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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Razões do povo

Só existe verdadeira democracia quando o Estado e seus centros de poder são constantemente desafiados pelo povo. Os tiranos são tecidos na obediência, nos legalismos cegos e desalmados. Quem ousa pensar "Liberdade!" já venceu a tirania, pois ela brota nas almas para dominar os corpos; toda tirania e toda liberdade nascem de dentro para fora.

O povo que obedece de bom grado a leis injustas e aos governantes que as tramam já foi massacrado e ainda não sabe. Quem se cala ante as injustiças ainda respira, mas já foi degolado.

O povo ignorante torra na Praia do Egoísmo, enquanto os governantes cozinham sua carne e seus direitos nos caldeirões da obediência. Ao sol escaldante, seus corpos são os restos do massacre cultural, a carniça no campo da batalha que não aconteceu. Respiram aliviados, contentes, bêbados e aniquilados. São cadáveres apodrecidos em vida, pendurados aos ferros do Metrô como as carnes do açougue.

A razão de Estado raramente favorece as razões do povo. É preciso desobedecer.

Os atos cumulativos de desobediência civil às leis injustas forçam as leis a se aproximarem gradativamente da esfera da legitimidade. Haverá um dia em que, pela força e vigilância do povo, todas as leis serão justas?

O presente sufoca, as sombras reinam. Os poderosos são corruptos, os corruptos são poderosos.

Quem consegue sonhar? Apenas quem sonha conseguirá. Quem estiver nas trevas, acenda ainda hoje uma luz - ou pereça na escuridão. Juntas, bilhões de velas fazem um sol, criam um dia, dois dias, cem anos.

A única esperança é ter esperança, a coragem de acreditar na coragem.

Do fundo do poço, só existe uma direção a tomar: para cima.

Vamos criar futuros, semear caminhos, buscar novos rumos. Amanhã haverá Amanhã. Sempre.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Uma liga pela esperança

Nosso mundo precisa de uma liga pela esperança, uma aliança de todas as pessoas de boa-vontade.

É preciso unir forças, reunir todos aqueles que acreditam em futuros melhores, em um mundo melhor. Aqueles que defendem o amor ao próximo, aqueles que tentam amar ao próximo e, mais ainda, aqueles que conseguem amar ao próximo.

Podemos ter qualquer crença ou descrença, mas precisamos ter fé no Amor e em nossa capacidade de amar.

É necessário conjugar os esforços de todos aqueles que desejam o bem da coletividade, que enxergam ou tentam enxergar no outro um irmão. É essencial vencer o ódio pelo amor, vencer a violência pelo diálogo.

É preciso cruzar fronteiras, construir pontes, abater muros, abrir portas, apertar mãos, estreitar laços.

A obra é imensa. Há perigos. Mas há coragem.

Vamos lá?

Charlie Hébdo: heróis, vilões ou vítimas?

Toda liberdade implica responsabilidade; liberdade política implica responsabilidade moral. Liberdade de expressão requer responsabilidade no uso dos meios de expressão.

Por outro lado, o humor muitas vezes é agressivo, e por vezes ofende. Como dizia o filósofo Bergson, o riso, muitas vezes, é usado como forma de violência, de ordem moral. A pessoa ou o grupo que é objeto do riso pode se sentir agredido em sua integridade moral. Quem vê as charges do Charlie Hébdo - que não terei o mau gosto de reproduzir - percebe que elas constituem uma violência moral contra todos os muçulmanos, fundamentalistas ou não, residentes na França ou em outros países.

Infelizmente, violência gera violência. Isso não justifica - ou seja, não torna justo - o assassinato dos cartunistas. Qualquer assassinato é injustificável. Qualquer violência, física ou moral, também é lamentável. No entanto, é difícil negar a relação de causa e consequência no caso em questão. Tem gente que "perde o amigo, mas não perde a piada"; a redação de Charlie Hébdo cultivava inimizades para não perder a piada - grosseira. Também são infelizmente previsíveis as consequências do caso para o aumento da islamofobia, como o cartunista Latuff sintetizou magistralmente:



Algumas pessoas querem transformar os cartunistas de Charlie Hébdo em heróis, mártires da "liberdade de expressão"; outras querem transformá-los em vilões, racistas e imperialistas. Acho que os dois lados estão errados. Na minha modesta opinião, o periódico tinha uma linha editorial moralmente irresponsável, de mau gosto e medíocre, usando o tipo de humor mais baixo e virulento a pretexto de crítica. Para mim, o atentado dessa semana não torna esse tipo de humor menos condenável; é arte de péssimo gosto - gosto de sangue.

Note-se também que, em momento algum, o semanário foi censurado pelo Estado francês - caso em que seriam, de fato e de direito, mártires da "liberdade de expressão". Charlie Hébdo usava dessa liberdade de modo abusivo, assim como os assassinos fundamentalistas usaram seu livre-arbítrio de modo abusivo.

Heróis ou vilões? Nem uma coisa, nem outra. O atentado à redação de Charlie Hébdo foi um crime grave e fez muitas vítimas, mas, por favor, não queiram transformar esses cartunistas em mártires.

Em tempo: parece que andam se esquecendo dos 2 policiais e do funcionário de manutenção mortos no tiroteio; esse são apenas vítimas, ninguém se dispondo a fazê-los mártires.

Em tempo 2: mesquitas na França estão sofrendo atos de vandalismo. É o círculo vicioso da violência.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Cultura da miséria

Gente tirando selfies.

Marmanjos correndo atrás de pipas e catando fiapos pela rua.

Gente tirando selfies!

Professores vivendo dentro da realidade - dos outros.

Gente tirando selfies?

Muçulmanos matando cristãos.

Cristãos matando muçulmanos.

Judeus matando muçulmanos.

Gente comprando pau-de-selfie?!

Adolescentes mais preocupados com seus bonés que com seus cérebros.

Gente tirando... selfies.

Adultos hipnotizados pelo smartphone.

Selfies tirando gente.

Cartunistas agredindo crenças alheias.

Cartunistas assassinados.

Terroristas assassinados.

Gente tirando. Selfies.

Mediocridade ousada.

Ousadia medíocre.

Gente (?!) tirando selfies.

Animais políticos.

Políticos animais.

Animais.

Selfies tirando selfies.

Idotas dirigindo universidades.

Universidades dirigindo idiotas.

Gente tirando selfies...!

Miséria da cultura.

Cultura da miséria.





































Tirinha do amigo Artur Mendes

Futebol, canibais, terroristas e nuvens

Dedicado a meu sogro e minha esposa

Por que algumas pessoas matam por futebol? Porque têm fortes laços de identidade com seus respectivos clubes, passaram e passam por um radical processo de identificação (no sentido psicológico do termo). No entanto, outros torcedores – a maioria, felizmente – não seriam capazes de fazer a mesma coisa, pois não se identificam com seus respectivos clubes de modo tão extremo. Alguns torcedores, eventualmente, perdem até seus interesse pelo esporte ao longo do tempo, num processo de tendencial desidentificação – mais uma vez, no sentido psicológico.

Em cada um desses casos, temos perspectivas específicas e diferenciadas em jogo. Algumas dessas perspectivas são mais próximas ou mais distantes entre si. Mas como se forjam tais perspectivas? A partir de trajetórias específicas, tanto pessoais quanto coletivas, formuladas no tempo e no espaço – históricas, portanto. Essas trajetórias podem apontar em sentido convergente (identificação crescente) ou divergente (desidentificação crescente). Assim, a experiência de torcer (e matar) se configura a partir da trajetória pessoal e individual de cada torcedor quanto de uma trajetória coletiva e social – a história do esporte, a história do clube, a história da região, do país, do mundo, etc. Existe hoje uma Copa do Mundo e campeonatos nacionais porque a partir do século XIX tivemos tanto a emergência do esporte e do Estado-nação como os conhecemos. Assim, o torcedor assassino chega a tal perspectiva homicida através de uma trajetória que é ao mesmo tempo pessoal e coletiva. Temos então identidade e perspectiva como processo desenvolvido no tempo e no espaço.

Nesse processo se forjam conexões mais ou menos fortes, convergentes ou divergentes, no âmbito de cada grupo. Essas identidades e alteridades se formulam em redes, de modo complementar, interdependente e dinâmico, por retroalimentação. Como uma dança complexa, onde os participantes se movimentam, determinando suas perspectivas a partir de suas posições e distâncias respectivas, sua dêixis, em perpétua mutação, às vezes imperceptível. As trajetórias se cruzam e interferem umas nas outras, momento a momento. Os ritmos da dança se alternam sem cessar. Alguns dançarinos saem, e entram outros, continuando a dança como a encontraram. Temos aí uma dimensão mereológica, fractal, onde cada dançarino é parte da dança e interfere na dança inteira. Um simples tropeço repercutirá de modo mais ou menos intenso em todo o conjunto. Como diria Sonmi-451, do filme Cloud Atlas,

“Existir é ser percebido, então conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos dos outros. A natureza de nossas vidas imortais está nas consequências de nossas palavras e atos, que vão em frente e se impulsionam através dos tempos. Nossas vidas não são nossas. Do berço ao túmulo, estamos ligados a outros, no passado e no presente. Através de cada crime e de cada ato generoso, nós damos nascimento a nosso futuro”.

Tais dinâmicas se aplicam à torcida de futebol, mas também às religiões, aos gêneros, às nações – em suma, a quaisquer identidades. Mas como se elabora no tempo uma linguagem do “nós”? Como se forma um “nós” vascaínos? Como surge um “nós” tupinambá? Como se elabora um “eles” flamenguistas ou margaiá? Por que algumas pessoas soltam pipa e outras, nascidas no mesmo bairro, fazem pós-doutorado?

No fundo, cada identidade se formula em “nuvens de probabilidades”, emergindo de situações específicas, reconfiguradas a cada compasso na melodia do tempo. Possibilidades e probabilidades se entrecruzam o tempo inteiro, gerando novas realidades potenciais, mudando trajetórias a cada interação. Esse texto mesmo emerge de vários encontros. Ele não existiria se os tupinambá não comessem carne humana, se Hans Staden não tivesse escapado da morte, se eu não fosse casado com minha esposa, se ela não fosse filha de meu sogro, se meu sogro não fosse vascaíno, se não tivessem inventado e popularizado o futebol, se não existisse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, se eu não tivesse preguiça de ir a Niterói, se eu nunca tivesse morado em Paris, se David Mitchell não tivesse escrito Cloud Atlas, se esse livro não fosse adaptado para as telas, se eu não tivesse sido covardemente reprovado em um concurso, se eu não desejasse praticar yoga, se não houvessem brigas de torcida nem atentados em Paris, se eu não sofresse de TOC. Mas esse texto emergiu dessa improvável “nuvem de probabilidades”.

Seriam todos os fatos e atos humanos o produto de uma imensa e improvável “nuvem de probabilidades” em “eterna recorrência” e mutação no tempo e no espaço, uma grandiosa e mal-coordenada coreografia de moléculas, átomos e partículas, talvez conduzidas por um regente invisível? Seria possível reunir História, Antropologia, Física, Meteorologia e Filosofia para resolver todas essas questões, para desenhar um atlas dessas nuvens?

sábado, 27 de dezembro de 2014

Poder e violência

Extratos de O Reino de Deus está em vós, de Tolstói:

"Se o trabalhador não tem terra, se ele é privado do direito mais natural, o de extrair do solo seu sustento e de sua família, não é porque o povo assim queira, mas porque determinada classe - os proprietários fundiários - tem o direito de contratar ou não o trabalhador. E esta ordem de coisas contra a natureza é mantida pelo exército. Se as imensas riquezas acumuladas pelo trabalho são consideradas pertencentes não a todos, mas a alguns; se o pagamento dos impostos e seu uso são abandonados ao capricho de alguns indivíduos; se as greves dos operários são reprimidas e as dos capitalistas protegidas, se determinados homens podem escolher as formas de educação (religiosa ou leiga) dos jovens; se certos homens têm o privilégio de fazer leis às quais todos os outros devem se submeter, e de assim dispor dos bens e da vida de cada um, tudo isso acontece não porque o povo queira e porque deve acontecer naturalmente, mas porque os governos e as classes dirigentes assim querem, para seu proveito, e o impõem por meio de uma violência material.

Todos sabem disso, ou, se não o sabem, saberão à primeira tentativa de insubordinação ou de mudança nesta ordem de coisas.

[...]

Os governos afirmam que os exércitos são necessários, por toda parte, para a defesa externa. É falso. São principalmente necessários contra os próprios cidadãos, e cada soldado participa à revelia das violências do Estado sobre os cidadãos.

Para convencer-se desta verdade basta lembrar o que se comete em cada Estado, em nome da ordem e da tranquilidade do povo, servindo-se sempre do exército como instrumento. Todas as brigas internas de dinastias ou de partidos, todas as execuções capitais que acompanham essas agitações, todas as repressões de revoltas, todas as intervenções da força armada para dissipar os grupos ou para impedir as greves, todas as extorsões de impostos, todos os obstáculos à liberdade do trabalho, tudo isto é feito diretamente com a ajuda do exército ou da polícia, apoiada pelo exército. Cada homem que cumpre o serviço militar participa de todas essas pressões que, às vezes, lhe parecem ambíguas, mas, na maior parte do tempo, absolutamente contrárias à sua consciência".

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Contradições: vida e consciência

Extratos de O Reino de Deus está em nós (1895), de Tolstói:

"O operário de nosso tempo, ainda que seu trabalho seja menos penoso do que o do escravo antigo, ainda que obtenha a jornada de oito horas e o salário de poucos rublos por dia, não deixaria de sofrer porque, fabricando objetos dos quais não usufrui, trabalha não para si e voluntariamente, mas por necessidade, para a satisfação dos ricos e dos ociosos, e para o proveito de um só capitalista, proprietário de fábrica ou de indústria.  Sabe que isto ocorre num mundo em que é reconhecida a máxima científica de que só o trabalho alheio é uma injustiça, um delito punido por lei, num mundo que professa a doutrina de Cristo, segundo a qual somos todos irmãos, e que não se reconhece ao homem outro mérito senão o de vir em auxílio do próximo, em vez de explorá-lo.

Ele sabe tudo isso e não pode deixar de sofrer devido a essa flagrante contradição entre o que é e o que deveria ser.

[...]

O homem da classe que se diz culta sofre até mais com as contradições da vida. [...] O homem dotado de uma consciência impressionável não pode deixar de sofrer com tal vida. O único meio para livrar-se desse sofrimento é impor silêncio à própria consciência; mas se alguns conseguem isso, não conseguem impor silêncio a seu medo.

[...]

Mas todos sabemos como são feitas essas leis. Estivemos todos nos bastidores: sabemos que são geradas pela cobiça, pela astúcia, pela luta entre os partidos; que nelas não há e não pode haver justiça real. Por isso, os homens de nosso tempo não podem crer que a submissão às leis sociais e políticas satisfaça às exigências da razão e da natureza humana. Os homens de há muito sabem que é irracional submeter-se a uma lei cuja verdade é dúbia e, portanto, não podem deixar de sofrer ao se submeterem a uma lei cujo bom-senso e cujo caráter obrigatório eles não reconhecem.

[...]

Cada homem de nosso tempo, se penetrarmos na contradição entre sua consciência e sua vida, encontra-se na mais cruel situação. [...] Essa contradição, requinte de todas as outras, é tão terrível que viver participando dela só é possível caso não pensemos, caso a esqueçamos. [...] Só essas razões podem explicar a intensidade terrível com a qual o homem moderno procura entorpecer-se com o vinho, o fumo, o ópio, o jogo, a leitura dos jornais, com viagens e com toda espécie de prazeres e espetáculos. [...] E todos os homens de nosso tempo encontram-se nessa situação; todos vivem numa contradição constante e flagrante entre sua consciência e sua vida".

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A miséria da propaganda

Normalmente os comerciais - especialmente os televisivos - me provocam profunda irritação. Às vezes sinto verdadeira raiva das empresas anunciantes e das agências publicitárias!

Ontem me dei conta da razão pela qual a publicidade costuma me inspirar tamanha aversão: é sua pressuposição implícita de que podemos ser manipulados de forma tão grosseira, com discursos infantilizadores. Pior ainda é perceber quanta gente é capturada por artimanhas tão superficiais...

De maneira descarada, a propaganda se apropria de desejos, receios, sentimentos, valores, linguagens, ideias e ideais para vender produtos e promover mercadorias. Isso é simplesmente aviltante, é sequestrar o que há de mais nobre ou mais delicado para finalidades espúrias.

Na verdade, não tenho nada contra a publicidade em si. Ela pode ser útil e até necessária - por exemplo, nas campanhas de conscientização para causas importantes (sociais, sanitárias, políticas, etc). Até mesmo a propaganda comercial facilita o acesso do consumidor a produtos e serviços de seu interesse, desde filmes a aparelhos eletrônicos, passando pelo novo restaurante do bairro. O que me causa indignação é a flagrante manipulação presente em boa parte das peças publicitárias, recorrendo aos golpes mais baixos, do sentimentalismo familiar barato ao apelo erótico gratuito, passando pelo humor idiota. Acho que é por esse mesmo motivo que me irrito com vendedores insistentes e seus discursos inconsistentes.

Me desculpem pelo desabafo!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Escalas de observação: tempo, espaço, sujeitos e objetos

Dedicado a meu orientador, Rodrigo Bentes Monteiro

Levei cerca de 4 anos produzindo minha tese de doutorado. Meu objeto de pesquisa (a presença francesa na América e no Atlântico) teve por corte cronológico cerca de um século, entre os reinados de Francisco I e Luís XIII. Grosseiramente falando, temos uma relação temporal de 1:25, ou 1 ano de pesquisa para 25 anos de período pesquisado, permitindo que 100 anos de experiências "coubessem" em 4 anos de doutorado e 400 páginas de tese. Tal operação intelectual implica um drástico processo de "compressão de informação". Foi necessário selecionar, cortar e recortar fontes, dados, personagens, temas, problemáticas, conexões... A contragosto, precisei deixar muita coisa de lado - com as devidas "tesouradas" de meu orientador e da banca de qualificação. É preciso muito esforço e alguma dor para "comprimir" todo um mundo de experiências - um século, dois continentes, um oceano - em poucas centenas de páginas.

Mas não é problema apenas de historiadores; existem outros ofícios, com outras escalas. Pensemos no microbiologista: em suas pesquisas, ele lida com organismos infinitamente menores que ele mesmo, seres de vida dramaticamente efêmera. De certo modo, ele opera uma "descompressão de informação", tentando tornar experiências microscópicas no tempo e no espaço inteligíveis para seres macroscópicos - nós. Por sinal, as brevíssimas dimensões temporais com que lida tornam tanto possível quanto necessário repetir experimentos ad nauseam, de modo a montar os quebra-cabeças do infinitamente pequeno. Tais questões também servem para inúmeros cientistas, como os físicos dedicados às dinâmicas quânticas ou à física de partículas, entre tantos outros.

Creio que o extremo oposto esteja nos ramos da astronomia, da astrofísica, da cosmologia e afins. Saltamos do ínfimo ao infinito, às temporalidades e distâncias que em tudo extrapolam as dimensões humanas e terrestres. Considerando que a astronomia metodicamente científica conta cerca de 400 anos, como dar conta de fenômenos estimados na ordem dos bilhões de anos? Quantas existências de astrônomos seriam necessárias para acompanhar a vida e a morte de uma única estrela? Aqui é a observação simultânea de fenômenos similares - às vezes escassos - que busca resolver os enigmas do infindável. É o supremo esforço de "compressão de informação", tentando reduzir os mistérios do cosmo à nossa limitada ciência...

Concluindo, creio que toda operação científica precise passar por operações semelhantes, no sentido de mediar as diferentes escalas e dimensões espaço-temporais que separam sujeito e objeto, de algum modo tentando estabelecer relações, equivalências e correspondências entre as diversas experiências e perspectivas possíveis acerca da realidade. Vale lembrar, segundo as teorias da computação, que toda operação de "compressão" e "descompressão" implicam na perda ou simplificação de informações, levando a reduções de nitidez e precisão.

O conhecimento é uma eterna tentativa de abraço entre sujeito e objeto, uma superação de distâncias nunca realizada por completo, mas sempre aprofundada.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O grande marginal

Esta é a história de um marginal:

Andava em péssimas companhias.

Não seguia os valores das pessoas respeitáveis.

Seus comportamentos, atitudes e palavras chocavam e incomodavam muita gente de bem.

Defendia e divulgava ideias subversivas.

Questionava as leis e as autoridades.

Muitos tinham medo dele; alguns o odiavam.

No fim, acabou preso, torturado e condenado à morte.

Ficou conhecido como Jesus Cristo.

"Jesus carregando a cruz", pintura de Hyeronimus Bosch.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Eles

Eu tenho medo. Muito medo.


Eles são muito perigosos. Eles são violentos e cruéis. Eles odeiam nossa civilização, Eles odeiam nossos valores. Eles querem destroçar, esmagar e queimar tudo que amamos. Eles desejam matar nossos anciãos, estuprar nossas mulheres, escravizar nossas crianças. Eles sonham em dançar sobre nossos túmulos.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.


De dia, Eles perturbam meus pensamentos. À noite, Eles povoam meus pesadelos. Eu sei, eles estão lá, em seus esconderijos, planejando dia e noite como acabar conosco. Eles tramam suas teias como aranhas famintas e maldosas. Eu sei, eu sei. De dia, Eles pensam em nossa destruição; à noite, Eles sonham com nossa ruína.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.



Precisamos fazer alguma coisa, antes que Eles nos destruam. Temos que agir mais rápido que Eles, temos que atacar primeiro. É a única maneira de sobreviver, de evitar nosso fim, de preservar nossa civilização, nossas crenças, nossos valores. A guerra é a única solução contra Eles. É lamentável, eu sei, mas Eles não deixam outra escolha. Não é possível dialogar com Eles. Eles são irracionais, perversos, traiçoeiros. Alguns entre nós discordam... Cegos... Sonhadores... Traidores! A guerra é terrível, mas necessária. Quem não está conosco, está com Eles, está contra nós. Contra Nós!


Por que Eles nos odeiam tanto?

Imagens: Detonação da bomba de Hiroshima (1945); Massacre de São Bartolomeu (Paris, 1572); Holocausto; Cruzadas; Perdas territoriais palestinas; Atentados do 11 de Setembro (2001)

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ser povo

O lixeiro é povo. A médica é povo. O professor é povo. O negro é povo. O gay é povo. O cientista é povo. A diarista é povo. O intelectual é povo. O motorista é povo. A mulher é povo. O bancário é povo. A advogada é povo. O homem é povo. O garçom é povo. A criança é povo. O índio é povo. A artista é povo. O pescador é povo. O branco é povo. A vendedora é povo. O agricultor é povo...

Respiramos o mesmo ar. Bebemos a mesma água. Andamos nas mesmas ruas. Vemos o mesmo sol. Estamos todos no mesmo barco.

Não é o seu grau de instrução. Não é o seu salário. Não é o seu gênero. Não é o seu poder aquisitivo. Não é a sua religião. Ser povo é muito mais.

Ser povo é viver em igualdade. Ser povo é lutar pelos direitos de todos. Ser povo é buscar liberdade. Ser povo é pensar coletivamente. Ser povo é respirar fraternidade. Ser povo é "amar ao próximo como a si mesmo".

Eu sou povo. Você é povo. Ela é povo. Ele é povo. Nós somos povo!

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Kant e os fantasmas

Extraído de Sonhos de um vidente elucidados pelos sonhos da Metafísica (1776), de Immanuel Kant:

"A Filosofia, que não receia comprometer-se, examinando toda a sorte de questões fúteis, fica muitas vezes perplexa quando topa em certos fatos de que não se poderia duvidar impunemente e que não poderia crer sem se tornar ridícula. É o que acontece com as histórias de almas do outro mundo. Com efeito, não há censura que a Filosofia sinta mais do que a da credulidade e apego às superstições vulgares. Os que se dão facilmente o nome e o realce de sábios zombam de tudo aquilo que, inexplicável tanto para o sábio como para o ignorante, coloca-os ambos no mesmo plano. É por isso que as histórias de fantasmas são sempre ouvidas na intimidade e denegadas em público. Pode-se ter certeza de que jamais uma academia de ciências jamais escolherá tal assunto para um concurso; não por estar cada um dos membros dessa academia persuadido da futilidade e da mentira dessas narrativas, mas porque a lei da prudência põe sábios limites ao exame dessas questões. As histórias de fantasmas sempre encontrarão crentes secretos e serão sempre alvo, em público, duma incredulidade de bom tom.

Quanto a mim, a ignorância em que estou da maneira por que o espírito humano entra neste mundo e dele sai, impede-me de negar a verdade das diversas narrações que por aí são contadas".

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Mistérios do "nós"

"Nós" - curioso pronome.

Para existir, precisa que ao menos um "eu", um "tu" ou um "ele" se reúnam. No entanto, é um pronome "egocentrado" - não existe "nós" sem que um "eu" o enuncie, a partir de sua relação com os outros seres componentes do "nós".

Por outro lado, o "nós" pressupõe uma experiência partilhada entre o enunciador e outros seres (humanos ou não). Essa experiência pode ser efêmera ou duradoura. Posso dizer: "nós aguardávamos o médico" - eu e outros pacientes na sala de espera, que nunca nos vimos nem tornaremos a ver, mas partilhamos essa breve experiência. Por outro lado, posso dizer: "nós fomos ao cinema" - "eu" e minha esposa, casados há oito anos.

Por vezes, a experiência partilhada engendra identidades e solidariedades: "nós" que torcemos para o mesmo clube de futebol, "nós" que nascemos na mesma cidade, "nós" que estudamos na mesma escola, "nós" que oramos na mesma igreja, "nós" que temos a mesma opinião... Nesse sentido, o "nós" se torna uma força poderosa, capaz de mobilizar esforços e vontades. Mas também pode ser usado como objeto de insidiosas manipulações, por aqueles que manuseiam a retórica do "nós" apenas para atingir os interesses do "eu".

Também vale notar que nem sempre essa experiência partilhada supõe simultaneidade. "Eu" e "Ivo" estudamos no mesmo colégio; "Ivo" foi aluno 50 anos antes de mim - ainda assim, "nós" estudamos nas mesma escola. Desse modo, o "nós" unifica seres separados no tempo ou no espaço. Também não é necessário pertencer à mesma espécie: "nós" atravessamos a rua - "eu" e meu cãozinho. Muitas vezes o "nós" se configura através de antagonismos: "nós" brigamos, "nós" discordamos - paradoxais experiências de oposição compartilhada.

Às vezes o "nós" é evidente; às vezes precisa ser descoberto. Mas no fundo, não seria a vida nesse mundo um perpétuo reinventar do "eu" no "nós" - e vice-versa?

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Quanto vale o dinheiro?

Nos últimos séculos nossa economia passou por profundo processo de monetarização, transformando o dinheiro na forma de riqueza mais valorizada socialmente. De fato, o dinheiro se tornou a riqueza por excelência; atualmente, riqueza e dinheiro são pensados quase como sinônimos.

Nesse processo, o dinheiro adquiriu o status de valor em si, ele deixou de ser um meio para se tornar um fim, a própria métrica e medida de tudo que existe no mundo. E, ao menos para o pensamento econômico ortodoxo, o dinheiro em si vale mais que tudo: minérios, plantas, comida, ar, água, tempo, arte, amizade, amor, família, alegria... De certa maneira, o dinheiro vale mais que vidas humanas - embora isso nunca seja admitido em alto e bom som.

Apesar de tudo, obviamente, ninguém come, bebe ou respira dinheiro. Precisamos urgentemente que as teorias e práticas econômicas assumam um caráter supramonetário, que se tornem capazes de pensar o trabalho e a riqueza como algo que está além do dinheiro e não pode ser reduzido à simplória abstração monetária.

De certo modo, creio que a maior falha das economias socialistas e comunistas do século XX foi justamente sua incapacidade de pensar e atuar em termos supramonetários - não estavam tão distantes quanto supunham das economias capitalistas; por sinal, a China atual não se encontra nada distante...

Termino essa breve divagação citando James Buchan, no excelente Desejo congelado, obra em que discute o significado do dinheiro:

"[...] o dinheiro deve sempre estar estável ou em movimento e precisa estar sempre na posse de alguém, para evitar que a sua essência monetária evapore: ao passo que a águia continua sendo a águia qualquer que seja a sua atividade ou domicílio. Isso é real como um beijo de pai é real, precisamente porque não tem preço. Suspeito que, quando os elementos da natureza se tornarem mais escassos, se tornarão não caros, mas literalmente sem preço [...]".