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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Tempo e morte

Outra passagem interessantíssima de Menino de lugar nenhum, de David Mitchell

"Como cemitérios são recheados de corpos em decomposição, é meio óbvio que sejam lugares assustadores. Pelo menos um pouco. Mas poucas coisas são uma coisa só quando você pensa nelas por tempo suficiente. Nos dias de sol do verão passado, eu ia de bicicleta até os lugares mais distantes que meu mapa 150 da Ordnance Survey permitia. Uma vez fui até Winchcombe. Quando eu encontrava uma igreja normanda (arredondada) ou saxônica (atarracada) sem ninguém por perto, escondia a bicicleta nos fundos e deitava na grama do cemitério. Ouvia pássaros invisíveis, de vez em quando achava uma flor num pote de geleia. Nunca cheguei a ver Excalibur cravada numa pedra, mas encontrei uma lápide de 1665, que foi o ano da peste. Esse foi meu recorde. Lápides geralmente se desmancham depois de alguns séculos. Até a morte meio que morre. Num cemitério de Bredon Hill, li a frase mais triste de todos os tempos. SUAS VIRTUDES ABUNDANTES TERIAM ADORNADO UMA VIDA MAIS LONGA. O jeito de enterrar pessoas também tem alguma relação com a moda, como usar calças de boca larga ou estreita. Teixos são plantados em cemitérios porque o diabo odeia cheiro de teixo, de acordo com o sr. Broadwas. Não sei se acredito nisso, mas sei que a brincadeira do copo é coisa séria. Tem um montão de histórias em que o copo vai formando coisas tipo 'S-A-T-A-N-A-S-C-O-M-A-N-D-A' e depois explode. Aí o pessoal tem que chamar um padre. (Uma vez o Grant Burch ficou possuído e disse pro Philip Phelps que ele ia morrer em 2 de agosto de 1985. Agora Philip Phelps nunca dorme sem colocar uma Bíblia debaixo do travesseiro.)

Sempre enterram as pessoas com a cabeça pro oeste, pra que quando soar a Última Trombeta no fim dos tempos todos os defuntos saiam das tumbas e caminhem na direção oeste até chegarem ao Trono de Jesus, onde vão ser julgados. Isso significa que, saindo de Black Swan Green, o Trono de Jesus vai estar em Aberystwyth. Mas os suicidas são enterrados com a cabeça pro norte. Esses aí nunca vão conseguir encontrar Jesus, porque gente morta só caminha em linha reta. Eles vão acabar parando em John o`Groats. Aberystwyth é meio que um fim de mundo, mas, segundo meu pai, John o`Groats é só um punhado de casinhas que ficam onde a Escócia termina de repente.

Nenhum deus não seria melhor que um deus que faz isso com as pessoas?"

domingo, 27 de outubro de 2013

Tempo e medo

Interessante passagem do romance Menino de lugar nenhum (Black Swan Green) de David Mitchell, situado na Inglaterra em 1982, que nos lembra que até nossos medos são datados. Também nos lembra o quanto adolescentes ocidentais do sexo masculino costumam ser idiotas...

"Por algum motivo, o assunto mudou e virou 'a pior maneira de morrer'.

Ser mordido por uma mamba verde - opinou Gilbert Swinyard. - É a cobra mais mortal do mundo. Os órgãos explodem e o mijo se mistura com o sangue. Pura agonia.

-Pura agonia, sim - fungou Grant Burch -, mas você morre bem rápido. Quer saber o que seria pior? Ter a pele arrancada como se fosse uma meia. É isso que os índios apaches fazem com você. Os melhores levam uma noite inteira pra fazer isso.

Pete Redmarley contou que tinha ouvido falar de um tipo de execução vietcongue. - Eles tiram sua roupa, amarram você e enfiam queijo processado no seu rabo. Aí trancam você num caixão que tem um cano. Aí botam uns ratos esfomeados dentro do cano. Os ratos comem o queijo todinho e depois continuam mastigando você por dentro.

Todo mundo olhou pro Tom Yew, esperando uma resposta. - Tem uma coisa que eu sempre sonho - ele demorou um século pra dar uma tragada no cigarro. - Eu estou com o último grupo de sobreviventes depois de uma guerra atômica. A gente está caminhando por uma estrada. Não tem carro nenhum, só mato. Toda vez que olho pra trás vejo menos gente. A radiação vai pegando um por um. - Deu uma olhada pro Nick, o irmão dele, e depois pro lago congelado. - Não é morrer que me incomoda. O problema é saber que eu vou ser o último.

Ninguém falou nada por um tempinho.

Ross Wilcox chegou perto da gente. Levou um século pra dar uma tragada no cigarro, cheio de pose. - Se não fosse o Winston Churchill, todos vocês iam estar falando alemão.

Ah, claro. Como se Ross Wilcox tivesse alguma chance de evitar ser capturado e liderar um grupo de resistência. Morri de vontade de falar pra aquele tapado que, na verdade, se os japoneses nunca tivessem bombardeado Peal Harbour, os Estados Unidos nunca teriam entrado na guerra, a Grã-Bretanha teria passado fome até se render e Winston Churchill teria sido executado como criminoso de guerra. Mas eu sabia que não podia fazer isso. Tinha uma coleção inteira de palavras traváveis nisso tudo e naquele janeiro o Carrasco andava bem impiedoso. Aí eu falei que ia dar uma volta pra mijar, me levantei e caminhei um pouco pela trilha que levava até a vila. -Ei, Taylor! - berrou Gary Drake. - Se você sacudir o pinto mais de duas vezes, já virou sacanagem! - Isso fez Neal Brose e Ross Wilcox morrerem de rir. Fiz um sinal da vitória com os dedos sem nem me virar pra trás. Esse papo de sacudir o pinto é a mania do momento. Não confio em ninguém a ponto de perguntar o que significa".

sábado, 12 de outubro de 2013

Imaginários partilhados

Trecho de Histoire de Lynx de Claude Lévi-Strauss


“As semelhanças entre as narrativas do Velho e do Novo Mundo que nos detiveram no capítulo anterior são de outra natureza. Elas datam de uma época recente, sua origem não tem mistério. No decorrer do século XIx, os “viajantes”, como eram chamados então, canadenses empregados pela Companhia da Baía de Hudson, tinham com os índios relações muito próximas.

À noite, ao redor das fogueiras, os “viajantes” contavam, provavelmente em jargão chinook[1], várias histórias tiradas do folclore francês. Encontramos o nome Ti-Jean (Petit Jean) de um herói particularmente popular no Canadá em versões recolhidas muito mais tarde da boca de contadores de história indígenas: Butcetca em shuswap, Laptissán em nariz-furado, Ptciza em kalapuya, Kicon em cree, Ticon em ojibwa...

Entre tantas outras ideias fecundas, Boas teve aquela de incitar jovens pesquisadores canadenses a recolher em suas campanhas os restos de um folclore francês pelo qual, localmente, ninguém se interessava. A coleta foi fabulosa. Ela certamente não oferece uma imagem estática do que era o folclore francês no século XVII. Transplantado para um novo solo, ele recebeu contribuições, sofreu influências; ele também evoluiu de modo autônomo. Mas seu material era muito mais rico que aquele que subsistia na memória dos contadores franceses na mesma época. Imagina-se que os índios tenham sido seduzidos pela verve, pelo maravilhoso, pelos detalhes pitorescos ou fantásticos de contos que, sob esses aspectos, não perdiam em nada para os seus próprios, e onde encontravam um modelo de herói feio e desprezado que lhes era familiar. Nada de espantoso então se eles atribuem a Snánaz, depois de sua vitória sobre o vento, aquela sobre a besta de sete cabeças. A versão shuswap imputa a Snánaz, ainda obscuro e ridicularizado por sua ingenuidade, os mesmos enganos que aqueles dos quais, entre os índios Thompson, era culpado um personagem chamado Jack, prova de sua extração europeia. Entre as narrativas francesas e as suas, os índios rapidamente perceberam as semelhanças, e incorporaram diversos incidentes das primeiras a suas próprias tradições”.



[1] Espécie de língua franca empregada entre os indígenas norte-americanos ao longo da costa do Pacífico.

domingo, 6 de outubro de 2013

Viva sua história

Trecho inspirador do livro Onde as árvores cantam, de Laura Gallego García

"-Contam-se muitas coisas acerca da Grande Floresta - sussurrou Viana.

Oki assentiu; seus olhos brilhavam, delatando a paixão que sentia por todo tipo de histórias. A moça entendeu que, agora sim, estava falando o idioma dele.

-Pode-se acreditar nelas ou não - acrescentou ela, cuidadosamente -, mas suponho que não seja isso o que importa, não?

-Não é o que importa. - Oki concordou com a cabeça e seus cabelos pretos e hirsutos se agitaram sob seu chapéu. - O essencial é a história em si.

-Compreendo - disse Viana.

E era verdade que compreendia. No entanto, aquilo não solucionava sua dúvida, e não sabia como perguntar de novo a Oki sem que ele se ofendesse.

-Você deseja saber se vale a pena, não é? - disse então o menestrel. - Se você deve assumir o risco e sair ao encontro da lenda.

-Sim - respondeu Viana, agradecida. - Sim, é isso mesmo.

-Porque pode ser que você descubra o mistério ou encontre a morte certa. Quem sabe? Moça, vou dizer uma coisa: o mundo está cheio de histórias. Todas as pessoas e todas as coisas têm histórias para contar. A algumas delas se chega por meio de gente como eu, que as relata para que não sejam esquecidas. Outras se vivem. Entende?

Viana fez que sim, embora não estivesse certa de compreender tudo.

-Agora você deve decidir - concluiu Oki - se continuará sendo uma ouvinte ou, ao contrário, se sairá em busca da própria história.

-É possível que tenha relação com a fonte da eterna juventude?

-...com a busca da fonte da eterna juventude - corrigiu o menestrel. - Mas só se você se arriscar a viver essa história saberá como ela termina. A não ser, evidentemente, que espere que outra pessoa a viva por você. Então, é possível que, daqui a um tempo, conheça o final pela boca de alguém como eu.

Viana assentiu de novo. Dessa vez entendeu efetivamente.

-Posso ser uma espectadora - resumiu - ou a protagonista da minha história. E isso implica riscos."

sábado, 5 de outubro de 2013

Maravilhas ocultas

Hoje seguia eu em minha peregrinação semanal a Niterói, cruzando nossa belíssima Guanabara na minha tão querida (?) barca. Uma viagem que já se tornou mais que rotineira após dois anos de mestrado e quatro de doutorado na UFF.

No entanto, hoje tive uma companhia de viagem pouco comum. Na fileira de assentos atrás de mim sentou-se um grupo composto por uma família vinda de São Paulo, acompanhados por uma parente ou amiga carioca.

Pelo que percebi, era sua primeira visita ao Rio. Mal deixamos a Praça XV, eis que surge no horizonte algo que provoca viva admiração entre os turistas: a ponte Rio-Niterói. Os visitantes ficaram simplesmente extasiados, exclamando comentários entusiasmados a respeito da grandiosidade da obra. De fato, é um notável feito de engenharia. É titânica, colossal, incrível!

Fiquei chocado ao perceber o quanto a magnífica ponte, enterrada sob meu olhar rotineiro e cansado, não despertava mais minha atenção, tornando-se um banal detalhe da paisagem. E olha que a ponte é grande! Sacudido pelo inesperado entusiasmo dos companheiros de viagem, me dei ao trabalho de olhar pela janela, contemplando a estrutura com renovado interesse.  

Quantos espetáculos cotidianos não perdemos em nosso olhar viciado? Fiquei pensando no quanto é importante compartilhar perspectivas com nossos semelhantes; enxergando o mundo através de outros olhos, reencontramos as maravilhas ocultas sob a fadiga, reencantamos nossa realidade...

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Riquezas e misérias

Interessante comparação entre a vida dos índios da Flórida e dos miseráveis franceses, feita por Marc Lescarbot em sua Histoire de la Nouvelle France, publicada em 1617. Um reflexão bastante atual para nossa sociedade consumista...

"De resto, esses povos são tão felizes em seu modo de vida, que eles não quereriam trocá-lo pelo nosso. E nisto é a condição do povo miúdo daqui tão miserável (deixo de lado a questão da religião) que eles não conseguem nada sem incríveis penas e trabalho, e aqueles têm abundância de tudo que lhes é necessário para viver. Se eles não se vestem em veludo e cetim, a necessidade não jaz aí, antes diria que a cupidez por tais coisas e outras superfluidades que nós desejamos ter são os carrascos de nossa vida. Pois para obter tais coisas, aquele que não tem sequer sua janta, precisa de maravilhosos artifícios, nos quais frequentemente a consciência fica comprometida. Mas ainda alguns sequer têm esses artifícios: pois um deseja trabalhar e não acha de que se ocupar; outro trabalha, e seu labor é ingrato; e daí mil pobrezas entre nós. E entre esses povos todos seriam ricos se eles tivessem a graça de Deus, pois a verdadeira riqueza do mundo, é ter contentamento. A terra e o mar lhes dão abundantemente o que necessitam, o que empregam sem procurar modos temperar as carnes, nem tantos molhos que frequentemente custam mais caro que o próprio peixe. E para tê-los é necessário penar. Que se não têm tantos aparatos quanto nós, por outro lado podem dizer que não temos liberdade para caçar os cervos e outros animais da floresta, como eles; nem esturjões, salmões e mil outros peixes em abundância".

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O advento do puxa-saco virtual

Recentemente tenho constatado a imensa quantidade de funcionários públicos bajuladores nas mais diversas redes sociais, dispostos a tecer os mais rasgados e patéticos elogios a pessoas que ocupam cargos comissionados na administração pública.

É um campo de observação muito interessante para aqueles que estudam a Idade Moderna, revelando curiosas (e desconcertantes) permanências culturais. Tal postura lembra muito a subserviência engendrada pela economia das mercês, embora de modo tão caricato que chega a ser risível.

Aliás, a situação me remete a certo artigo de Bouza Alvaréz a respeito do papel da correspondência epistolar na Idade Moderna para formação de redes clientelares, facultando a aproximação a potenciais benfeitores. Cabe a ressalva de que à época o contexto social era muito diferente do nosso, tornando necessário a pessoas dignas participar de tais engrenagens. Fazia sentido nas monarquias de Antigo Regime; numa república democrática, é mostra de pusilanimidade. Acho lamentável ver funcionários públicos concursados agindo de modo tão servil.

Os meios agora são outros, a bajulação é eletrônica, mas as pessoas sórdidas continuam as mesmas...

Leituras - "O Coronel", de Osmarco Valladão e Manoel Magalhães

Dando um tempo da pauta grevista...

Acabo de ler uma maravilhosa HQ nacional, "O Coronel". Uma grata surpresa - fico muito feliz em ver o recente crescimento na divulgação dos quadrinhos brasileiros. No caso, uma excelente ficção científica, como é raro ver por aqui.

Passada em planetas distantes, a criativa trama traz um inusitado protagonista, o Coronel, uma arma dotada de inteligência artificial, responsável por comandar os soldados que a manejam. Manipulador e inflexível, o equipamento domina cruelmente seus subordinados. A página abaixo é uma das mais interessantes do álbum.



O livro é uma instigante fábula sobre a tecnologia, a violência e o exercício do poder. No entanto, me parece, mais que tudo, um vigoroso alerta contra os perigos da alienação e da obediência cega.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Educação Pública - Eu também tenho um sonho...

Que o reverendo Martin Luther King me perdoe o abuso, mas eu também tenho um sonho!

Eu sonho com uma educação pública de qualidade rasgando estradas para o Brasil do futuro, nos afastando das mazelas do passado.

Sonho com uma escola pública capaz de sanar os males de séculos de colonialismo e escravidão, de latifúndios, patriarcalismo, patrimonialismo e opressão, de tristes violências e amargas desigualdades.

Sonho com uma escola pública onde estudem os filhos de todas as classes sociais, tornando-se um lugar de encontro, troca, e mútua conscientização. Que em cada sala de aula estejam juntos o filho do engenheiro e do peão, do camelô e da advogada, do professor e do gari, da médica e da diarista, do cabo e do coronel. Que juntos consigam ver uns nos outros cidadãos dignos de respeito e solidariedade, lutando unidos por uma sociedade mais justa, harmoniosa e feliz.

Sonho com uma escola pública e laica, capaz de fortalecer um Estado laico e uma sociedade tolerante, composta por cidadãos respeitosos da pluralidade religiosa, sexual, cultural e política.

Sonho com uma escola pública que seja lugar de pesquisa e produção intelectual, formando homens e mulheres inteligentes, questionadores e criativos, formando lideranças positivas para o futuro de nosso país: cientistas, artistas, intelectuais, políticos, empreendedores sociais, sindicalistas, sacerdotes.

Sonho com uma escola pública que forme cidadãos aptos a viver plenamente a aventura da democracia, a fazer escolhas sábias nas urnas e fora delas, prontos a enfrentar todas as lutas políticas do cotidiano, onde as encontrarem.

Sonho com uma escola pública que seja um porto seguro para todos aqueles que enfrentam as mais dolorosas experiências, de violências, negligências e abandonos familiares, capaz de proteger e reerguer esses pequenos cidadãos e suas famílias para um futuro melhor.

Sonho com uma escola pública que forme pessoas comprometidas com a busca de si mesmos, com a realização de seu potencial, com o desejo de ser mais, escapando às sombrias garras do consumismo e da futilidade.

Não é um sonho impossível. É um projeto realizável. Mas para se tornar realidade, precisa do compromisso de todos: educadores e alunos, famílias, governos e demais cidadãos. Enfim, toda a sociedade precisa fazer sua parte.

É uma luta árdua, mas vale a pena, vale todas as penas. E é por isso que seguimos lutando!

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Educação e transformação da sociedade - pensamentos

"Quem tem muito pouco, ou quase nada, merece que a escola lhe abra horizontes".
Emília Ferreiro

"Não há democracia efetiva sem um verdadeiro poder crítico".
Pierre Bourdieu

"Se a Educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda".
Paulo Freire

"Na sala de aula, o professor precisa ser um cidadão e um ser humano rebelde".
Florestan Fernandes

"Se não encontrarmos respostas adequadas a todas as questões sobre Educação, continuaremos a forjar almas de escravos em nossos filhos".
Célestin Freinet

"A tendência democrática da escola não pode consistir apenas em que um operário manual se torne qualificado, mas em que cada cidadão possa se tornar governante".
Antonio Gramsci

domingo, 1 de setembro de 2013

Sobre professores e corujas


Repensar e recriar símbolos é sempre útil e necessário.

Um dos símbolos mais difundidos do ofício de professor é, sem dúvida, a coruja. Geralmente pensamos em corujas como aves bonitinhas, fofinhas e graciosas. De fato, o são. Mas há muito escondido sob essa simples aparência.


A relação entre a coruja e o magistério é bastante antiga, derivando do simbolismo em torno de Palas Atena, na Grécia. Como se sabe, um dos principais atributos de Atena é o patronato à sabedoria e à filosofia. A associação entre a deusa e a ave parece ter sido comum desde as mais arcaicas representações da divindade. Por quê?

Provavelmente a assimilação entre o animal e Palas se deve a uma das mais conhecidas características da coruja: ela consegue enxergar na escuridão, devido a uma série de adaptações na morfologia de seus olhos e no funcionamento de seu sistema nervoso central. Quem leu Homero sabe que também Atena recebia constantemente o epíteto de "aquela de olhos glaucos". Não é difícil perceber a analogia entre sabedoria e olhar penetrante, vinculando as duas. Daí ao magistério, vai pouca distância...


No entanto, poucas vezes pensamos no papel da coruja na cadeia alimentar. Corujas são predadores crepusculares e noturnos, temíveis aves de rapina. Há diferenças entre as variadas espécies, mas compartilham alguns traços gerais. Caçam pequenos mamíferos, peixes ou outras aves. Sua fisiologia é particularmente bem preparada para caçar e matar, indo além da visão apurada: sua audição é extremamente precisa; suas asas possuem uma aerodinâmica que permite que se abatam sobre a presa de modo silencioso; a plumagem tem cores discretas, que a camuflam no ambiente; suas garras estão entre as mais potentes das aves de rapina, aptas a esmagar e estraçalhar presas; seu bico funciona como uma tesoura, capaz de destrinchar rapidamente a carne de suas vítimas.


Também Palas Atena tinha caráter guerreiro. Representava sabedoria, mas também coragem e os aspectos estratégicos da guerra. Não à toa era frequentemente retratada armada e encouraçada, pronta para o combate, inspirando os mortais nas lides bélicas. Também aí ave e deusa se confundiam...


Nesse sentido, a coruja e a divindade podem ser símbolos para o magistério em luta, para os professores que "caçam" melhores condições de trabalho, que "batalham" por uma sociedade mais justa. Como corujas, precisamos enxergar na escuridão. Devemos ter ouvidos perspicazes, para denunciar os discursos insidiosos. Precisamos de garras fortes para estrangular a ignorância.

Que nossas palavras, como o bico da coruja, possam rasgar as iniquidades que assolam nossa profissão. Que nossas asas se abram para voar em liberdade, rumo a um futuro mais belo, mais feliz e mais harmonioso...

Seja a coruja nosso totem, símbolo e força!

sábado, 31 de agosto de 2013

Impressões sobre a Bienal do Livro

1) Minha casa fica menor a cada Bienal...

2) Tenho achado cada Bienal mais fraca que a anterior. A quantidade de editoras com estande diminui sempre mais. Também achei o movimento de público muito reduzido, comparado a outros anos.

3) Me impressionou a quantidade imensa de estandes de editoras religiosas, dos mais variados credos. No terceiro pavilhão, eram esmagadora maioria. Não acho isso muito positivo...

4) Achei curioso o significativo aumento das obras de referencial marxista expostas nessa Bienal. É interessante perceber que no atual contexto mundial, na falta de alternativas novas, muita gente vem buscando orientação em antigas referências. Mesmo não sendo marxista e recusando o rótulo de "esquerdista", acho muito positivo.

5) Paralelamente à impressão anterior, é igualmente interessante observar o quanto as críticas à "economia ortodoxa" vêm ganhando espaço no pensamento econômico desde 2009. Me parece que vêm se fortalecendo ricos e plurais questionamentos entre economistas, oferecendo novas alternativas, no sentido de um saber econômico mais crítico e menos ideológico.

domingo, 25 de agosto de 2013

"Retire a torta!" - Chaves e a greve dos professores

Um pouquinho de bom humor, para aliviar a tensão...

Desde sexta-feira venho me sentindo um pouco como o Chaves no famoso episódio em que Dona Neves promove uma manifestação trabalhista no restaurante de Dona Florinda. Vejamos.

Dona Florinda, assim como Eduardo Paes, Cláudia Costin e companhia, se mostraram irredutíveis desde o começo - mas agora começam a ceder.

Dona Neves equivale à atual direção do SEPE - tenta estabelecer uma parceria com Chaves, mas há muitos ruídos na comunicação.

Nós, professores, somos o Chaves.

Os alunos e a comunidade escolar são o Jaiminho.

Nos encontramos agora diante de um dilema: servimos a torta, ou retiramos a torta? Assim como Chaves, todos nós desejamos profundamente servir a "torta" da Educação de qualidade. Mas que torta? Nesse momento, só temos uma tortinha mixuruca, com massa ruim e recheio podre. Não satisfaz a fome dos nossos alunos. Faz até mal, provoca indigestão.

Por enquanto, nos próximos dias, acho melhor para os "jaiminhos" de nossas escolas, retirar a torta. Se avançarmos em nossas reivindicações, eles e seus filhos terão uma torta MUITO melhor para comer depois...

Por outro lado, precisamos cuidar melhor do diálogo entre a categoria e a direção do SEPE, para evitar o desentendimento e prosseguirmos juntos até o final, ao contrário do que acontece entre Chaves e Dona Neves!

O que não podemos deixar é acabar como o episódio de Chaves, cuja mensagem é conservadora - no fim das contas, não há conquistas do jovem trabalhador, mas concessões patronais "espontâneas" derivadas de uma conscientização da Dona Florinda. Até porque já vimos que não podemos esperar nada nesse sentido...

Por isso, colegas professores, meu grito na segunda-feira será: "Retire a torta"!

Por uma Educação libertadora e humanista

Texto do Prof. Moysés do Carmo

Nós, educadores do Rio de Janeiro e do Brasil, há centenas de anos lutamos por uma educação verdadeira, que tenha como pilar principal o ser Humano. Temos hoje uma educação enganosa, maquiada com números falsos e corrompidos. Os que determinam as regras e metas claramente não se preocupam com as pessoas que na e da educação vivem.

Há instituições internacionais condicionando o envio de verbas às prefeituras à progressiva privatização dos serviços públicos, afim de garantir a circulação de capitais e transferências crescentes de verbas do público para o privado. Aí está a essência das já conhecidas PPPs (Parcerias Público-Privadas).

Pois bem, sabemos que as instituições privadas funcionam em função do privado, dos lucros e seu acúmulo em poucas mãos. O Estado, que deveria ter o papel de garantir a igualdade entre os cidadãos no acesso aos serviços básicos (saúde, educação, segurança etc.), além de moradia adequada, lazer, trabalho, tem agido em favor daqueles interesses privatistas.

Em se falando da Educação, que é a premissa para a formação de indivíduos autônomos e conscientes de seu papel perante o conjunto social, não podemos aceitar que a ideologia da competição capitalista seja usada para tais fins, pois coloca o indivíduo em primeiro lugar, afetando a coletividade; e comprometendo a coesão social, principalmente nas classes oprimidas, as quais necessitam se organizar e vir a conquistar melhores condições de vida, livres das atuais formas de dominação exercidas pelas elites políticas e econômicas.

Nas escolas públicas percebemos que os alunos são tratados como presos. São encaixotados aos montes em salas monótonas, sendo impedidos muitas vezes de fazer suas necessidades básicas quando precisam, pois assim fazendo “causarão problemas na escola”. A falta de profissionais hoje nas escolas explica em parte tal comportamento repressivo. Não tendo alguém para vigiá-lo, não é permitido que esse aluno transite pelos corredores.

Estando os alunos depositados em massa pelas escolas, ficam o professor e os demais funcionários acuados, reprimidos pela grande massa. Seu trabalho não se desenvolve, suas horas dentro daquele recinto vão se tornando momentos de tortura. Os gritos, o agito natural dos jovens, presos num ambiente que em nada permite o dispêndio de energia e a criatividade, passam a afetar a saúde dos funcionários, que se frustram cada vez mais.

E desta forma tais alunos vão se formando sem ter realmente acesso ao conhecimento (teórico e prático) de que necessitam para viver em sociedade. Vemos o individualismo nas atitudes e pensamentos, a falta de preparo para o mercado de trabalho, sendo mão-de-obra barata; apenas alguns conseguem vaga em cursos técnicos ou alguma posição um pouco melhor. Mas a grande maioria segue escravizada pelo trabalho precário ou informal. A cada ano, vão em massa às filas de empregos que tomarão todo o seu dia e energia, impossibilitando que continuem buscando conhecimento ou participem de maneira efetiva da cultura e demais obras humanas.

Sendo esses grandes problemas inconcebíveis para a Educação, nós profissionais deste “setor” temos o compromisso pedagógico e político com a mudança radical dessas condições. Vivemos um momento de uma generalizada tomada de consciência social e de classe. Temos a internet a nosso favor. Tudo agora mostra suas diversas faces. A ditadura da televisão passa a ser quebrada. Sabemos dos nossos direitos e da legitimidade do nosso movimento. Talvez o mais legítimo de todos. Falamos aqui da Educação. Educação!

A greve continua! À vitória!

Sobre acasos, escolhas e greves...

Belo texto da Prof.ª Thalita Maia. Uma nota de esperança nas horas que antecedem a assembleia de segunda-feira...

Sobre acasos, escolhas, greves, insonias e mais outras coisas que me vierem à cabeça enquanto escrevo...

Em menos de três décadas de vida aprendi, na porrada, que nem sempre as coisas saem como a gente quer, por maior que seja o esforço. Aprendi, de forma igualmente dolorosa, a aceitar que frustração e derrota não são sinônimos. Aprendi também a esperar, a recuar quando necessário e aceitei a ideia de que 'o tempo é o senhor da razão', embora nesse caso o clichê seja inevitável. Enquanto eu aprendia, a vida corria, e me proporcionava experiências únicas, colocava em meu caminho pessoas definitivamente especiais e que exerceram e exercem uma importância imensa naquilo que sou, como pessoa e também como profissional.

Vida profissional: escolha polêmica, esta que fiz. Escolhi, graças a uma bela dose de acaso, trabalhar na Educação, talvez por ter minha mãe como espelho, mas também por acreditar que de alguma forma eu transformaria a sociedade e o mundo em que vivo... Sonhadora? Fato que sim! Idealista? Sempre. O destino, depois de eu ter até me esquecido dele, me permitiu colocar isso em prática lá pelas bandas de Quintino... Mais que isso, quis a vida me mostrar nas últimas semanas que minha escolha pela área de educação, feita de forma temerosa há menos de 10 ano atrás - e que a escolha daquele bairro da Zona Norte, feita quase que num jogo de azar - têm de verdade o poder de transformar. Ter a oportunidade de dividir com meus colegas de trabalho angústias, desejos e objetivos comuns me fez novamente acreditar que eu, PROFESSORA, posso SIM mudar o mundo; vivenciar a experiência de lutar por algo em que se acredita ao lado de determinadas 20 mil pessoas foi, sem dúvida, um dos maiores momentos da minha vida!

Memorável está sendo nossa luta, embora as conquistas ainda pareçam pequenas. Memoráveis foram as últimas duas semanas. Memóravel viver a dor e a delícia de ser (e resistir) um educador. Memorável dividir isso com pessoas como vocês. Obrigada, gente!

"Tudo isso é uma questão de saber
Saber viver
Tudo isso é uma questão de amar
Pra entender
Tudo isso é uma questão de querer
Reconhecer
Que quem sabe tudo
nada há de ser, nesse compasso
Há espaço pra quem quiser viver

Muito obrigado
Muito obrigado
Muito obrigado
Por tudo o que eu tenho passado"