domingo, 15 de novembro de 2015

"Amor", medo e violência

Extrato do artigo "To love and to fear us": Intercultural violence in the English Atlantic, de Melanie Perrault (tradução minha)

"Na Inglaterra dos séculos XVI e XVII havia três categorias gerais para a justa violência: punição sancionada pelo Estado ou ação militar, ações tomadas em defesa dos padrões da comunidade (inclusive hierarquias sociais, econômicas ou de gênero), e violência em nome da religião. Obviamente, tanto os perpetrados quanto as vítimas de violência buscavam construir relatos de comportamento violento em seu favor, apresentando a si mesmos como claros exemplos de Englishness e seus oponentes como perturbadores da paz. Confrontos físicos rapidamente eram transformados em uma disputa de palavras negociadas numa corte de justiça ou em uma das inúmeras formas de divulgação da palavra impressa. Nessas disputas literárias, os americanos nativos da Virgínia ou da Nova Inglaterra se envontravam decididamente em desvantagem, não tendo a oportunidade de ditar uma resposta escrita livre de um viés inglês.

As categorias mais polêmicas de violência justificável também eram as mais fluidas - enquanto a violência sancionada pelo Estado era facilmente identificável como tal, e a violência religiosa oferecia uma distinção relativamente clara entre o status de insider e outsider, a violência para manutenção dos padrões da comunidade se baseava em um conjunto de hierarquias mutuamente acordado que se encontrava constantemente sob negociação. A questão se qualquer ato individual de violência seria considerado justificável dependia em grande medida da relação entre os participantes. Violência entre iguais, embora desencorajada, era aceita como uma parte natural da condição humana. Violência administrada por uma pessoa de status superior a seus inferiores era tida como um meio necessário de impor as normas sociais, uma responsabilidade que não deveria ser objeto de abusos através de punição excessiva. A forma mais ameaçadora de distúrbio da comunidade envolvia dependentes - criados, filhos ou mulheres - usurpando a posição de seus mestres atacando violentamente seus corpos ou bens.

Num esforço para justificar sua presença no Novo Mundo, a retórica inglesa consignava todos os índios, inclusive homens adultos, ao status de dependente, tornando qualquer ato de violência dos índios uma força potencialmente desestabilizadora com implicações para toda a missão colonial. Uma vez que os nativos americanos entendessem seu adequado papel subordinado nas terras recentemente civilizadas, a violência não seria eliminada, mas seria relegada como um aspecto menos importante da vida. [...]

Para ser legítima, todavia, a violência deveria ser usada apenas como um último recurso e tinha de ser restrita. Quando administrada adequadamente, a violência física deveria supostamente ser recebida como um castigo amoroso, destinado a restaurar a ordem no ambiente doméstico. Violência aleatória ou excessiva não era tolerada, pois minava o legítimo uso da força. Vizinhos monitoravam o comportamento uns dos outros, num esforço para assegurar que punições aceitáveis não deslizariam para o abuso, embora tal regulação informal deixasse oportunidades significativas para maus-tratos. [...]

Era desse contexto que homens e mulheres ingleses atravessaram o Atlântico em meados do século XVI. Atitudes profundamente arraigadas em relação à violência deram forma aos primeiros encontros com povos nativos de diferentes culturas, oferecendo um parâmetro para a classificação dos estranhos e um conjunto de normas para regular as interações. [...] Evidentemente, observadores ingleses acreditavam que eles eram os árbitros definitivos do que constituía violência legítima, tanto para si mesmos quanto para os nativos que eles encontravam".

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