domingo, 21 de agosto de 2016

Política e comensalidade

Andam circulando na internet piadas sobre as fotos da campanha eleitoral de João Doria Jr., candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo.



O candidato evidentemente não demonstra muita intimidade com a comida do "povão"... Me peguei pensando justamente sobre a importância estética que a alimentação dos candidatos adquire nas campanhas eleitorais brasileiras. Não basta abraçar, beijar, apertar mãos ou distribuir santinhos: o político brasileiro precisa comer com o povo. Isso acontece diante das câmeras ou longe delas.

Cresci num bairro da Zona Norte do Rio. Certa vez, creio que às vésperas da eleição de 2002, fui a uma padaria perto de minha casa e lá estava um candidato local - então residente na Zona Sul. Sem fotógrafos, cinegrafistas ou assessores, sentado ao balcão da padaria, entre "populares", ele tomava café-com-leite e comia pão com mortadela. Seus modos eram afetadamente rústicos, enfiando até um dedo na boca para empurrar o pão com mortadela goela abaixo. Sua postura e seus gestos sugeriam que apesar de não mais residir no mesmo bairro, ele ainda era um homem "do povo". Sua encenação estabelecia um jogo entre distanciamentos e aproximações. A cena ficou guardada em minha memória.

A comensalidade é um tema rico, em termos antropológicos - não à toa um dos volumes das Mitológicas de Lévi-Strauss é A origem dos hábitos à mesa. A partilha do alimento tem significados profundos em diversas culturas e em várias épocas.

Para ficar apenas com um exemplo, o termo "companheiro" se origina do Latim cum panis. Seu uso emergiu na Alta Idade Média, identificando aqueles que partilhavam cotidianamente o pão, que dividiam habitualmente a mesa. Um testemunho de viva intimidade, expressando convívio continuado e vínculos profundos.

Comensalidade significa comer a mesma comida, mas também comer do mesmo jeito, como fazia ostensivamente o candidato que há tantos anos encontrei na padaria. A etiqueta à mesa supõe mais que uma semelhança de gostos, expressando talvez com mais força a proximidade cultural e mesmo a comunhão de valores. É preciso comer com o povo, mas também como o povo. Ao que parece, João Doria, com certo sacrifício, até consegue fazer uma coisa, mas não a outra. É na evidente distância entre o com e o como que transparece o embuste.

Tudo isso nos lembra ainda como, mesmo nesses tempos de telecomunicações e relações midiatizadas, ainda e sempre permanecem importantes os contatos face a face, atribuindo significados a nossos gestos, atitudes e discursos.

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