua ausência - um feito literário considerável.

Muitos dos personagens (a maioria, na verdade) são imortais, com séculos de existência e aí a formação de Ana como historiadora faz a diferença, entremeando suas trajetórias de vida com diversos momentos históricos. Destaco ainda que o mundo elaborado pela autora se apropria de modo bastante criativo e original de diversas influências mitológicas e literárias, constituindo um bom exemplar daquilo que Tolkien propunha como "subcriação".

Por fim, é bom ver uma escritora brasileira produzindo um romance que não se veja estreitamente atrelado a temas "nacionais", como acontece tão frequentemente, embora esse mundo mágico tenha me parecido um tanto "eurocêntrico" - quem sabe numa continuação Olivia e Nicolas não poderiam encontrar o curupira ou a mula-sem-cabeça?

Concluo com uma passagem de que gostei muito, e que resume o espírito do livro:

"Acreditar não é um processo fácil. Eu testemunhei muitas coisas, vivenciei muito e ainda assim posso afirmar que conheci apenas uma pequena parte do que existe. [...] Por sorte, mente e conhecimento são ilimitados, têm franca e infinita capacidade de expansão".

quinta-feira, 30 de abril de 2015

PSDB, PT e a violência policial

Ano de 2013

Os professores do Estado e do município do Rio de Janeiro realizaram uma greve com grandes manifestações de rua.

Em diversos momentos a Polícia Militar usou de extrema violência contra os grevistas, especialmente na "Batalha da Cinelândia", a serviço de Eduardo Paes e Sérgio Cabral, ambos do PMDB e aliados políticos do PT e da presidente da República.

Dilma ficou calada. Calada.

Neste mesmo ano as forças policiais de diversos Estados usaram de truculência extrema contra inúmeros manifestantes.

Um oficial da PM de São Paulo foi brutalmente agredido por manifestantes; a mesma presidente que se calara diante de episódios de violência policial fez questão de emitir pronunciamento em rede nacional de televisão para repudiar a agressão do policial.

Dois pesos, duas medidas.

Ano de 2014

Nova greve dos professores do Estado e do Município do Rio.

O governo do Estado e a prefeitura do Rio iniciaram processos imorais por abandono de emprego contra diversos profissionais; sem qualquer respaldo da Justiça, Eduardo Paes cortou os salários de milhares de professores, em ato completamente ilegal.

Dilma: nem um pio.

Ano de 2015

Greve dos professores do Estado do Paraná. Manifestação contra decisão arbitrária de usar fundo da previdência paranaense para acertar as contas deficitárias do governo.

Atos de violência policial; verdadeiro massacre em Curitiba.

Reação de inúmeros petistas assumidos ou enrustidos: criticar o governador Beto Richa e seu partido, o PSDB, manifestando (por quê?) sua satisfação com a reeleição de Dilma.

Moral da história

Acho lamentáveis os atos de Beto Richa (e detesto o PSDB) - mas também acho detestável a omissão de Dilma em defesa do "organismo" PT-PMDB.

Gritar contra uns e calar em favor de outros é patético; chega de hipocrisia, pessoal.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Quero menos

Consumimos demais. Para isso, produzimos demais, e então trabalhamos demais, poluímos demais e vivemos de menos.

Precisamos de muito menos. Consumir menos, para produzir, trabalhar e poluir menos. E então nossa vida será muito, muito mais!

Como dizia Gandhi, "a civilização, no sentido real da palavra, não consiste na multiplicação, mas na vontade de espontânea limitação das necessidades. Só essa espontânea limitação acarreta a felicidade e a verdadeira satisfação".

Quero menos!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

"Realismo" e Fantasia

Há pouco tempo exibi para uma de minhas turmas a belíssima animação Princesa Mononoke, de Hayao Miyazaki, uma fantasia com profunda mensagem acerca de nossa civilização industrial e suas contradições.



Todavia, vários alunos, em lugar de apreciar a experiência, reclamaram que o filme tinha "muita mentira". Curiosamente, esses mesmos jovens, em seus 13 e 14 anos, se mostram ávidos consumidores de todo tipo de produto ou marca a eles oferecido, sem reclamar de todas as mentirosas e falaciosas promessas que a publicidade lhes impinge quotidianamente. Estranho "realismo"

Mas meus jovens alunos não estão sozinhos. Há por aí gente tão "realista" que só "acredita" em contracheque, cartão de crédito, boletim, telejornal, cigarro, sexo, carnaval, futebol, shopping center, carro do ano, dívidas, álcool, redes sociais, financiamentos, parcelas e prestações... "Realismo" pedestre, prosaico, conformado e conformista. "Realismo" bitolado, incapaz de entrever ou imaginar alternativas de vida além daquelas que a sociedade de consumo oferece.

A fantasia liberta, revela mundos possíveis e impossíveis. A fantasia manifesta verdades que se furtam ao "realismo" superficial. A imaginação explora as fronteiras do pensamento e desafia os limites da realidade.

Não à toa, inquisidores e teólogos viam com desconfiança as potencialidades da imaginação, que diziam maleável às influências satânicas, pronta a inspirar pensamentos e atitudes contrários à boa ordem. Toda fantasia é potencialmente subversiva.

Finalizo citando Tolstói: "Baixar o nível do ideal é não só diminuir as probabilidades de alcançar a perfeição, mas destruir o próprio ideal".

É preciso imaginar, sonhar, fantasiar, idealizar, criar.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

"Morte ao povo branco"

Hoje de manhã me deparei com as seguintes palavras pichadas num banheiro da UERJ, redigidas com a mesma caligrafia:

"Morte ao povo branco

Guerrilha Negra

Racistas F.D.P.!"

Para início de conversa, tais palavras têm por trás um discurso genocida, direcionado contra o "povo branco". Não há muito que discutir - é lamentável e seria lamentável que essa frase fosse redigida contra qualquer outro "povo". Não existe muita diferença - talvez nenhuma - entre esse tipo de atitude e os valores de um jovem hitlerista ou de um adepto da Ku Klux Klan. Eu imagino, e espero, que o autor da frase não tenha intenção real de matar ninguém, mas a fala tem caráter violento, reforçado pelo termo "guerrilha".

Por outro lado, é irônico que ele xingue os "racistas F.D.P.", à medida em que o seu próprio discurso tem uma matriz racista, pregando a violência contra outras pessoas a partir de critérios raciais. É um discurso baseado no ódio. Não nego que esse ódio possa ser explicado: é provável que o rapaz que escreveu isso já tenha sofrido muita discriminação, preconceito, abuso policial, entre outras coisas. Explica, mas não justifica - ou seja, não torna esse discurso justo. Há que se lembrar a figura de Mandela, que tanto lutou contra todo tipo de racismo e contra todo tipo de ódio. Não se cura ódio com uma dose oposta de ódio. Mesmo no período em que aderiu à revolta armada, Mandela lutava contra a instituição do apartheid, não contra o "povo branco" da África do Sul.

Vale também salientar que esse tipo de discurso também desfavorece a imagem de todos os movimentos negros, que lutam por causas justíssimas. Quando o autor prega uma "guerrilha negra" para exterminar o "povo branco", depõe publicamente contra todos os outros que defendem justas causas, o que é uma pena. É uma fala que sustenta preconceitos, em lugar de desfazê-los.

São palavras violentas, e infelizmente, violência gera mais violência. Tanto é que, logo abaixo, uma outra pessoa pichou uma réplica: "Heil, Abdias!", em referência ao falecido Abdias Nascimento, importante figura do movimento negro no Brasil. A réplica é totalmente absurda e injusta, comparando Nascimento a Hitler, mas comprova o que sustento acima: tais atitudes desfavorecem o movimento negro.

Uma outra pessoa escreveu uma segunda réplica: "Vai ler Darcy Ribeiro!". São palavras mais amenas, mas revelam uma agressividade velada. Obviamente não se trata de uma simples e inocente recomendação bibliográfica; o autor dessa réplica queria certamente rotular o defensor da "guerrilha negra" como um ignorante, carente de recursos intelectuais. Ambas réplicas são lastimáveis, pois respondem à violência de modo agressivo.

Uma terceira réplica dizia: "No Brasil, todo branco é negro, e todo negro é branco", aludindo à mestiçagem brasileira. No limite, vale questionar se o defensor da "guerrilha negra" não teria ascendentes brancos. Seria ele um negro "puro"? Sendo ele um negro "puro", poderia advogar também a morte de pessoas menos "puras"? Quem poderia lutar nessa "guerrilha negra"? Qualquer discurso de pureza racial está fadado ao fracasso, pois, na verdade, todos somos mestiços, em termos biológicos ou culturais; raças não existem. Talvez essa terceira réplica represente as palavras mais sensatas escritas naquela parede.

Mas não quero atribuir um excesso de importância às palavras de um jovem revoltado por razões justas, mas orientando sua revolta em sentidos injustos. Tudo que quero lembrar é que, onde sobra agressão, falta diálogo. Lembro do célebre discurso de Martin Luther King, que sonhava com uma sociedade onde todas as pessoas se entendessem e amassem, independentemente de suas "raças". Rezo para que um dia possamos superar todos os erros e fantasmas de nosso passado escravista e racista, para tornar esse sonho realidade.

"Eu tenho um sonho" - tradução integral

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

40 centavos - Coisas grandes e pequenas

Nesta sexta-feira pretendo ir ao 5º Ato contra o aumento das passagens. Por quê? Vale o esforço e o aborrecimento? Vale enfrentar a truculência policial por isso?

40 centavos não parecem nada; em termos meramente financeiros, não são nada. Mas a questão não é financeira, é política. Trata-se de mandar uma mensagem aos senhores Eduardo Paes e Pezão.

O aumento da passagem parece uma questão pequena. No entanto, as piores usurpações geralmente começam de modo lento e gradativo, nas "coisas pequenas". Começamos abrindo mão dessas coisas pequenas, justamente porque elas são "pequenas e sem importância", e abrimos cada vez mais espaço para que os tiranos ajam tranquilamente. Vendo a apatia popular, eles se sentem encorajados a coisas piores. Terminamos abrindo mão das grandes porque perdemos a força de resistir. Quando engolimos sapos passivamente, resmungando de lado, mas obedecendo, damos aos tiranos o poder para enfiar sapos cada vez maiores em nossas goelas.

Não é por 40 centavos, é por princípios. É para mostrar aos senhores prefeito e governador que eles não podem nos esmagar sob qualquer arbitrariedade. É para reafirmar e construir o poder do povo, para defender os alicerces da democracia.

E a democracia vale muito mais que quarenta centavos...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ecos de Paris

Paris é cidade ao mesmo tempo encantadora e sufocante, fascinante e monstruosa. Respiramos um ar suave e denso, carregado com mais de dois mil anos de história, dois milênios de glórias e tragédias.

A cidade é monumental, cada esquina traz uma memória - lembranças doces ou amargas. Cada boulevard leva o nome de um general ou de uma batalha.

Palco de grandes triunfos do intelecto, das artes, da ciência, mas também de terríveis atos de violência e selvageria. Paris é tudo ou nada - o ápice da civilização e o abismo da barbárie ao mesmo tempo: a ópera e o massacre, o ballet e a guerra, o cavalete e a guilhotina, a escultura e o canhão, Victor Hugo e Napoleão III.

Mesmo o Louvre, palácio da beleza e do saber, já foi antro de intrigas e violências; Notre Dame, templo de arte e de intolerância. Para cada pedra ou tijolo, existe uma lágrima e uma gota de sangue; cada encanto se enraíza em mil tormentos.

O turista deslumbrado se deixa iludir pela beleza superficial, mas o historiador conhece as pulsantes entranhas de Paris.

Como não amar essa cidade? Como não detestar essa cidade? Paris é intensa demais: precisa ser amada e odiada.

O ar da cidade ecoa muitas vozes, cânticos de júbilo e gritos de dor. Paris tem um passado ensurdecedor...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O mal-estar da classe média

Dedicado a Fred Oliveira e Roger Marques

Coisa curiosa, a classe média - especialmente a classe média "de esquerda", que adora enxovalhar... a própria classe média. Ou a "classe mérdia", como gostam de dizer enquanto pregam a consciência... "de classe". Mas consciência de classe alheia - se arrogam o título de procuradores políticos do povão, enquanto os pobres, geralmente, aspiram subir à classe média - ou simplesmente querem ficar ricos, de preferência jogando futebol. Duvida? Entreviste uns 20 alunos de escola municipal.

Já dizia Joãozinho Trinta: quem gosta de pobreza é intelectual; pobre gosta é de luxo. Aliás, intelectual gosta da pobreza dos outros; morar na favela que é bom... Vista de longe, bem longe, a pobreza é uma coisa admirável.

Nesse sentido, os "pensadores" [?!] reacionários têm alguma dose de razão quando criticam a "esquerda caviar" ou a "esquerda festiva".

Quando vejo proprietários ou herdeiros de imóveis fazendo mochilão na Europa e apedrejando a "classe mérdia", penso em, sei lá... telhados de vidro?

Felizmente, vivemos numa época em que qualquer um consegue se dizer oprimido por algo ou alguém. A não ser que você seja homem, branco e heterossexual - a epítome da opressão.

Cá entre nós, acho que esse pessoal podia buscar construir uma identidade como trabalhadores de classe média...

domingo, 25 de janeiro de 2015

Oprimidos e opressores

Quem é oprimido? Quem é opressor?

Quem os separa e classifica em suas respectivas gavetas? Quem define, traça e desenha essas linhas? Quem estabelece, categoricamente, essas categorias?

Telêmaco - negro e machista. Oprimido ou opressor?

Eufrásia - mulher e homófoba. Oprimida ou opressora?

Godofredo - homossexual e racista. Oprimido ou opressor?

Entre os estereótipos e discursos de nossa maniqueísta imaginação é fácil buscar "oprimidos" e "opressores", vítimas perfeitas de perfeitos algozes; difícil é encontrar pessoas reais, em suas profundas e pulsantes contradições, onde os papéis se diluem e as opressões são imprevisíveis... Na vida real, distante das platônicas abstrações ideológicas, há algozes de manhã que se tornam vítimas à noite - e vice-versa.

Talvez, no distante mundo real, até alguns homens brancos e heterossexuais - pasmem! - sejam oprimidos por alguém...

sábado, 24 de janeiro de 2015

Rio e São Paulo: água, política e oportunismo eleitoral

Durante as eleições de 2014 surgiram vários dedos apontando para a crise hídrica de São Paulo, acusando - com justiça - a incompetência e imprevidência da gestão do PSDB. Publicações pró-PT não se cansavam de abordar o assunto, para desmoralizar a candidatura de Aécio Neves. Eleitores de Dilma alardeavam o problema nas redes sociais, quase satisfeitos com a falta d`água em São Paulo.

Agora, poucos meses depois, o Estado do Rio também se encontra na iminência de uma crise. Nossos reservatórios mostram níveis de água alarmantemente baixos. Curiosamente, não tenho visto críticas tão vigorosas ou insistentes à administração fluminense. Tanta vontade de apedrejar o PSDB, tanta apatia contra o PMDB alinhado com Dilma...

O cotejo entre essas atitudes me parece emblemático de nossa imaturidade política - especialmente entre aqueles que gostam de se dizer "politizados", mas se comportam como bovina massa de manobra, empurrada ao sabor dos oportunismos eleitorais. Acima de tudo, tal atitude trai uma falta de honestidade política, um exercício seletivo de crítica e indignação que só empobrece o debate democrático. "Aos amigos, tudo; aos inimigos, as críticas".

Somos todos analfabetos políticos?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Coari, 2015: considerações sobre a revolta popular

Quem planta injustiça, colhe revolta.

Enquanto ainda lhe deixam um pouco de dignidade, o ser humano pode permanecer dócil, obediente e submisso; pode ser pisoteado com um sorriso amarelo no rosto, fazendo piada. No entanto, quando o precipitam na miséria, tudo pode acontecer.

Há cerca de cinco meses os servidores da Prefeitura de Coari, Amazonas, não vêm recebendo seus salários, devido à administração irresponsável do município; isso afeta não apenas os funcionários propriamente ditos, mas o comércio varejista da cidade.

Na última semana, cerca de 400 pessoas revoltadas atacaram a Câmara dos Vereadores, as residências de alguns vereadores, e incendiaram as residências do prefeito e de sua mãe.  Também houve saques. Felizmente ninguém saiu morto ou ferido. Me parece um fato inédito na história recente da república brasileira: ataques diretos à pessoa e aos bens dos governantes.

As imagens de Coari são ao mesmo tempo belas, tristes e preocupantes.

 
 
 


Não justifico ou aprovo essa reação popular - violência gera violência, num ciclo de dor crescente e cada vez mais difícil de romper; o ideal seria buscar estratégias pacíficas e construtivas para resolver a situação.

No entanto, é o que acontece quando pessoas são brutalmente privadas do seu sustento. Cortar o salário de alguém é uma violência muito cruel. Conheci essa dor na carne, quando o Sr. Eduardo Paes, desrespeitando a Constituição e a Lei Orgânica do município do Rio, descontou meu salário pela participação na greve de 2014. Só quem sofreu uma coisa dessas tem ideia do quanto é horrível ter seu sustento comprometido por um governo arbitrário. Imagine cinco meses nessa situação...

Como dizia Victor Hugo, só é possível existir paz quando se instauram condições objetivas de participação democrática para todos. Quando não há diálogo, quando não se criam vias de entendimento pacífico, quando os poderosos se prevalecem da violência contra o povo, o desfecho será, normalmente, mais violento.


 



Espero que as autoridades amazonenses ajam com sabedoria, procurando caminhos para conciliação, reconhecendo ao povo seus justos direitos. Espero também que os órgãos municipais de Coari sejam devidamente responsabilizados pela situação. Temo pela onda de repressão que talvez se abata sobre o povo de Coari - e torço para que esse povo valente encontre outras estratégias para fazer suas legítimas reivindicações.

A situação em Coari é um lembrete para todos os nossos governantes. Ou botamos a democracia brasileira no eixos, ou teremos situações cada vez mais difíceis - principalmente para os políticos. Nossos prefeitos, vereadores, governadores, deputados, senadores, presidente, precisam perceber que, entre tamanhas injustiças, abusos e arbitrariedades, NINGUÉM está seguro. Que lembrem de Luís XVI e Maria Antonieta...

 
 
 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Estrelas e concursos públicos

Venho estudando para dois concursos públicos; um na semana que vem, o outro em março. Às vezes me sinto angustiado, ansioso, oprimido.

Eis que venho a minha varanda. Na noite quente e desanuviada brilha uma miríade de estrelas. De repente, tudo parece tão minúsculo: a Terra, os concursos, eu...

Essas estrelas brilham há milhares, milhões de anos. A luz de algumas delas, que hoje nos chega, foi emitida quando os mesopotâmios ainda ensaiavam seus primeiros caracteres...

"Há muito mais céus do que suspeita nossa vã filosofia"!

Os concursos passarão. Eu passarei, meus filhos, meus netos, também. E daí? As estrelas continuarão brilhando; estavam "aqui" antes de mim, continuarão depois.

Por que ficar ansioso?

sábado, 17 de janeiro de 2015

Estratégias indígenas

Extratos de As diversas formas de ser índio, de Elisa Frühauf Garcia

"O processo pelo qual os índios recontam a sua história enquanto aliados dos europeus foi demonstrado por Serge Gruzinski. Segundo a sua análise, os índios de determinados pueblos do México, ao escreverem as suas histórias em documentos destinados a proteger as suas terras comunais, realizavam uma releitura do seu passado em que era privilegiada a relação de aliança com os espanhóis e omitidas as faces mais violentas da "conquista". Desse modo, ao contrário da visão geralmente privilegiada pela historiografia, enfatizando a violência e a crueldade da conquista, estes relatos nativos se centravam nos significados, geralmente tidos como benéficos, da chegada dos espanhóis e, principalmente, outorgavam um papel de destaque aos índios dos seus próprios pueblos  na conquista e estabelecimento dos espanhóis na região. Nessa visão, os índios não se representavam enquanto vítimas dos espanhóis, mas como seus colaboradores. Para o autor, a explicação dessa abordagem era a tentativa de manutenção dos direitos dos pueblos a partir da invocação da sua participação histórica no estabelecimento dos espanhóis, embora os relatos também tivessem, ou foram escritos para ter, a intenção de manter os laços comunitários entre os habitantes dos pueblos.

[...]

Elaborar uma interpretação baseada apenas na ênfase às violências cometidas pelos portugueses contra os índios, não concedendo aos últimos nenhuma margem de manobra ou mesmo de participação nas situações de conflito, acaba por retirar dos índios a sua condição de agentes históricos. Esse tipo de abordagem considera, ainda que de maneira velada, os índios incapazes de fazerem as suas próprias escolhas, de formularem as suas interpretações e, de forma mais geral, de serem partícipes da construção dos espaços sociais que ocupavam na sociedade colonial. Esses lugares, conforme já colocado em outros momentos deste trabalho e de acordo com o apontado por alguns autores em estudos para outras regiões da América portuguesa, não foram apenas outorgados pelo Estado, mas foram também apropriados pelos índios que lá habitavam, os quais lutaram pela sua manutenção".

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Razões do povo

Só existe verdadeira democracia quando o Estado e seus centros de poder são constantemente desafiados pelo povo. Os tiranos são tecidos na obediência, nos legalismos cegos e desalmados. Quem ousa pensar "Liberdade!" já venceu a tirania, pois ela brota nas almas para dominar os corpos; toda tirania e toda liberdade nascem de dentro para fora.

O povo que obedece de bom grado a leis injustas e aos governantes que as tramam já foi massacrado e ainda não sabe. Quem se cala ante as injustiças ainda respira, mas já foi degolado.

O povo ignorante torra na Praia do Egoísmo, enquanto os governantes cozinham sua carne e seus direitos nos caldeirões da obediência. Ao sol escaldante, seus corpos são os restos do massacre cultural, a carniça no campo da batalha que não aconteceu. Respiram aliviados, contentes, bêbados e aniquilados. São cadáveres apodrecidos em vida, pendurados aos ferros do Metrô como as carnes do açougue.

A razão de Estado raramente favorece as razões do povo. É preciso desobedecer.

Os atos cumulativos de desobediência civil às leis injustas forçam as leis a se aproximarem gradativamente da esfera da legitimidade. Haverá um dia em que, pela força e vigilância do povo, todas as leis serão justas?

O presente sufoca, as sombras reinam. Os poderosos são corruptos, os corruptos são poderosos.

Quem consegue sonhar? Apenas quem sonha conseguirá. Quem estiver nas trevas, acenda ainda hoje uma luz - ou pereça na escuridão. Juntas, bilhões de velas fazem um sol, criam um dia, dois dias, cem anos.

A única esperança é ter esperança, a coragem de acreditar na coragem.

Do fundo do poço, só existe uma direção a tomar: para cima.

Vamos criar futuros, semear caminhos, buscar novos rumos. Amanhã haverá Amanhã. Sempre.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Uma liga pela esperança

Nosso mundo precisa de uma liga pela esperança, uma aliança de todas as pessoas de boa-vontade.

É preciso unir forças, reunir todos aqueles que acreditam em futuros melhores, em um mundo melhor. Aqueles que defendem o amor ao próximo, aqueles que tentam amar ao próximo e, mais ainda, aqueles que conseguem amar ao próximo.

Podemos ter qualquer crença ou descrença, mas precisamos ter fé no Amor e em nossa capacidade de amar.

É necessário conjugar os esforços de todos aqueles que desejam o bem da coletividade, que enxergam ou tentam enxergar no outro um irmão. É essencial vencer o ódio pelo amor, vencer a violência pelo diálogo.

É preciso cruzar fronteiras, construir pontes, abater muros, abrir portas, apertar mãos, estreitar laços.

A obra é imensa. Há perigos. Mas há coragem.

Vamos lá?