terça-feira, 7 de maio de 2013

Os vícios do olhar

Há cerca de um mês realizei um "seminário relâmpago" com meus alunos do 1º ano do ensino técnico. O objetividade da atividade era fazê-los experimentar na prática como é feita a pesquisa com fontes primárias. Para tanto, dividi as turmas em grupos; cada um recebeu uma gravura de Debret sobre o Rio de Janeiro à época de D. João VI ou do Primeiro Reinado, acompanhada do texto explicativo redigido pelo próprio Debret. Tratava-se de imagens do cotidiano carioca, com cenas de comércio, festividades religiosas ou profanas, transporte, entre outros temas. Orientados por alguns questionamentos e tópicos, os alunos deveriam analisar suas respectivas fontes e apresentá-las diante da turma.

Como pode-se imaginar, havia inúmeras pessoas negras representadas nessas imagens. Propositadamente eu havia escolhido apenas cenas onde não houvesse personagens negros em situações degradantes de tortura, maus tratos ou humilhações. Além disso, procurei enfatizar aquelas onde eram retratados personagens negros explicitamente identificados como livres nos textos de Debret.

O resultado foi tristemente surpreendente - embora previsível. A maioria dos grupos, ao apresentar para os colegas suas respectivas imagens identificavam esses personagens negros como "escravos", apesar dos textos claramente dizerem o contrário. Em todos os grupos o texto fôra lido, como as explicações dos alunos mostravam. No entanto, a generalização equivocada de que antes da Abolição todas as pessoas negras no Brasil eram escravas falou mais alto.

Obviamente esclareci que nem todos os negros brasileiros dessa época eram cativos, salientando inclusive que em algumas das imagens de Debret eles eram representados desempenhando papéis ativos na vida social.

Não é difícil entender a perplexidade de meus alunos. De fato, desde o início da República o imaginário que vem sendo coletivamente perpetuado corresponde a esses preconceitos. Me parece que particularmente as novelas de época contribuem para esse panorama, com poucas exceções. Pior ainda, muitas vezes essa interpretação do negro como vítima da História em nosso país é enfatizada mesmo por aqueles que defendem os direitos dos afrodescendentes.

Numa perspectiva mais ampla, o episódio me lembra que devemos estar constantemente vigilantes contra os variados vícios do olhar, que também nos induzem a vícios do pensar e, pior ainda, do agir...

Um comentário:

Rafael-san disse...

É o que mais se vê por aí... representantes de "grupo do movimento negro" defendendo toda e qualquer "vantagem" que seja oferecida e se pondo como "vítima".
É certo que a posição dos afrodescendentes no país ainda necessita de muitas melhorias, mas tem muito "líder" por aí que exagera e fala besteira...