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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Leituras - "Imperialismo ecológico", de Alfred W. Crosby

Depois de algumas semanas de posts "requentados", eis um saído do forno. Li esse livro dois meses atrás, e fiquei muito impressionado pela originalidade da abordagem. Apesar do título parecer um tanto sensacionalista, é um trabalho muito sério.

Resumindo muito sua problemática, a obra discute o impacto ecológico das grandes navegações em diversos ecossistemas ao redor do mundo. Sua análise se concentra principalmente na importância para esse processo do que ele chama "biota portátil", um conjunto de espécies levadas pelos europeus ao redor do mundo, desde seres humanos, animais domésticos, plantas de cultivo e ervas daninhas, vírus e bactérias. Abordando, obviamente, aspectos biológicos, mas também culturais, políticos e econômicos, o autor mergulha profundamente no estudo dessas transformações, arrastando-nos a um passeio através de séculos e continentes, da fria Groenlândia dos vikings à exótica Nova Zelândia dos maori, passando pelas planícies e montanhas da América do Norte, pelos pampas sul-americanos, pela longínqua Austrália e muitos outros lugares.

Deve ser destacado seu trabalho com as fontes, ao mesmo tempo sólido e sutil, numa pesquisa ancorada aos mais inesperados vestígios encontrados em documentos oficiais, relatos de viagem, memórias, folclore. Em momentos, a partir de breves passagens em um relato, Crosby extrai curiosos indícios sobre as transformações da vegetação, ou de observações sobre testamentos de uma região infere perspicazmente sobre a situação da fauna local em determinada época. Trabalho de mestre.

Por fim, mas não menos importante, o livro fascina pela prosa agradabilíssima, elegante e bem-humorada. A suposta aridez do tema, que outros autores provavelmente teriam abordado de forma soporífera e cansativa, sob a pluma de Crosby ganha dimensões extremamente humanas e envolventes, através das inúmeras referências literárias, divagações curiosas, anedotas ilustrativas e uma aguda percepção do cotidiano, dimensionando de modo palpável essas titânicas mudanças que são o tema central do livro.

Obviamente discordo de algumas conclusões do autor, que me pareceram um tanto apressadas e de certa reificação de alguns temas, aliás, perfeitamente cabíveis em se tratando de uma abordagem pioneira como essa, que não teve muitos seguidores, apesar de publicada pela primeira vez há quase trinta anos.

O livro é publicado no Brasil pela Companhia das Letras, na coleção Companhia de Bolso.

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