quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Tintin - História em quadrinhos

Doze anos atrás li meu primeiro álbum de Tintin, "L`Oreille Cassée", comprado na Bienal de 1999, no stand da Livraria Francesa. Paixão imediata, nos dois anos seguintes realizei o tour de force de comprar a coleção inteira, com seus 23 álbuns, todos importados da Bélgica, com minha parca mesada, em heróica batalha contra o Euro galopante em sua sinistra ascensão. Dois anos de agonizante espera, de dois meses por cada encomenda...

Mas quem é, afinal, Tintin? Com o perdão dos trocadilhos, um dos personagens mais interessantes da História dos quadrinhos, cujas histórias misturam elementos de aventura, suspense, crítica e comédia. Criado em 1929 pelo belga Hergé, Tintin é um curioso "jornalista" que aparece exercendo o ofício em apenas duas de suas aventuras. De fato, o autor afirmaria em entrevista que a profissão era apenas pretexto; na verdade, Tintin era um cavaleiro errante... Aliás, esse é apenas um dos mistérios em torno do personagem, cujo nome verdadeiro ("Tintin" é apenas apelido), local de nascimento, idade, passado, etc nunca são mencionados. O próprio Hergé falaria sobre essa proposital falta de "concretude" de sua criatura. Com efeito, Tintin é tanto mais vibrante porque ideal, um personagem tão vago que literalmente qualquer um pode se identificar com ele.

Por que falar de Tintin num blog sobre História? Bem, por que suas aventuras são uma janela muito especial para a História do século XX. Publicadas entre 1929 e 1976, as histórias levam Tintin ao redor do mundo, nos cinco continentes, passando por países reais e fictícios, como a Sildávia, a Bordúria, San Teodoros, Nuevo Rico, Khemed, entre muitos outros. Boa parte dessas narrativas envolve Tintin em misteriosas tramas que retratam situação políticas e econômicas internacionais importantes desse período. Citando apenas alguns exemplos, "L`Affaire Tournesol" aborda de forma muito curiosa a Guerra Fria e a corrida armamentista; "Au pays de l`or noir" trata da questão do petróleo nos anos 70; "Tintin et les Picaros" trata de modo contundente das ditaduras militares na América Latina. É importante observar, todavia, que muitas vezes essa abordagem se dá de modo estilizado, quase histriônico, mas sempre inteligente.

Ainda mais interessante é observar a evolução das concepções políticas de Hergé. Nos três primeiros álbuns da série, o autor é francamente anti-comunista ("Tintin au pays des soviets"), entusiasticamente colonialista ("Tintin au Congo") ou simplesmente pouco crítico ("Tintin en Amérique"). A grande virada teria lugar em meados dos anos 30, quando a amizade com o chinês Tchang Tchong-Jen, estudante de artes em Bruxelas, o levaria a questionar muitos de seus (pre)conceitos. A partir daí as histórias seriam cada vez mais críticas em relação à atuação política dos europeus no mundo, aos problemas da sociedade capitalista e até, em "Tintin au Tibet", ao racionalismo cientificista ocidental.

Além disso, as aventuras de Tintin são um espetáculo gráfico, uma verdadeira enciclopédia visual do século XX. Hergé tinha grande preocupação com a pesquisa iconográfica, e seus colaboradores percorriam não apenas arquivos e bibliotecas, mas partiam mesmo em viagens internacionais para obter material fotográfico de referência, tornando os livros visualmente riquíssimos.

Enfim, as aventuras de Tintin constituem um universo vastíssimo, impossível de esgotar em poucas horas ou linhas. Só há uma solução: ler tudo! Quem lê em francês poderá se deliciar com as edições originais da Casterman, gastando alguns bons euros. Uma alternativa cômoda para o bolso ou para quem não lê em francês é a tradução da Companhia das Letras. Procure nas livrarias, mesmo que só para dar uma olhada!

Tintin em Xangai ("Le Lotus Bleu")

A mais bela das aventuras ("Tintin au Tibet")

Um "típico" Carnaval latino ("Tintin et les Picaros")

Tintin em sua época colonialista ("Tintin au Congo")

Tintin e seus amigos

No calor do Marrocos ("Le crabe aux pinces d`or")

3 comentários:

Druida Camulogenio disse...

"Me lançando completamente em minhas histórias, me expressava totalmente... Mostrei mercadores de canhões, ditadores belicistas, policiais corruptos, guerras provocadas pela alta finança, a exploração dos povos de cor".

Hergé
Tintin et moi, Casterman

Roger disse...

Já conhecia o básico sobre o personagem e todo contexto de sua criação e aventuras, mas nunca li qualquer álbum do mesmo. Fiquei mais curioso após a leitura de seu texto.

Será que no longa-metragem de Steven Spielberg será mantida essa essência misteriosa do personagem? Assim como a dita liberdade estilizada de Hergé? Provavelmente os aspectos preconceituosos estarão ausentes, atenuados ou disfarçados em tempos politicamente corretos.

Roger disse...

Havia postado um texto enorme aqui, mas ocorreu uma falha e meu comentário não foi salvo! tentarei escrever tudo de novo...