domingo, 20 de maio de 2018

Venenoso remédio: Monomania econômica

Imagine um médico que prescrevesse o mesmo tratamento para todos os pacientes:

Unha encravada? Antibiótico. Câncer de pele? Antibiótico. Enxaqueca? Antibiótico. Pneumonia? Antibiótico. Hipertensão? Antibiótico. Epilepsia? Antibiótico. Diabetes? Antibiótico. Depressão? Antibiótico. Gastrite? Antibiótico...

Tal profissional seria uma ameaça à vida de seus pacientes e objeto de ridículo perante a comunidade médica. Inconsequente e ineficaz, esse infame maníaco dos antibióticos seria reles charlatão, digno da pena de Molière. Seria conveniente que o conselho de medicina cassasse o registro desse imprudente esculápio.

Ora, um médico sério e consciencioso sabe que convém escolher o tratamento adequado conforme as
circunstâncias, que podem ser muito variadas. Suas prescrições precisam considerar não apenas o diagnóstico do paciente, como também sua faixa etária, massa corporal, histórico médico familiar, interações medicamentosas, estágio de evolução da enfermidade, entre inúmeros outros fatores.

O mesmo tipo de discrição convém a qualquer tipo de profissional, que precisa ser capaz de distinguir as especificidades de cada situação antes de deliberar o curso de sua ação. Infelizmente, em toda categoria profissional costumam existir os "monomaníacos", apegados a determinados métodos que consideram infalíveis e adequados a toda e qualquer circunstância, sem maiores considerações.

No caso específico da economia, encontramos hoje em dia muitos profissionais vitimados por semelhante patologia. É o caso de muitos (não todos, evidentemente) economistas liberais e neoliberais que prescrevem indiscriminadamente um infalível receituário "ortodoxo", verdadeira panaceia capaz de curar todos os males que afligem a economia: máxima desregulamentação em todos os setores, redução drástica das atividades estatais, radical corte de despesas governamentais, privatização generalizada de serviços públicos.

Tais charlatães deixam assim de considerar as especificidades dos "pacientes", e não deveria espantar que muitos morram da cura, como temos visto mundo afora desde a era Pinochet-Thatcher.

Tais "médicos" se esquecem de considerar que cada país tem suas peculiaridades históricas, geográficas, demográficas e culturais. O que funciona no Japão talvez não funcione no Equador e no Zimbábue. Aquilo que é necessário no Brasil talvez não o seja na Suécia ou no Uzbequistão. Algo viável em Madagascar talvez seja impossível no Canadá ou na Nova Zelândia. Da mesma forma, algo que funcionava nos anos 80 talvez não seja desejável hoje.

Também não é incomum que esses economistas desconsiderem grosseiramente as peculiaridades de cada setor de atividade. Não é razoável supor que as condições de operação sejam idênticas em ramos tão variados como indústria automobilística, abastecimento de água, agropecuária, educação, geração de energia, telecomunicações, saúde, indústria farmacêutica, entretenimento, saneamento básico, mineração...

É igualmente comum que tais ideólogos da economia menosprezem diferenças de escala que saltam aos olhos. Aquilo que funciona para o profissional autônomo não é necessariamente a melhor opção para a empresa familiar, para um negócio local ou para a multinacional. É evidente que as dinâmicas operacionais de um consultório médico, de uma mercearia, de uma rede de livrarias ou de uma companhia aérea de porte mundial precisam ser diferenciadas.

Concluindo, como já foi dito, nem todos os economistas liberais ou neoliberais padecem de semelhante "monomania", mas é sempre necessário prestar atenção a seus discursos e examiná-los criticamente, especialmente quando eles se põem a prescrever medidas para a saúde econômica coletiva: afinal de contas, qualquer remédio, quando mal administrado, pode se tornar veneno...


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