sábado, 16 de abril de 2011

O Brasil nos quadrinhos estrangeiros

Na última semana estreou a animação Rio, da Blue Sky, com direção de Carlos Saldanha. O filme é muito interessante e, apesar das inevitáveis incongruências, apresenta uma visão positiva e honesta do Rio de Janeiro. Recomendo a todos assistir. Aproveitando o ensejo, esse post dedicar-se-á ao modo como a imagem do Brasil é apresentada em algumas histórias em quadrinhos estrangeiras, especialmente das duas últimas décadas.

Comecemos pela HQ Batman no Brasil, publicada nos EUA em 1991 e no Brasil em 1993. Na história, Batman vem ao Rio de Janeiro em busca da Dama de Copas, uma vilã de Gotham City que tem o desagradável hábito de matar pessoas para colecionar seus corações. Contudo, chegando aqui, a Dama de Copas morre, e o Cavaleiro das Trevas se depara com uma ameaça mais perigosa, o Idiota, bizarríssimo personagem que é fruto de uma experiência realizada na floresta amazônica por um cientista britânico. Ao longo da trama, Batman vai à Amazônia investigar e, por fim, retorna ao Rio, onde derrota o vilão, com a ajuda da polícia carioca.

Apesar de algumas inevitáveis "derrapadas", a hq apresenta o Brasil de modo acurado. Por exemplo, o centro do Rio de Janeiro é particularmente bem retratado, com alguns de nossos prédios mais familiares aparecendo ao fundo. Quando vai para a Amazônia, Batman empreende uma longa viagem aérea, tornando claro que está bem distante do Rio. É interessante destacar ainda que nessa aventura Batman estabelece uma estreita parceria com a polícia carioca, especialmente com o "Comissário Freitas". Também é digna de menção a ênfase da HQ em que a língua falada por aqui é o Português, preocupação percebida especialmente nos nomes dos personagens brasileiros, que evitam os clichês hispanizantes. Como nem tudo são flores, Batman encontra um espécie de templo "asteca" em plena Amazônia brasileira. Também deve-se observar a presença no Rio de alguns elementos de arquitetura colonial espanhola (em alguns quadrinhos mais parece que Batman foi para Cartagena de Índias...), mas nada que comprometa a integridade da ambientação. Outro aspecto a salientar é a presença exagerada de meninos de rua no Rio de Janeiro, embora seja um triste aspecto de nossa cidade. Aliás, na trama essas crianças são as principais vítimas do Idiota.

Outra hq interessante nesse sentido é Sete cavaleiros (menos quatro) e um destino, publicada pela Disney em 2004 e no Brasil em 2010. Na história passada nos anos 40, de autoria do talentoso Don Rosa, os sobrinhos do Pato Donald conseguem para o tio uma viagem ao Rio de Janeiro, para ajudá-lo a superar uma depressão. Aqui, reencontra seus amigos Zé Carioca e Panchito, relembrando a amizade entre os três protagonistas de Você já foi à Bahia?, o célebre filme de propaganda política feita por Walt Disney nos anos 40; de fato, a hq é um tributo a este e outros filmes dos personagens. Reunidos, os três resolvem ir ao Mato Grosso, para atuar como garimpeiros. No fim, acabam encontrando uma bizarra cidade antiga, obra de europeus que estiveram no Brasil milênios antes.

De modo geral, a história também mostra uma representação bem embasada do país. O Rio de Janeiro dos anos 40 é bastante fiel, sendo digno de nota o teleférico do Pão de Açúcar, representado corretamente em relação à época. Outro detalhe interessante é a circulação de bondes. As paisagens naturais do Pantanal e do Planalto Central não deixam a desejar. A incongruência mais chamativa é o encontro dos protagonistas com contrabandistas de animais silvestres, apresentada sob uma ótica atual (obviamente anacrônica), embora seja principalmente uma louvável tentativa do autor de atrair atenção para o tema.

Por fim, temos a tristemente curiosa Saudade, aventura de Wolverine publicada aqui em 2007, produzida por artistas franceses, sendo o primeiro título do selo Marvel Europa. Na história, o mutante vem passar férias em Fortaleza, onde acaba enfrentando uma terrível quadrilha/seita liderada por um bizarro personagem, o "Pai Kurra Daizonest", maligno mutante que suga as energias vitais de favelados raptados, ao mesmo tempo que lidera uma seita semelhante ao vodu. Na trama, Fortaleza aparece como uma miserável cidade interiorana, sem ruas calçadas, onde membros da dita quadrilha circulam impunemente com armamento pesadíssimo em caminhonetes, atacando pessoas pela rua. Na hq só há miséria e violência; por sinal, que péssimo lugar Logan escolheu para passar suas férias! O Brasil de Saudade não passa de uma sofrível coleção de estereótipos.

A partir das obras analisadas podemos perceber que, ao contrário do que costumamos imaginar, nem sempre a imagem do Brasil veiculada no exterior é negativa, distorcida ou estereotipada. Por sinal, Donald e Batman não vão à praia, nem participam do Carnaval... Concluindo, é interessante refletirmos sobre o modo como a indústria cultural brasileira representa outros países e culturas: será que os italianos, marroquinos ou indianos de nossas novelas não nos envergonhariam diante dos povos que representam? Hare baba!

2 comentários:

Ana disse...

hehehe! Interessante esse post. E com informações de bizarrices q eu jamais saberia q existia... Quero assistir Rio em 3D em breve. Abraços

Alexandre Lancaster disse...

O mais triste é que o Morvan, autor do Saudade, é um excelente escritor. Ele escreveu a adaptação de Os Três Mosqueteiros que saiu aqui no Brasil pela Salamandra, mas o melhor dele são suas obras de ficção científica (como Sillage, que sai em Portugal como Senda). E fica chato que sua estreia no Brasil tenha sido com uma derrapada dessas...