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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Lévi-Strauss e os estudantes brasileiros

Estou lendo Tristes trópicos, para minha tese. O livro tem várias passagens interessantes, mas uma delas me chamou bastante a atenção. No trecho em questão, Lévi-Strauss relata sua impressão sobre os estudantes universitários brasileiros, nos idos de 1934. Achei curioso perceber o quanto esse "tipo" ainda é muito comum nas nossas universidades. Acredito que não seja exclusividade nossa, mas não posso imaginar quão difundido em outros países seja esse gênero de estudante...

"Nossos estudantes queriam saber tudo; mas, em qualquer área que fosse, somente a teoria mais recente lhes parecia digna de ser retida. Cansados de todos os festins intelectuais do passado, que aliás eles conheciam apenas por ouvir dizer, pois não liam as obras originais, eles conservavam um entusiasmo sempre disponível para os pratos novos. Em seu caso, seria melhor falar de moda que de culinária: ideias e doutrinas não ofereciam a seus olhos um interesse intrínseco, eles as consideravam como instrumentos de prestígio dos quais era necessário assegurar o monopólio. Compartilhar uma teoria conhecida com outros equivalia a vestir uma roupa já vista; arriscava-se a perder o rosto. Pelo contrário, uma concorrência encarniçada se fazia a grandes golpes de revistas de divulgação, de periódicos de sensação e de manuais, para obter a exclusividade do modelo mais recente no domínio das ideias. Produtos selecionados dos haras acadêmicos, meus colegas e eu nos sentíamos frequentemente embaraçados: formados para respeitar apenas as ideias maduras, nos encontrávamos ante o assalto de estudantes que ignoravam totalmente o passado, mas cujo informação estava sempre alguns meses à nossa frente. No entanto, a erudição, de que eles não tinham o gosto nem o método, lhes parecia ainda assim um dever; então, suas dissertações consistiam, não importando o tema, de uma evocação da história geral da humanidade desde os macacos antropóides para acabar através de algumas citações de Platão, Aristóteles e Comte, na paráfrase de um polígrafo viscoso cuja obra tinha tanto mais mérito quanto sua obscuridade dava uma chance de que ninguém mais tivesse tido ainda a ideia de pilhá-lo".
Também é interessante sua citação sobre a formação de séquitos em torno de alguns professores:

"Cada um de nós media sua influência pelo tamanho da pequena corte que se organizava ao seu redor. Essas clientelas mantinham uma guerra de prestígio cujos professores queridos era os símbolos, beneficiários e vítimas".

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